fevereiro 9, 2010

Religião não só não faz de você uma pessoa melhor, como ainda engorda

Estudos científicos que buscam correlação entre devoção ou práticas religiosas e fenômenos no mundo real são especialmente espinhosos, não só porque os vieses pessoais dos pesquisadores envolvidos muitas vezes transbordam para a prática científica, mas também, e principalmente, porque sempre acabam analisados num padrão de dois pesos e duas medidas.

Assim: se comprovam algum efeito positivo são prova de que ser religioso vale a pena, se encontram efeito negativo ou nenhum efeito, quem esses cientistas pensam que são para pôr deus num tubo de ensaio?

(Não foi Stálin que inventou o duplipensar. Ele está entre nós pelo menos desde o primeiro concílio de Niceia)

Minha veia cômica, no entanto, não permite que eu deixe passar em branco dois trabalhos divulgados ontem. O primeiro, descrito nesta reportagem de Herton Escobar, constata, pela n-ésima vez, que moralidade e religiosidade são coisas diferentes.

O argumento filosófico que estabelece a independência entre senso ético e fé é tão antigo quanto a própria filosofia -- "Você faz as coisas certas porque elas são certas ou porque seu deus quer? No primeiro caso, você não precisa de deus pra lhe dizer o que é certo; no segundo, você não é um agente moral, mas um escravo" -- mas uma constatação empírica sempre ajuda.

A melhor, no entanto, é esta aqui, divulgada pela agência Reuters: ser religioso não só não traz benefícios para a saúde cardíaca, como estatísticas mostram que pessoas altamente religiosas têm mais chances de ser obesas. Imagens de matronas em vestido estampado na missa ou no culto logo vêm à mente? Pois é.

Ponto positivo para os crentes: gente religiosa fuma menos.

Especialistas ouvidos pela Reuters apontaram alguns problemas no estudo, como o tamanho e a composição da população estudada,então ficamos aguardando ansiosamente pelo follow-up.

fevereiro 5, 2010

Plutão em cores!

O Hubble, e mais alguns computadores trabalhando fulltime para processar as imagens, conseguiu produzir o primeiro panorama a cores do planeta (sorry, planeta-anão) Plutão. A imagem é esta aí abaixo:

hubhub.jpg

Segundo Marc Buie, o cientista responsável pelas observações que deram origem às imagens, Plutão está passando por uma mudança de estação -- as manchas escuras na superfície provavelmente são depósitos de carbono deixados pela desintegração de moléculas de metano, causada pela radiação solar.

Além disso, o tipo de luz refletida por Plutão sofreu uma mudança drástica a partir de 2000, passando a conter pelo menos 20% mais de vermelho. A causa exata disso ainda é desconhecida, mas se não me engano "vermelho" pode ser um sinal de matéria orgânica.

O fato de Plutão passar por mudanças sazonais radicais pode surpreender muita gente -- surpreendeu a mim -- já que a imagem geral que se tem desse astro é a de uma bola congelada onde nada de muito interessante acontece. Mas a verdade é bem o oposto disso: com uma órbita extremamente elíptica, Plutão alterna períodos de "bola congelada" com épocas onde a atmosfera descongela e diversos processos têm início... fotoquímicos, com certeza, mas talvez geológicos e... quem sabe... biológicos?

Ok, "vida em Plutão" é uma ideia tão estapafúrdia que até a ficção científica a abandonou logo depois de H.P. Lovecraft usá-la em Um Sussurro nas Trevas. Mas em 2015 a New Horozons passará por lá, e talvez, apenas talvez, consiga um alô dos fungos de Yuggoth.

(E, por fim: uma animação de Plutão girando).

fevereiro 3, 2010

E, afinal, para onde a Nasa vai?

O cancelamento do Projeto Constellation atraiu as manchetes, mas o plano de Barack Obama para a Nasa vai além de um mero corte de gastos (na verdade, ele até aumentou a verba da agência espacial). Eis alguns dados interessantes que ficaram meio escondidos:

1. A determinação do lançamento das missões Glory, Aquarius e a versão preparatória do NPOESS até o segundo semestre de 2011: essas três missões têm como objetivo monitorar o clima e o meio ambiente terrestre. A Glory vai medir o impacto dos aerossóis, como fuligem, no clima; Aquarius, a salinidade dos oceanos; a NPOESS (National Polar-orbiting Operational Environmental Satellite System) é um satélite em órbita polar para acompanhar todo o clima terrestre.

2. A determinação do lançamento de "missões precursoras" para "Lua, Matte, pontos lagrangianos e asteroides próximos, em busca de alvos para futuras atividades humanas (...) e identificar perigos e recursos que determinarão o curso futuro da expansão da civilização humana pelo espaço".

Do ponto "1", pode-se deduzir que Obama está levando a sério a ciência sobre o aquecimento global. As missões Glory e Aquarius, principalmente, poderão levantar dados fundamentais para reduzir as principais incertezas dos modelos climáticos.

Do ponto "2", pode-se inferir que as notícias da morte dos voos espaciais tripulados foram prematuras. Além disso, a rota traçada pelo plano -- pontos lagrangianos, asteroides -- permite uma interação maior entre exploração com astronautas e ciência, duas área da Nasa que viviam (e vivem ainda) em conflito.

O Hubble, por exemplo, não está em um ponto lagrangiano porque astronautas não seriam capazes de ir até lá para dar manutenção a ele. Se a capacidade de mandar gente para esses lugares for realmente desenvolvida, todo um novo tipo de trabalho com telescópios espaciais e outros tipos de instrumentos torna-se possível.

O que preocupa, realmente, é a falta de metas e prazos definidos para as iniciativas de exploração humana. Enquanto os satélites climáticos têm prazo para serem lançados, ninguém sabe quando será a primeira visita de astronautas a um ponto de Lagrange ou a um asteroide. Essa falta de metas concretas preocupa. Mas, no geral, é um bom plano.

E eu topo trocar o pouso na Lua pela primeira visita a um ponto de Lagrange; ou pelo primeiro pouso em um asteroide. Mas andem logo, gente: minha expectativa de vida caduca em 2045!

fevereiro 1, 2010

Privatizando o acesso à órbita terrestre

Se todo o material que andou vazando para a imprensa nos últimos dias se confirmar hoje, durante a apresentação oficial do orçamento federal americano para o ano fiscal de 2011, o presidente Barack Obama estará declarando oficialmente morto o Programa Constellation -- a iniciativa para construir bases na Lua e enviar astronautas a Marte ainda na primeira metade deste século -- e criando incentivos para que empresas privadas assumam de vez a tarefa de levar astronautas até a órbita baixa da Terra (LEO, no jargão espacial).

O Constellation, proposto pelo presidente George W. Bush em 2004, morre do mesmo problema que já havia dado cabo da Iniciativa de Exploração Espacial proposta nos anos 90 pelo Bush Pai, e que previa a conquista de Marte: falta de dinheiro. Virou hábito, nas últimas décadas, presidentes dos EUA anunciarem grandes planos de exploração do espaço e depois esquecerem-se deles a hora de fazer o orçamento.

Nesse aspecto, seria injusto acusar Obama pela morte do Constellation: ele simplesmente é o coveiro da criança que morreu de inanição durante o governo Bush. Isso tudo me deixa meio puto, já que indica que provavelmente vou morrer antes que um ser humano volte a pôr os pés em outro corpo celeste. Ou será que não?

A ideia de que a Nasa está "atolada" em LEO e que deveria estar cuidando de projetos mais grandiosos em vez de ficar levando astronautas para passear num Big Brother em gravidade zero na ionosfera parece ser a base da proposta de privatizar o acesso à órbita baixa. No entanto, sem o Constellation, que porra de "projetos mais grandiosos" sobra?

Ao que tudo indica, Obama parece ter decidido seguir o chamado "caminho flexível" proposto por um comitê que analisou o programa espacial americano no ano passado. Esse "caminho" propõe visitas a asteroides e às luas de Marte -- destinos de baixa gravidade, da onde seria fácil decolar para voltar à Terra. A visita a um asteroide ainda teria a vantagem de testar e demonstrar técnicas de pouso nesse tipo de astro, coisa que um dia talvez tenhamos de fazer por questões de autopreservação.

O "caminho flexível", no entanto, embute duas armadilhas, uma prática e uma psicológica. A prática é que ele pode ser reduzir a um programa de "pegadas e bandeiras", no qual os astronautas vão ao destino "X" apenas para sair na foto, mais ou menos como foi o Programa Apollo. Missões tipo "pegadas e bandeiras" não criam um programa sustentável de exploração, elas se esgotam em si mesmas (de novo, como o Apollo).

A psicológica é que ele talvez seja flexível demais. Quando a Nasa pôs homens da Lua, ela tinha (1) uma missão claramente definida e (2) um prazo para executá-la. Já o caminho flexível não oferece, em princípio, nem uma coisa nem outra. O que é uma ótima receita para ir parar no limbo.

janeiro 27, 2010

Como o Congresso é parecido com uma pilha de areia

O que decisões tomadas por parlamentares numa casa legislativa têm em comum com avalanches numa pilha de areia? Ambas seguem o mesmo tipo de gráfico, chamado "Escadaria do Diabo", no qual longos patamares de inação de repente dão lugar a grandes saltos (de areia caindo, ou de deputados aderindo em massa a uma nova ideia).

A modelagem foi feita por dois caras da UCLA.

O problema das pilhas de areia é um velho conhecido de quem se interessa por questões como criticalidade, propriedades emergentes, caos e coisas assim: conforme se derrama mais areia sobre o topo da pilha, ela em princípio cresce, ate que se chega a um ponto crítico, no qual ocorre uma avalanche, o que reequilibra as forças e permite que a pilha volte a crescer... mas a partir de um patamar inferior.

No caso de uma casa legislativa (o modelo usado pelo povo da UCLA foi, obviamente, o Congresso americano), os grãos de areia, bem como as forças que atuam sobre os eles (atrito, gravidade) foram substituídos por unidades de pressão política.

Uma "avalanche" seria a decisão de um grupo de deputados de passar a apoiar uma determinada peça legislativa, o que levaria a uma redução momentânea dessa pressão.

No modelo, os "grãos" de pressão têm duas fontes: os colegas congressistas e os eleitores. Uma diferença básica entre a pilha de pressão política e a pilha de areia é que um deputado não pode "entrar na avalanche" (isto é, passar a apoiar a proposta) mais de uma vez, enquanto que um mesmo grão de areia podem se envolver em inúmeras avalanches.

O modelo gerou um gráfico de apoio ao longo do tempo muito parecido com o que descreve o número de assinaturas dadas a uma proposta real (HR 1207, pedindo uma auditoria no Banco Central americano, o Fed). E produziu duas peculiaridades em que as pessoas deveriam pensar, principalmente neste ano eleitoral:

Todos os deputados são iguais: O modelo funciona sem que seja preciso dar pesos diferentes a cada deputado -- na hora da avalanche, tanto faz se o cara é líder de bancada ou baixo clero.

Alguém poderia imaginar, diz o paper, que os degraus mais altos na escadaria são causados pela adesão de um congressista muito influente, que traz consigo muitos novos apoiadores, que ele influenciou. Em nosso modelo, os degraus altos são resultado da evolução do Congresso para uma espécie de estado crítico, onde qualquer congressista pode desencadear uma avalanche de apoios.

A pressão popular é um fator decisivo: Diz o texto: Nem todas as resoluções apresentadas ao Congresso obtêm o mesmo nível de apoio. A diferença entre resoluções entra em nosso modelo por meio do parâmetro de pressão pública, lambda. Se for próximo de zero, a resolução não obterá apoio considerável num tempo razoável.

Os autores reconhecem que ainda falta modelar outro tipo de força -- por exemplo, a desaprovação popular da medida.

Ainda assim, são resultados curiosos e que tiram um pouco do gás dos velhos mitos dos caciques políticos que resolvem tudo na base do conchavo e do descolamento entre parlamento e população (que talvez só exista quando o eleitorado se omite).

Como os estudos estatísticos que provaram que não existe "mão quente" no basquete, e que foram duramente contestados por técnicos, fãs e jogadores, o resultado da UCLA poderá chocar muitos especialistas em política -- de políticos profissionais a analistas e jornalistas. E, claro, não há garantias de que um modelo que funcionou bem em um único caso possa ser generalizado.

Mas uma visão da política que dá menos ênfase (e poder) aos caciques e põe mais peso (e responsabilidade) nos ombros do eleitor merece ser explorada. Ainda que, talvez, só como teoria.

janeiro 18, 2010

SOS liberdade de expressão

Um espectro assombra o país: o espectro da relativização da liberdade de expressão e informação. Não se trata, no entanto, de um espírito novo, mas de uma assombração antiga, quase um membro da família, o nosso fantasma de Canterville particular.

Está presente, por exemplo, na criminalização da "apologia do crime"; aparece nas leis e propostas de lei, supostamente bem-intencionadas, proibindo expressões de "preconceito", "ofensa" e "discriminação" contra grupos, reais ou imaginados, dentro da sociedade; consubstancia-se na decisão recente do STF que mantém aberta a possibilidade de censura prévia à imprensa; e ganha corpo no novo Plano Nacional de Direitos Humanos, em cujo capítulo sobre liberdade de expressão, numa manobra de novilíngua digna de Orwell, o verbo "coibir" aparece quatro vezes, e onde se pede a adoção de medidas judiciais contra a defesa da pena de morte -- como se discutir a legislação penal de repente virasse crime.

Estamos, como sociedade, embarcados num processo trágico onde quem se sente ofendido ou contrariado por uma opinião ou informação não adota mais as saídas clássicas que existem desde tempos imemoriais -- ofender de volta, contra-argumentar -- mas prefere chamar o advogado e a polícia.

A sociedade brasileira parece ter se esquecido de que, do mesmo modo que pornografia e mau gosto são o preço da liberdade artística, opiniões repugnantes são o preço da livre circulação de ideias, que deveria ser um valor fundamental. Se não pelo fato de que a livre expressão é um direito básico, pelo simples fato de que a luz do dia é, sempre, o melhor desinfetante.

Claro, liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de ação. Até mesmo a lei brasileira reconhece uma distinção entre apologia do crime e o crime em si. Liberdade de expressão também não é liberdade de incitação: uma coisa é (a) escrever um artigo dizendo que os blogueiros de ciência são uma raça inferior e parasitas da sociedade, outra é (b) montar um comício para juntar uma turba e sair à caça deles para linchá-los.

Alguém poderia argumentar que "b" é consequência lógica de "a", logo se "b" é proibido, "a" também deveria ser. Mas isso não é verdade: se quem acredita em "a" não tiver meios de ventilar suas ideias, a noção de que os blogueiros são uma praga para a sociedade não será contestada publicamente e crescerá às escondidas, o que só torna a ocorrência de "b" ainda mais provável.

Repassando os quatro argumentos de John Stuart Mill em defesa da liberdade de expressão, que continuam tão válidos hoje quanto duzentos anos atrás:


1. Uma opinião proibida pode acabar se mostrando verdadeira; afinal, ninguém é infalível;

2. Mesmo errada, a opinião proibida pode conter uma verdade parcial, e é apenas pela colisão entre a opinião consensual da sociedade -- que raramente está de todo correta -- e alternativas a ela é que a verdade mais completa tem alguma chance de surgir;

3. Mesmo se a opinião consensual da sociedade for a verdade mais perfeita e completa, a menos que seja duramente atacada e defendida, será sustentada apenas como mais um preconceito, com pouca compreensão de sua base racional;

4. O próprio significado da verdade corre o risco de se perder quando ela, protegida de todo tipo de contestação, se transforma em dogma.

janeiro 13, 2010

Pôquer: quanto mais se ganha, mais se perde

A maioria dos jogos de azar tem aquilo que se chama de "vantagem da casa", uma pequena distorção no que seria a proporção justa entre probabilidade de vencer e prêmio pago, que é o que garante que mesmo cassinos honestos deem lucro.

Na roleta, por exemplo: teoricamente são 36 números, metade vermelha, metade preta. A chance de ganhar apostando no vermelho é 50%, e o pagamento é 1:1 (ganhando, você recebe o seu dinheiro apostado de volta, mais uma quantia igual). Parece justo. Mas...

Mas, as roletas têm uma (ou duas, dependendo das regras do cassino) casa verde, o zero e/ou duplo-zero. Assim, a chance de ganhar apostando no vermelho não é 18/36, mas 18/37 - 48% - ou 18/38 - 47%. Parece pouco, mas no longo prazo faz uma bela diferença.

Um bom jeito de avaliar apostas é usar a equação conhecida como "Critério de Kelly":

kelly.png

Onde "f*" é a proporção do seu capital a apostar; "b" é a proporção prêmio/aposta (no caso de uma aposta de preto-vermelho na roleta, b = 1, por exemplo); "p" é a probabilidade de vencer; e "q" é a probabilidade de perder, ou 1-p.

No caso da aposta no vermelho em uma roleta com apenas um zero, b=1, p=0,48, q=0,52. Isso dá f* = -0,04. Um valor negativo significa que o jogador deve apostar contra a posição analisada. Ou seja, o racional nesse caso seria apostar 4% de seu capital na opção "vai sair preto ou verde". Como o cassino dificilmente aceitará essa proposta, o melhor é não apostar.

A fórmula de Kelly permite definir algo chamado "a vantagem" (the edge). A vantagem é zero se b = q/p; e negativa se b < q/p. Uma situação de vantagem zero geralmente é uma onde o mais sábio é abster-se de apostar. Já uma vantagem negativa significa que (como no caso da roleta) o melhor é apostar contra a opção analisada, se possível. Num cassino, todos os jogos têm vantagem negativa, e a posição contrária é sempre, claro, a da casa.

Jogos como pôquer, onde o jogador não enfrenta a casa, mas outros apostadores "pessoa física", são considerados mais seguros por conta dessa ausência de uma vantagem negativa pré-programada nas regras. Mas isso não é necessariamente verdade: um estudo sobre pôquer online, realizado pela Universidade Cornell, mostrou que quanto mais partidas um jogador principiante ganha, mais dinheiro ele tende a perder.

O motivo é psicológico: o grande número de vitórias geralmente envolve pequenas quantias, mas deixa o jogador autoconfiante; e ele continua a jogar até sofrer uma derrota que leva embora mais dinheiro que todos os ganhos somados. Há algo skinneriano nisso, acho.

O trabalho está publicado onine no site do Journal of Gambling Studies.

janeiro 12, 2010

Sherlock Holmes e as artes marciais

Todo mundo anda falando de Avatar, e Sherlock Holmes, uma joia de filme, acaba passando quase despercebido, o que é uma pena. O que eu queria comentar a respeito é uma certa dissonância que tenho visto nas (poucas) resenhas do filme que encontrei na imprensa, e que se referem ao filme como uma espécie de "releitura" do personagem, como se Holmes tivesse sido recriado como "super-herói" ou "herói de ação".

Dissonância que mostra que os críticos talvez estejam familiarizados com os filmes anteriores do grande detetive, mas certamente não com os livros.

Porque o personagem de Conan Doyle era, afinal, um herói de ação: em O Signo dos Quatro, por exemplo, Holmes não só protagoniza uma excitante perseguição de lancha pelo Tâmisa à noite, como ainda é reconhecido por um ex-pugilista profissional, que se lembra de ter sido nocauteado por ele numa luta.

Além disso, em A Aventura da Casa Vazia, o detetive revela ser um mestre de "baritsu", uma arte marcial japonesa cujo correspondente no mundo real é um certo mistério -- a palavra parece ter sido cunhada por Conan Doyle ou a partir de "bartitsu" -- uma versão de jiu-jitsu introduzida na Inglaterra em 1899 por um sujeito chamado Barton-Wright ("Barton"... "bartitsu"... sacou?) -- ou de bujitsu, um termo genérico para artes marciais.

Holmes também é descrito por Watson como um exímio lutador com bastão, uma habilidade que salva a vida do detetive quando um bando de malandros de rua tenta atacá-lo em O Cliente Ilustre.

Além disso, é importante lembrar que o detetive, após travar luta corporal com o professor Moriarty em O Problema Final, escala as escarpas suíças com as mãos nuas, e se envolve numa peregrinação que o leva ao Tibete.

No cinema, no entanto, o personagem sempre havia sido interpretado por atores mais velhos -- como Peter Cushing -- e as limitações de orçamento e efeitos especiais impediam que esse lado de Holmes florescesse nas telas.

Ah, sim: o Sherlock do novo filme não "aposentou" a capa e xadrez e o chapéu de caçador: ele simplesmente nunca os usou (i.e., nunca foi descrito por Conan Doyle envergando esse tipo de traje). A capa inverness e o chapéu deerstalker são adições feitas pelo ilustrador original das histórias, Sidney Paget.

Por fim, Watson: ao contrário dos retratos cinematográficos anteriores, o doutor John H. Watson dos livros nunca foi um velhote paspalho. Ele entra na vida de Holmes ainda relativamente jovem, recém-dispensado do exército por ter se ferido na guerra. É não só um soldado treinado e homem de ação, como faz sucesso com as mulheres (Jude Law está bem no personagem quanto a isso!) e gosta de apostar em cavalos. Como no filme.

O filme em si trapaceia um bocado com o espectador -- não é um mistério "fair play", daqueles em que todas as pistas estão ao alcance do leitor/espectador mais atento -- mas o enredo tem coerência, o que é mais do que se pode dizer de muito blockbuster por aí.

Enfim: foi necessário esperar que se passasse uma década inteira do século 21 para que o herói mais emblemático do 19 aparecesse por inteiro na tela.

(Antes que me perguntem o que raios este post está fazendo no SbB: a sherlockologia também é uma ciência. Se não acredita, visite a Sherlockian Net)

janeiro 11, 2010

Apurando a previsão

Os leitores mais fiéis vão se lembrar que comecei a semana passada pedindo que se tentasse determinar, de duas previsões astrológicas, qual se referia a 2010 e qual a 2009. Obtive, ao todo, sete respostas, das quais três adivinharam corretamente (primeira previsão, 2010; segunda, 2009), três consideraram que as previsões eram indistinguíveis/irrelevantes e uma errou.

Infelizmente, o número de respostas obtido foi insuficiente para que o resultado fosse estatisticamente significativo. Por puro acaso, a chance de três acertos em sete tentativas, com três alternativas possíveis (9/10; 10/9; tanto faz) é de de 48% -- mais exatamente, p= 0,4801 -- bem fora do nível de significância. Na verdade, mesmo cinco respostas corretas em sete teriam uma probabilidade de 11% de ocorrer, um p bem acima do nível tradicional de 0,05.

A distribuição obtida -- dois grupos de três resultados iguais e um resultado solitário -- é muito provável no arremesso de sete dados de três faces (que dá para simular jogado sete dados de seis faces e dividindo o resultado por dois), segundo o Wolfram Alpha.

Se mais alguém quiser lançar um desafio semelhante, poderemos tentar uma meta-análise daqui a alguns meses... (mas sinceramente não consigo imaginar um motivo para isso).

ScienceBlogs Brasil

Buscar ScienceBlogs Brasil:

Vá para:

Publicidade
Publicidade

ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2009 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.

Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM