A notícia passou meio batido, mas para mim foi a principal da semana: astrônomos encontaram uma evidência independente da existência de "energia escura", o efeito que está acelerando a expansão do Universo, ao notar que os aglomerados de galáxias crescem menos do que deveriam, provavelemente por conta de algum tipo de influência antigravitacional.
Até agora, o argumento a favor da energia escura era meio circular -- a idéia havia sido proposta para explicar o afastamento acelerado de estrelas distantes, e o afastamento acelerado de estrelas distantes era a evidência que substanciava a idéia.
Muita gente (incluindo gente bem-intencionada, por incrível que pareça) costuma babar de satisfação quando vê esse tipo de circularidade no pensamento científico, usando-o para argumentar que a ciência, no fim, só é válida porque é o que os cientistas dizem -- algo que não teria mais valor do que afirmar que a bíblia é a palavra de deus porque é isso que a bíblia diz.
O fato, no entanto, é que embora praticamente todas as idéias explicativas, em qualquer campo da atividade humana, nasçam circulares -- postula-se A para explicar B, e usa-se B como evidência de A -- na ciência as idéias sempre aspiram a mais do que isso e, na verdade, fracassam quando não não vão além disso.
Dois critérios importantes para medir o valor científico de uma idéia são o escopo -- será que ela é capaz de explicar mais coisas do que o fenômeno individual que levou à sua elaboração? -- e a fertilidade -- será que ela é capaz de sugerir a existência de fenômenos ainda não obervados?
Claro, "valor" e "fertilididade" não significam que a idéia esteja certa, mas apenas que é honesta o bastante para dar a cara a bater de encontro ao desconhecido: afinal, se os fenômenos propostos com base no princípio da fertilidade não forem observados, a idéia certamente estará em maus lençóis. E a energia escura, ao menos por enquanto, parece estar indo bem, obrigado.
Comments (3)
Mais importante que o escopo e a fertilidade é a falseabilidade. Interessante como o poder das idéias científicas vem de sua vulnerabilidade. É quase zen...
Posted by: Igor Zolnerkevic | dezembro 18, 2008 9:14 AM