Nove milhões de bicicletas (e o Universo observável)

Katie Melua fez enorme sucesso no Reino Unido há um par de anos com a música “Nine Million Bicycles“. Uma balada legalzinha, a música começa com os versos:

“Há nove milhões de bicicletas em Beijing,
É um fato, é algo que ninguém pode negar,
Como o fato de que lhe amarei até morrer.
Nós estamos a 12 bilhões de anos-luz da borda [do Universo],
É um chute, ninguém jamais poderá dizer que é verdade,
Mas eu sei que estarei sempre com você.”

O trecho em que se diz que o valor para a distância até os limites do Universo seria um chute provocou contudo a ira (ou pelo menos, uma polêmica de sucesso) do físico inglês Simon Singh, que escreveu uma coluna criticando a “Ciência Ruim de Katie Melua.
“Há milhares de astrônomos trabalhando dia e (é claro) noite para medir a idade do universo, e as últimas observações sugerem que o universo tem quase 14 bilhões de anos, não 12 bilhões … Essa alteração é até aceitável, mas a próxima linha na música é imperdoável. Dizer que a idade do universo é ‘um chute’ é um insulto a um século de progresso astronômico. A idade do universo não é apenas ‘um chute’, mas um número cuidadosamente mensurado que é agora conhecido com um alto grau de precisão … Você pode achar que estou sendo muito rigoroso, mas o papel do cientista está sendo lentamente minado por uma crença crescente de que resultados científicos são apenas chutes subjetivos que entram e saem de moda. Em verdade, resultados científicos são uma tentativa cuidadosa de medir objetivamente a realidade, e embora possam ser refinados com o tempo, são sempre nossa melhor esperança de chegar à verdade“, argumentou Singh.
O físico chegou mesmo a, em chiste, sugerir novos versos para a estrofe criticada:

“Nós estamos a 13,7 bilhões de anos luz do limite do universo observável,
Essa é uma boa estimativa com margens de erro bem definidas,
Cientistas dizem que é verdade, mas reconhecem que pode ser refinada,
E com a informação disponível, eu predigo que estarei sempre com você.”

Mas o melhor de toda essa história é que semanas depois, Melua e Singh participaram de um programa de rádio, em que a cantora reconheceu o erro, contando que fazia parte do clube de astronomia na escola. E Melua cantou a música com os novos versos! Ainda que tanto ela como Singh tenham reconhecido que a versão não faria muito sucesso. Michael Shermer também contou esta história em sua conferencia TED, e você poderá ouvir a nova versão da música ao final do vídeo.
Alguns, por outro lado, podem achar ainda melhor o fato de que as correções (intencionalmente) pedantes de Singh estejam, a rigor, incorretas. Embora o universo possa ter 13,7 bilhões de anos de idade, a distância até seus limites não é determinada simplesmente multiplicando tal idade pelo tempo que a luz percorreria nesse período, porque o universo está também se expandindo. Assim, as “estimativas com margens de erro” sugerem que a distãncia até o limite do universo seria em torno de 46 bilhões de anos-luz. Singh reconheceu o erro, justificando-se dizendo que como a própria canção original derivava a distância até os limites do Universo daquela forma, ele simplesmente corrigiu o valor do tempo.
É a margem de erro.

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