Fria solidão, suja imoralidade: nem tão metafóricas

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O Rafael do RNAmhavia blogado sobre a pesquisa indicando que o sentimento de exclusão, a solidão, realmente leva as pessoas a sentirem mais frio. A metáfora não é meramente abstrata, ela se traduz literalmente em sensações corporais reais.

Há pouco a Scientific American publicou uma entrevista com Chen-bo Zhong, da Universidade de Toronto e um dos autores da pesquisa, onde ele menciona outras descobertas fascinantes.

Em um trabalho anterior, Zhong mostrou que outras metáforas, como a de “mãos sujas” ou de “história limpa”, também têm uma base psicológica. No que chamaram de “efeito Macbeth”, notaram que pessoas que vêem sua moralidade colocada em cheque são induzidas à vontade de se limpar fisicamente.

Ao mesmo tempo, rotinas de higiene diárias comuns como lavar as mãos resultavam em um alívio poderoso à moralidade questionada, como se as pessoas “pudessem lavar seus pecados”. Lavando as mãos, as pessoas se sentiram tão expiadas de sua “sujeira” que se sentiram menos obrigadas a comportamentos pró-sociais como o voluntariado.

Outras pesquisas curiosas do psicólogo social mencionadas envolvem sua investigação de que o inconsciente pode facilitar a criatividade – no “efeito incubação”, onde permitir que sua mente se desvie de foco por algum tempo leva ao encontro repetino de uma solução – e de que a identidade racial pode influenciar votos, ainda que seja uma “negativa”.

Não posso deixar de notar que essas associações muito mais profundas do que imaginamos entre idéias e sensações lembram a sinestesia, e outros trabalhos publicado recentemente.

Ferrine Spector e Daphne Maurer, da McMaster University no Canadá, conduziram experimentos que sugerem que todos nós, mesmo aqueles que não se consideram sinestetas, podemos ter em verdade algum grau de sobreposição de sentidos. Várias pessoas, de forma significativa, associaram o cheiro de cogumelos com as cores azul ou amarelo, por exemplo. Lavanda suscitou a cor verde e a textura de um líquido pegajoso, enquanto gengibre foi percebido como preto e pontiagudo.

Em outro experimento, conduzido por Ursina Teuscher da Universidade da Califórnia, os sujeitos foram capazes de associar meses em um arranjo espacial de forma similar a sinestetas.

Os trabalhos foram mencionados na New Scientist, e embora não provem realmente que sejamos todos de fato sinestetas, sugerem sim que pode haver mais sinestetas entre nós do que se imagina.

Referências
Cold and Lonely: Does Social Exclusion Literally Feel Cold? (PDF);
Washing Away Your Sins: Threatened Morality and Physical Cleansing;
The colour of Os: naturally biased associations between shape and colour;
Neural constraints on synesthetic mappings and conceptual metaphors: The case of time and space.

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Discussão - 8 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Gostei desse sabão!
    Melhor que o equivalente da minha época, que era bem mais duro, pesado e veloz (quando ao encontro da minha pele).
    Achei muito interessante o estudo desse “efeito incubação”. Mais informações?

  2. Patola disse:

    Não entendi. “Os sujeito foram capazes de associar meses…” — Meses?? Como assim? Meses do ano? O que meses do ano têm a ver com confundir sentidos? É confundir “tempo” com alguma outra coisa, no caso? (Sim, estou com preguiça de clicar no artigo)
    Faltou também o final do artigo! “…e que mecanismos similares “. Mecanismos similares o quê? Continue!

  3. João Carlos disse:

    Também adorei o sabão! (e, como bom macumbeiro, não consegui deixar de lembrar do “Sabão da Costa”, igualmente azulado… Plus ça change… :D )
    Porém, mesmo tendo o cuidado de ler o link para a New Scientist, confesso que não entendi a surpresa… Se você puder ampliar um pouco o assunto…

  4. Kentaro Mori disse:

    Do que lembro de quando escrevi a nota há alguns dias e li do abstract:
    Ela pediu que as pessoas dispusessem os meses do ano em um arranjo espacial, e descobriu que sinestetas e aqueles que não se dizem sinestetas criaram arranjos significativamente similares. Havia outros detalhes, e ela levou em consideração se isso não seria apenas influência cultural (do que me lembro).
    Mais detalhes mesmo, leiam o artigo! :)
    Sobre o final do artigo, caramba, eu escrevi essa nota há alguns dias e programei para publicar hoje. E agora não lembro mais o que eu havia pensado no final!
    Então simplesmente removi a frase solta… down the memory hole.

  5. Kentaro Mori disse:

    Acho como leigo cientista de botequim (e olha que mal bebo cerveja), que a sinestesia é (mais) uma indicação fascinante de como nossa consciência não é como imaginamos que é…
    Isto é, sugere processos inconscientes e que podem ser mesmo arbitrários, mas incorporados à nossa percepção e cultura de forma completamente ilusória.

  6. Igor Santos disse:

    Sinestesia engloba sensações de temporalidade também, como pessoas que vêem tons de cores específicar associados a dias da semana (a quinta-feira é meio azulada, por exemplo).

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