Como cortar o cérebro de Einstein

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Você confere acima o que talvez seja uma das cenas mais inclassificáveis na história da ciência. O objeto branco dentro do pote de formaldeído é um pedaço do cérebro de Albert Einstein. Sim, Einstein. A faca e a tábua usadas são utensílios comuns de cozinha para cortar pão. Sim, pão. Pão de Thomas Harvey, o homem cortando o cérebro de Einstein para dar de souvenir para Kenji Sugimoto, um professor japonês fanático pelo físico alemão, que logo levará a relíquia para um bar de karaokê.

Mas como?

A história inacreditável do “como” é documentada em “Einstein’s Brain” (1994) de Kevin Hull. Você pode conferir uma detalhada (e hilariante) resenha em “O Cérebro de Einstein“, mas caso entenda inglês, pode e deve assistir ao documentário completo, com mais alguns comentários nossos sobre o desenrolar da história, a seguir.

Relic’s: Einstein’s Brain (1994) – Playlist em 7 partes, 62:46

Esse é seguramente um dos documentários mais fascinantes e chocantes a que já assisti. Sugimoto é uma figura com quem é impossível não simpatizar (ou, como Sandvik definiu, “um Ursinho Poof japonês com habilidades sociais muito questionáveis, apenas maior e com um cabelo maluco”). A busca absurda pelo cérebro e, perdoem o spoiler, o inacreditável encontro e clímax envolvendo a inclassificável cena da secção de um pedaço do cérebro para ser devidamente acondicionado em um pote velho de comprimidos é… inclassificável.

E é tudo real. É não apenas um documentário, de certa forma é um reality show. Muitos se recusam a acreditar que a história poderia ser verdadeira, mas é tudo verdadeiro, e pelo visto, nada foi roteirizado. Muito pelo contrário.

Kenji Sugimoto existe e realmente publicou uma biografia sobre Albert Einstein. Thomas Harvey também existe, ou pelo menos, existiu. Em uma nota da Science, que é o motivo para este post, fiquei sabendo que Harvey faleceu em 2007.

Antes de falecer, em 1998 Harvey devolveu o que restou do cérebro de Einstein para o Centro Médico Universitário de Princeton. Presumivelmente o pedaço de Sugimoto continua com ele. Provavelmente não mais em um pote velho de comprimidos.

Muitos classificariam, com completa razão, o destino e manuseio do cérebro de Einstein como revoltantes. Isso só se torna mais questionável quando parece haver certo consenso de que o desejo do físico e de sua família era que todo seu corpo fosse cremado. Temiam, como se confirmou, que seu corpo se tornasse uma espécie de relíquia.

Exatamente como o cérebro foi removido e preservado não está claro. O jornalista Michael Paternity, no livro Driving Mr. Albert, conta algo dos conflitos e diferentes versões para os eventos.

Embora inicialmente tenha havido um conflito sobre a posse do cérebro e Harvey tenha levado mais de quatro décadas para finalmente cedê-lo, ele sim colaborou com muitos pesquisadores, enviando fotografias e lâminas do cérebro dos anos 1950 até se afastar da vida acadêmica. E mesmo afastado, nos anos 1980 e então 1990 também colaborou partilhando material para outros estudos.

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As fotografias originais de Harvey do cérebro de Einstein ainda inteiro, por exemplo, foram justamente a base de um novo estudo de Dean Falk, da Florida State University, divulgado há pouco e noticiado pela Science. Nele, Falk alega ter encontrado algumas áreas incomuns que poderiam, quem sabe, estar associadas ao gênio.

Em verdade, ninguém sabe. Esta que é a razão pela qual o cérebro foi preservado a despeito do desejo de seu dono, motivo de tantos mitos e expectativa, continua apenas uma promessa. Desde 1955, quando Harvey registrou, seccionou e começou a partilhar fotos e mesmo pedaços inteiros do cérebro de Einstein, praticamente nenhum estudo rigoroso foi conduzido a partir do material. Alguns estudos com diferentes abordagens nada profundas indicaram que o cérebro possui algumas diferenças em relação a outros cérebros, mas então, todos cérebros são diferentes entre si.

Mais de meio século depois, ainda estamos longe de descobrir como aquela massa de 1,23Kg, comum – de fato, um tanto pequena – foi capaz de conceber idéias tão brilhantes. E com um pedaço no Japão, depois de passar por um Karaokê dentro de um pote de comprimidos, não parece muito provável que algum dia descobriremos ao certo.

O que não significa que algum dia não desvendaremos mais sobre como a massa cinzenta produz idéias brilhantes. De fato, a cada dia desvendamos mais a respeito, mas essa é outra história (que você também confere nos SciBlings como o Ecce Medicus e Psicológico). Pode não ser tão genial quanto Einstein ou absurda como a saga de seu cérebro pós-morte, mas já é algo.

– – –

Veja mais:

O Cérebro de Einstein

Closer Look at Einstein’s Brain

Dissecting Genius: Einstein’s Brain and the Search for the Neural Basis of Intellect

Driving Mr. Albert: A Trip Across America with Einstein’s Brain

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Discussão - 4 comentários

  1. Eu conhecia essa história por alto, somente da leitura da biografia de Einstein escrita por Walter Isaacson. Einstein não merecia esse destino macabro, da mesma forma que não merecia ser lembrado como criador da teoria “diretamente responsável” pela invenção da bomba atômica. Isso é uma vergonha!

  2. Liliane Catone disse:

    Eu não conhecia essa história e fiquei muito impressionada… A princípio, achei totalmente doentio o comportamento desse professor japonês, você se imagina com um pedaço de cérebro em casa? Que asco… Depois eu achei um tanto estúpido… eu acho que o cérebro deveria ter sido mantido inteiro se quisessem fazer um estudo mais correto… eu, heim!

  3. Alex Sandro disse:

    Poxa, nem sabia dessa.
    Mas é interessante.
    Imagina se fizessem isso com partes do corpo de todas as pessoas que tiveram algum valor cientifico, religioso, cultural na história da humanidade.
    No vaticano teria a mão de cristo pregada na cruz…
    Na alemanha o bigode de hitler estaria em algum mausoleu…
    O pessoal estaria fumando o cabelo de Marley…
    e porai vai…

  4. Diego disse:

    Eu acredito que o que nos diferencia de Einstein é apenas a motivação de lutar por aquilo que acreditamos ou idealizamos. Somos dotados de um cérebro a força de vontade ou inteligência cabe a nós á desenvolvermos, tenho plena consciência que Einstein não gastava do seu precioso tempo vendo notícias alheias sem fundamento, (não quero ser sensacionalista, mas, não temos gênios como Einstein ainda porque o mundo e suas tecnologias usufruem mais de nós do que nós dele) não gastamos nosso tempo com o que é necessário mas com o que nos convém, bom essa é minha opnião

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