O que é ciência? O que é Pseudociência?

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Por Donald E. Simanek

Um visitante de meu website pergunta "Qual é a definição de pseudociência?". É uma pergunta justa, mas desafiadora. Normalmente esperaríamos que os praticantes de uma disciplina a definam, mas neste caso os praticantes de pseudociência não reconhecem a validade do rótulo.

A pergunta se traduz para "Como se distingue entre ciência e pseudociência". Talvez nós devêssemos primeiro chegar a uma definição de ciência. Mesmo isto não é uma tarefa fácil, já que ela tem tantas nuances. Livros inteiros foram escritos sobre o assunto.

O cientista poderia responder "eu reconheço pseudociência quando eu a vejo". Mas os limites entre a ciência e a pseudociência são nebulosos. Às vezes é difícil distinguir especulação científica sofisticada de pseudociência.

Vamos reconhecer dois usos da palavra ‘ciência’. Primeiro, é uma atividade executada por cientistas, com certas matérias-primas, propósitos e metodologia. Segunda, é o resultado desta atividade: Um corpo bem estabelecido e bem testado de fatos, leis e modelos que descrevem o mundo natural.

Os cientistas aceitam que as observações e os resultados de ciência devem ser "objetivos". Isto é, que eles devem ser repetíveis, testáveis e passíveis de confirmação por outros cientistas, até mesmo (e especialmente) os céticos. O edifício de lei e teoria que a ciência constrói deve ser representante de uma percepção "compartilhada" que pode ser observada e verificada por qualquer pessoa equipada com boas habilidades de observação e ferramentas de medição apropriadas. Muito da ciência moderna usa linguagem e conceitos que vão muito além do direta e imediatamente observável, mas deve sempre haver vínculos lógicos e vínculos operacionais experimentais entre estes conceitos e coisas que nós podemos observar.

Como parte do processo de elaborar modelos e teorias científicas, cientistas devem exercitar a imaginação, inovar e especular. Este é o componente criativo da atividade. Mas eles também devem manter um rigor disciplinado para assegurar que suas teorias e modelos se ajustam a uma estrutura lógica e consistente inter-relacionada. O edifício final chamado ciência permite a dedução de predições sobre o mundo, predições que podem ser testadas contra observações e contra medidas precisas feitas na natureza. A natureza não perdoa enganos, e quando experiências discordarem com as predições de leis e modelos científicos, então essas leis e modelos devem ser modificados ou descartados.

Estilos pessoais dos cientistas, preconceitos e até limitações são realidades sempre presente no processo. Mas teste rigoroso e cético do resultado de final deve ser suficientemente completo para revelar quaisquer enganos.

É bastante fácil distinguir ciência de pseudociência com base no produto final, as leis e teorias. Se os resultados (1) não podem ser testados de qualquer forma, (2) foram testados e sempre falharam no teste, ou (3) predizem resultados que são contraditórios à ciência bem estabelecidas e bem testada, então nós podemos com razoável segurança dizer que estamos lidando com pseudociência.

Já no nível de especulação, não é tão fácil. Considere estes dois exemplos.

  1. A noção de que partículas hipotéticas (táquions) podem viajar mais rápido que a luz é uma idéia pseudocientífica? Bem, esta especulação foi proposta por cientistas com credenciais perfeitamente respeitáveis, e outros experimentadores respeitáveis passaram tempo procurando por tais partículas. Nenhuma foi achada. Nós esperamos mais encontrar alguma, mas não consideramos a idéia como tendo sido "não científica".
  2. É científico sugerir a hipótese de que se poderia construir uma máquina de movimento perpétuo que funcionaria para sempre produzindo energia, sem nenhuma entrada de força? A maioria dos cientistas responderia "Não".

Qual é a diferença essencial entre estes dois exemplos? No primeiro caso, os táquions hipotéticos não violariam quaisquer princípios conhecidos da física. No segundo caso, uma máquina de movimento perpétuo violaria as leis muito bem estabelecidas da termodinâmica, e também violaria até leis mais fundamentais, como as leis de Newton, de conservação momento e momento angular.

Mas as leis e teorias da física são sagradas? Claro que não; elas representam parte da estrutura lógica chamada "física estabelecida" que é a culminação de nosso conhecimento científico acumulado. Esperamos certamente que descobertas e idéias futuras nos levarão a modificar esta estrutura de algumas formas. Isto não invalidará o todo da física, uma vez que as leis e teorias antigas continuarão a funcionar tão bem quanto sempre funcionaram, mas estrutura mais nova teria mais precisão, poder, escopo ou abrangência, e poderia ter uma estrutura conceitual mais atraente. Tal evolução e modificação ininterruptas da física é gradual e geralmente muda apenas uma porção pequena do vasto edifício da física. De vez em quando, uma "revolução" de pensamento acontecer nos levando a repensar ou reformular uma grande parte da física, mas mesmo elas não tornam as formulações antigas inválidas dentro de seu âmbito original de aplicabilidade.

Certos princípios, leis e teorias da história mais antiga da física têm sobrevivido incólumes. Leis das máquinas de Arquimedes, e suas leis de líquidos funcionam hoje tão bem quanto funcionavam. As leis de Newton ainda funcionam bem, embora a relatividade tenha se estendido tremendamente sobre a abrangência da mecânica clássica. Mesmo o modelo geocêntrico já descartado de Ptolomeu do sistema solar (com seus ciclos, epiciclos, excêntricos e deferentes) previa corretamente os dados das posições planetárias no céu, e se ninguém hoje se importasse em fazer isso, aquele modelo ptolemaico poderia facilmente ser estendido e aperfeiçoado para funcionar com nossos dados melhorados das posições planetárias para predizer posições planetárias passadas e futuras. Mas seria útil apenas para esse propósito limitado, já que não leva forças gravitacionais em conta e não modelou corretamente as distâncias de planetas de nós e uns aos outros. A mecânica de Newton e sua teoria de gravidade deram um âmbito muito maior para a mecânica celestial, unificou-a com a mecânica terrestre, e tornou-a uma ferramenta poderosa na compreensão de todo o universo, não só nosso sistema solar local.

Assim, é razoável esperar que as leis de Newton e as leis da termodinâmica serão de repente tornadas inválidas pelas experiências de algum inventor de fundo de quintal para alcançar o movimento perpétuo? Não. Essas pessoas recebem apropriadamente o rótulo de ‘pseudocientista ‘ ou mesmo ‘malucos’.

Os que buscam o movimento perpétuo são um exemplo perfeito do impulso científico mal direcionado. Eles exibem a maior parte das qualidades de pseudocientistas de todos os tipos. Nós listamos abaixo algumas qualidades da, ou sintomas da, pseudociência. Isto também é um catálogo das muitas coisas que podem levar a enganos e erros em ciência. A história da própria ciência fornece exemplos de alguns destes, mas esperamos que aprendemos com os enganos de nossa história passada. Poucas pseudociências exibem todas estas características.

  1. Pseudocientistas têm conhecimento e compreensão deficientes ou superficiais da ciência bem estabelecida.
  2. Suas propostas são então baseadas em uma compreensão incorreta de princípios muito básicos e bem estabelecidos da física e engenharia.
  3. Os inventores podem não estar sequer cientes destas falhas em seu raciocínio.
  4. Eles sentem que a física é desnecessariamente complicada porque físicos são ‘cegos’ para explicações mais simples.
  5. Alguns reclamam que a física é "muito matemática" enquanto outros iludem os inocentes com ginástica matemática, pensando erradamente que matemática é física, não entendendo que é apenas uma ferramenta de modelagem.
  6. Eles se concentram obsessivamente em um problema estreito sem captar a poderosa interconexão da teoria física. Podem desta forma não estar cientes das implicações e conseqüências mais amplas de suas idéias.
  7. Eles têm confiança incomum em si mesmos, somada a uma fé quase religiosa de que suas intuições e palpites fornecem um guia confiável para a verdade científica.
  8. Qualquer um que falhe em ver seu gênio é rotulado como ‘cego’. Eles adoram comparar-se a inovadores do passado cujas idéias foram inicialmente rejeitadas. "Eles riram de Galileu, não é?"
  9. Pseudocientistas estão descontentes com o fato de que suas idéias são ignoradas pela comunidade científica. Eles se comportam como se cientistas devessem largar tudo que estejam fazendo para investigar suas propostas especulativas, embora estas propostas não sejam motivadas por conhecimento científico estabelecidos, e possam ser cientificamente improváveis.
  10. Pseudocientistas confiam demais no testemunho pessoal de indivíduos e outras evidências anedóticas.
  11. Pseudocientistas têm uma obsessão com observações anômalas que parecem para não ajustar se ajustar à teoria científica estabelecida.
  12. Pseudocientistas freqüentemente exibem uma atitude "Se parece certo para mim, deve estar certo".
  13. Pseudocientistas sentem que "Coincidências não existem".
  14. Pseudocientistas têm uma obsessão em encontrar "padrões" em dados. Os cientistas devem buscar padrões também, mas é um engano buscar significado em padrões de coisas que não têm nenhuma conexão ou relação possível, como padrões de estrelas no céu (constelações), folhas de chá ou borrões de tinta.
  15. Pseudocientistas freqüentemente cometem vários abusos da estatística.
  16. Pseudocientistas são motivados por considerações que se situam fora do escopo da ciência, ou que já foram completamente desacreditadas. Exemplo, a aceitação de acupunturistas da realidade de "caminhos de energia" específicos no corpo humano. Outro exemplo: A visão de criacionistas de que a ciência deve estar em harmonia com sua interpretação particular da tradução da Bíblia.

Respostas a Correspondentes

Motivações Filosóficas.

Um correspondente me lembra de que não disse muito sobre as motivações de pseudocientistas que acredita em certos fenômenos "paranormais". Aqui estão alguns que são comumente vistos.

  • Um sentimento de que o mundo descrito por ciência é muito ordenado e restrito. Eles anseiam pela possibilidade de magia e milagres.
  • Uma convicção de que existem na natureza poderes ocultos que podem ser dominados pela mente humano, se o praticante for suficientemente dedicado.
  • Nada que possa ser imaginado é impossível.
  • Uma ciência que não agrada a meu bom senso não pode estar correta.
  • A ciência verdadeira devia ser compreensível por todos.

As três primeiras atitudes têm muito em comum com a filosofia Hermética dos alquimistas. Eles acreditavam que se alguém fosse puro de espírito poderia obter poder sobre natureza, um poder equiparável ao de um deus.

As últimas duas são uma reação contra a complexidade da ciência, que realmente exige um bom embasamento em matemática para ser compreendida. Eu inventei um "slogan" de brincadeira para ilustrar isto: "Se os deuses quisessem que nós entendêssemos física, eles a teriam feito mais simples".

Mais motivações.

O questionamento do pseudocientista à ciência é freqüentemente motivado por alguma coisa que o questionador não gosta, ou não aceita, ou algo que entra em conflito com uma convicção emocional apaixonadamente defendida. Eles estão normalmente totalmente ignorantes de que "corrigindo" a coisa de que não gostam de modo que lhes agrade tem implicações muito mais profundas.

Por exemplo, o inventor de movimento perpétuo diz, "Eu não gosto da terceira lei do Newton, e eu suspeito que essa lei não é correta. Se estiver errada, eu poderia criar um motor sem ração e facilmente alcançar o movimento perpétuo". Sim, realmente, mudar a terceira de Newton demoliria a conservação de momento, a conservação de energia, as leis da termodinâmica e quase tudo que nós pensamos que sabemos sobre química, física atômica e nuclear, etc. etc. Tais pessoas simplesmente não percebem a vasta interconexão de tudo em ciência. Agora nós perguntamos: "É razoável supor que tudo isto está errado? Eu quero dizer, seriamente errado? Você está preparado para refazer a física desde o início, descartando e substituindo algo como 11 séculos de desenvolvimento histórico? O que ser tem a ganhar fazendo isto?".

Claro que o pseudocientista não é equipado para essa tarefa monumental e realmente não se importa com o quadro maior–apenas aquela pequena coisa ou número pequeno de coisas na ciência convencional que achou inaceitável.

Agora, se o pseudocientista pudesse apontar para apenas uma experiência sólida, reproduzível, bem testada que demonstrasse conclusivamente uma falha ou exceção à terceira lei de Newton, isso poderia ser uma boa razão para questionar a lei, conduzir mais provas independentes, e se a lei for realmente descoberta como deficiente, procurar por um caminho para modificá-la para deixá-la de acordo com a experiência. Mas o pseudocientista nunca pode produzir tal evidência. Ele só "pensa" ou "espera" ou tem a "intuição" ou a "sensação" de que a ciência está errada de modo que poderia permitir a ele alcançar sua meta estimada de movimento perpétuo. Além disso, pseudocientistas quase sempre têm uma compreensão deficiente da ciência que eles menosprezam (ou pelo menos questionam), que os leva eles a cometer erros de análise ou julgamento que envergonhariam um aluno de primeiro ano de física.

Outro exemplo é visto naquelas pessoas que desejam reavivar a teoria clássica do éter. Nós perguntamos a eles "Por quê?". Normalmente é apenas que eles não podem conceber o espaço com nada, ou eles não podem aceitar a ação a distância, ou eles não entendem que campos sejam modelos meramente matemáticos, e não algo "no" espaço. É um apego sentimental.

Eu perguntei a um crente no movimento perpétuo por que ele pensava que o movimento perpétuo seria possível. Ele escreveu candidamente para mim: "Eu não estou certo sobre por que estou convencido de que é possível, acho que é apenas porque eu quero que ele seja possível". É raro que as pessoa possam realmente articular isto.

O argumento da incredulidade.

Uma dessas pessoas insiste que a energia cinética não pode ser (1/2)mv^2 porque "uma velocidade quadrada é absurda". Outro alega que um corpo em queda não pode acelerar pela lei (1/2)gt^2 porque "um segundo ao quadrado é inconcebível".

Eu chamo este o "argumento da incredulidade". Aqui está outro exemplo: "Eu acho incompreensível que corpos possam exercer forças uns aos outros sem nada material entre eles, então deve haver algo entre eles". Seria isto muito diferente do criacionista que diz "eu acho incompreensível que projeto possa surgir de desordem sem um projetista, então ele deve ser impossível"?

Os cientistas estão completamente justificados em descartar estes argumentos como igualmente vazios e irrelevantes.

Como isto é diferente do cientista que está tão certo das leis de conservação e das leis da termodinâmica que estas nunca estão questionadas? Ainda que algum experimentador alegue ter achado uma falha em uma destas leis, essa pessoa é desconsiderada como tendo se enganado. Suponha que alguém diga que soltou um corpo em repouso de uma altura medida, cronometrou a queda e descobriu que o corpo acelerou a 2g, duas vezes a aceleração "aceita" devido à gravidade. A experiência foi feita na superfície da Terra. Ele diz ter checado cuidadosamente para eliminar qualquer possibilidade de outras influências na aceleração do corpo. Deveríamos acreditar nele? Claro que não. Supomos que ele cometeu um engano em uma medida ou cálculo, ou está tentando enganar. Nós não pensamos sequer um segundo que ele poderia ter achado um lugar especial onde a aceleração devido à gravidade era duas vezes aquela em outros lugares na Terra. Um pseudocientista poderia pensar que ele usou "poderes mentais" para acelerar a queda. Um cientista iria, bastante apropriadamente, nem mesmo aventar a possibilidade de que no tempo particular quando a experiência foi feita, a aceleração devido à gravidade teria um aumento momentâneo que passou despercebido em todos os outros lugares na Terra.

Este tipo de coisa realmente aconteceu em um de meus laboratórios de mecânica alguns anos atrás. Dois alunos estavam medindo a aceleração da gravidade com um aparato especializado chamou pêndulo físico de Kater. A análise matemática exigida era um pouco complicada de entender. Os alunos relataram um valor da aceleração da gravidade de algo como 4.8 m/s2. Claro que eu sabia que eles haviam cometido um erro na matemática, mas eles insistiram que confirmaram tudo. Eu disse, "seria melhor vocês encontrarem o erro, já que fico desconfortável caminhando por aí em um laboratório onde a aceleração da gravidade é apenas metade do que deveria ser". Uma semana mais tarde eles acharam seu erro e, eu espero, aprenderam algo da experiência.

- – -

Primeira versão do documento, maio de 2002. Última revisão, novembro de 2008. Traduzido em abril de 2009 por Kentaro Mori.

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Discussão - 14 comentários

  1. Lucas disse:

    No final das contas eu não gostei do texto.
    A ciência aparece como um conjunto de conhecimentos ligado às verdades naturais e os cientistas como uma classe de privilegiados pelos “deuses” que podem explicar para as outras pessoas pobres coitadas como o mundo acontece.
    Ah nem… quanta soberba!
    A ciência e os cientistas tem que descer do monte Olimpo e reconhecer que não são tudo isso que vem afirmando desde o século XVII. Ela trouxe contribuições para o mundo? Claro, incontáveis. E problemas? Claro, incontáveis.
    Se as contas fossem perfeitas cada problema seria resolvido de uma vez e as coisas estariam bem melhor agora. O que é a tal crise da modernidade senão um nó nas engrenagens de como pensávamos o mundo e a nós mesmos? Seria a crise a “prova” que a ciência moderna precisa para entrar em reflexão?
    É preciso reconhecer outros tipos de conhecimento, inclusive de outras ciências com outras formas de funcionamento. As ciências sociais e humanas, por exemplo, não podem ser medidas dentro de um laboratório de física. Marx e Freud, dois dos maiores pensadores dos últimos tempos, não seriam cientistas? E os sociólogos, historiadores, geógrafos que estão ralando tanto quanto ou mais que engenheiros, biólogos e físicos pelo mesmo desenvolvimento da vida que todos queremos? Também não são cientistas?
    Fico feliz com a iniciativ deste blog. Mas que as idéias do texto estão completamente desencaixadas do tempo que vivemos elas estão. Deixo aqui o meu abraço.

  2. Roberta Ferreira disse:

    Não entendi a colocação do Lucas, provavelmente porque achei que o texto é muito bom e dá uma explicação sem viesses de pseudociência. Em momento nenhum o texto critica ciências humanas e nem outros tipos de conhecimento. Na verdade, se o cientista fizer isso, estará fadado a não sair do lugar.
    Se o cara utiliza a física como exemplo para comparar às pseudociências, é porque ou 1) o autor conhece mais a área ou 2) a física é um exemplo mais claro e didático. Muitas pessoas acham que a física é complicada, mas não é. Os eventos estudados nessa ciência são muito simples e mais “matematicamente fáceis de se descrever” que, por exemplo, as ciências humanas ou naturais. Desta forma, ela se presta melhor à uma comparação com as pseudociências.
    Bem, eu li o texto com muita atenção e não encontrei qualquer indício de que os cientistas se acham deuses… Por sinal, pretendo utiliza-lo em aulas, assim que surgir a oportunidade.

  3. Lucas, eu também nao me senti muito a vontade com o texto, mesmo sendo um físico. Fiquei achando que talvez Galileu fosse psicologicamente um pseudocientista que teve sorte de estar certo: ele apresentou uma duzia das caracteristicas dos cranks.
    Com a moderna visao do vácu o quantico e de bosons de gauge como mediadores de interacao entre as particulas, me parece que os caras que querem resusscitar o eter estao filosoficamente mais proximos da ciencia moderna do que a visao instrumentalista de campo eletromagnetico como apenas auxiliar para calculos que o autor expressa.
    E realmente usar a fisica como padrao das ciencias é meio outdated (positivismo do seculo XIX). Paleontologia nao é ciencia? Cade as predicoes repetiveis e testaveis da Paleontologia? E a Meteorologia?
    Eu acho tambem que precisamos reconhecer os campos de Pesquisa Academica (scholarship) tais como letras, historia, linguas antigas, etc. Elas nao sao ciencias no sentido do texto, mas possuem seus criterios rigorosos de pesquisa e validacao.
    Por exemplo, a analise textual e criticismo biblico (a tentativa de determinar os autores e conteudo de livros da biblia), possui uma longa tradicao de rigor intelectual, tendo originado disciplinas academicas similares.
    Ou seja, existem disciplinas academicas que nao sao ciencias na demarcacao deste autor, mas que nao podem ser chamadas de pseudocientificas. Podemos chama-las de nao-cientificas (mas isso seria pejorativo) ou ciencias humanas ou Humanidades etc. Eu proponho continuar a chama-las de disciplinas academicas: disciplinas por terem metodos rigorosos de pesquisa e avaliacao por pares, academicas por serem feitas em academias e comunidades amplas de debate. Mesmo a Teologia é uma disciplina academica neste sentido (embora o pessoal do movimento cetico desconheca isso…) e existem cursos academicos de Teologia nas Universidades: Teologia é basicamente filosofia e análise filosofica dentro de uma tradicao religiosa. O uso de argumentacao lógica e analise filosofica profunda na verdade é maior na Teologia do que na Física (voces já repararam como os fisicos sao filosoficamente ingenuos e como a filosofia da fsica é uma bagunca, a comecar pela filosofia da Mecanica Quantica?)

  4. Por outro lado, Lucas, a crise da modernidade na verdade é um mito criado por humanistas tipo escola de Frankfurt. O posmodernismo foi apenas um modismo fin de siecle, as science wars terminam a partir do caso Sokal, da critica de Bruno Latour ao posmodernismo e do inicio das culture wars da era Bush, entre o premodernismo religioso o modernismo cientifico. Os posmodernos se percebem como aliados indesejados dos premodernos. Quem entrou em crise foi o posmodernismo, a modernidade da física dos sistemas complexos e dos geeks vai bem obrigado!

  5. João Carlos disse:

    Confirmando que coloquei o link para este post no “Roda de Ciência”, aproveito para comentar um aspecto curioso, mencionado pelo Simanek, de como o jargão (que parece tão simples para um cientista…) pode causar perplexidade no leigo.
    Me refiro específicamente ao caso do “segundo quadrado” da unidade de aceleração. Não é nem um pouco difícil explicar que uma velocidade é expressa em unidades de distância por unidade de tempo. Indo além, uma variação nessa velocidade (ou seja, uma aceleração) só pode ser descrita como uma velocidade por unidade de tempo; ou seja, uma distância por unidade de tempo, por unidade de tempo (e.g: metro por segundo, por segundo). A divisão de uma fração é uma operação que costuma ser mal aprendida (porque porcamente ensinada…) e as definições das unidades que medem a física, mais ainda…

  6. Lucas disse:

    Obrigado Osame, você pegou o espírito do meu comentário.
    Quando se fala em crise ou em modernidade é preciso ter muito cuidado. Principalmente porque esses dois temos tem milhões e acepções e é muito fácil se perder no mar de significados que estão boiando por aí.
    O sentido da crise da modernidade a qual me referi no primeiro comentário é muito mais uma assunção da insuficiência da ciência moderna para resolver todos os problemas do mundo com um método do único do que tudo. Pensar a pós-modernidade como uma nova etapa/paradigma desta mesma ciência agora revisada seria um contra-senso.
    Acredito que a pós-modernidade pode ser uma nova fase da epistemologia humana, em que figuras científicas e não-científicas possam conversar (sem crise, rs) sobre como os diversos tipos de conhecimento humano podem ajudar o próprio ser humano. O que eu gostaria de ver é uma variedade maior de formas para pensar as coisas. Longe de mim uma competição entre quem explica melhor o que e mais longe ainda verdades absolutas derivadas de receitas do passado.
    Um beijo pra Roberta e um abraço para o João.

  7. Tenho uma pergunta em relação à frase: “Os cientistas aceitam que as observações e os resultados de ciência devem ser” objetivos “. Isto é, que eles devem ser repetíveis, testáveis e passíveis de confirmação por outros cientistas, até mesmo (e especialmente) os céticos”.
    A psicologia social utiliza uma metodologia chamada pesquisa-ação ou pesquisa participante. Nessa metodologia o empirismo é muito valorizado, o psicólogo não deve ter uma hipótese, seu problema de pesquisa pode mudar ou ser definido quando ele vai a campo. Os pesquisados participam de todo o processo de pesquisa e decidem juntos com o pesquisador como analisar os dados obtidos e o que fazer com eles. Assim penso que essa pesquisa não pode ser sempre repetida obtendo os mesmos resultados pq diz respeito apenas aquele contexto, aqueles sujeitos que pertenceram à amostra aquela realidade que está em constante transformação. A pesquisa-ação segue os passos da investigação-ação a seguir: planejar uma melhora na prática -> agir para implantar melhora planejada -> monitorar e descrever os efeitos da ação -> avaliar os resultados da ação.
    Conheço muito pouco sobre essa metodologia ainda, pretendo ler alguns artigos essa tabela eu encontrei no artigo Pesquisa-ação uma introdução metodológica de Devid Trippe. Link: http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a09v31n3.pdf
    Então minha pergunta é: Para vc somente a pesquisa experimental pode ser considerada científica?

  8. Leo disse:

    Hey, voce parece estar realmente irritado com os defensores do movimento perpétuo! hehe
    O texto esta muito bom. Grande abraço

  9. Sandro disse:

    … bom o texto, mas tenho uma dúvida: você citou muito a Terceira Lei de Newton… mas e no caso de uma partícula elétrica (um elétron por exemplo) em movimento em um campo magnético uniforme -> essa partícula descreve uma circunferência desde que não haja forças dissipativas sobre ela. Bem, se o movimento é circular existe força centrípeta, que é a força eletromagnética. Mas onde está a força de reação neste caso ?

  10. Veros disse:

    Achei interessabte o comentario do Lucas no tocante as ciências humanas. Criticar o status que os cientistas supostamente se atribuem e reinvidicar o titulo de cientista para Freud e Marx é paradoxal, concordam?
    Que bem faria esse rotulo para Freud? Ele atestaria a reprodutibilidade da teoria, bem como validaria sua metodologia, contribuindo para seu desenvolvimento. O sentido da palavra ciência no texto é de saber empirico e falseavel , não no sentido de saber ou conhecimento ‘Deldebiano’. Psicanalise nunca será ciência pela impossibilidade de confirmação de suas premissas e mesmo Freud reconhece isso por algumas vezes. Note que isso não quer dizer que psicanalise ou qquer teoria da mente é inverossimel por ser, talvez, intestavel. Saúde mental tem variaveis em demasia para se discutir aqui.
    E quanto a Historia, Marx, economia e politica? São ‘scholarships’ que analisam dados passados ou tentam prever acontecimentos baseados nessas analises, o problema é que sem metodo cientifico toda produção desse saberes é opinião. O fato de estar-se frequentemente certo não transforma a opinião em ciencia empirica.
    Falta uma palavra para acabar com esse mal entendido entre o saber axiomatico de determinadas disciplinas e a ciência experimental, minha opinião :)

  11. José Marcolino da Silva disse:

    Gostaria de prabenizar o autor do artigo, sobre ciências,cientistas e os pseudos ciêncis/cientistas.Ñumca alguém vai satisfazer a todos,mas,devemos reconhecer a qualidade dos que possuem a sabedoria e a coragem de explicitar temas como esses.Parabens pelo artigo e, continue a desenvolver questões de interesse aos que como eu, mesmo sendo leigo, por prazer leio artigos desse quilate.
    José Marcolino da Silva
    Sanitarista
    Caruaru,Pernambuco,Brasil

  12. José Marcolino da Silva disse:

    Gostaria de prabenizar o autor do artigo, sobre ciências,cientistas e os pseudos ciêncis/cientistas.Ñumca alguém vai satisfazer a todos,mas,devemos reconhecer a qualidade dos que possuem a sabedoria e a coragem de explicitar temas como esses.Parabens pelo artigo e, continue a desenvolver questões de interesse aos que como eu, mesmo sendo leigo, por prazer leio artigos desse quilate.
    José Marcolino da Silva
    Sanitarista
    Caruaru,Pernambuco,Brasil

  13. José Marcolino da Silva disse:

    Gostaria de prabenizar o autor do artigo, sobre ciências,cientistas e os pseudos ciêncis/cientistas.Ñumca alguém vai satisfazer a todos,mas,devemos reconhecer a qualidade dos que possuem a sabedoria e a coragem de explicitar temas como esses.Parabens pelo artigo e, continue a desenvolver questões de interesse aos que como eu, mesmo sendo leigo, por prazer leio artigos desse quilate.
    José Marcolino da Silva
    Sanitarista
    Caruaru,Pernambuco,Brasil

  14. danielle disse:

    porque as ciencias humanas podem nao ser consideradas ciencias?

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