Um transplante de cabeça (ou de corpo) para Stephen Hawking

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Há alguns anos traduzi e publiquei um artigo contando “Uma Breve História das Cabeças de Cachorro Decepadas“. Envolvia as experiências do Dr. S.S. Bryukhonenko no Instituto de Fisiologia e Terapia Experimental na antiga União Soviética, nas primeiras décadas do século passado. Experiências com cabeças de cachorro decepadas, cortadas fora, mantidas vivas artificialmente por alguns segundos. Cabeças decepadas vivas. O tema é intrigante e perturbador.

O filme divulgando as experiências, com o singelo título de “Experimentos na Ressuscitação de Organismos“, inspirou mesmo um videoclipe recente da banda Metallica com nada menos que zumbis. Embora seja provavelmente apenas uma dramatização (e certo exagero) dos resultados reais, como Ken Freedman bem comenta no artigo, os soviéticos sim alcançaram certo sucesso na área, incluindo a criação dos cachorros de duas cabeças pelo também soviético Vladimir Demikhov. O doutor conectou a cabeça de um cachorro ao corpo de outro, e os dois (ou seria um?) viveram por certo tempo.

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[Cachorros de Demikhov em exibição no Museu de História Médica na Letônia. Foto de Andy Gilham]

“Para quê criar cachorros de duas cabeças?”,você pode perguntar. E terá feito a mesma pergunta que um brilhante neurocirurgião americano chamado Robert White. Responsável por inovadoras técnicas de neurocirurgia, White sem dúvida explorou os limites mais extremos de sua área com uma idéia relativamente simples. Nada de cachorros de duas cabeças, White queria concretizar em seres bem humanos o transplante de cabeça (ou de corpo inteiro, dependendo de seu ponto de vista). E em busca de um modelo animal mais próximo de nós, concretizou seu objetivo com macacos.

Continue lendo para conferir um fascinante documentário apresentando uma entrevista recente com White, acompanhada de cenas de seus experimentos. Segundo ele, o transplante de cabeça (ou de corpo inteiro) seria possível hoje, e o físico Stephen Hawking poderia ser o primeiro a se beneficiar de tal técnica.

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Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 1 de 7

Na primeira parte somos apresentados a White em um McDonald’s de Geneva, Ohio. O doutor, repleto de diplomas e filhos, comenta como o cérebro é a essência do que somos.

Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 2 de 7

O bom doutor relata como a remoção de tumores cerebrais nos anos 1950 e 60 já envolvia a retirada de até metade do cérebro de pacientes, que podiam sobreviver ao procedimento. “Ninguém sabia até onde poderíamos ir, claro que deveria parar em um ponto”.

Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 3 de 7

Onde somos lembrados de como a experimentação em animais, embora polêmica, foi não só importante como essencial para diversos avanços médicos que salvaram milhões de vidas. Humanas. Ficamos sabendo ainda que a técnica revolucionária de perfusão para resfriamento do cérebro para cirurgias foi desbravada por White, permitindo operações mais complexas e demoradas em cérebros que do contrário morreriam em minutos. Preservar cérebros vivos por mais tempo. Parecia uma boa idéia.

Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 4 de 7

Finalmente chegamos perto dos finalmentes. Os experimentos soviéticos com cachorros inspiraram a aplicação em animais mais próximos de nós. Macacos. Manter o cérebro isoladamente era inviável, mas a cabeça inteira, preservando os nervos e outros sistemas associados… a idéia se tornava mais plausível.

Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 5 de 7

Nos anos 1960 e 70 o neurocirurgião finalmente experimenta em macacos. Com relativo sucesso: as cabeças ligadas aos novos corpos respondiam a estímulos por períodos prolongados.

Motherboard – Dr. White’s Total Body Transplant – parte 6 de 7

Os finalmentes. Os perturbadores filmes dos experimentos com macacos. White defende o “transplante completo de corpo” para tetraplégicos, com gráficos ilustrativos do processo.

Motherboard -Dr. White’s Total Body Transplant – parte 7 de 7

Robert White menciona como Stephen Hawking poderia se beneficiar de um transplante completo de corpo. “Sua função cerebral, fisiologicamente, poderia até melhorar”, ele diz. “O importante é: nós poderíamos fazer isso“. E termina explicando como tem uma mesa reservada no McDonald’s local.

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O documentário é excelente, sem se preocupar em julgar ou ridicularizar White. Em tempos e sociedades em que mesmo a pesquisa com células-tronco embrionárias são tema de grandes desentendimentos, não é surpresa que as pesquisas e experiências com o transplante de cabeças (ou corpos) sejam um tabu, quando menos porque envolvem a experimentação em animais. Quando mais porque questionam conceitos éticos e morais fundamentais sobre quem somos, ou melhor, quem seríamos se fôssemos submetidos a tal operação.

Mesmo P.Z. Myers, notório ativista ateu e em cujo blog descobri este documentário, chamou White de um “cientista maluco“. Fazendo referência a um personagem de Lovecraft popularizado em filmes de terror, Myers comentou como “é difícil ficar mais Herbert West que isso“. Enquanto é comparado a um criador de zumbis, o Vaticano chegou mesmo a ter o mesmo White como consultor em bioética (!). Não que o Vaticano endosse a idéia de transplante de cabeças, mas seguramente a idéia não é repulsiva para que tenham White como consultor. Entre todas as especialidades, em bioética.

Até onde se sabe, nunca se tentou nenhuma operação de transplante completo de corpo em humanos. Os experimentos de White foram os que foram mais longe, e tiveram sucesso a ponto dos macacos transplantados viverem por vários dias, embora sem qualquer controle ou sensação sobre o corpo. Eles tinham os sentidos associados à cabeça preservados, no entanto: podiam ver, ouvir, mesmo cheirar e sentir gostos.

Desde então, em 2001 experimentos similares foram conduzidos com ratos na Escola Médica Jichi, em Tochigi, Japão. Nesses experimentos, também razoavelmente bem-sucedidos, as cabeças foram conectadas a corpos inteiros, efetivamente criando ratos de duas cabeças, de forma similar aos experimentos soviéticos de Demikhov. De certa forma regrediu-se desde as iniciativas de White.

Em uma notícia da BBC, o professor Stephen Rose, da Open University, mostrou-se indignado com a sugestão de que tais procedimentos poderiam beneficiar pessoas. “Isto é tecnologia médica ultrapassando os limites da loucura e completamente além do que é necessário”, declarou.

“É completamente errôneo sugerir que uma cabeça ou cérebro transplantados estejam de fato conectados a algo exceto em termos de fluxo sanguíneo ao corpo a que foi transplantado. Não estão controlando ou se relacionado a esse corpo de qualquer outra forma. É cientificamente enganoso, tecnicamente e cientificamente irrelevante e além disso uma violação grotesca de qualquer consideração ética. É mistificação chamar isso seja de transplante de cabeça ou cérebro”.

Para Rose, a forma apropriada de auxiliar tetraplégicos seria continuar as pesquisas para a regeneração do sistema nervoso. Isso, contudo, ainda não ajudaria pacientes como… Stephen Hawking.

Outras questões em jogo envolvem o fato de que um corpo inteiro (ou “total”) poderia salvar uma “cabeça”, uma vida, mas poderia alternativamente salvar ou melhorar várias vidas se os seus órgãos fossem transplantados separadamente. Seguramente prioridade deve ser dada a beneficiar o maior número de pessoas com os recursos disponíveis. E lidar com corpos como recursos é ainda outra questão sensível. O próprio White reconhece que seu procedimento de “transplante total de corpo”, ainda que bem-sucedido, poderia beneficiar alguns, ou “no máximo 10.000 pessoas. Não estamos falando da cura para o câncer aqui”.

E no entanto, como White pergunta sem muita hesitação, quem negaria a Stephen Hawking o direito de um novo corpo? Hawking dificilmente concordaria com o procedimento, mas a rejeição da idéia como absurda ou grotesca me parece um tanto irracional. Pelo momento, os riscos e dificuldades parecem não justificar a experimentação em humanos (e, alguns diriam, em animais), mas em alguns anos, quando se possa regenerar conexões nervosas por exemplo, pode ser não só possível como apropriado em alguns casos especiais considerar a idéia de um… transplante de cabeça. Ou “de corpo completo”. Pense nisso.

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Tudo isso parece muito para sua cabeça? Bem, enquanto o Dr. White estava transplantando (ou não) cabeças de macaco, Hollywood explorava… “A Coisa com Duas Cabeças“:

A emocionante aventura de um homem rico branco que tem sua cabeça transplantada para o corpo de um desbocado homem negro. Esta dupla da pesada fica pronta para arrumar muitas confusões.

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Discussão - 13 comentários

  1. Karl disse:

    Legal, Kentaro. Vou postar. Te aviso.

  2. João Carlos disse:

    Milhares de objeções liminares… A começar pela já citada:
    “É completamente errôneo sugerir que uma cabeça ou cérebro transplantados estejam de fato conectados a algo exceto em termos de fluxo sanguíneo ao corpo a que foi transplantado.”
    Se é só para manter a cabeça viva por irrigação, uma máquina pode dar conta disso…

  3. Heberth de Paula disse:

    Fiquei curioso com uma coisa: se eu transplantasse uma cabeça de um senhor de 80 anos para um corpo de um recém-nascido anencéfalo (para reduzir os problemas éticos!) teria mais 80 anos de vida? será?

    • Daniel disse:

      Acho que não, o cérebro tem seu tempo de vida assim como todos os outros orgãos, porém por exemplo: um obeso terá parada cardíaca muito antes de seu cerébro morrer. Esse transplante pode aumentar o tempo de vida, mas vai depender da saúde de cada um, to certo?

    • Vanessa Lin disse:

      Creio eu que, para começo da conversa, não é possível implantar a cabeça de um idoso num corpo de um recém-nascido (quando isso for possível), teria q ter minino um corpo com estrutura adequado, digamos um corpo adulto.
      Segundo, a idade pode ser definida como os anos de experiência vivenciado, que também envolve a “idade mental” e a “idade dos órgãos” (seu desgaste ao longo da vida). Então, ao meu ver, a idade desse paciente teria que levar em consideração esses aspectos, que talvez tenha a sua idade “separados”.

  4. Jonathan disse:

    Bem Frankenstein, essa idéia realmente me deu medo. Não sei se isso seria algo bom, credo. Hoje, para mim, parece história de terror.
    Ah, e parabéns pelo texto, muito bom. Nem sabia que existiam esse tipo de pesquisa.

  5. Karl disse:

    Postei. Não como gostaria, mas está lá. Grande abraço. Obrigado pelo estímulo.
    http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2009/04/merleau-ponty.php

  6. Ótimo texto! Acho que já podem começar a armazenar as cabeças como em Futurama!

  7. Augusto disse:

    Soa bem insano, pros termos, ann… culturais, transplante de cabeça ou cérebro. Mas isso por causa da mente, talvez. Tabu mesmo.
    Eu sou doador, quando eu morrer meus órgãos vão para outras pessoas. Meu coração vai carregar meus amores e angústias para quem recebe-lo? Minhas córneas carregarão tudo o que testemunhei? Meu fígado tudo o que entornei?
    Imagino que antes de criticar esse tipo de transplante de cabeça, as pessoas devam se informar sobre biologia. Porque as lembranças só pertencem ao órgão cefálico.
    Frankenstein? Alguém viu este filme? Todo o preconceito que o “monstro” sofreu? Hawking seria perseguido na rua com tochas e enxadas?

  8. Carlos Thiago Nery disse:

    Muito interessante… Já tinha lido sobre a experiência dos soviéticos mas achei que tinham abandonado por causa do tabu. Que bom que não. Acho que a ciência está aí para mexer mesmo com tabu e, DEPOIS do sucesso científico, a sociedade que decida o que fazer. Pensar é difícil… pensar com os outros então é pior ainda.

  9. marcelo disse:

    sem comentarios

  10. igor disse:

    Pobre Dr. White. Perdeu a cabeça…

  11. Guericke Sergio de Abreu disse:

    Acredito que isso possa ocorrer sim, com os estudos avançados das celulas troncos talvez possa se regenerar nervos, para que entao a pessoa possa controlar seu corpo normalmente, logico que necessitaria de uma fase de adaptação, penso eu que talvez com um transplante de cerebro, pode se fazer uma pessoa viver mais ou menos 150 anos, e caso seja descoberto algum modo de o cerebro nao invelhecer muito, pode se fazer um transplante que deixaria a pessoa viver por anos e anos, trocando de corpo a cada 70 anos por exemplo, fazendo um clone com seu dna seria mais facil, porque com isso o seu cerebro se adaptaria mais facilmente ao seu novo corpo, logicamente fazer algum modo por meio de maquinas que faça esse novo corpo nao ter cerebro, e mesmo assim manter suas funçoes vitais, como batimentos do coraçao, atividade muscular. Talvez hoje ele pode ser considerado como louco mais no futuro como genio, assim como muitos que pensaram no transplante de coraçao a muito tempo atras, pessoas que pensam acima de seu tempo, espero que eu seja uma delas, tive essa ideia e vi que ja estao começando esperimento com isso, seria muito legal coloca-la em pratica, nao me interessava muito por biologia, mas depois que começei a pensar na biologia alem da evolução me interessei e tive essa ideia. Posso ser considerado louco, mas e dai estou querendo evoluir, talvez daqui algum tempo alguem que consiga fazer isso vai ser considerado genio.

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