Gripe suína: “Vamos todos morrer” (Lições de 1976)

Atenção: foi confirmado que um recruta do exército americano de apenas 19 anos, David Lewis, faleceu menos de 24 horas depois de sentir-se cansado e fraco. Pior, ele não se sentia gravemente doente – não achou necessário procurar os médicos ou deixar de participar de um exercício. A rapidez com que padeceu é assustadora, e a causa da morte foi confirmada como a gripe suína. Outros membros da tropa também foram contaminados e adoeceram.

Detalhe: Isso ocorreu em fevereiro de 1976, há mais de trinta anos, quando irrompeu um surto de gripe suína nos EUA. O episódio é extremamente relevante nesta iminência da pandemia de gripe A(H1N1), e o tenebroso comercial que você confere acima é bem real, parte de uma das primeiras incursões de governos na televisão para a conscientização de um problema urgente de saúde pública. Hoje vemos claramente, um tanto questionável.

Mas propagandas de terror não foram o pior que ocorreu então. Como é o tema da própria propaganda televisiva, em 1976 o então presidente americano Gerald Ford determinou a vacinação em massa de toda a população como forma de conter a doença, temendo que “o vírus de 1918 houvesse retornado”.

É uma decisão discutida até hoje, porque ao final, a única morte devido à gripe suína no surto de 1976 foi a do recruta Lewis. Por outro lado, pelo menos 25 pessoas faleceram por complicações causadas pela própria vacina. Apenas 200 pessoas foram infectadas, sendo Lewis a única vítima fatal, mas dos 40 milhões de americanos vacinados (o programa foi interrompido), 25 faleceram devido a uma síndrome provocada pela vacina. Dito simplesmente, a vacina matou mais do que a doença. Leia mais na Folha: EUA viveram surto de gripe suína em 1976; vacina gerou mortes.

Antes de jurar nunca tomar uma vacina ou evitar todas as recomendações do governo, no entanto, tome alguns minutos para conhecer ou lembrar um pouco melhor o que ocorreu há trinta anos e como isso é relevante hoje.

De volta ao futuro

Voltemos a 2009. Nos próximos meses, há fortes indicações que a pandemia de gripe suína estará estabelecida, e vacinas devem ser disponibilizadas. A OMS fará recomendações e governos discutirão quais, se e como aplicá-las em grande escala em seus países, o que ainda deve depender de quão grave realmente é o vírus com que nos deparamos. E, com certeza, ouviremos falar muito mais sobre o episódio de 1976.

Considerando como hoje mesmo vacinas de segurança e eficácia estabelecidas ainda são evitadas por pessoas que acreditam que seriam apenas conspirações malignas da indústria farmacêutica, a polêmica atual de usar ou não máscaras ou viajar ou não é apenas um anúncio do que está por vir. Ou melhor, se repetir. Mesmo em 1976 o programa de vacinação americano, até então sem precedentes e até hoje um dos maiores já promovidos, foi assolado por muitos problemas e discussões.

Não pretendo me antecipar muito à discussão que deve vir; ela deve ser muito positiva e contará com dados mais completos dos que dispomos agora, bem como será promovida por figuras bem mais qualificadas que o autor que escreve aqui. Mas desde já dispomos de alguns dados, e este autor pode oferecer algum comentário que talvez seja útil.

Antes de mais nada, nesta que deve ser uma pandemia mais do que anunciada já houve mais de uma morte confirmada. No momento em que escrevo, 3 de maio, segundo a OMS já teríamos 17 mortes entre +600 infectados confirmados em todo o mundo. Isto é, há pouca dúvida de que a situação hoje é comprovadamente mais grave e preocupante do que o surto de 1976 nos EUA.

E então, a questão que pode valer milhões de vidas (ou não): a decisão de vacinar toda a população americana foi um erro? Em retrospecto, é evidente que foi, mas aqui está o que penso ser a lição mais importante de todas. No contexto da situação, pode-se argumentar que apesar de ultimamente errada, a decisão fora acertada. Confuso? Bem, acompanhe o pronunciamento feito pelo presidente Ford na época:

“Fui aconselhado de que há uma possibilidade muito real de que, a menos que tomemos medidas contrárias efetivas, poderá haver uma epidemia desta perigosa doença no próximo outono e inverno aqui nos Estados Unidos. Deixe-me declarar claramente neste momento: Ninguém sabe exatamente quão séria esta ameaça pode ser. Ainda assim, não podemos apostar com a saúde de nossa nação. Desta forma, anuncio hoje as seguintes ações … a produção de vacina suficiente para inocular todo homem, mulher e criança nos Estados Unidos…”

Se o governo iria errar, erraria pelo excesso de precaução. Como depois se constatou, de fato a vacinação fora desnecessária e a medida um erro, mas foi a “ação errada pelos motivos certos“. Trinta anos depois é fácil condenar a decisão de Gerald Ford e as agências governamentais que o aconselharam, mas apenas porque tendemos a superestimar nossa capacidade de adivinhar algo depois que este algo já ocorreu.

Mesmo considerando 25 mortes, fato é que 40 milhões de pessoas foram vacinadas na campanha de 1976. É mais provável morrer atingido por um raio, e muito mais provável morrer por uma gripe comum do que por causa de uma vacina, mesmo uma vacina como a aplicada então. As vacinas antigripais de hoje são ainda mais seguras.

No momento, nos vemos na mesma situação onde “ninguém sabe quão séria esta [nova] ameaça pode ser”. E, como em 1976, poucos devem discordar que “não podemos apostar com a saúde de nossa nação”. Embora isto não seja motivo para abraçar qualquer medida drástica, apenas para “fazer algo” (às vezes não fazer algo é fazer algo), e se decidir movido pelo pânico nunca deve ser positivo em nenhuma situação, torçamos e tomemos ações para que daqui a trinta anos possamos olhar para trás e dizer que se erramos, erramos pelo excesso de precaução, pela sorte de lidar com um vírus menos perigoso do que o temido.

O outro cenário de erro ao lidar com o surgimento de uma nova pandemia é um que de certa forma já ocorreu. Como William Brandon da Universidade da Carolina do Norte nota (PDF), poucos anos depois do “fiasco” da vacinação de 1976 uma nova questão de saúde pública foi descoberta. Em 1981 o Centro de Controle de Doenças dos EUA publicava o primeiro estudo ligado ao que depois seria conhecido como AIDS. “Se o episódio da gripe suína [de 1976] foi um caso de exagero face a uma doença infecciosa, a AIDS tem sido um registro lamentável de parálise ideológica e má-vontade federal em agir efetivamente”, conclui Brandon.

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Leia mais

O que você precisa saber sobre a gripe suína;

EUA viveram surto de gripe suína em 1976; vacina gerou mortes

Vírus, ciências e homens – Resenha que inclui um breve comentário sobre o episódio de 1976;

1976: Fear of a great plague;

In the Age of Bioterrorism, an Affair to Remember: The Silver Anniversary of the Swine Flu Epidemic That Never Was (PDF).

Mantenha-se informado no portal do Ministério da Saúde e acompanhe a cobertura feita pelo ScienceBlogs Brasil.

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Discussão - 4 comentários

  1. Hugo disse:

    Perai, vamos com calma!
    O paralelo com a AIDS é questionável, pois a AIDS tem uma forma diferente de disseminação que a torna previnível (exceto nos casos de mães que passam para seus bebês).
    Com a gripe é diferente, só de chegar perto pode-se contaminar uma pessoa, literalmente. Ainda que a AIDS ganhe na letalidade, e gripe pode se alastrar e criar pânico mais facilmente.

  2. Kentaro Mori disse:

    Hugo, inicialmente escrevi aqui uma resposta a seu comentário — os paralelos com a AIDS eram mesmo bem limitados, e pensei que o texto deixava tal claro — mas refleti e achei por bem remover os parágrafos finais que comentou. Eles realmente chamavam atenção demais a uma idéia que provavelmente se sobressairia sobre todas as outras do texto, o que não era a intenção. Agradeço o comentário, e espero que a mudança que fiz tenha melhorado o post.

  3. Patola disse:

    O que eu acho foda de todos esses blogs por aí é que poucos dos autores dos artigos sobre esse tópico chegaram a ter epidemiologia na faculdade ou mesmo leram algum livro acadêmico sobre isso. Temos muita gente sem conhecimento dando seu palpite – e como diria a Lei de Murphy, “numa discussão acalorada, quem mais fala é sempre o que menos sabe sobre o assunto”.
    Uma coisa sobre o soldado que morreu me intrigou. A provável pandemia foi evitada muito precocemente com 40 milhões de vacinas, que no entanto tiveram como efeito colateral 25 mortes. Alguém que saiba epidemiologia pode me dizer se há um jeito de prever com alguma segurança quantas pessoas teriam morrido se as vacinas não tivessem sido aplicadas? Porque de repente teria havido bem mais do que 25 mortes por causa da gripe de 1976 e no final a vacinação em massa tenha valido bem a pena, mesmo com as 25 mortes infelizes.

  4. Vinicio disse:

    Ainda acho que hipocondria é bem mais contagiosa. Tem gente aí histérica com gripe comum, se auto medicando adoidadas com benegripes da vida.
    Falta de informação (ou capacidade de compreende-la) são os primeiros sintomas.

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