"Este vídeo de um 'rádio de plasma' tem sido popular em blogs russos nos últimos dias. O efeito exibido é muito interessante, e aqui está uma breve história para entendê-lo:
Local: cidade de Brovary, Rússia
Potência do transmissor: 150 KW
Outros ingredientes: antenas soviéticas antigas, cabo de 90 metros de comprimento
Isso é todo o necessário para experimentos PERIGOSOS para receber ondas de rádio. Na área sob efeito das ondas de rádio uma grande diferença de potencial emerge. Por causa da modulação do sinal de rádio o arco elétrico começa a vibrar com a voz humana e começa a 'falar'. A intensidade da corrente em tal 'rádio' pode chegar a centenas de Amperes e pode facilmente derreter metais. Tal eletricidade não tem barreiras e pode passar por um galho.
Não tente isso em casa!" [English Russia, via Mundo Gump]
Será mesmo verdade? Uma fraude elaborada? Uma lenda urbana? Aqui em 100nexos, as respostas lêem VOCÊ!! Read on.
Rádio Galena
Entre os rádios mais simples que podem ser criados estão os chamados rádios galena, que podem ser fabricados no estilo MacGyver com um fone de ouvido, fios elétricos, lápis, alfinete, uma lâmina de barbear e... um tubo de papel higiênico. Vazio. No vídeo abaixo você confere um destes rádios em funcionamento, sem baterias:
Não é um truque! Este tipo de receptor de rádio improvisado foi bem utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, quando conseguir aparelhos de rádio podia ser um grande problema, e é parte de projetos de feira de ciência e entusiastas rádio-amadores até hoje.
O "segredo" de seu funcionamento se divide principalmente em duas partes. A primeira é que o sinal de rádio captado é AM, em que as ondas de rádio são moduladas em amplitude. Quando há um som mais alto, a onda de rádio transmitida é mesmo mais "alta". Nada mais simples.
Basta então detectar esta onda, e para captá-la uma antena serve. Uma pequena corrente elétrica é induzida na antena que será capaz de alimentar o fone de ouvido - isso mesmo, estamos rodeados por ondas de rádio que podem induzir minúsculas correntes elétricas em objetos condutores por aí. Mas o sinal, se alimentado diretamente a um fone de ouvido não produzirá um som. É preciso retificá-lo, com um... retificador.
E este é o segundo elemento crucial. No rádio do vídeo anterior o retificador é a curiosa combinação do alfinete preso a uma ponta de lápis que toca uma lâmina de barbear enferrujada. No contato entre o grafite do lápis e a lâmina enferrujada, uma junção de dois materiais diferentes, ocorre um efeito capaz de retificar a corrente, permitindo que ela passe apenas em uma direção.
Junte tudo e se tem um rádio. Galena, a propósito, é o nome de um minério um tanto mais apropriado do que o grafite de um lápis para este tipo de rádio, mas o princípio é exatamente o mesmo, incluindo arrastar uma ponta de metal pelo minério. Você confere detalhes e explicações mais rigorosas no Feira de Ciências e em Como Tudo Funciona.
Agora que sabemos mais um pouco sobre como o rádio-galena funciona, podemos especular que no vídeo russo o retificador do sinal talvez fosse o ponto de contato entre os cabos enferrujados ou com algum revestimento que poderia compor uma junção retificadora. Isso seria algo "MacGyvermente" fabuloso.
Rádio Cabo-de-aço
Há alguns problemas, no entanto. Assistindo ao vídeo fica claro que ainda que o som seja produzido a partir do contato entre os cabos de aço, eles logo se afastam, aumentando o arco... e o "rádio" continua funcionando! Teria o plasma capacidades retificadoras também? Provavelmente não.
"Eu acho que é bem mais simples que isso. Cortando o cabo do tamanho certo você 'sintoniza' o rádio. As ondas induzem corrente numa antena, e como é AM a intensidade da corrente é modulada pela voz do rádio. O arco voltaico normalmente já faz um zumbido; modulando a intensidade da corrente você modula o zumbido", comentou o Murilo Queiroz.
E realmente, parece ser tão simples assim, sem retificadores, pelo pequeno detalhe de que o som produzido pelo arco voltaico, ao contrário do som produzido por um fone de ouvido, não precisa ser produzido por um sinal retificado.
O que me lembra de que é preciso explicar de onde vem o som no "rádio de plasma" russo. Bem, ele vem do plasma, não muito diferente de um trovão. A corrente elétrica atravessando o ar cria um plasma que, variando em intensidade pode se expandir e contrair, produzindo ondas de som. O que só pode ser ilustrado com os fantásticos vídeos com bobinas de Tesla gerando descargas elétricas moduladas ao som do tema de Super Mario Brothers:
Se o rádio de plasma não possui um retificador como os rádios-galena, por que passamos a primeira metade deste texto falando sobre eles? Porque conhecer rádios-galena feitos com lápis e gilete é importante para apreciar quão fenomenal o "rádio de plasma" pode ser.
Recapitulando: o cabo de aço, com o comprimento adequado para captar a frequência de rádio AM transmitida por um transmissor de 150.000 W próximo, acaba induzindo correntes elétricas suficientes para derreter metal. Ao encostar um outro cabo aterrado, as correntes fluem e então saltam pelo ar, formando um arco com plasma que, variando de intensidade de acordo com a corrente induzida pelo sinal de rádio AM, se traduz em um som audível.
O "rádio de plasma" seria assim ainda mais simples que um rádio-galena e completamente espetacular, desde a ausência de um retificador e filtro, até o risco de vida para os intrépidos rádio-amadores com altas correntes e arcos voltaicos serpenteando pelo ar.
Ou pelo menos, é como pudemos entender o vídeo. Faltava uma maior confirmação. Depois de vasculhar a rede, finalmente encontramos este outro exemplo do mesmo fenômeno:
Neste caso, nem mesmo há dois cabos de aço em contato, e o efeito é produzido diretamente na antena transmissora. Segundo o autor,
"Tudo que é necessário é um rádio de potência suficiente (acredito que se pode conseguir a partir de 50 a 100W como corona, arcos precisam de pelo menos 200W), e uma antena que não seja especificada para a potência em questão".
Aqui a antena sobrecarregada gera descargas pelo ar que, mesmo sem retificação, já produzem sons audíveis. Beira a mágica, o sobrenatural, mas está longe disso. É ciência, ou pelo menos, a explicação bem natural que podemos encontrar para o efeito.
Um tanto mais de pesquisa revela que o fenômeno nem é tão raro. Há histórias, mesmo no Brasil, de cabos de aço em construções que subitamente começam a "falar", para terror dos operários. E, retornando à Segunda Guerra, relatos de "invasores estrangeiros" na Inglaterra sussurando na calada da noite pelas proximidades de transmissoras de ondas curtas teriam sido desvendados após investigação como arcos voltaicos produzidos em cercas de arame farpado! [fonte] Soariam como meras lendas urbanas, mas se tornam mais do que plausíveis agora.
Afinal, ao que parece, com um clipe de papel realmente grande - quem sabe, de 90 metros -, mesmo sem um retificador, bastaria estar próximo de uma transmissora AM na frequência certa para ouvir o seu rádio. MacGyver ficaria orgulhoso.
Não há conhecimento isolado: qualquer informação só é relevante no contexto de outras. E nada melhor para explorar esta teia de infinitos nexos do que um blog na rede.
Em 100nexos, este autor, 



Comments (12)
Vi sobre isso em uma Super antiga (na época em que ela era ´menos ruim´. :-) )
Mais sobre isso na Super
http://super.abril.com.br/superarquivo/1994/conteudo_114012.shtml
Acho que em um episódio do MacGyver ele comentava sobre pessoas que captavam rádio em obturações nos dentes. Mas aí já é bem lenda urbana mesmo. :-)
Posted by: Luís Brudna | junho 8, 2009 12:22 PM