Um pixel, da Terra à Lua, ao infinito e além

mooncloud

Um pedaço de rocha de pouco mais de 1.700 km de tamanho, a 400.000 km de distância da Terra. São números muito grandes, de difícil compreensão, mas é a nossa Lua. Saber que é a nossa Lua, contudo, não deve ajudar muito a capturar suas dimensões e distâncias, até porque nossos sentidos nos enganam. Tente representar com a mão, ou mesmo os braços, o tamanho com que a Lua aparece no céu, por exemplo. Fez o círculo? Muito provavelmente representou algo muito maior do que enxerga.

Pois o tamanho angular da lua no céu é de apenas meio grau. Para ter uma idéia do que isto representa, estenda o braço à sua frente e levante seu polegar: sua largura deve ter de um a dois graus. Isto é, a largura de seu dedão pode cobrir a Lua, de 1.700 km de tamanho, até quatro vezes. É quão pequena a Lua realmente surge no céu. Levante-se e vá conferir! Praticamente todos nós tendemos a estimar o tamanho da Lua no céu como muito, muito maior do que isso (às vezes até usando os braços!) devido à ilusão da Lua. É por isso que a Lua sempre aparece “tão pequena” quando a fotografamos, a câmera não mente, nossa percepção sim.

Felizmente, já há milhares de anos observamos o céu, há alguns séculos passamos a compreender os mecanismos celestes, e há quatro décadas, representantes de nossa espécie, a não mais do que seis graus de separação de você ou eu, pisaram na Lua. Lá já não era mais possível cobrir todo o satélite com o polegar. A menos, é claro, que o polegar ficasse imediatamente à frente dos olhos. Mas então não se enxergaria nada.

Há muitas formas de expressar como esta conquista foi fantástica, mas já que falamos de tamanho, continue lendo para a imagem que é a inspiração para este post, e ir ao infinito – e além.

terra_lua_escala

Criada por Drew Olbrich, a imagem acima representa corretamente na mesma escala os tamanhos e distâncias da Terra à Lua. Estamos acostumados a ver o conjunto ilustrado de forma artística, ignorando as devidas proporções, e tal é compreensível dado quanto espaço vazio existe entre os dois corpos. Mas esta é a realidade: o espaço é um grande vazio. Para ter a perspectiva correta acima, basta se posicionar a aproximadamente 560.000 km de distância. Clique na imagem para visitar a página de Olbrich e conferir versões em maior resolução do conjunto.

“Esta imagem tem maior impacto se você a fizer preencher toda a tela e desligar todas as luzes na sala”, aconselha Olbrich. “Observe-a por algum tempo e tente imaginar que está no espaço olhando para trás através de um tipo bizarro de portinhola”.

Falando em maior resolução, ao contemplar a imagem, pensei como estaria representada em tamanho a espaçonave Apollo na imagem acima. Certamente seriam pontos tão ínfimos que não surgiriam na imagem. A pergunta elementarmente nerd: qual deveria ser a resolução mínima da imagem para que os módulos surgissem como um único pixel?

Apollo_11_lunar_mod

Os módulos de comando e serviço possuíam uma altura de 11 metros. Somado a eles estava o módulo lunar, que pousou na Lua, com pouco mais de 6 metros. Sejamos generosos (e aritmeticamente preguiçosos) e consideremos que todo o conjunto tenha um tamanho de 20 metros. Se ocupassem um único pixel, então os 400.000 km, ou 400 milhões de metros de distância da Terra à Lua, ocupariam 20 milhões de pixels.

Vinte milhões de pixels seriam o equivalente a 10.417 televisões Full-HD, com 1980 pixels na horizontal, dispostas em uma longa linha. Se o monitor de seu computador tiver a resolução de 1024 pixels na horizontal, você precisaria enfileirar nada menos que 19.531 deles para obter 20 milhões de pixels. Caso o monitor meça 40 centímetros de largura, seriam quase quatro quilômetros de monitores.

Em meio a estes quilômetros de milhares monitores, um singelo ponto, um único pixel em movimento representaria na escala correta a espaçonave Apollo. Todo o resto seria espaço vazio. Qualquer partícula de poeira que caísse sobre a tela poderia cobrir todo o pixel. Um único pixel defeituoso já estragaria toda a brincadeira. E os três astronautas em seu interior seriam muito menores que este pixel singular. Eles continuariam sendo pequenos demais para representar mesmo um único pixel em quilômetros de monitores.

Agora imagine estar dentro deste único pixel.

Michael-Collins

“Agora estou verdadeiramente só e absolutamente isolado de qualquer vida conhecida”, escreveu Michael Collins enquanto orbitava sozinho a Lua. Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisavam em nosso satélite pela primeira vez na heróica história destes macacos pelados, todos cobertos de roupas. A solidão de Collins pode não parecer tão grande ao imaginar que, apesar de distantes da Terra, seus dois amigos estavam “logo abaixo”, a 105 km de distância. Collins, porém, estava em órbita ao redor da Lua. A menor distância a seus dois colegas era de 105 km, quando estivesse imediatamente acima deles. Mas ele continuava em órbita. Durante suas revoluções ao redor do satélite, Collins sobrevoou o lado oculto da Lua, onde não só não podia ver Armstrong ou Aldrin, como toda sua comunicação com a Terra se tornava impossível. Foi neste momento que se sentiu “verdadeiramente só”.

Collins também confidenciou em suas notas naqueles momentos: “meu terror secreto nos últimos seis meses foi ter que deixá-los na Lua e regressar à Terra só”. Tente conceber ser menor que aquele único pixel, a 400.000 km de distância, percorrendo absolutamente sozinho quase quatro quilômetros de monitores. “Agora estou a minutos de conhecer o desfecho. Se [Armstrong e Aldrin] não conseguirem sair da superfície, ou se acidentarem na tentativa, não irei me suicidar, mas regressarei à casa e serei um homem marcado pelo resto da vida”.

Palavras tenebrosas que revelam uma dimensão pouco conhecida da missão Apollo 11 e o “astronauta esquecido”, detalhadas (em inglês) em um excelente artigo de Robin McKie para o Guardian. Sabemos que, afortunadamente, nada disso ocorreu. Não apenas na Apollo 11, como em todas as outras viagens tripuladas à Lua, a solidão humana foi limitada sempre a três passageiros fazendo companhia uns aos outros.

O que lembra algo.

Como estamos, somos mais de seis bilhões de passageiros ao que, nas palavras popularizadas por Buckminster Fuller, é a Espaçonave Terra. Não estamos sós, mas toda companhia que temos é a que fazemos uns aos outros. E enquanto a Terra surge como uma esfera definida na imagem acima e ocuparia muitos e muitos monitores à resolução de 20 milhões de pixels na horizontal, mesmo nosso planeta não é especialmente grande. E é apenas um.

Seria impossível não encerrar este texto sem lembrar que assim como a nave Apollo pode representar um único pixel em milhares de monitores, mesmo o planeta Terra representa um único pixel quando visto à distância suficiente, às margens do sistema solar. É o Pálido Ponto Azul. Os temores de Collins quando sozinho em sua nave não revelam fraqueza, revelam a mais perfeita sanidade. São os temores que todos precisamos ter ao lembrar que, a despeito da probabilidade de vida pelo sistema solar e mesmo vida inteligente na Galáxia, até onde sabemos estamos “verdadeiramente sós”, “absolutamente isolados de qualquer vida conhecida” além de nossa própria.

O abismo de solidão que Collins vislumbrou é o mesmo abismo que todos nós, em nosso único Pálido Pixel Azul, contemplamos desde que surgimos na face do planeta. A maioria de nós simplesmente ainda não se deu conta.

Devemos prezar pelo n
osso pixel. E conquistar outros pixels, indo ao infinito e além, para quem sabe conhecer outras formas de vida, “indo aonde nenhum homem jamais esteve”, ou ao menos semear pixels com mais macacos pelados. Não é uma fantasia nerd de ficção científica. Deve ser um anseio natural de toda a espécie humana.

Collins venceu o abismo e retornou a salvo com seus companheiros, cinco outras missões venceram 400.000 km de distância, pousaram na Lua e voltaram ao lar. Somos capazes de feitos tão literal e absurdamente grandiosos que por vezes mal podemos compreendê-los – se apenas tentarmos.

– – –

Este exercício de compreensão intuitiva de escala também serve para entender por que não se pode, mesmo com o telescópio espacial Hubble, em órbita da Terra, capturar imagens dos módulos deixados pelas missões na superfície lunar. Eles são muito menores que a menor unidade de resolução mesmo do Hubble. Imagens muito recentes dos artefatos e mesmo pegadas deixadas pelos astronautas só foram possíveis porque o satélite que as capturou estava em órbita lunar. Imagem no topo via sxc.hu, ilustração da escala Terra Lua via Chongas, comentários de Collins via Fogonazos.

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Discussão - 13 comentários

  1. Homero disse:

    Difícil dizer algo mais que: texto maravilhoso!
    Um grande abraço.
    Homero

  2. Jamil Orlandelli disse:

    Belo texto.Lembrei de Sagan em Pálido Ponto Azul. O menor objeto que o Hubble pode observar na Lua está em torno de 90-91 metros (poder separador de 0,1 segundos de arco). Portanto não há como observar os objetos deixados na Lua com o Hubble nem com nenhum telescópio existente hoje.
    Um abraço
    Jamil (sempre atento ao 100 nexos)

  3. Paloma disse:

    Lindo texto. Coincidentemente está tendo um eclipse lunar penumbral neste exato momento. Ou seja aquele pixelzinho azul está quase alinhado com aquele outro pixelzinho cinza. =]
    As vezes é difícil pras crianças entenderem o contexto e conceitos de distância e tamanho. Mesmo desenhando não fica realista, e elas terminam aprendendo algo um pouco errado.

  4. Patola disse:

    Posso me juntar ao coro? Belíssimo e emocionante texto.

  5. Atila disse:

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  6. Rodrigo disse:

    Odeio coisas que me levam a reflexões niilistas. Especialmente os textos bem escritos.

  7. Vinny disse:

    Para um apaixonado pela Astronomia e pela Ficção Científica (Star Trek e Battlestar Galactica, estou olhando para vocês), este texto foi um achado. “Ótimo” é pouco, muito pouco para descrevê-lo.
    Gostaria eu que TODA a Humanidade tivesse a mesma noção de que somos tão pequenos, literalmente apenas poeira cósmica, e abandonasse a mesquinharia tão típica da raça humana. Infelizmente é apenas um sonho utópico…

  8. Fernanda disse:

    Que texto!
    Você é uma das linhas fortes da rede, entre tantas frágeis, algumas sustentam os motivos da nossa conexão! Divulgarei, conheço pessoas que merecem ler.
    Acompanharei vc daqui ao infinito…

  9. Luri disse:

    Parabéns pelo texto! Passou a informação de uma forma agradável de leitura fácil e fez pensar! Virei fã!

  10. Marcelo Neves disse:

    Texto magnífico. Estou sem palavras!

  11. Daniel disse:

    Fantástico! literalmente viajei

  12. […] Na tela de um computador, já propomos aqui o exercício de Um pixel, da Terra à Lua, ao infinito e além. […]

  13. Excelente. É deste tipo de reflexão que gosto de ler… e escrever… Só que não escrevo tão bem assim! Parabéns.

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