A Humanidade não merece ir à Lua (I)

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Reconhece a imagem acima? Está um tanto distorcida, mas é o Flyer dos irmãos Wright, o primeiro avião a voar em 17 de dezembro de 1903. A razão da pequena distorção é singela: o Flyer está sendo visto como um reflexo dourado em uma réplica do traje lunar de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua em 20 de julho de 1969.

O reflexo no visor recoberto de ouro, em um breve encontro do Flyer original e da réplica do traje de Armstrong, se deu brevemente no ano passado, permitindo a estupenda fotografia repleta de significado. Como destacou a revista Air and Space, apenas 65 anos e meio separam o primeiro avião do primeiro pouso na Lua, ilustrando a rapidez com que fomos de um pequeno vôo a um gigantesco salto. Das asas de pano aos trajes multi-camada capazes de suportar variações de temperatura de centenas de graus e proteger um ser humano em outro mundo. Das dezenas de metros do primeiro vôo, aos quase 400.000 km que nos separam do satélite natural.

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“Imagine nascer em 17 de dezembro de 1890, em um mundo onde os esforços para o vôo motorizado não tinham ido a lugar algum em toda história humana. Em seu aniversário de 13 anos, os humanos finalmente solucionam o enigma de voar. E quando você alcançasse os 79 anos e meio, humanos pisariam na Lua. Coisa pouca, não?”.

Como não se orgulhar disto? Apesar de todas nossas limitações, fomos capazes de em menos de três gerações não só conquistar o vôo dos pássaros, como realizar um feito que até onde sabemos nenhum ser vivo, terrestre ou não, realizou em bilhões de anos. Não existem pássaros capazes de ir à Lua. Pisar na Lua representou o ápice daquilo que nos faz humanos, daquilo que podemos fazer e que, até onde sabemos, ninguém nem nada mais pode fazer.

Se não formos nós a colonizar outros planetas, não há evidência de que a natureza colonize com vida abundante o sistema solar, muito menos outros sistemas estelares. De fato, é possível que outros planetas no sistema solar como Marte já tenham abrigado vida, mas hoje ela mal se faz presente, se é que ainda existe. A terceira grande rocha a partir do Sol é o único local onde conhecemos vida, e vida com uma diversidade incrível.

Incluindo aí uma espécie capaz de visitar outros mundos não através de alguma característica biológica especial desenvolvida pela evolução em bilhões de anos. Nada contra os pássaros e seu vôo. Mas somos capazes de feitos concretizados por tecnologia, que transforma em 65 anos um avião de madeira e pano que mal se sustenta no ar em um foguete de 100 metros de altura e mais de 3.000 toneladas capaz de lançar 47 destas em órbita de outro mundo.

Podemos isto porque somos humanos, e se há algo com que se orgulhar em ser humano, é lembrar do que fizemos, do que pudemos e principalmente, do que podemos fazer. Não se pode enfatizar o quanto de mais valoroso o sucesso do projeto Apollo representa, as conquistas são intermináveis.

Depois de todo este entusiasmo, no entanto, no próximo texto tentarei explicar por que o projeto Apollo também representa por que não merecemos ir à Lua, em uma série de textos aqui em 100nexos com algumas reflexões sobre o cancelamento do projeto americano de retornar à Lua noticiado recentemente. [imagem via cgr v2.0]

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Discussão - 11 comentários

  1. Alessandro disse:

    Poxa Kentaro, até você dando os créditos para os Wright? A geringonça deles foi lançada por uma catapulta. E daí que a FAI reconhece? Vamos continuar insistindo que o primeiro foi o Dumont!

  2. Mikael disse:

    Eu sei mais ou menos por que não merecemos. A meta de nossa sociedade como um todo não é explorar e sim conquistar, temos como objetivo primário garantir nossa sobrevivência imediata através do acúmulo de alimentos e segurança no nosso habitat. Não pensamos num futuro distante, não projetamos nossa vida assim, “como nossa sociedade poderá ser em 100 anos se eu individualmente contribuir para torna-la algo muito melhor e mais prático”.
    São poucas as pessoas que pensam além, e elas apenas sonham com as possibilidades, por que elas estão presas ao sistema que todas as outras usam, esses sistema fechado de trabalhar para garantir a comida de amanhã, e não 50 anos ou mais. As mudanças e melhorias são pequenas porque são só poucas pessoas que melhoram a tecnologia, o resto só a usa e dá graças a deus por serem fácil de usar ou consertar, e barata.
    Como extrativistas avarentos que somos, a Lua é só uma pedra que custa muito caro para minera-la. Nossa meta em descobrir planetas habitados ou civilizações extraterrestres é o intercâmbio de tecnologia. Posso parecer pessimista, mas infelizmente é assim que a maioria pensa.

  3. Acid disse:

    Muito bom! Muito bom!

  4. Ligeirinho disse:

    Irmãos Wright!?
    Hj, se fossem vivos, eles seriam uns daqueles ‘designers”, do tipo que, por exemplo que apresenta o desenho de, sei lá, um notebook transparente que se dobra em 8 (pra vc colocar no bolso) e é alimentado pela energia dsa tecladas do usuário.. mas que qdo lhe pedem um protótipo funcional dizem que infelizmente a tecnologia que eles precisam ainda não está disponível rs

  5. Kentaro Mori disse:

    No próximo texto irei mencionar Santos Dumont, mas é preciso reconhecer sim os feitos dos irmãos Wright. Seu Flyer era capaz de longos vôos controlados, e o fato de depender de uma catapulta para alçar vôo é um detalhe assim como é um detalhe que o 14-bis era capaz apenas de pequenos e curtos vôos escassamente controláveis.
    Pessoalmente acredito que um dos mais se não o mais importante avião pioneiro foi o Demoiselle do nosso compatriota Dumont, mas fato é que se é para estabelecer qual foi a primeira “máquina mais pesada que o ar” com asas e propulsão própria, que é para todos fins práticos um avião, então os Wright têm sim o mérito de serem os primeiros.
    Se Dumont houvesse voado com seu 14-bis no mesmo dia que os Wright, a discussão seria bem válida sobre qual das duas máquinas mereceria o título, já que ambas têm peculiaridades e diferem muito dos aviões que os sucederam. Mas os Wright voaram anos antes que Dumont. Não há porque desmerecê-los pela catapulta — há que talvez criticá-los pelo pouco que contribuíram para a disseminação do vôo, muito ao contrário de Dumont.

  6. Carlos disse:

    Irmãos Wright?
    Normal considerando que USA é o mundo e americanos são a humanidade.
    Afinal, qual outra nação foi a lua?

  7. João de Carvalho disse:

    Ótimo texto, Kentaro, como sempre.
    O espaço é para os robôs. É a coisa mais hostil, inumana e abissal que existe. É a maior roubada ir lá, e, à medida que os robôs ficarem mais sofisticados, não haverá a menor necessidade disso. Colonização de outros planetas é um sonho delirante completamente inviável. Além do que, para que deixar a Terra para ir viver em um lugar como Marte ou a Lua? Acredito que a era da ficção científica esta acabando.

  8. MattSimonato disse:

    Excelente texto.
    E os irmãos Wright tinham o melhor avião sim. Eles levantaram voo antes, com um avião controlável e mais estável que o 14 Bis.
    Isso porém não significa de nenhuma forma que Santos Dumont não tenha seu valor, assim como os EUA terem ido a lua não significa que as equipes soviéticas tenham perdido sua importância, em colocar, por exemplo, o primeiro satélite em órbita.
    Parabéns novamente.

  9. Sibele disse:

    Realmente, a inusitada imagem do Flyer dos irmãos Wright, rústico e tosco, refletindo no visor da réplica do traje lunar ultra-tecnológico de Arsmtrong proporcionou um contraste e tanto.
    Texto excelente, Kentaro! Parabéns! Vamos ao próximo…

  10. Devanil disse:

    Muito bom Kentaro…
    Vou ler as outras partes para dar uma opinião melhor =)

  11. Herbert Ferreira disse:

    Dumont, incondicionalmente o Pai da Aviação!!!
    Até hoje nenhuma réplica do equipamento dos Wright conseguiu reproduzir o mesmo vôo. Assim sendo, a teoria de que essa é a maior mentira da aviação para mim se confirma, uma vez que não há registro oficial de tal evento e que as testemunhas eram empregados e parentes dos Wright Bros.
    Por outro lado, Alberto dos Santos Dumont (o genuíno) alçou vôo em uma praça pública de Paris “para todo o mundo ver” e seu vôo foi registrado em vídeo.
    Mas é aquela história: “Uma mentira dita uma vez é mentira, dita cem vezes torna-se verdade”.
    Viva Santos Dumont!!!!!

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