A Humanidade não merece ir à Lua (III)

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A história do desenvolvimento do Concorde lembra muito o dilema do prisioneiro. Em menos de dois anos os custos já haviam dobrado, e frente a uma crise econômica, o governo britânico tentou abandonar o projeto em 1964. Como vimos, havia um porém. O novo governo de Harold Wilson descobriu que deveria pagar ao parceiro francês uma multa pelo abandono tão grande que na prática seria tão cara quanto continuar financiando o projeto.

Os franceses, por sua parte, seguramente não ficaram felizes em financiar um custo mais de seis vezes superior – e em algumas estimativas, mais de quinze! – ao orçamento inicial por um avião que mesmo antes de ser completado já dava sinais de que não operaria com lucro. Isto é, além de tudo, o investimento brutal não seria recuperado. Em vários momentos, os franceses também buscaram abandonar o projeto, mas então, seriam eles a pagar multas aos britânicos.

A solução racional era e é óbvia. Bastava que os dois países sentassem de novo à mesa e cancelassem o projeto conjuntamente, revisando o tratado. “Mas em vista da forma como o tratado havia sido firmado, nenhum dos lados podia permitir que parecesse que era aquele desejando o cancelamento, uma vez que o outro veria uma chance de recuperar seu prejuízo ao afirmar que eles, claro, queriam continuar”, escreveu Peter Gillman no The Atlantic pouco após a entrada em serviço do avião em 1977. Como no dilema do prisioneiro, as partes foram incapazes de cooperar frente à possibilidade que a outra levasse vantagem, e se viram assim condenadas a um prejuízo combinado muito maior.

Que um acordo lembrando um dilema da teoria de jogos fosse firmado é impressionante em si mesmo. Como explicá-lo? “Em cada caso, motivações tecnológicas e políticas superaram considerações econômicas”, conclui um estudo de historiadores da Universidade de Westminster. Motivações tecnológicas e políticas e a própria Teoria de Jogos nos levam finalmente de volta ao projeto Apollo.

sputnik

O dilema do prisioneiro que levou o homem à Lua começou com a surpresa do Sputnik em 1957. Uma enorme conquista tecnológica, o primeiro satélite artificial, e também um aviso aos americanos de que os russos haviam lançado sobre suas cabeças uma pequena esfera metálica contra a qual nada podiam fazer. A esfera polida era bela, brilhante e inofensiva, transmitindo simples bips eletrônicos. Mas bem poderia ter sido uma arma. De certa forma, havia sido uma arma psicológica poderosíssima. Não houve dilema do prisioneiro em maior escala do que a Guerra Fria.

Começava naquele momento a corrida espacial, que de início possuía um sentido muito claro: domine-se o espaço, domine-se o planeta. Mesmo a conquista da Lua era um objetivo claro. Conquiste-se a Lua, conquiste-se o planeta: o primeiro país a colonizar a Lua encontraria lá uma plataforma de lançamento invulnerável a partir da qual se poderia aniquilar a própria Terra. Quando Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a orbitar o planeta, John Kennedy finalmente se convenceu de que os americanos escolheriam ir à Lua não porque era fácil, nem apenas porque era difícil, mas porque representava o ponto de chegada de uma corrida que de início parecia valer tudo ou nada. E eles estavam perdendo. TVs coloridas de nada adiantariam em meio a uma chuva de ogivas nucleares do espaço.

Como o orçamento inicial do Concorde, isso rapidamente mudou. Com o desenvolvimento de submarinos nucleares, mísseis podiam ser lançados do fundo do mar de qualquer ponto dos oceanos, mesmo sob as calotas polares, representando uma plataforma de lançamento móvel praticamente invulnerável. No evento de um apocalipse nuclear, tanto astronautas na estação espacial quanto marinheiros em submarinos nucleares sobreviverão dentro de suas latas um pouco mais do que nós sobre a terra devastada. E submarinos são muito mais baratos que estações ou colônias espaciais. Foi acima de tudo a economia que fez com que um thriller como “Caçada ao Outubro Vermelho” envolvesse submarinos e não naves espaciais.

Em meados dos anos 1960 já era claro que chegar à Lua não significava o ponto final e definitivo de uma dominância absoluta no espaço, muito menos do planeta. O projeto Apollo, no entanto, já estava em curso e abandoná-lo não era uma alternativa viável em plena Guerra Fria, por “motivações tecnológicas e políticas”. Os EUA precisavam reafirmar sua superioridade tecnológica ainda que no espaço ela não significasse tanto quanto se imaginava de início.

Curiosamente, o projeto Apollo não estourou seu orçamento inicial, mas a explicação talvez esteja na anedota de que o administrador da NASA, James Webb, pediu que seus engenheiros fossem muito sinceros ao estimar os custos do programa – e então dobrou o valor antes de apresentá-lo a Kennedy. Em seu ápice, ele consumiu mais de 5% do orçamento federal de todo os EUA, algo impossível fora do contexto da Guerra Fria, com o objetivo único de pisar na Lua.

E esta se tornaria a tragédia do projeto Apollo. No próximo texto.

[Imagem do topo: ctechs/sxc.hu]

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Discussão - 5 comentários

  1. edimar esteva, disse:

    Ótimo texto, Kentaro. Já tenho 22 anos e estou começando a achar que não irei ter chance de realizar um dos meus sonhos, que é ir ao espaço, antes de eu morrer, a menos que eu vire bilionário nos próximos anos. Antes mesmo de ler seus post dessa série, eu já achava que nem mesmo daqui a 20 ou 30 anos o ser humano já teria tecnologia suficientemente barata e acessível capaz de levar não só 2 ou 3 pessoas ao espaço por ano, mas milhares, como eu gostaria. Sei que minhas palavras parecem exageradas, mas quando será que finalmente nos tornaremos mais humanos e menos animais? Acho que vai demorar, mas até á continuarei a ler seus excelentes post. Um abraço, até a próxima.

  2. cassio silveira disse:

    Texto fantastico. Continue publicado, aguado ancioso pelo proximo.

  3. Sibele disse:

    Kentaro, você poderia ser facilmente escritor de suspenses, pelo que vejo nessa série. A cada post só faz aumentar nossa curiosidade e interesse pelo que vem a seguir.
    Os textos estão excelentes!
    E enganei-me, pensando que com esse a série teria terminado: vejo que haverá mais pela frente, então tenho que me redimir pelo meu comentário anterior: você pode, sim, me culpar (e a todos seus leitores, rs) pela responsabilidade em escrever os próximos posts, viu? :D
    Aguardamos!

  4. Rerolde Martins disse:

    Muito bom o texto, o suspense e as aparentes fugas ao tema.
    Parabéns…

  5. José Agripino Duarte disse:

    Eu me pergunto como a humanidade conseguiu ir a Lua, construir estações espaciais, observar as mais longíquas galáxias, etc e ainda não descobriu como produzir energias limpas e baratas, recuperar áreas em processo de desertificação,recuperar fontes de água potável, promover melhor distribuição de renda, alimento, água e medicamentos para as pessoas entre outros problemas mais simples e baratos de serem conquistados do que ir pro espaço? Por que a humanidade se preocupa menos com a humanidade e mais em explorar o que há la fora? Não há nada lá fora a nao ser silêncio, frio e planetas inóspitos. Acho que se todo os recursos gastos com viagens espaciais, que algumas vezes falharam, fossem investidos em recuperar a sujeira que nós deixamos na Terra, com certeza não haveria tanta preocupação com o futuro. um dia nossos netos vão nos chamar de idiotas por ficarem tão admirados pelo espaço enquanto nossa casa está caindo aos pedaços, e que os primeiros a pagarem esse preço foram os que menos contribuíram com a bagunça: os paises pobres. Não me importo se ainda não fomos pro espaço, só quero que no futuro nossos netos possam respirar ar puro, beber agua limpa, terem saúde e viver num planeta lindo e verde como é a Terra, hoje. O espaço pode esperar. Parabéns pelo texto

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