Divulgando ciência “errada” do jeito certo

“O Sol é uma Massa de Gás Incandescente” pode soar como mais um daqueles “fatos científicos” de um monótono livro. Mas em sua versão em inglês já permite perceber a rima que pode formar mesmo um refrão: “The Sun is a Mass of Incandescent Gas” – repita três vezes, ou assista ao fantástico clipe da música acima cantada pelos They Might Be Giants, todo legendado para vocês.

Já havíamos destacado as excelentes canções de divulgação científica da banda TMBG no ano passado, mas um detalhe passou despercebido. A música acima é a nona faixa do CD e DVD, intitulada “Por que o Sol Brilha?”. Ela é seguida pela última faixa, “Por que Realmente o Sol Brilha?”. Porque, muito simplesmente, a divertida música original de divulgação científica estava errada.

Confira a próxima faixa, também legendada, “Por que Realmente o Sol Brilha?”:

O refrão é agora “O Sol é um Miasma de Plasma Incandescente”, ou na rima em inglês, “The Sun is a Miasma of Incandescent Plasma”. Não é realmente feito de gás, e sim de plasma, “nem gás, nem líquido, nem sólido”, o quarto estado da matéria.

É sensacional apresentar duas músicas bacanas, uma após a outra, em que a segunda contraria a primeira. Alguns estranhariam, mas esta é a própria natureza do processo científico, e pode ser bem entendida porque a música original ensinando que o Sol é uma massa de gás foi originalmente escrita da década de 1950, baseada em um livro de divulgação de 1951.

A série original de discos de vinil de onde a banda TMBG tirou a música sobre o Sol foi produzida há mais de meio século por Hy Zaret e Lou Singer, e algo fortuitamente curioso é que Zaret também escreveu a letra de “Unchained Melody”, uma das mais tocadas músicas de todos os tempos, conhecida mesmo das gerações atuais como “a música do filme Ghost”. Da próxima vez que escutar o refrão “oooohhhh my love”, você pode se lembrar que o mesmo compositor ensinava que “the sun is a mass of incandescent gas”. e tantas outras lições que ao contrário desta continuam válidas – mas podem se mostrar não tão válidas em mais alguns anos.

Em tempos de Internet, Jef Poskanzer converteu todos os discos da série original “Baladas para a Era da Ciência” ao formato digital e disponibiliza as músicas para download, são imperdíveis. Clique para conferir:

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Imperdíveis, ainda que algumas contenham conhecimento datado, e que de fato, já era datado na década de 1950. A divulgação científica não raro caminho com um pouco de atraso em relação aos avanços da ciência, e antigamente isso era ainda mais verdade. Mais importante que uma coleção de “fatos”, seja o sol gás ou plasma, é entender que a ciência envolve o método científico através do qual o conhecimento é constantemente atualizado.

O caso das músicas lembra outro episódio de letras de música com referência à ciência sendo corrigidas, como “Nine Million Bicycles” de Katie Melua, que já foi blogado por aqui em 2008. Você também pode conferir Michael Shermer comentando o caso no final de sua apresentação TED em 2006 (pouco depois dos 11 minutos), clique em “view subtitles” para legendas.

Cientistas ou mesmo divulgadores de ciência não são seres perfeitos. Além dos erros, há fraudes e há mau caráter como em todo empreendimento onde houver seres humanos. Mas em nenhum outro empreendimento humano a busca, exposição e reconhecimento de erros e enganos é um dos mecanismos centrais e essenciais como é na ciência, e é fabuloso que esta capacidade de reconhecer e lidar com erros se transmita mesmo na forma como divulgadores de ciência possam lidar com suas próprias trapalhadas. Quem dera outras instituições e figuras tratassem suas próprias limitações com tanta naturalidade.

Como bem resumiu Shermer, “quão sensacional não é isto?”.

[Dica inestimável do @uoleo, scibling do 42]

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Discussão - 1 comentário

  1. raph disse:

    “Quem dera outras instituições e figuras tratassem suas próprias limitações com tanta naturalidade.” [2]
    Essa é a maior lição que a ciência moderna nos traz, acabar com esse mito de “verdades absolutas” que, ainda que somente a luz da pura lógica, não podem ser objetivos plasíveis – pelo menos não tão cedo…

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