Ataque dos salgadinhos gigantes

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O que um Cheetos gigante, insetos afogados, cavalos explodindo, cabeças decepadas e JBS Haldane têm em comum? É física, é matemática, é biologia em mais uma série de nexos para nosso blog.

Em mais um lançamento para o mercado americano destinado ao futuro de Wall-E, a Frito-Lay começou a vender o Giant Cheetos, que como o nome diz, é um salgadinho gigante, do tamanho de uma pequena bola de golfe. “O dobro do tamanho, o dobro do sabor”. Ou não.

Eis que um blog fabuloso que leio, mas destinado a adultos primariamente do sexo masculino pela exibição de imagens de indivíduos do sexo feminino com poucas ou nenhuma vestimenta, vulgo mulher pelada, Greenshines [link para maiores de 18 anos!], publica um excelente texto lembrando que em uma primeira análise a propaganda da junk food é enganosa.

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Dobre o tamanho de um objeto tridimensional, e o que você dobrará será a rigor apenas o tamanho. A área de superfície do objeto irá quadruplicar, seu volume crescerá oito vezes. Para isso, basta lembrar da geometria: dobre o lado l de um cubo para 2l, e a área de sua superfície aumentará o quadrado desta duplicação, ou quatro vezes, enquanto o volume aumentará ao cubo, oito vezes.

O dobro do tamanho, quatro vezes a superfície, oito vezes o volume. Como isso afeta o sabor?

Uma análise preliminar de um Cheetos, evidenciada tanto pela degustação quanto pelo fato de que costumamos lamber os dedos todos melecados, mostra que o sabor do salgadinho está principalmente no tempero que recobre sua superfície. O interior tem consistência e mesmo sabor de isopor. Nunca comi isopor, e espero que você também, mas podemos imaginar qual seja o gosto de isopor.

Seja como for, concluímos: Dobre o tamanho, e você multiplicará por quatro vezes a superfície coberta com o tempero, mas por oito o volume de isopor insípido. O resultado? A metade do sabor. “Giant Cheetos, o dobro do tamanho com a metade do sabor pelo mesmo preço!” não parece um slogan de muito sucesso.

Israel de Greenshines diz ter experimentado a novidade e confirma que o gosto, a textura e tudo o mais seriam terríveis, mas este autor por sua vez cogita que a Frito-Lay deva entender algo de física, ou pelo menos, possa ter testado a novidade antes de lançá-la e talvez tenha compensado a diluição do sabor seja aumentando a concentração do sabor na superfície – há alguns relatos de que o salgadinho gigante parece sim mais salgado, e é vendido também na versão picante – seja também modificando algo da fórmula da massa no interior.

Física e matemática, “é impossível comer um só”.

 

Insetos afogados, Cavalos explodindo

Não são apenas empresas de salgadinhos que enfrentam problemas para encontrar o tamanho certo de suas guloseimas de isopor condimentado. Estes pequenos detalhes geométricos que sustentam toda a física do mundo em que vivemos não escapam a ninguém, nem mesmo do próprio Universo, da própria natureza.

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Em 1926, o biólogo JBS Haldane, escreveu um ensaio fabuloso e pioneiro lembrando da relação simples da geometria com as implicações bem mais complexas no mundo da biologia. Em “On Being the Right Size”, ou algo como “Sobre ter o Tamanho Certo”, Haldane lamentou como “as diferenças mais óbvias entre diferentes animais são as diferenças de tamanho, mas por alguma razão os zoologistas prestaram pouca atenção a elas. Em um longo livro sobre zoologia à minha frente não encontro indicação de que a águia é maior que o pardal, ou que o hipopótamo é maior que a lebre, embora alguns comentários de má vontade sejam feitos a respeito no caso do rato e da baleia”. É um ensaio imperdível, alguém deveria traduzi-lo ao português.

Haldane continua: “No entanto é fácil mostrar que uma lebre não poderia ser tão grande quanto um hipopótamo ou uma baleia tão pequena quanto um peixinho. Uma vez que para cada tipo de animal há um tamanho mais conveniente, e uma grande mudança em tamanho inevitavelmente leva a uma mudança na forma”.

O biólogo então lembra da geometria, e como um homem gigante com 18 metros de altura, isto é, dez vezes o tamanho médio de um homem, teria contudo um peso mil vezes maior – dez elevado ao cubo. Uma seção transversal de seus ossos, contudo, teria apenas cem vezes a superfície, o que significa que deverá suportar dez vezes mais peso por centímetro quadrado. “Como um fêmur quebra quando submetido a dez vezes o peso humano, [o gigante] quebraria seus ossos toda vez que desse um passo. Esta é sem dúvida a razão pela qual estava sentado na ilustração de que me lembro”.

Ele vai além nas implicações das diferenças de tamanho. “A gravidade, mero incômodo [ao homem comum], era um terror [ao gigante]. Ao camundongo e qualquer animal menor, não representa praticamente nenhum perigo. Você pode jogar um camundongo do topo de uma mina profunda, e quando ele chegar ao fundo ele se sacudirá e sairá andando, contanto que o chão seja razoavelmente macio. Uma ratazana é morta, um homem acaba quebrado, um cavalo explode. Isto ocorre porque a resistência apresentada pelo movimento do ar é  proporcional à superfície do objeto em movimento”.

“Um inseto, assim, não tem medo da gravidade, ele pode cair sem perigo, e pode escalar ao teto sem qualquer problema. (…) Mas há uma força que é tão formidável ao inseto quanto a gravidade é a um mamífera. Ela é a tensão superficial. Um homem saindo de um banho carrega consigo um fino filme de água com frações de milímetro de espessura. Ele pesa ao redor de meio quilograma. Um rato molhado precisa carregar seu próprio peso em água. Uma mosca molhada precisa levantar várias vezes seu próprio peso, e como todos sabem, uma mosca uma vez molhada em água ou qualquer outro líquido está em uma posição muito séria”.

 

Democracia e Cabeças Decepadas

O
ensaio segue abordando questões de circulação sanguínea em animais maiores, absorção de oxigênio em plantas e ao final, o que o torna ainda mais fabuloso, termina em dois parágrafos sobre como “assim como há o melhor tamanho para cada animal, também há para cada instituição humana”. A democracia grega funcionava para grupos pequenos, e a invenção do governo representativo tornou uma grande nação democrática possível. “Com o desenvolvimento da mídia em massa tornou-se novamente possível a cada cidadão ouvir as visões políticas de seus oradores representativos, e o futuro pode ver o retorno do estado nacional da forma grega de democracia”, especula Haldane. Um ensaio, relembrando, publicado há quase um século.

Dos salgadinhos gigantes com gosto de isopor a humanos gigantes, cavalos explodindo e insetos afogados, há ainda outro nexo que não poderia faltar. Quer ver o próprio Haldane em um filme?

Confira “Experimentos na Ressuscitação de Organismos”. Sim, esse é o título do filme que trata exatamente do que descreve: experimentos soviéticos para manter vivas cabeças de cachorro decepadas. A apresentação e narração é do bom e velho JBS Haldane.

Lembre disso no próximo Cheetos.

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Discussão - 4 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Isopor clássico (espuma de estireno) não tem “gosto” da forma como costumamos pensar.
    Tem sim um “antigosto” que toma conta da boca, anulando tudo que ela estiver sentindo.
    E, supreendentemente, a textura do isopor na boca é mais sólida como borracha que crocante como biscoito.
    A não ser que esteja coberto de areia. Aí são duas camadas da mais pura agonia bucal.

  2. Timbau disse:

    Hã, só pra desencargo de consciência, esse negócio da explosão do cavalo foi comprovado experimentalmente ou é uma abstração?

  3. Kentaro Mori disse:

    No original o termo é “splashes”, algum como “se esparrama”. Eu usei o termo “explode” para exagerar um pouco o efeito, é verdade.

  4. Pedro disse:

    Eu vi os Experimentos na Ressuscitação de Organismos e fiquei abismado, por que não vemos isso sob discussão ética na medicina atualmente?

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