O Apocalipse Inevitável (parte II)

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Esta é a história pouco conhecida de um homem que salvou o mundo. Físico e meteorologista na Universidade de Arizona, EUA, James McDonald tornou-se mais conhecido porém por sua apologia aos OVNIs. Acreditava firmemente que eram um mistério não resolvido e que a academia e órgãos oficiais não lhe dedicavam a atenção devida. Chegou a testemunhar no Congresso defendendo os discos voadores.

Foi sobre outra questão que McDonald testemunhou no Congresso pela segunda vez, em 1970. Já há mais de uma década políticos nos Estados Unidos discutiam a criação de sua própria frota de aviões supersônicos comerciais – abordamos a rocambolesca história do Concorde aqui. Mais alto, mais rápido, questão de orgulho nacional enquanto os europeus e os soviéticos investiam em seus aviões supersônicos. Como ser contrário a tal progresso?

Havia um problema: a poluição lançada por esses aviões diretamente na alta atmosfera, alterando a composição entre outras da camada de ozônio. Anos antes cientistas já haviam notado que esta poluição poderia interagir com o ozônio, diminuindo sua concentração e a proteção que ofereceria ao barrar radiações solares mais intensas. Diferentes acadêmicos incluindo Paul Crutzen – que ganharia o prêmio Nobel por tais pesquisas – alertariam sobre as possíveis consequências das emissões de óxido nítrico por aviões supersônicos.

d6f56e655611Entra McDonald e seu segundo testemunho no Congresso. “É minha estimativa presente que a operação de SSTs [aviões supersônicos] nos níveis de frota estimados atualmente para 1980-1985 poderia aumentar tanto a transmissão de radiação solar ultravioleta a ponto de causar algo na ordem de 5~10.000 casos adicionais de câncer de pele ao ano apenas nos EUA”. Lembra o Sunblock 5000, não? Levem o projeto à frente, e verão milhares de mortes por câncer, advertiu McDonald.

Funcionou. O Congresso cortou o financiamento ao avião supersônico americano, depois de já ter investido mais de um bilhão de dólares, à época. Mais do que convencer o Congresso, o risco à camada de ozônio e as milhares de mortes que poderia causar foram explorados pela imprensa e impressionaram o público, tornando-se elemento importante no movimento ambientalista. Tão relevante que tais temores foram finalmente amplificados, tornando-se conhecimento comum e mesmo alvo de paródias de Hollywood, após a descoberta de que de fato havia uma diminuição na concentração do ozônio sobre a Antártida – nunca chegou a formar um buraco de fato, mas constitui uma rarefação significativa – e o entendimento de que, mesmo sem centenas de aviões supersônicos na estratosfera, poluentes então largamente usados em geladeiras ou latas de spray, os CFCs, silenciosa e lentamente rumavam até o espaço onde destruíam a camada protetora.

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Não foi tudo apenas devido a McDonald, é bem verdade – o Concorde europeu, como vimos, foi levado até o fim causando prejuízo a britânicos e franceses, sem nunca se tornar economicamente viável e com apenas 20 aviões produzidos em toda a história, por isso mesmo de efeitos negligenciáveis sobre a camada de ozônio. No início da década de 1970, discutiam-se frotas de centenas de aviões supersônicos voando diariamente, e isso nunca se concretizou, talvez nunca se concretizasse. Lembre-se também que McDonald não foi o único a alertar sobre os perigos ambientais de poluir a alta atmosfera, e outros cientistas como Crutzen foram mesmo premiados com o Nobel por suas pesquisas na área. Não falamos aqui de um super-herói que interrompeu sozinho um asteróide em direção à Terra, estes são infelizmente apenas personagens de ficção. O que temos é a história real, e nesta história, o ufólogo sim desempenhou seu papel. E ao invés de levar o Nobel, McDonald suicidou-se poucos meses depois de seu testemunho no Congresso.

Se lembramos aqui como uma curiosidade o interesse e apologia de McDonald a OVNIs, isso certamente não foi ignorado à época em que se lutava ferozmente a respeito. E em se tratando de verbas de bilhões de dólares à indústria aeronáutica, não faltaram os que ridicularizaram o físico por suas crenças em discos voadores. Um congressista foi especialmente enfático e buscou direcionar o questionamento a McDonald à ufologia, que em nada se relacionava com a questão do ozônio e aviões supersônicos. Mas, argumentou o congressista, qualquer um que acreditasse em homenzinhos verdes não merecia ser levado a sério.

Depois de mais de uma década de confrontos e ostracismo por seu envolvimento com OVNIs, somado a problemas pessoais, James McDonald decidiu tirar a própria vida em 13 de junho de 1971. Mesmo hoje o envolvimento de McDonald com OVNIs é usado por aqueles que defendem que a idéia do buraco no ozônio seria uma farsa, uma conspiração – assim como o aquecimento global. Buscam ressaltar o envolvimento do ufólogo como se o perigo sobre o qual alertou fosse algo absurdo, comumente omitindo que McDonald foi apenas um dos cientistas que advertiram com base em evidência razoável sobre as consequências de poluir a alta atmosfera. Não foi o primeiro, nem foi o último. Foi apenas um deles, um que também era um ufólogo.

O ufólogo, e físico, e meteorologista, desempenhou sua parte em um esforço que ajudou a preservar a camada de ozônio. O desenvolvimento de modelos atmosféricos confirmaria os fundamentos do alerta, e o cancelamento do projeto supersônico americano e o posterior banimento internacional de poluentes como os CFCs, com sinais de que a camada protetora deve se recuperar, também vindicariam um ponto em que o homem que acreditava em homenzinhos verdes estava essencialmente correto. A seu modo, e fazendo bem mais do que a parte que cabe a cada um de nós, James McDonald salvou o mundo.

A história não pararia aí, e um Apocalipse ainda mais imediato e terrível seria impedido através de ideias derivadas do mesmo buraco na camada de ozônio. Era a vez de Carl Sagan salvar o mundo do Holocausto Nuclear. No próximo nexo.

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Discussão - 10 comentários

  1. Carl Sagan publicou um livro sobre Ufologia (se o Kentaro quiser uma cópia xerox, eu posso fornecer), logo tecnicamente é um Ufólogo. Lembremos que nem todo Ufólogo defende que os OVNIS são ETs, alguns acham que são máquina do tempo criadas por humanos do futuro, etc. Isso explicaria a falta de evidencias, eles apenas voltam no tempo e apagam as evidencias a fim de que isso não interfira com o curso da linha de tempo deles próprios. É claro que essa é uma teoria por definição não refutável, ou melhor, só seria refutada se evidencias decisivas ficassem disponiveis.
    Se um cientista que estuda OVNIS concluir que eles são provavelmente um fenomeno natural (talvez novo, como os relampagos esféricos), ele ainda continua sendo um Ufologo (ou seja, um estudioso de casos de UFOs). Todo cético de UFOS que gasta tempo explicando casos de UFOS é um Ufologo por definição.
    Assim, devemos distinguir entre Ufologos e Ufolatras e Ufomaniacos. Kentaro Mori é Ufologo, mas não é ufolatra ou ufomaniaco…

  2. Caro Kentaro,
    Só para constar, já que você falou do Sunblock 5000 no Robocop, há ainda a provável conexão entre o “caso” dos supersônicos destruidores da camada de ozônio e o “caso” das espaçonaves com motor de dobra destruindo a estrutura do espaço-tempo na série “Jornada nas Estrelas: a Nova Geração”…
    Um abraço!

  3. Kentaro Mori disse:

    Excelente, Osame, obrigado pelo comentário!
    Não quis menosprezar McDonald como “ufólogo”, embora não concorde com todas as teses que ele defendeu, minha intenção foi justamente buscar um reconhecimento que este merece.
    Sobre ufólogos, ufólatras e tanto mais, caso tenha 3 horas para perder, recomendo que confira a conversa que tive com um ufólogo: http://www.ceticismoaberto.com/ceticismo/3563/ceticismoaberto-em-entrevista-ao-grupo-ufolgico-da-baixada-fluminense

  4. Kentaro Mori disse:

    Fabuloso, Stephen, nunca havia ligado uma coisa com a outra. Em retrospecto, é uma referência muito clara! “Salvem o hiperespaço!” :-)

  5. Luís Brudna disse:

    Belo exemplo das tênues linhas entre o estranho e o verificável, entre a ciência e a pseudociência.

  6. Kentaro, esse assunto está realmente me incomodando, desculpe:
    Voce considera P.Z. Myers um cético respeitavel?
    Posted by: PZ Myers | June 30, 2010 9:35 AM
    Jesus is a myth. No serious historian should be endorsing the historicity of Christ — there are no primary sources supporting tales of his existence, the story is internally inconsistent and clearly a pastiche from multiple sources, and come on, at best you can argue that once upon a time, there was a charlatan doing cheap magic tricks.

  7. Kentaro Mori disse:

    Ele é um cético respeitável, mas se destaca mais como ativista ateu, e no caso aqui, penso que seu antagonismo com a religião determina a forma como ele se expressa e sua opinião a respeito. Note, contudo, como ele mescla deliberadamente, penso eu, “Jesus” com “Cristo”. De fato nenhum historiador sério endossaria que o “Cristo”, o “Jesus da religião” existiu. Ao mesmo tempo, quando Myers finaliza afirmando que “at best” existiu um charlatão com truques baratos, está exagerando. Todos — inclusive o Takata — reconhecem ser provável ter existido um Jesus histórico. Se era ou não charlatão, se sua existência é mais improvável do que provável, é o Myers ateu tendo precedência sobre o Myers cético.

  8. Osame disse:

    Acho que a questao é quanto Myers adere ou nao às teorias conspiratorias do cristo Mitico (como definido na wikipedia).
    Eu perguntei a opiniao dele sobre a Teoria do Cristo Mitico, citando a wikipedia, e se ela acreditava que Jesus (nao cristo) poderia ser um personagem historico. A frase “Jesus is a myth” parece contradizer a sua exegese das palavras de Myers. Mas sejamos condescendentes, acho que ele respondeu na pressa, sem pensar muito no assunto.
    Agora, no thred onde fiz esse comentario lá no Pharingula, eu fui massacrado (na maior parte com argumentos falaciosos e ad hominem, mas tudo bem). Foi uma experiencia muito interessante!
    De uma olhada se quiser dar umas boas risadas:
    http://scienceblogs.com/pharyngula/2010/06/episode_lxxiv_sacred_music.php

  9. Acompanhei o imbroglio do SST (super-sonic transport), mas tenho outra opinião à respeito.
    O que quebrou o Concorde e o Tupolev 144 (também conhecido como “Concordsky”, uma deslavada cópia não-autorizada) foi o primeiro choque do petróleo, em 1972.
    Essas máquinas voadoras eram absurdamente perdulárias.
    Notar que depois disso, os aviões mais modernos tornaram-se mais lentos e mais gordos, em nome da economia de combustível.
    O jato mais veloz que ainda voa é o Boeing 727, jato-puro, chega a quase 900 km/h. Depois da alta do petróleo, veio a geração dos turbofans, e por acaso, o A300 dos europeus em primeiro lugar, transportando mais passageiros em cada vôo.
    Quanto ao aquecimento global, esse fantasma revalidou a energia atômica, execrada no fim do século passado, por conta dos acidentes da usina de Three Mile Island e Chernobyl.

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