Fukushima-1 e o Fim do Mundo

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Como você deve saber, há neste momento uma usina de energia no oriente lançando partículas nocivas na atmosfera, incluindo elementos radioativos, que podem causar doenças e mortes. O que todos deveriam saber é que em conjunto estas usinas já matam centenas de milhares de pessoas todo o ano. E o que todos deveriam realmente saber é que estamos falando de usinas movidas por inofensivos pedaços de carvão.

Surpreendentemente usinas movidas a carvão chegam a lançar mais radioatividade ao ambiente que usinas nucleares pela mesma quantidade de energia produzida. Inofensivos pedaços de carvão mineral contêm quantidades naturais e usualmente desprezíveis de elementos radioativos como urânio e tório. Queime o carvão transformando-o em uma fina fuligem, e a concentração destes elementos radioativos pode aumentar em até dez vezes. Multiplique isto pelas quantidades gigantescas de carvão que devem ser queimadas para produzir energia – apenas a China consumiu 3,2 bilhões de toneladas no ano passado – e ao final as doses estimadas de radiação recebidas por pessoas vivendo nas proximidades de usinas movidas a carvão são iguais ou maiores do que aquelas que vivem ao lado de usinas nucleares.

E ainda assim, tais doses são essencialmente inofensivas. O que sim mata são poluentes muito mais tradicionais.

Em 1952, uma espessa cortina de fumaça cobriu a cidade de Londres e matou 4.000 pessoas em quatro dias. Outras 8.000 vítimas morreriam nas semanas e meses seguintes. A causa não foi uma violenta catástrofe natural sem precedentes. A causa foi a fortuita confluência de eventos meteorológicos – como as familiares camadas de inversão – que fizeram com que poluentes atmosféricos fossem concentrados sobre a cidade.

Enquanto milhares de pessoas morriam, não houve pânico. A cidade que conheceu primeiro tantos dos problemas de megalópoles modernas já havia sofrido com “smogs” anteriores, ainda que este fosse particularmente intenso e incômodo. As vítimas fatais foram indivíduos já fragilizados, como bebês e idosos, ou pacientes que já possuíam problemas respiratórios. Foi apenas ao compilar estatísticas que esta tragédia silenciosa tornou-se clara, motivando legislações como os Clean Air Acts em 1956 que restringiriam a poluição atmosférica.

Tragédias similares deixaram de ocorrer em Londres, mas a poluição atmosférica ainda é uma das principais causas de morte no mundo. Estima-se que tenha sido a causa de morte de meio milhão de pessoas na China apenas no ano passado.

Enquanto milhões morrem, não há pânico.

É assim que o mundo acaba. Não com uma explosão, mas com um suspiro”TS Elliot

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Discussão - 10 comentários

  1. Francisco Boni Neto disse:

    A produção de energia nuclear gera menos morte por TWh do que qualquer outra, até mesmo energia solar e hidroelétrica.
    http://nextbigfuture.com/2011/03/deaths-per-twh-by-energy-source.html
    Ambientalismo que não critica o consumismo e a enorme ineficiência econômica da produção indústrial na alocação de recursos e geração de resíduos danosos acaba, às vezes, de maneira indireita, querer insinuar que os pobres da China não tem direito de desfrutar do mesmo conforto básico que nós disfrutamos como classe média aqui. Quer dizer, pobre nasceu para morrer em mina de carvão, não é? Ou talvez devam morrer de frio no norte da China, incapazes de se aquecerem.
    Só nos EUA, em 2000, mais de 30.000 mortes por ano aconteceram por causa da poluição relacionada à queima de carvão, para cada 2000 TWh gerados. O grande problema que as matrizes energéticas do passado e as hipotéticas matrizes energéticas do futuro baseadas em fontes energéticas ambientais fracas é o problema da escalabilidade. Escalabilidade significa “como nós podemos fazer com que mais de 7+ bilhões de pessoas nesse planeta possam usar isso?

  2. Pedro Almeida disse:

    é kentaro! eu já dissertei sobre a histeria nuclear aqui (http://radiacaodefundo.haaan.com/2011/03/13/sobre-a-histeria-nuclear/), e é bom saber q outras pessoas atentam para esta questao com um pouco mais de ceticismo, já q a midia gosta mesmo é de cuspir info de qualquer forma.

  3. Gabriel disse:

    Interessante… mas disso a mídia não fala por quê não vai dar ibope. O negócio é colocar medo no povo com aquela imagem perigosa, com o fantasma de uma catástrofe nuclear, com seres mutantes saindo do mar… mas, enquanto isso, queimamos toneladas de carvão, destruímos florestas…

  4. Zeca disse:

    Não é por nada não, mas com tanto humano no mundo, tem que ter coisa pra matar o povo mesmo. Viva o trânsito perigoso e as péssimas condições de vida nas cidades! Só assim pra reduzir um pouco o crescimento populacional!!

  5. raph disse:

    A energia nuclear sem dúvida é menos nociva do que as movidas a carvão, o problema é que quando ocorre um acidente numa usina nuclear, ele pode ser catastrófico, e “isolar” uma área por milhares de anos. No entanto, obviamente as usinas a carvão mataram muito mais seres até hoje…
    O ideal, portanto, é esquecer de ambas, e na medida do possível, migrar para usinas de energia solar, eólica e até das ondas do mar… Claro que não será do dia para a noite, mas é claramente a melhor opção.
    O sol sempre foi a nossa usina. A energia solar nada mais é do que o uso da energia nuclear que ocorre em um local seguro.
    Abs
    raph

  6. Atila disse:

    @raph
    Muito mais gente morre caindo do telhado ao instalar painéis solares do que por conta da energia nuclear.

  7. Romeu Martins disse:

    Interessantíssimo este post, além de muito oportuno para desmistificar certos temas tratados com muita ligeireza por aí.
    Na verdade, achei tão interessante que o reproduzi em meu blog, dando o crédito e o link para cá:
    http://cidadephantastica.blogspot.com/2011/04/o-lado-mais-punk-do-steam.html
    Abraço!

  8. Blanqui disse:

    Não discordo dos dados e de algumas das interpretações que você e outros blogs de ciência fazem, mas tenho algumas ressalvas:
    1 – O avanço científico parece um fim em si mesmo, como se não houvesse outras implicações.
    2 – As possibilidades de acidente com outras formas de obtenção de energia não são encaradas com o mesmo critério das relativas aos acidentes nucleares.
    3 – Com o risco de parecer repetir o item 1, tecnologia e ciência não são a mesma coisa e nenhum dos dois campos são independentes de esferas como as políticas/sociais/culturais/econômicas.

  9. [...] De pouco adianta lutar contra usinas nucleares se elas são simplesmente substituídas por usinas movidas a carvão que, não por mera coincidência, têm uma aparência externa não muito diferente. E, no que é realmente trágico, podem liberar mais radioatividade ao ambiente e matar mais pessoas que a energia nuclear. [...]

  10. Daniel disse:

    Oi !
    Eu tenho um projeto para testar um gadget que fornece energia a outros gadgets utilizando hidrogênio. Visite o projeto e se possível me ajude !

    http://www.indiegogo.com/hydrogen?a=873431

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