A Miséria em uma Tela Sensível ao Toque

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“Um funcionário de ajuda humanitária usando um iPad para fotografar a carcaça em putrefação de uma vaca em Wajir, próximo da fronteira entre o Quênia e a Somália, em 23 de julho de 2011. Desde que a seca tomou conta do Cabo Chifre da África, e especialmente desde que a fome foi declarada em partes da Somália, a indústria internacional de ajuda tem visitado campos de refugiados e vilarejos remotos em aviões ostentando símbolos e marcas e linhas de picapes com tração nas quatro rodas. Este circo de mídia humanitário e diplomático é necessário toda vez que a fome atinge as pessoas na África, dizem os analistas, porque os governos – tanto africanos quanto estrangeiros – raramente respondem com a urgência necessária em catástrofes iminentes. Combine isso com a explicação comumente simplista das causas da fome, e um número crescente de críticos da ajuda dizem que partes da África estão condenadas e um ciclo sem fim de alertas ignorados, apelos à mídia e alimentação através da ONU – ao invés de uma transição para auto-suficiência duradoura”. [Reuters/Barry Malone/The Atlantic]

O toque na tela de um iPad é detectado quando entramos em contato direto com a fina e transparente camada condutora em sua superfície. Nosso corpo também é um condutor de eletricidade, e em um momento nos tornamos parte integrante do sistema elétrico do dispositivo, que pode então processar exatamente em que região da tela este contato foi feito. Com o software apropriado, telas capacitivas podem produzir uma interação precisa e instantânea quase mágica.

Não há no entanto nenhuma resposta tátil ao toque. Pressionar uma tecla pode nos parecer mais emblematicamente tecnológico, mas cada tecla pressionada é uma ação mecânica que ainda mantém o usuário isolado da máquina. Um iPad exige que você estabeleça contato elétrico direto com o dispositivo, motivo pelo qual não se pode usá-lo com luvas.

O que isso tem a ver com a fome na África? Acredito que seja mais um nexo a refletir sobre os contrastes capturados pela imagem de um aid worker usado um iPad para fotografar uma carcaça. A série completa de imagens no Atlantic é aterradora. E gostaria de indicar alguns outros nexos que devem ser relevantes a qualquer consideração.

Um dos mais importantes é que, apesar do alarmismo, catastrofismo e pessimismo que costumam apelar tão facilmente às nossas emoções, nas últimas décadas o número de famintos no mundo esteve caindo constantemente, tanto em números absolutos quanto relativos:

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Enquanto boa parte do século 20 foi passada em conflitos pelo sistema revolucionário que solucionaria todos os nossos problemas – conflitos que, supostamente pelo bem maior da humanidade, vitimaram em si mesmos centenas de milhões – nós realmente progredimos em um dos aspectos mais elementares, fornecendo as necessidades básicas de alimentação a um número incrível e ainda crescente de pessoas.

A sustentabilidade do crescimento, bem como da diminuição da miséria são sem dúvida questões essenciais para que este progresso continue, mas qualquer um que conteste que o aumento populacional combinado com a diminuição da miséria não são evidência de progresso, e não esteja no ato de se suicidar de imediato, é no mínimo um hipócrita.

Nos últimos anos uma série de fatores, incluindo justamente o aumento contínuo na população mundial, que nos próximos meses deve atingir a marca de 7 bilhões, significa que os desafios aumentam e medidas mais enérgicas de um nível diferente são necessárias não só para impedir que a miséria aumente, como para continuar rumo a sua erradicação. Esse discurso e principalmente esses termos (“miséria”, “fome”, “erradicação”) devem soar como algo bem ouvido na política brasileira nos últimos anos, e esse é em verdade um excelente sinal.

O Brasil é um dos países mais bem sucedidos no combate à miséria. Estabilidade política e econômica permitiram programas sociais de resultados reconhecidos internacionalmente.

A miséria na África enfrenta justamente a ausência destes fundamentos, e gostaria de destacar a terceira parte da série do documentarista da BBC, Adam Curtis. Na parte final de All Watched Over by Machines of Loving Grace, Curtis aborda a participação desastrosa da civilização ocidental no genocídio na Ruanda.

Como a dominação européia favoreceu o mito das “raças” Hutus e Tutsis, e como mesmo quando a independência foi concedida ao país, um liberalismo bem-intencionado incentivou a vingança da classe oprimida, em uma mistura de pretensa justiça compensatória e pseudociência tanto genética quanto histórica que ao final apenas alimentaria o ódio. E, finalmente, quando o genocídio já estava em curso, mesmo os campos de refugiados e a ajuda humanitária alavancaram os conflitos, enquanto as vítimas também incluíam algozes e a ajuda humanitária se viu constantemente em dilemas morais de um mundo bem real.

Tudo isso enquanto a milhares de quilômetros de distância, o conflito foi noticiado como uma guerra tribal em meio à miséria, omitindo toda a participação do mundo desenvolvido, seja na opressão direta, seja mesmo nas tentativas fracassadas de ajuda.

Curtis encerra sua série refletindo o que aconteceu com “o sonho ocidental de transformar o mundo para melhor”, a visão romântica e idealista que deu lugar a ideias como a do gene egoísta, de seres humanos como simples máquinas para propagar genes e comportamentos mais complexos como o altruísmo emergindo como resultado literal de equações modelando o jogo evolutivo:

“As consequências horríveis dos massacres na Ruanda se desenrolavam. Consequências criadas não apenas pelo imperialismo e ganância ocidentais, mas também pelos melhores e mais nobres ideais liberais. Porque foram liberais, na administração belga, que primeiro encorajaram Hutus a se rebelar contra as elites Tutsi. E foram os campos de ajuda humanitária, criados no início dos massacres, que complicaram o conflito e ajudaram a espalhar a violência ao Congo. (…) Sabemos que foram nossas ações que ajudaram a causar os horrores no Congo. Mas não temos ideia do que fazer a respeito. Então ao invés, abraçamos uma filosofia fatalista de que somos meras máquinas de calcular para tanto nos expiar de culpa quanto explicar nosso fracasso político em mudar o mundo”.

Há que se notar, unindo estes nexos, que enquanto o massacre na Ruanda tinha lugar, a miséria no mundo como um todo caía em ritmo acelerado. Contudo, sem contrariar Curtis, pode-se notar que os fundamentos que permitiram este avanço foram estabelecidos décadas antes, desde sistemas políticos e econômicos até revoluções científicas e tecnológicas na produção de alimentos.

No momento em que precisamos de novas ferramentas para responder às necessidades mais básicas de todos aqueles que compartilham conosco tudo aquilo que podemos sentir, mas que podem sofrer muito mais do que jamais iremos sofrer, o idealismo e a vontade de mudar o mundo se tornam cada vez mais necessários. E devem contar com a perspectiva histórica que pode ajudar a evitar os excessos do passado.

Ser parte de uma máquina ao tocar a tela de um iPad pode ser um pensamento incômodo, e seria fácil e apelativo encerrar este texto simplesmente associando a crítica de Curtis ao fatalismo do ser humano como máquina ao iPad e a imagem que inicia este texto. No entanto, não sabemos toda a história por trás da imagem. Será este funcionário de fato uma pessoa que jamais tira seu terno? Não terá jamais tocado um faminto, resumindo-se a tocar a tela de seu gadget? Afinal, estaria ele contribuindo mais para amenizar o sofrimento alheio que você que lê este texto, ou eu que escrevo estas linhas?

Não sabemos, e à parte a curiosidade jornalística, de fato não importa tanto. É apenas uma pessoa. Não há a princípio nada errado em usar um iPad em meio à fome na África. Não há a princípio nada errado em ser momentaneamente parte do circuito elétrico de uma máquina. O certo e o errado não são tão simples, e há muito de certo  — e errado — que cada de um de nós pode fazer se lembrarmos de mudar o mundo.

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Discussão - 3 comentários

  1. Não tenho certeza se dá pra falar, pelo gráfico, que o número (absoluto) de desnutridos estivesse caindo nas décadas anteriores. Parece ser mais que estava oscilando em torno dos assustadores 850 milhões de pessoas.
    []s,
    Roberto Takata

  2. neo disse:

    Clicando no gráfico dá para ver que a maioria dos famintos estão na Ásia e Pacífico – acho que a maioria das pessoas acreditariam que está na Africa.

  3. […] desastrosas da usina de Volta em Gana, da intervenção da CIA no Congo, ou mais extensamente da influência de ideias liberais e humanitárias no genocídio na Ruanda. As melhores intenções, os sonhos mais belos do que é certo podem ter resultados […]

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