Sonhos e a Economia

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Com a aposentadoria dos ônibus espaciais, as cenas capturando estas naves sendo transportadas sobre aviões “Jumbo” 747 modificados lembrou, ainda outra vez, como a economia e ultimamente a energia decidem os rumos de nossos sonhos tecnológicos.

Já abordamos em nossa série inacabada sobre o mérito de ir à Lua a história do Concorde, o avião supersônico multibilionário que deixou britânicos e franceses em um dilema onde ambos perdiam, mas nenhum dos lados podia abandonar os acordos, sob o risco de perder ainda mais. E como, ao final, o Concorde foi o sonho de uma era de petróleo barato, pouco preocupada com impactos ambientais e que jamais foi viável comercialmente.

Esta história se relaciona com a história do ainda mais icônico avião Boeing 747 “Jumbo”. É um projeto de enorme sucesso, ao contrário do Concorde. A risada da história é que já na mesa de projetos o 747 foi projetado tendo em vista que perderia lugar para seus rivais supersônicos. Como vimos, exatamente o oposto ocorreu, e ao invés de aviões supersônicos hoje voamos em gigantes aviões subsônicos, exatamente como o 747. A pequena corcunda do 747 é um legado destes planos sobre um futuro que jamais se concretizou – ela era reservada à carga que os 747 levariam ao dar lugar aos aviões supersônicos.

Mesmo o 747 carrega uma lição de economia, e ultimamente, de consumo energia. Boa parte de seu nascimento se deveu à visão de Juan Trippe, da Pan Am, a companhia aérea internacional que foi embaixadora não-oficial dos EUA durante boa parte do século XX. Símbolo de glamour, a Pan Am representava muito mais do que uma companhia aérea, e o 747 seria “…uma grande arma pela paz, competindo com os mísseis intercontinentais pelo destino da humanidade”.

Este avião “Jumbo” era um literal elefante branco, e a Pan Am se comprometeu desde o início a comprar dezenas deles, a custos muito altos, garantindo sua concretização e influenciando seu projeto. Quando se vê um 747 no ar, é preciso lembrar da falida Pan Am, que na prática já não existe há mais de vinte anos. Sem ela, talvez não houvesse um Jumbo.

E apesar de seu sucesso último, o 747 foi também o início da derrocada da Pan Am. Pouco após as unidades encomendadas serem finalmente entregues a primeira Crise do Petróleo na década de 1970 atingiu os custos de operação e a demanda por viagens aéreas internacionais. Com o falecimento de Trippe em 1981, e após uma série de outras decisões ruins, a Pan Am abriu falência exatamente dez anos depois. O símbolo de glamour, das viagens internacionais e aeromoças que serviriam até viajantes à Lua, com merchandising em “2001: Uma Odisséia no Espaço”, é hoje apenas uma marca nostálgica do milênio passado.

Os ônibus espaciais, aposentados este ano, são ainda outra história tecnológica de planos sendo completamente revertidos pela realidade. Ônibus espaciais deviam ser meios de transporte a estações espaciais, mas esta tarefa só foi servida no final de sua vida útil. Por décadas ônibus espaciais eram táxis a lugar nenhum. Novamente, problemas econômicos ultimamente ligados às Crises do Petróleo e ao fim da energia barata fizeram com que estas naves espaciais tivessem um uso e uma vida que seus projetistas jamais imaginaram, e esta é outra história que contaremos em mais detalhe em outra oportunidade.

A história tecnológica da segunda metade do século XX, que é a história que ainda vivemos, é uma moldada pelas Crises de Energia, que se refletem na economia, e afetaram sonhos de utopias do início do século anterior.

Ônibus espaciais em suas viagens finais de aposentadoria, sem que haja substitutos na ativa – e os EUA fiquem assim sem meios próprios de levar astronautas ao espaço – em aviões Jumbo 747, que continuam sendo produzidos quatro décadas depois, contrariando todas as expectativas de seus projetistas, são representações de como a futurologia é uma aventura de poucos acertos.

E enquanto estes sonhos do século 20 encontram seu ocaso – um deles, o 747, ironicamente um ocaso que se reflete em uma produção continuada décadas depois – vivemos em um novo mundo onde a exploração espacial é legada a companhias privadas, devendo ser viável comercialmente desde sua concepção. Já não há energia barata e abundante, e ir ao espaço deve ser alcançado com os recursos disponíveis, de forma sustentável.

Isso, claro, nos EUA. Na China, ainda explorando enormes recursos humanos e naturais, o Estado ainda financia sonhos grandiosos de exploração que dependem ultimamente de mais energia e recursos.

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