Deus Morreu. Viva o Higgs!

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“E que vilão! O maior de todos os tempos! Há, acreditamos, uma presença nebulosa em todo o universo que dificulta nossa compreensão da verdadeira natureza da matéria. É como se algo, ou alguém, quisesse nos impedir de alcançar o conhecimento último. Essa barreira invisível que nos distancia da verdade é o campo de Higgs. Seus tentáculos gélidos alcançam todos os cantos do universo, e suas implicações científicas e filosóficas dão intensos calafrios aos físicos. E o campo de Higgs opera sua magia negra através de – o que mais? – uma partícula. Essa partícula é chamada de bóson de Higgs. (…) Ele é tão central ao estado da física hoje, tão crucial à nossa compreensão final da estrutura da matéria, e no entanto tão furtivo, que eu lhe apelidei de “God Particle” [Partícula de Deus, em inglês]. (…) O editor [deste livro] não deixou que nós a chamássemos de “Goddamn Particle” [Maldita Partícula], embora esse fosse um título mais apropriado, dada sua natureza maliciosa e o trabalho que está dando”. – Leon Lederman, “A Partícula de Deus” (1993)

O próprio Peter Higgs, um ateu, é bem mais cauteloso e manifestou reprovação ao apelido do bóson que recebe seu nome pela possibilidade de que ofenda pessoas religiosas.

Se o apelido infame foi um tino publicitário da editora interessada em vender livros, e se explicar toda a origem e impropriedade de chamar o bóson de Higgs de partícula de deus ocupar muito espaço, podemos ficar com a sacada do físico Sean Carroll:

“Podemos parar de chamá-la de partícula de Deus agora que há prova de que ela existe”.

Brincadeiras à parte, Lederman não cometeu um sacrilégio tão grande ao conceder aos desejos de sua editora e publicar um livro com o título de “partícula de deus”. Como o jornal Sensacionalista bem noticia, “Cientistas descobrem algo muito importante, mas ninguém consegue explicar o que é”.

“Milhões de jornais do mundo inteiro publicaram a notícia, embora os jornalistas não tenham entendido rigorosamente nada. Os repórteres apenas digitaram o que foi dito pelos cientistas, que por sua vez se mostraram incapazes de explicar ao homem comum para que servia a experiência.”

Isso é rigorosamente verdade, e continuará simplesmente impossível que o homem comum tenha uma noção básica do que a descoberta significa e para quê pode servir sem que o homem comum tenha uma compreensão elementar do que seja a ciência e de que forma ela explica o mundo em que vivemos.

Há quase meio século pisamos na Lua, e o homem comum pouco compreendeu o que aconteceu. Ele sentiu o que aconteceu – homens pisando no grande círculo que sobe ao céu – mas sem a compreensão, apenas o sentimento permaneceu e deu margem para a dúvida, principalmente quando grandes filmes também são capazes de despertar fortes emoções. Não são poucos que pensam hoje que o projeto Apollo foi apenas um grande filme.

Hoje, a descoberta do bóson de Higgs – ou pelo menos o primeiro passo sólido do estudo do campo de Higgs – é um marco científico e tecnológico tão grande quanto a ida à Lua, mas não só a compreensão falta ao homem comum, como o sentimento. É algo muito importante, mas ninguém consegue explicar ao homem comum o que é.

Sem essa compreensão, o bóson de Higgs bem pode ser a partícula de deus. O deus das lacunas, o que é gravíssimo quando as lacunas são de conhecimento que já foi alcançado, mas permanece nas mentes de muito poucos.

“Acabei de explicar o bóson de Higgs ao meu amigo apesar de não entender o que ele é. Ele ficou bem convencido. Aposto que é assim que as religiões começam”. @RobDenBleyker

Veja tudo que já foi publicado no ScienceBlogs Brasil sobre Higgs.

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Discussão - 17 comentários

  1. Nunes disse:

    Alô, Kentaro. O “homem comum” descrito no texto é todo aquele que não estudou as ciencias da física? Isso torna os cientistas incomuns?

  2. Ótimo texto!

    Agora temos de encontrar a maneira que devemos agir para que a compreensão de marcos científicos seja mais fácil ao “homem comum”.

    Parabéns pela postagem.

  3. ChicoPinto disse:

    Excelente análise da situação!!!

    Se me permite um aparte, é triste ver que, em plena era da informação, a maioria da humanidade permanece alijada do conhecimento. Essa afirmação parece paradoxal, mas não o é.

    A atual oferta de informação leva à falácia de que o conhecimento é igualmente fácil. Mas a verdade é que o conhecimento é mais profundo do que a mera informação. Ele exige crítica, esforço, dedicação e empenho, enquanto que a informação exige apenas uma fugaz atenção.

    Toda essa estória da confirmação da existência do Bóson de Higgs me lembra da diferença entre informação e conhecimento. Onde se prefere dar atenção ao apelido infame do que a real importância da descoberta. Onde os meios de comunicação chegam ao absurdo de questionar a importância desse fato, simplesmente porque são incapazes de compreendê-lo.

    Situações como essa me entristecem, porque lembro de que não estamos tão distantes assim da época de Galileu Galilei.

  4. fabricio disse:

    esse termo “homem comum” acho que foi totalnmente besta!
    então quer dizer que os fisicos e cientistas são melhores do que o resto da população?
    e sobre o homem ir na lua,isso foi somente uma evolução,mais mesmo assim não serviu em nada para 99% da população do planeta!
    agora esse bóson de Higgs vai servir para que?
    para nada!
    sera que vale a pena gastar bilhões de dollars para algo que somente os magnificos deuses fisicos vão se beneficiar?

    :p

  5. cney75 disse:

    O texto como sempre é muito bom, só acho que ele faria mais sentido se fosse usado o apelido real do boson de higgs que é ‘Particula Deus’, e não ‘particula de deus’.

  6. Gustavo Bruno disse:

    AHHH A COMUNIDADE CIENTÍFICA E SUAS PALAVRAS PEJORATIVAS. Esse blog chegou no limite mesmo, muita coisa interessante já foi escrita aqui e que parecia demonstrar que seu escritor possuía uma mente aberta e efetivamente livre, como supostamente ensina toda um humanismo por trás da ciência que ele diz seguir. Mas, pelo contrário, revela-se tão preconceituoso quanto os “homens comuns” que tanto faz questão de enfatizar os clérigos do conhecimento final e absoluto, cuja ignorância faz com que um indivíduo seja irrelevante, comum – popular.

    Mas isso não é privilégio apenas dos seguidores da ciência física, matemática etc. Mas também o seu inverso das humanas – inverso porque ambos procuram criticar uns aos outros, ridicularizar uns aos outros, do que efetivamente contribuir com algo. Isso também não é privilégio de qualquer uma das duas áreas, mas de qualquer comunidade ou de adeptos de uma comunidade que se quer distinta dos que não a seguem ou que não podem seguir devido suas regras.

    Daí, os pejorativos pra nomear os forasteiros, os outsiders – antes bárbaros, outra vez pagãos, em outro lugar os idiotas, num outro os loucos, para uma positivistas – e para esse, homens comuns. Comuns porque, supostamente, não compreendem, não querem compreender, não podem compreender, os ensinamentos dessa verdade absoluta – a única verdadeira.

    “Não há conhecimento isolado: qualquer informação só é relevante no contexto de outras. E nada melhor para explorar esta teia de infinitos nexos do que um blog na rede.”

    Parece que o autor se distanciou de vez das palavras vazias que escreveu quando criou esse blog. Ou, o mais provável nesses casos, nunca realmente acreditou naquilo que disse, mas disse pra legitimar qualquer escrito, para falar que se trata de um escrito que diz a verdade – a única que importa.

  7. Alexandre Barros disse:

    Basta um comentário tolo, de alguém que não entendeu o que leu, e a manada segue na mesma direção, “indignada” com o uso da expressão “homem comum”. O “homem comum”, no sentido empregado no texto, é aquele que forma sua convicção e opina com base no senso comum, ou seja, a partir da inferência comum à maioria. Isso existe na física, na medicina no direito, em qualquer área do conhecimento humano. Sobre os assuntos que não dominamos – porque não queremos ou não conseguimos -, apoiamos nossas opiniões no senso comum, formado sem o conhecimento aprofundado da matéria. Um físico, em questões de direito penal, é um homem comum e assim por diante. E essa “comunzice” não desmerece ninguém. Lamento não poder explicar melhor, mas esqueci meus lápis de cor em casa.

    • Gustavo Bruno disse:

      Existe uma diferença enorme entre o termo que você está usando e o termo utilizado pelo autor do texto.

      E não torne o seu vício em virtude, se não consegue explicar melhor admita e não ofenda os leitores.

  8. ChicoPinto disse:

    Gustavo… O preconceito está nos olhos de quem lê.

    Kentaro apenas constatou um fato. De que a maior descoberta do início desse século não é reconhecida pela maior parte da humanidade, pela simples razão de que ela não tem a capacidade intelectual para compreendê-la.

    E o mais engraçado é que, ao invés de se discutir as causas desse problema, aparecem aqui pessoas “ofendidas” por essa constatação. Pessoas essas que invertem a relação causa-efeito e, em nome do “Politicamente Correto”, repreendem aqueles que trazem à baila essa situação.

    – Por que você não aproveitou esse espaço para questionar os problemas estruturais que impedem a educação da maior parte da população?
    – Por que você não se irritou com o sensacionalismo com que a mídia tratou o assunto, ao invés de informá-lo?
    – Por que você não convocou a comunidade para um debate honesto sobre esses problemas?

    Não!!! Ao invés disso, você buscou um descuido, um termo “não adequado”, para atacar o texto do Kentaro, sem precisar confrontar essas questões.

    E o pior, é que tenho certeza de que o Kentaro procurou um termo que não fosse controvertido. Evitando palavras que, apesar de mais corretas, seguramente seriam pior entendidas, como ignorante ou apedeuta.

    É esse tipo de comportamento que perpetua a falta de instrução pela qual atravessa a nossa sociedade. Porque, ao não admitir que se tem um problema, perde-se a oportunidade de resolvê-lo.

    Em outras palavras, a falácia da Arrogância Intelectual é a desculpa do ignorante para não precisar aprender.

    • Gustavo Bruno disse:

      Não escolhi falar sobre os “problemas da educação”, pois não é o assunto do texto. Em outras oportunidades adequadas eu falaria sem problemas. E os “indignados” se indignam porque o termo usado pelo autor revela sim um preconceito e uma falta de perspectiva tremenda.

      Ah, acusar qualquer comentário como “politicamente correto” realmente é a nova onda da internet mesmo. Não confunda as coisas, não estou sendo politicamente correto.

      Enfim, todos que criticaram o autor foram bastante educados e ofereceram argumentos bastante razoáveis para criticá-lo, enquanto vocês o defendem cegamente, por compartilharem da mesma visão enviesada do autor.

  9. paulo disse:

    “Isso é rigorosamente verdade, e continuará simplesmente impossível que o homem comum tenha uma noção básica do que a descoberta significa e para quê pode servir sem que o homem comum tenha uma compreensão elementar do que seja a ciência e de que forma ela explica o mundo em que vivemos.”

    Curioso, embora eu seja engenheiro, também já estudei um pouco de teologia. Essa visão que você tem do homem comum em relação à ciência é a mesma que eu tenho de um cientista falando de Deus.

  10. ChicoPinto disse:

    @Gustavo: “Não escolhi falar sobre os “problemas da educação”, pois não é o assunto do texto.”

    Gustavo, não me leve a mal, mas percebo que o seu problema é de interpretação de texto.

    O que você acha que foi a intenção do Kentaro quando ele escreveu? “Sem essa compreensão, o bóson de Higgs bem pode ser a partícula de deus. O deus das lacunas, o que é gravíssimo quando as lacunas são de conhecimento que já foi alcançado, mas permanece nas mentes de muito poucos.”

    Você percebeu a intenção desse último parágrafo? O que remete à finalidade do texto? Pois é! O assunto do texto É EDUCAÇÃO!!!!

    É a educação de permite ao “homem comum” compreender as atuais complexidades do mundo moderno.

    Se me permite uma crítica construtiva, lendo o seu comentário, percebo que você tem dificuldade de interpretar o que lê. Veja só, você não só não entendeu a razão do texto do Kentaro como também não entendeu a razão do meu comentário. Vejo que você se atém a algumas palavras dos argumentos do texto, mas não consegue perceber a intenção do autor.

    Novamente, não me leve a mal. Eu admito que fui muito duro no meu comentário, porque assumi, erroneamente, que você tinha compreendido o texto.

    Mas vejo agora que o mesmo problema que o fez criticar o texto é aquele que o texto alerta.

    Vivemos numa época em que as pessoas comuns, além de não conseguirem entender os conceitos necessários para compreender o mundo atual em que vivemos, não percebem o quanto estão defasadas em relação às outras pessoas que têm oportunidade de estudar.

    Quando confrontadas sobre essa desigualdade, as pessoas comuns tendem a reagir com indignação e as pessoas esclarecidas se recolhem para não serem ofendidas. Veja que esse atrito apenas distancia ambas as partes, não beneficiando ninguém.

    Na boa, não fique bravo comigo. Eu estou apenas tentando compreender a situação. Aproveite essa crítica para fazer uma reflexão sobre as suas crenças sobre o conhecimento e aqueles que o detêm. Não reaja indignado mas aproveite a oportunidade para aprender e para se desenvolver.

    Estamos no início do século XXI e, sem dúvida, se você manter a mente aberta, aprenderá o porquê dos intelectuais e cientistas ficarem tão fascinados com as atuais descobertas da ciência.

    Eu te garanto que será uma experiência muito satisfatória.

    Fica a dica! ;-)

    • Gustavo Bruno disse:

      Que coisa engraçada! Mas que pessoa instruída você é! Como não foi capaz de revidar ou apresentar qualquer argumento razoável sobre as críticas, resolveu partir para as ofensas pessoais, o principal recurso da ignorância! Mas você foi bastante inteligente em uma parte, pois foi bastante comedido ao agredir a minha própria inteligência.

      Tudo que você fez em todo o seu comentário foi apenas evidenciar ainda mais os problemas que eu já apontei, ao revelar abertamente compartilha da mesma visão turva do autor do blog.

      Mas valeu pelas risadas! hehehe

  11. ChicoPinto disse:

    OK, Gustavo. Já entendi….

    “Ad Hominem” e “argumentum ad nauseam”…

    Rule 14.

  12. raph disse:

    Se Deus existe, ou mais precisamente se existe um Deus conforme Espinosa concebeu em sua “Ética” (o que não era nenhuma novidade, a ideia como sempre é bem mais antiga, pelo menos desde Parmênides, embora seja encontrada no hermetismo e até mesmo nalgumas interpretações dos Vedas), não faz sentido falar em “partícula de deus”, pois TODAS as partículas são “de deus”. Afinal, se não fossemos formados por algo (e aqui me refiro a matéria detectada e não detectada), seríamos formados pelo que?

    Já por outro lado, o Campo de Higgs, e a forma como “concede massa as partículas”, traz similaridades surpreendentes com teorias espiritualistas tão antigas quanto esta em que Espinosa baseou sua ideia de divindade. Vejam bem: eu disse **similaridades**, ou seja, conceitos próximos, o que não quer dizer que sejam **a mesma coisa**.

    Abs
    raph

  13. Paulo disse:

    Ainda esperando a confirmação do título…

  14. gilmar disse:

    e o preço do dolar a 4 reais quem pode explica?

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