Sinédoque: o oceano dentro de nós

O soluço pode ser um mistério e uma pista. Mistério, porque não se sabe realmente para que o soluço serve, se é que é de alguma utilidade. E pode ser uma pista, porque em “Uma hipótese filogenética para a origem do soluço” (inglês, PDF), Straus et al sugerem que ele seria o remanescente do reflexo respiratório de nossos ancestrais anfíbios.

Pequenos girinos, por exemplo, fecham a glote e forçam músculos respiratórios para ventilar água pelas suas guelras. E uma indicação de que o soluço poderia ser um reflexo ancestral – e não um mero curto circuito no sistema respiratório – é que mesmo antes de inspirar ar pela primeira vez, enquanto ainda fetos, já exibimos alguns soluços. É curioso imaginar que a cada “hic” estaríamos tentando ventilar guelras que já não temos há muito.

A ideia de preservarmos certos atavismos de nossa história aqui se relaciona com um conceito clássico e mesmo anterior à evolução de Darwin, o de que “a ontogenia recapitula a filogenia”. Enquanto nos desenvolvemos, cada um de nós desde um punhado de células até a forma de pequenas criaturas com cara de joelho recapitularia no ventre materno todas as principais formas de nossos ancestrais por centenas de milhões de anos, um conceito adorável que já penetrou mesmo em filmes de Hollywood onde desafortunados protagonistas “devoluem” a formas primitivas.

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Adorável como seja, a ciência moderna revela que a ontogenia não recapitula a filogenia tão perfeitamente – não nos tornamos realmente peixes ou répteis em nossas primeiras semanas de vida – mas em termos gerais sim carregamos em nosso desenvolvimento traços de nossa história evolutiva. O mais evidente deles talvez sejam as caudas, que manifestamos como fetos e se retraem para formar o cóccix. Ou possivelmente os soluços, que segundo Straus seriam lembranças motoras primitivas da respiração por guelras.

Nossos ancestrais vieram do oceano, das águas primordiais onde a vida teria surgido até os primeiros anfíbios que conquistaram a terra firme. Como a ontogenia recapitulando a filogenia, isto é, ilustrando a continuidade da evolução, de certo modo ao conquistar a terra nossos ancestrais não abandonaram realmente o mar: eles o trouxeram consigo. Mesmo em nosso corpo, resultado de milhões de gerações de animais vivendo em terra firme, ainda podemos encontrar algo deste oceano, com a concentração de sais e minerais dentro da mesma ordem de grandeza. Todos trouxemos o oceano conosco.

O humor aquoso transparente que preenche o interior de seu globo ocular, através do qual você enxerga estas mesmas imagens, é uma amostra muito similar à água que você encontraria no oceano de onde viemos, ou inclusive no mar que encontramos hoje. A má notícia aos náufragos é que a semelhança não é identidade, e nosso corpo é particularmente sensível a pequeníssimas variações na concentração destes sais e minerais – motivo pelo qual não se deve beber água do mar, uma vez que o corpo despende mais água do que a ingerida para se livrar do excesso de sais, efetivamente se desidratando.

Esse dilema é finalmente o tema principal deste texto, como parte do Blog Action Day 2010 sobre a água. Quase um bilhão de pessoas não possui acesso a água potável. O pequeno oceano que carregamos dentro de nós precisa ser constantemente renovado em um delicado equilíbrio, uma homeostase onde a água que nos compunha ontem é diferente da que nos compõe hoje. Somos, ainda pensando em metáforas, um frágil rio afluente de um oceano ancestral em constante renovação, vulnerável a qualquer problema em suas fontes.

Foi apenas no século 19 que o médico inglês John Snow fundaria a ciência da epidemiologia ao descobrir como uma fonte de água contaminada na Broad Street seria a origem de um surto de cólera, capaz de interromper abruptamente o curso de muitos destes “rios afluentes”. Água contaminada ainda mata hoje quase 38.000 crianças toda semana.

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A beleza do conhecimento científico associando a vida e sua origem à água já havia sido vislumbrada por cosmogonias antigas, como as primeiras concepções da origem do mundo por sumérios que viam nos oceanos a fonte de tudo. Estavam certos na percepção intuitiva de que vida e água são indissociáveis.

A urgência do reconhecimento da importância de acesso a fontes adequadas de água limpa é bem mais recente, e é um problema sócio-econômico. Em apenas duas décadas conseguimos distribuir quas
e 5 bilhões de telefones celulares em todo o planeta, mas em mais de um século não fomos capazes de garantir acesso segura a água a todo ser humano com que partilhamos o legado deste oceano ancestral.

No Brasil, segundo a ONG “Trata Brasil”, mais de 100 milhões de brasileiros não dispõem de rede de coleta de esgoto sanitário e 13 milhões não têm sequer banheiro em casa. Todos os dias, sete crianças brasileiras morrem em consequencia da falta de saneamento. Para zerar o déficit de saneamento básico e oferecer acesso universal à coleta e ao tratamento de esgoto, o Brasil precisa de investimentos anuais de R$ 10 bilhões nos próximos 20 anos.

É bastante dinheiro, mas os prejuízos causados pela falta de investimento em saneamento são ainda maiores. Cada R$ 1,00 investido em saneamento representa uma economia de R$ 4,00 em gastos com saúde. E, apesar da saúde ser a principal preocupação dos brasileiros, o saneamento básico é apenas a oitava maior preocupação. Como tal, foi deixado de lado nas eleições. Falta a consciência do que John Snow descobriu há mais de um século.

Ao soluçar, lembre-se da curiosidade que o espasmo pode ser lembrança de que já tivemos guelras, que viemos do oceano. Beba um copo d’água, limpa, pode melhorar o soluço. Não seria fabuloso se todos, no Brasil e no mundo, pudessem fazer o mesmo?

Três prostitutas, duas camisinhas: o problema matemático com mais sacanagem

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“Um homem contrata três prostitutas e quer fazer sexo com todas. Todos os envolvidos podem ter doenças sexualmente transmissíveis, e todos querem usar preservativos. Infelizmente, só há duas camisinhas. Pior ainda, estão no meio do nada e não podem comprar mais camisinhas. Poderá o homem fazer sexo com todas as três mulheres sem risco para qualquer um dos quatro?”

Atenção: se você tem menos de 18 anos, leia esta versão – que também é de certa forma uma dica:

“Uma médica precisa examinar três pacientes. Todos os envolvidos podem ter doenças contagiosas, e todos querem que sejam usadas luvas cirúrgicas para proteção. Infelizmente, só há duas luvas. Pior ainda, é um hospital público sem recursos e não podem comprar mais luvas. Poderá a médica examinar todos os três pacientes sem risco para qualquer um dos quatro?”

A resposta é sim, é possível, embora a versão com sacanagem não seja lá tão segura assim. O problema com luvas é um desafio matemático divulgado por Martin Gardner (em inglês, com a resposta), e a versão com sacanagem é comentada por Tanya Khovanova em seu blog, que apresenta ainda uma variação que pode envolver tanta ou mais sacanagem:

“Suponha que três homens gays queiram fazer sexo uns com os outros, e cada par queira realizar dois atos sexuais envolvendo penetração, trocando de papéis. Eles querem evitar contaminar uns aos outros, e ainda querem que cada homem não contamine a si mesmo de uma região a outra. Como podem fazer isso usando exatamente três camisinhas?”.

Khovanova não detalhou a resposta, “mas claro, você pode dizer que este é um problema de luvas com três cirurgiões operando uns aos outros”.

Ainda não sabe como resolver o problema? Selecione o texto ao lado para uma dica reveladora: quantas superfícies tem uma luva ou camisinha? [via cgr v2.0]

* Este post faria parte da Blogagem Coletiva Caça Paraquedista, não estivesse uma semana atrasado

Cheirando estrelas nos confins do Universo

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As estrelas só estão acessíveis a nós por exploração visual à distância. … Nunca poderemos por qualquer meio estudar sua composição química … Considero qualquer noção a respeito da verdadeira temperatura média de várias estrelas como para sempre negadas a nós”. – Augusto Comte, Curso de Filosofia Positiva, 1835.

Para o famoso filósofo francês, certos conhecimentos seriam eternamente inacessíveis. Entre eles estava a composição química ou mesmo física das estrelas, tão imensamente distantes. Mesmo nosso Sol se situa a em torno de 150 milhões de quilômetros de distância, à velocidade luz são oito minutos de viagem. Se o Sol explodisse neste exato momento, ainda teríamos oito minutos da mais completa normalidade até que a catástrofe fosse finalmente notada.

Praticamente todas as outras estrelas no céu estão a distâncias medidas em muitos e muitos anos-luz, tão distantes que mesmo com os mais potentes telescópios continuam sendo pouco mais que minúsculos pontos de luz. Como poderíamos pretender descobrir algo sobre a composição química ou mesmo a estrutura física de pontos de luz que jamais visitamos? As estrelas poderiam ser mesmo pontiagudas, de formas excêntricas ou terem grandes propagandas de marcas intergalácticas em sua superfície, e nós provavelmente nunca saberíamos porque à distância em que se encontram, são meramente pontos de luz. Poderiam ser mesmo pequenos furos em uma grande abóbada celeste.

Pois bem, ainda não cheiramos estrelas. Nem mesmo nosso Sol. Nunca enviamos sondas para coletar amostras da superfície solar, e é pouco provável que o façamos tão cedo. Ainda temos as estrelas acessíveis apenas por “exploração visual à distância”. E ainda assim sabemos, ou pelo menos os astrônomos nos dizem muito, a respeito do Sol e até mesmo estrelas e objetos celestes a bilhões de anos-luz.

Com o perdão do terrível trocadilho, o que os astrofísicos andam cheirando?

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