Boaventura Santos e a Ciência Pós-Moderna

Formado por ideogramas milenares, o idioma chinês possui uma riqueza digna de tal história: os ideogramas que formam o termo “crise” se constituem daqueles que significam “perigo” e “oportunidade”. Algo que o sociólogo Boaventura de Souza Santos, em seu “Um discurso sobre as ciências” (1987), poderia apreciar ao relativizar tanto do contexto cultural e sociológico da ciência enquanto pretende apontar a crise do “paradigma dominante” da ciência moderna.
Depois de expor sua visão do que constituem os fundamentos do paradigma vigente até poucas décadas antes de 1980, Santos adentra na suposta crise científica:
“Einstein constitui o primeiro rombo no paradigma da ciência moderna … Como é que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espaço? … A fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. Com um golpe de gênio, Einstein rompe com este círculo, demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes não pode ser verificada, pode tão só ser definida. É, portanto, arbitrária e daí que, como salienta Reichenbach, quando fazemos medições não pode haver contradições nos resultados uma vez que estes nos devolverão a simultaneidade que nós introduzimos por definição no sistema de medição”.
Esta é uma versão peculiar para a compreensão da Teoria da Relatividade, como se fosse um simples “golpe de gênio” fundamentado em uma mudança de convenções. Como se qualquer um antes de Einstein pudesse ter dado este salto filosófico. Para minha surpresa, esta versão peculiar é mesmo tomada quase textualmente da obra citada do físico Hans Reichenbach, um celebrado divulgador científico, e em especial, das ideias de Einstein, de quem chegou a ouvi-las diretamente. Não há erro nela, exceto no ponto em que Boaventura Santos parece entendê-la, e expressá-la, de forma duvidosa.

Reichenbach ofereceu uma exposição e discussão muito mais longa da Relatividade, onde o mal-entendido, se é que é mal exposto, é desfeito, mas Santos parece contente com o engano subentendido. E ele pode ser resumido no fato de que Einstein tornou-se célebre pela Teoria da Relatividade, e não pela Teoria da Arbitrariedade. Ainda que Reichenbach, assim como Einstein (ou o contrário seria mais correto), tenham sim ressaltado o caráter arbitrário com que se pode definir a simultaneidade de dois eventos, nenhum deles deixou de expor claramente que esta arbitrariedade está vinculada aos quadros de referência adotados, na forma como se realiza a medição.
O “golpe de gênio” de Einstein não foi meramente filosófico. Não foi puramente arbitrário. Fundamentou-se em descobertas empíricas, ou melhor dizendo, na ausência de uma descoberta empírica em particular – a do éter luminífero – e sua rápida aceitação deveu-se à beleza com que explicava resultados empíricos, como o experimento de Michelson e Morley, um dos mais bem-sucedidos experimentos que não deram certo. Não apenas a Relatividade só faz sentido e só foi aceita amparada em um conjunto de resultados experimentais, como seu desenvolvimento mais completo, com a Teoria da Relatividade Geral, só seria alcançado incorporando um embasamento matemático que por vezes escapava ao próprio Einstein. Empirismo e matemática.
Continua Santos:
“O caráter local das medições e, portanto, do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém, vai inspirar o surgimento da segunda condição teórica da crise do paradigma dominante, a mecânica quântica”.
Há vários erros aqui. Santos tenta associar a Teoria da Relatividade – que entende como limitando o rigor do conhecimento a medições locais – com o Princípio da Incerteza, mas embora hoje os dois conceitos façam a alegria de filósofos pós-modernos, em seu desenvolvimento é célebre como uma não inspirou a outra. Pelo contrário, Einstein jamais aceitou a incerteza, e sua Teoria da Relatividade, ao contrário do entendimento de Santos, ainda lidaria com a possibilidade teórica do determinismo.
Ironicamente, um ponto que ambas ideias de fato revolucionárias teriam em comum é justamente um que, novamente, vai de encontro à visão pós-moderna: tanto a Relatividade quanto o Princípio da Incerteza questionaram o entendimento de fundamentos da física clássica através de descobertas e demonstrações empíricas, reproduzíveis e testáveis, modeladas com rigor matemático.
Longe de serem revoluções arbitrárias, longe de serem construções culturais, estas revoluções científicas são em si mesmas evidência do caráter objetivo e empírico da ciência transcendendo crenças pessoais ou coletivas. O GPS de seu carro funciona com a Relatividade, com uma precisão de metros fornecida por satélites a milhares de quilômetros por hora. Seu computador é fundamentado na mecânica quântica, efetuando bilhões de cálculos sem erro através de portas lógicas com nanômetros de tamanho.
Isso parece pouco rigor? Esses são mais frutos utilitários e se não absoluta, ao menos efetivamente determinísticos e exploratórios da natureza, produzidos pela “crise” da ciência moderna apontada por Santos, e frutos que ele já podia ver em 1985.
Podemos não viver no Universo determinístico do demônio de Laplace, onde conhecer o presente com absoluta precisão significaria conhecer o passado e prever o futuro, mas a cosmologia perscruta a evolução do Universo há mais de 13 bilhões de anos. Esse parece um fracasso? Talvez seja mais do que Laplace poderia ter concebido, que as leis naturais podem ser ao mesmo tempo probabilísticas e rigorosas em escalas quase infinitas, algo que até hoje muitos têm dificuldade em compreender.

Como muitos, Santos parece pensar que com Einstein, as Leis de Newton foram demolidas, ou que com o Princípio da Incerteza basta desejar uma bicicleta com suficiente afinco para obtê-la. Em verdade, aqui como em uma galáxia em Andrômeda, maçãs continuarão caindo em direção ao centro de um planeta esférico. Se existirem maçãs em Andrômeda, é claro. A Relatividade não limita a precisão de uma medida
em “local” e “distante”, apenas vincula medidas a um quadro de referência, arbitrário, sim, mas obedecendo com rigor abismal a equações matemáticas descritas por Einstein. Equações, por sua vez, que só encontram seus limites preditivos no mundo da física quântica – uma que, apesar de possuir caráter probabilístico, permite sim predições com um rigor abismal, o mesmo que fundamenta a precisão digital de seu computador.
Ao discutir os rombos da suposta “crise” na ciência moderna, Boaventura Santos discorre sobre as revoluções como se Einstein, Bohr e Heisenberg dessem seus “golpes de gênio”, como os que ele, como sociólogo, pretende fazer ao expor em 1985 o estado da ciência atual e especular sobre seu futuro. Mais de vinte anos depois, vemos como a visão de Santos do que era a ciência em 1985 era limitada, e suas previsões sobre o futuro se mostraram míopes.
É revelador que ele entenda que a:
“teoria de estruturas dissipativas de Prigogine, ou a teoria sinergética de Haken, … a teoria da ‘ordem implicada’ de David Bohm, a teoria de matriz-S de Geoffrey Chew e a filosofia do ‘bootstrap’ que lhe subjaz e ainda a teoria do encontro entre a física contemporânea e o misticismo oriental de Fritjof Capra, todas elas de vocação holística e algumas especificamente orientadas para superar as inconsistências entre a mecânica quântica e a teoria da relatividade de Einstein, todas estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de auto-determinação e até de consciência que antes o homem e a mulher tinham reservado para si”.
Perceba como Boaventura Santos pensa que Bohm, Chew ou mesmo Fritjof Capra conseguiriam conciliar a Quântica com Relatividade meramente com uma abordagem filosófica diferente! É novamente a ideia do “golpe de gênio”, e para quem entende que as revoluções científicas da física moderna (ou mesmo da matemática) se dão de forma meramente cultural, sociológica, isso faz sentido. Para quem anuncia que “o discurso científico aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária”, isso pode fazer sentido.

O pequeno detalhe é que esta simplesmente não é a realidade, e ao discorrer sobre as ciências, Boaventura Santos simplesmente expõe uma visão fundamentalmente falha do que a ciência foi, e é. Sem surpresa, falha ao prever como será. Seu “golpe de gênio” não o tornou duas décadas depois fundador de um novo paradigma científico, apenas o tornou um dos porta-vozes do pós-modernismo em língua portuguesa, e um que, na opinião deste autor, essencialmente se resume a repetir boa parte do pensamento de Fritjof Capra exposto anos antes.
Enquanto Santos anunciava um novo paradigma científico assentado na “sensocomunização”, a ciência de verdade seguia sendo revolucionada por descobertas empíricas que foram de encontro a crenças difundidas na academia, que se dirá ao senso comum. Poucos anos antes, Santos poderia ter mesmo visto como a teoria de deriva dos continentes passou de ideia absurda a um dos principais fundamentos da geologia, graças a uma acumulação cada vez maior de evidência de múltiplas fontes. Na mesma década de 1980, Santos assistiria como a hipótese de Luis e seu filho Walter Alvarez para a extinção KT como provocada pelo impacto de um asteróide seria gradualmente aceita pela comunidade científica, outra vez de inúmeras linhas de evidência diferentes.
Santos deve ter assistido mesmo como as ideias de Fritjof Capra pouco afetaram a física de verdade, apenas alimentaram um mercado de vendedores de pseudociência que bebe das ideias da “ciência pós-moderna” para explorar consumidores.

A estes vendedores de pseudociência, explorar e conciliar o senso-comum com a transferência de dinheiro para seus bolsos sim é um paradigma de sucesso. Mas este é um paradigma muito antigo, anterior mesmo a Bacon, Descartes, ou Hume. Este é um paradigma do que não é e não deve ser a ciência.
O senso-comum é instável e este sim, arbitrário e quase unicamente sujeito a convenções sócio-culturais. Pode ser algo como a anedota sobre os ideogramas chineses para “crise” que iniciam este texto, pois ela é simplesmente falsa. Se você acreditou nela, talvez acredite na forma como Santos expressa suas ideias como fatos e pressupostos indiscutíveis. Devem, no entanto, ser muito discutidos. O conflito com o senso comum quando se descobre que ele é falso é uma questão complexa, mas não é promovendo um entendimento deficiente da ciência que se irá resolvê-lo.
Compare-se o pensamento de Santos com o do filósofo francês Edgar Morin:
“Hoje, sabemos que tudo é ambivalente. Sabemos que a ciência pode produzir benefícios extraordinários e ao mesmo tempo forças de destruição, e de manipulação, que jamais existiram antes. Sabemos que a racionalidade, que é nosso instrumento de inteligibilidade mais confiável, pode bloquear-se e tornar-se racionalização, ou seja, um sistema lógico, coerente, mas que ignora as coisas concretas”.
Há profunda sabedoria, e nenhum linguajar rebuscado ou pseudo-erudito nesta breve visão de mundo, que reconhece o valor da ciência e da racionalidade e também seus perigos, sem incorrer em exercícios de manipulação de conceitos e outras técnicas que tornam o pós-modernismo um castelo tão imponente mas tão vazio e carente de fundamento. Ao ler Morin, é fascinante encontrar nas ideias de um filósofo conceituado descrições acuradas sobre a forma como se confirmou a teoria do Big Bang através da descoberta da radiação de fundo ou sobre o funcionamento do DNA e a transmissão de características hereditárias. Ao contrário de Santos, Morin não subverte seu entendimento destas ideias científicas a sua própria filosofia. E vinte anos depois, as ideias de Morin ainda parecem muito válidas.
Compare-se, por fim, o pensamento de Santos com a visão mais reveladora e mesmo mais curta do que as revoluções em diversas áreas representam no contexto do conhecimento científico, em um curto e belo ensaio de Isaac Asimov – escrito na mesma época que o livro de Santos. É A Relatividade do Errado. Claro que não deve ser o início e o fim da reflexão sobre o tema, mas se Asimov pode ser um começo, Santos a este autor seguramente não é nem isso. Tanto que, para uma visão muito mais presciente e
bela sobre o futuro do processo científico e da popularização do conhecimento, assista-se a esta entrevista com o mesmo Asimov, feita também na mesma época em que Santos parece ignorar completamente a revolução das tecnologias de informação.
Asimov, longe de ser um sociólogo, era um bioquímico por formação, e um celebrado autor de… ficção científica. Ao final deste século, é bem provável que Asimov ainda seja lembrado pelos que pensem em ciência. Se não por seres humanos, talvez por robôs.
A cena, imagino, seria o horror a um pós-modernista, mas ironia das ironias, é provável que ao final deste século o pós-modernismo tenha passado como a moda que advoga que a ciência é. O que o substituirá, bem, só os designers de moda podem dizer.
Fato é que as maçãs continuarão caindo, se ainda existirem maçãs.
- – -
[Tema sugerido pelo Ciência à Bessa, obrigado!]
Retrospectiva 100nexos: 2010
Relembrando o ano de Copa e Eleições (com ciência!), a começar pelo Top 10 de posts por visitas.
-
Ciência aplicada aos vampiros da saga “Crepúsculo”?
-
“Nature By Numbers”: Fibonacci e a matemática como descrição do mundo
-
GIFs animados de mecanismos
-
Restart, Justin Bieber e a Pirâmide Etária
-
O Guia Mangá de Física
-
Pinóquio, Deus e a Incompletude de Gödel
-
O Sistema Solar em 30 Megapixels
-
Tema de Doctor Who com Bobinas de Tesla
-
Em que provamos que π=4
-
Lançamento da Apollo 11 em câmera lenta
Não contem por aí, mas os vampiros adolescentes e iridescentes responderam sozinhos por um quinto de todas as visitas a estes nexos em todo o ano!
Em 2010 também iniciamos séries de textos abordando a fundo grandes teias de conexões – algumas tão grandes que ainda não as concluímos.
Começamos considerando que A Humanidade não merece ir à Lua (I), (II), (III), (IV), (V), (VI). Não merece mesmo? Qual será o futuro da exploração espacial e nosso lugar no Universo? A série continua!
Iniciamos também uma discussão sobre A Primavera Silenciosa da Nature (parte I), (II), mas a bola foi apenas levantada. A enorme e delicada teia de vidas ainda se estenderá pelo próximo ano.
Conseguimos sim conduzir e concluir uma série de textos! E uma lidando justamente com o fim de tudo. O Apocalipse Inevitável (parte I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (fim). Será este o último Reveillon da história? Não, ou pelo menos, certamente não devido a qualquer calendário maia. Considerar a fragilidade de nossa condição, pelo perigos reais e que povos antigos sequer imaginaram, mas com causas não muito diferentes daquela que os levaram à ruína, é algo que podemos fazer ao considerar o Apocalipse. O Apocalipse é Inevitável, mas pode ser adiado.
Para encerrar o ano, uma seleção adicional de posts que você pode ter perdido:
-
O Fiasco da Inteligência
-
Os Epiciclos Ptolemaicos de Homer Simpson
-
A Escala do Universo: do yocto ou yotta
-
Espirrando — e triplicando a resolução de seu monitor
-
Colisão de Anéis de Vórtice: da Clarividência às Supercordas
-
A Grande Coincidência Cósmica: Eclipses e a Dança das Mil Mãos
-
Divulgando ciência “errada” do jeito certo
-
Ataque dos salgadinhos gigantes
- Manadas de Homo Sapiens
-
A Busca pela Longitude, a uma década do GPS civil
-
Somos uma pequena assimetria
-
Um mundo sem carros
-
Benjamin Redentor
-
Teseu e o fio de Ariadne
-
Ciência na Copa do Mundo: Troféu, Vuvuzelas, HD e Sorte
-
A Garota Afegã em 3D
-
Mola Maluca
-
Vida
-
Baleias, ovelhas e cavalos no espaço
-
Somos um epifenômeno
-
Black Sabbath: “Iron Man” a meio milhão de Volts
-
O Deus Relojoeiro
-
Eclipses Antropocêntricos
-
Sinédoque: o oceano dentro de nós
-
Psico-história e pesquisas eleitorais
-
Constelações Humanas
-
O navio de Teseu e a impermanência do Carbono-14
-
Nuclearoids: brinque de física nuclear
-
Gnarls Barkley – Gone Daddy Gone (e cores falsas)
-
A Mente Científica
-
Feliz Natal!
Sempre, um enorme obrigado pela leitura, e com os melhores votos de um fabuloso 2011!
O navio de Teseu e a impermanência do Carbono-14
“Nenhum homem pode atravessar o mesmo rio duas vezes, porque [já] nem o homem nem o rio são os mesmos.” – Heráclito
“O navio com que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos, e foi preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero, porque eles removiam as partes velhas que apodreciam e colocavam partes novas, de forma que o navio se tornou motivo de discussão entre os filósofos a respeito de coisas que crescem: alguns dizendo que o navio era o mesmo e outros dizendo que não era.” – Plutarco
O paradoxo do barco de Teseu é ao mesmo tempo uma das doutrinas essenciais do Budismo: a impermanência, a consciência de que tudo está em fluxo constante. A profundidade deste conceito pode ser apreciada tanto filosoficamente quanto vislumbrada cientificamente, compreendendo melhor a datação por radiocarbono, conhecida também como teste de Carbono-14. É uma longa jornada que vai literalmente de estrelas a muitos anos-luz até a ponta de seus pés, mas àqueles dispostos a dedicar algum tempo e esforço a viagem valerá a pena.
Continue lendo: “O navio de Teseu e a impermanência do Carbono-14”
30 anos de Cosmos: uma viagem humana
“Nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”.
Quando a Humanidade deu seu grande salto na Lua em 1969, em torno de meio bilhão de pessoas assistiram empolgadas em pequenas TVs em preto e branco dois astronautas pisarem em outro mundo. O evento marcou toda uma geração e continua sendo um dos maiores feitos de nossa espécie, mas apenas três anos depois, quando os astronautas da Apollo 17 deram o último adeus ao nosso satélite natural, o interesse popular pela exploração espacial já não era tão grande. Faltava algo mais básico para continuar a alimentar o grande interesse público além da novidade de pisar na Lua.
Foi neste contexto que um cientista espacial que continuava a explorar outros mundos com sondas robóticas renovaria a fascinação de centenas de milhões. Através da mesma telinha, agora a cores e com efeitos especiais e um roteiro quase poético, ele relembraria e para muitos apresentaria pela primeira vez o que realmente significava aquela pegada no solo lunar – e tanto mais além desta façanha.
Desde as verdadeiras dimensões do Universo em que vivemos até a magnífica aventura do conhecimento que levou um pequeno punhado de macacos pelados a se estender por todo um planeta e, com o poder fantástico do método científico, viajar ainda mais longe. À vastidão em que ainda não tocamos, com uma “nave da imaginação” modelada à imagem de uma semente de dente-de-leão ao vento, ele nos levaria cruzando a galáxia por anos-luz.
Quando finalmente retornarmos à Lua depois de um longo afastamento, ou quando visitarmos Marte e os infinitos mundos que nos aguardam pelo espaço, talvez nosso interesse e excitação como um todo dure um tanto mais porque nos lembraremos de sua grande e bela visão.
Falamos, é claro, da série televisiva “Cosmos: Uma Viagem Pessoal” do astrônomo Carl Edward Sagan, cujo primeiro episódio foi ao ar pela TV americana em 28 de setembro de 1980. Toda uma geração, incluindo este que escreve estas linhas, já nasceu e cresceu não sob a sombra, mas sob a luz e inspiração de uma obra ao mesmo tempo popular e imensamente inteligente, sóbria e profundamente atraente.
Três décadas depois, é surpreendente como muito da visão de Sagan do Cosmos seria largamente validada, transformando especulação otimista em fato científico. Um destes elementos mais empolgantes envolve o primeiro planeta fora do sistema solar, que só seria confirmado como descoberta científica quase uma década depois que Sagan despertasse milhões às tantalizantes possibilidades da multiplicidade de mundos.
Pois desde o primeiro exoplaneta em 1988, quase 500 exoplanetas já foram confirmados. Os nove, ou melhor, oito planetas de nosso sistema solar são hoje poucos em comparação com as centenas de outros corpos orbitando estrelas longínquas. E a viagem da imaginação aos fatos não parou aí.
Os dados iniciais de um novo satélite, o Kepler, como parte continuada da exploração do Cosmos, podem mais do que dobrar este número em poucos meses de observação, levando à sugestão de que planetas sejam não só quase onipresentes pela Galáxia, como que até 100 milhões de planetas como a Terra populem a Via Láctea. Por sua vez, apenas uma das centenas de bilhões de galáxias pelo Universo.
Na mesma semana de aniversário de Cosmos, o mais forte candidato a exoplaneta potencialmente habitável, chamado Gliese 581 g, foi anunciado com grande animação. A beleza disto é que sendo esta a ciência, a descoberta pode ou não ser confirmada, mas sendo esta a ciência e particularmente uma área que assistiu a enormes avanços nas últimas décadas, é uma questão de tempo até que dezenas, centenas, milhares e quem sabe mesmo milhões de planetas como a Terra sejam comprovados em nossa galáxia.
São números que mesmo o homem dos grandes números, com quem o apresentador Johnny Carson brincava sobre os “bilhões e bilhões”, tomaria como uma estimativa muito otimista. O amanhã em que vivemos hoje trata de confirmá-la como fato.
Em meio à viagem pelas estrelas, e entre os milhões de planetas como a Terra que podem existir, Sagan também se preocupou muito em abordar as questões muito humanas que enfrentávamos em nosso único e pálido ponto azul. No início da década de 1980, a Guerra Fria começava a se reaquecer enquanto EUA e União Soviética acumulavam dezenas de milhares de ogivas nucleares, um número grande que o cientista espacial se dedicou obstinadamente a diminuir. Poucos anos depois de Cosmos, Carl Sagan seria um dos descobridores do Inverno Nuclear, destacando ainda mais o perigo de extinção que enfrentávamos como espécie.
Igualmente superando suas mais otimistas expectativas, alguma lucidez tomou conta de líderes de ambos os lados, que passaram a diminuir seu arsenal, até que em 1989 a União Soviética implodiu sem o disparo de nenhuma bomba nuclear. Se superamos a maior urgência deste desafio, por outro lado, perigos sobre os quais Sagan também alertou e que há trinta anos pareciam menores hoje se tornam prioridade, como as mudanças climáticas e todo o impacto que o nosso próprio sucesso descomunal em habitar todos os continentes e contar com um número cada vez maior de confortos exerce sobre o pálido ponto que pode em breve tomar uma cor diferente e menos hospitaleira que o azul.
Vivemos em um fabuloso amanhã, com novos conhecimentos e novos desafios de uma geração somando-se à enorme jornada de milhares de ancestrais explorada em Cosmos. Lamentavelmente, vivemos também sem a companhia de Sagan, que nos deixou cedo apenas 16 anos depois de comover um mundo com a beleza e mesmo a espiritualidade que pode ser encontrada na busca pelo conhecimento através da ciência.
Se Sagan teve uma visão por vezes profética de descobertas futuras, também podemos profetizar com grande segurança que é mera questão de tempo até que um membro da geração sob a luz de Cosmos ganhe um prêmio Nobel. E ele – ou ela – será apenas o primeiro de muitos, enquanto Carl Sagan deve ter o mérito de ter inspirado diretamente mais do que qualquer outra pessoa um número gigantesco de jovens a seguir uma carreira científica e ajudar o Cosmos a conhecer a si mesmo.
O legado de Sagan vive como uma porção particularmente brilhante de conhecimento, e como tal só deve se multiplicar enquanto novas mentes continuarem sendo inspiradas a buscar saber mais sobre “tudo que existe, tudo que existiu e tudo que existirá”.
É parte da frase com que Carl Sagan iniciou seu primeiro episódio às “margens do oceano cósmico” há três décadas.
E é como definiu o próprio Cosmos.
- – -
Em homenagem aos 30 anos de Cosmos, iniciamos um perfil no Twitter dedicado exclusivamente a divulgar a obra de Carl Sagan, confira @saganismos. Para acompanhar o perfil no Twitter e indicar melhor sua obra, também iniciamos através do projeto HAAAN um novo sítio on-line para agregar informações sobre as obras do astrônomo: saganismos.haaan.com.
A Primavera Silenciosa da Nature (parte II)
“Houve outrora uma cidade no coração da América onde toda a vida parecia viver em harmonia com o ambiente. Então uma estranha moléstia avançou sobre a área e tudo começou a mudar. Um feitiço maligno foi lançado sobre a comunidade. Por todo o lugar se via a sombra da morte.
Fazendeiros falavam de muitas doenças em suas famílias. Na cidade, os doutores ficaram mais e mais intrigados por novos tipos de moléstias aparecendo em seus pacientes.
Havia uma estranha calmaria. Os pássaros, por exemplo, para onde teriam ido? Os poucos vistos estavam moribundos, tremiam violentamente e não podiam voar. Aquela era uma primavera sem vozes. Pelas manhãs, que outrora haviam vibrado com o coro dos papos-roxos, dos tordos-dos-remedos, dos pombos, dos gaios, das corruíras e de vintenas de outras aves canoras, não havia agora som algum, somente o silêncio pairava.
Nas fazendas, os galos cruzavam mas os pintinhos não chocavam. As macieiras floresciam mas nenhuma abelha voava entre as flores, não havia polinização e não haveria frutos.
Nas sarjetas e nas calhas, entre as telhas, um pó branco granulado ainda podia ser visto. Algumas semanas antes ele havia caído como neve sobre os telhados e jardins, os campos e rios. Nenhuma bruxaria, nenhuma ação inimiga havia silenciado o renascimento de uma nova vida naquele mundo golpeado pela morte. Fora o povo, ele próprio, que fizera aquilo”.
Com esta assustadora “Fábula para Amanhã” começa a “Primavera Silenciosa” (1962) de Rachel Carson, saudado como um dos marcos iniciais do movimento ambientalista. Aproximando-se dos 50 anos desde sua publicação, você pode jamais ter lido o livro de capa verde, mas sem dúvida já escutou alguma versão desta fábula apocalíptica, e é bem possível que o cenário do silêncio dos pássaros e das doenças misteriosas causadas por produtos químicos sintéticos façam parte de seus temores mais primordiais.
Como contou um amigo, quando o aluno comentou, “Bah, o Shakespeare é um clichê atrás do outro!”, o professor respondeu, “Claro, foi ele que criou eles”. A “Primavera Silenciosa” de Carson, com seus alertas sobre o abuso de componentes sintéticos, a manipulação do público incauto pela grande indústria e a delicada teia da vida em que vivemos pode soar como um amontoado de clichês ecológicos.
Claro, foi em grande parte este best-seller ainda lido em escolas que os levou a milhões de mentes. Primavera Silenciosa foi eleito recentemente como um dos 25 maiores livros de ciência pelos editores da Discover Magazine.
“Biocidas”
Em meio à poesia, havia sim ciência: com a comoção popular, o presidente John Kennedy ordenou que seus cientistas investigassem as alegações de Carson. Quando em maio de 1963 o relatório foi finalmente divulgado, nada menos que a própria Science opinaria como:
“O tão esperado relatório sobre pesticidas do Comitê de Assessoria Científica do presidente foi divulgado na semana passada, e embora seja um documento moderado, mesmo em tom, e cuidadosamente equilibrado em seu julgamento de riscos versus benefícios, ele se soma a uma vindicação razoavelmente completa da tese da Primavera Silenciosa de Rachel Carson”.
A tese do livro, novamente hoje um clichê, era realmente simples. O uso irresponsável e irrestrito de pesticidas exterminava não apenas insetos, como afetava animais como pássaros e mesmo seres humanos. Carson argumentava como não seriam “pesticidas”, e sim “biocidas”, porque sua ação não se limitava às pestes e sim se estendia a toda a vida. O DDT em particular podia ter uma ação muito restrita a insetos, mas por ser lipofílico e não se degradar facilmente, tendia a se concentrar cada vez mais na gordura de animais no topo da cadeia alimentar, com efeitos não desprezíveis por exemplo em algumas espécies de pássaros como o falcão peregrino.
Mais do que seus efeitos colaterais, o próprio sucesso do DDT seria também seu fracasso, porque a evolução é literalmente uma força da natureza. Quase todos os insetos eram exterminados pelo DDT, mas os pouquíssimos indivíduos que por pequenas mutações eram mais resistentes ou mesmo imunes passavam então a se proliferar sem rivais. Enfatizando as ideias de Darwin para o desenvolvimento de resistência a pesticidas por insetos, Carson nota como “a guerra química nunca é vencida, e toda a vida fica encurralada no fogo-cruzado”. Insetos e pesticidas só se tornariam mais tóxicos e resistentes até que realmente não houvesse mais pássaros cantando pela manhã.
Dez anos após sua publicação, o DDT foi banido nos EUA e o uso e aplicação de pesticidas passou a ser melhor regulado por todo o mundo. A Convenção de Estocolmo, um tratado global do qual o Brasil faz parte e em vigor desde 2004, limita o uso de Poluentes Orgânicos Persistentes, incluindo além do DDT substâncias como as dioxinas.
Mas não há nada tão óbvio e ponderado que não possa ser distorcido para se transformar em algo abominável. A figura feminina de Rachel Carson e sua prosa repleta de referências poéticas seria transformada por alguns em um dos maiores males do último século, responsável pela morte de milhões.
No próximo texto.
A Primavera Silenciosa da Nature (parte I)
Imagine uma poção mágica capaz de aniquilar insetos transmissores das mais perniciosas doenças, salvando centenas de milhões de vidas. Jogue a poção mágica, e pouco tempo depois veja uma montanha de insetos caídos no chão. Talvez isso provoque o temor de que a poção pesticida seja altamente tóxica, afinal se mata insetos, o que mais pode matar? Mas imagine ainda que essa poção mágica tenha uma ação bem limitada aos insetos, e que seja tão segura que você poderia ingerir uma colher diariamente, sem nenhum efeito colateral significativo.
Não seria fantástico? O que é mais fantástico é que esta poção mágica já existe, e você talvez a conheça pelo nome de DDT, Dicloro-Difenil-Tricloroetano. A poção mágica foi contudo banida a partir da década de 1970 e desde então tem seu uso restrito inclusive no Brasil. Entender melhor por que isto aconteceu é entender algo das raízes do movimento ambientalista e de questões que foram e continuam sendo cruciais para o nosso bem-estar e o da vida no planeta.
Uma colher de sopa
Que o DDT é um pesticida de grande eficácia é um fato incontroverso: utilizado inicialmente para controlar vetores e surtos de doenças como malária e tifo durante a Segunda Guerra Mundial, durante a década de 1950 foi saudado literalmente como a poção mágica que erradicaria tais doenças por completo em todo o mundo e sozinho duplicaria a produtividade da agricultura, livre das pragas de seis pernas. Milhões de vidas foram realmente salvas e em várias áreas doenças foram efetivamente erradicadas após campanhas de dedetização. Em português, o DDT tornou-se mesmo verbo e profissão, ainda que hoje dedetizadores já não usem mais o Dicloro-Difenil-Tricloroetano.
Seria o DDT seguro à saúde humana? O entomologista americano J. Gordon Edwards dedicou sua vida a provar que sim, e de forma particularmente simples e corajosa. Edwards pegava uma caixa de DDT, enfiava uma colher de sopa no pesticida em pó e… botava goela abaixo, com alguns goles de água. A palestra que proferia depois sobre a segurança do DDT à saúde humana sem dúvida se tornava um tanto mais empolgante. Ao lado, uma fotografia de Edwards ingerindo mais uma colher de DDT ilustrando um artigo notório da revista Esquire em 1971.
J. Gordon Edwards faleceu em 2004, aos 84 anos de idade, enquanto escalava uma montanha com sua esposa. A causa da morte foi um ataque cardíaco.
Este, no entanto, é apenas o começo da história, e você não deve sair por aí tomando colheradas de DDT. A Primavera Silenciosa de Rachel Carson e os motivos muito razoáveis para o banimento do DDT, no próximo texto.
Basquete, Yao Ming e a Eugenia
Com 2 metros e 29 centímetros de altura, Yao Ming é um gigante, o mais alto jogador de basquete na NBA americana em atividade. Sua altura e seu gosto por basquete não foram mera obra do acaso. Seu pai, Yao Zhiyuan, media mais de dois metros e sua mãe, Fang Fengdi, 1,90m. Ambos também eram jogadores de basquete profissional, e como Razib Khan notou em um post recente em Gene Expression, citando o livro “Superfusion”, de Zachary Karabell:
“[A mãe de Yao Ming] havia servido da Guarda Vermelha no ápice da Revolução Cultural, e era uma Maoísta ardorosa. Ela participou entusiasticamente no plano glorioso do governo local de usá-la e ao seu marido para produzir uma super-estrela dos esportes. As autoridades de Xangai que encorajaram o par investigaram várias gerações anteriores para se assegurar de que a altura fazia parte da linha de sangue. O resultado foi Yao, um bebê gigante que só continuou a crescer”.
Yao Ming nasceu com 5kg, e media 1,65m aos dez anos. Começou a praticar basquete pouco antes, não parando desde então. Sua concepção deliberada não é um evento isolado, uma vez que a China é efetivamente o único país no mundo a promover oficialmente a eugenia – termo cunhado por Francis Galton, que deve, e merece ser mais conhecido pelas suas contribuições à ciência estatística, entre tentas outras ciências.
Através do controle da reprodução e descendência dos indivíduos, a eugenia pretendia “melhorar as qualidades genéticas humanas”, um caminho cheio de boas intenções que encontrou todavia seu ápice mais tenebroso nas loucuras promovidas pelo regime nazista. A eugenia foi a pseudociência que embasou e levou do racismo ao genocídio.
Exterminar ou esterilizar indivíduos “inferiores” é parte do que seria a “eugenia negativa”, que ainda encontra eco hoje no humor macabro do prêmio Darwin, “honrando aqueles que melhoram a espécie… ao acidentalmente removerem-se dela!”. Complementando tais medidas para evitar que traços “negativos” se perpetuassem, estaria a “eugenia positiva”, justamente o que se vê no caso do jogador de basquete chinês, com a reprodução deliberada de um casal com a herança genética “positiva” que se deseja.
A eugenia negativa também é levada a cabo na China: em 1995 foi colocada em prática a Lei de Saúde Materna e Infantil, que obriga que todos casais se submetam a exames médios para detectar doenças genéticas, infecciosas e mesmo doenças mentais. A critério de médicos, e de acordo com a lei, o casal pode ser proibido de ter filhos, podendo ser obrigado à esterilização. O controle eugênico não para aí, enquanto exames pré-natais também podem levar à decisão de terminar a vida de um feto ou bebê que apresente problemas mais sérios. O seguinte texto (em inglês) cita a lei chinesa e a opinião de um diretor de bioética chinês bem como a crítica de um sinologista alemão: Is China’s law eugenic?.
O assunto é complexo, e um breve post não poderia pretender abordar mesmo um sumário das questões mais importantes. Comentamos aqui, ao invés, apenas alguns nexos dispersos, e o principal deles seria a questão moral. Não deve ser coincidência que o único país a promover políticas claramente eugênicas seja um estado totalitário. É historicamente a moral popular corrente que limitou o avanço de políticas eugênicas – e, igualmente, não é tanto coincidência que os maiores extremos destas tenham sido cometidos por outro estado totalitário, durante o regime nazista.
Há no entanto algo um tanto chocante sobre a moral impondo limites à eugenia: ela tendeu a impor mais limites à eugenia positiva. Tanto sob Hitler quanto sob Stálin, eugenistas mais entusiasmados propuseram esquemas mirabolantes através dos quais os homens mais bem-dotados teriam incontáveis filhos com os melhores espécimes de mulheres, mas em ambos os regimes a ideia entrou em conflito com a moral vigente.
Mesmo sob o nazismo, o programa de eugenia positiva Lebensborn concebido pelo chefe da SS consistiu principalmente no apoio a mães “arianas” e seus bebês, evitando medidas como o aborto, e não propriamente incentivando que moças “arianas” engravidassem indiscriminadamente de membros “superiores” da SS, como se chegou a imaginar. O conceito de família era um dos pilares do mesmo nazismo.
Esta moral que não aceitava crianças concebidas unicamente pelo seu alegado potencial genético no entanto não levantou grandes barreiras a medidas de eugenia negativa, como esterilizações compulsórias até os extremos do genocídio. E a moral é, ultimamente, tudo que pode impedir a prática ou não de algo tão terrível.
O editor da ciência da Folha e scibling Reinaldo José Lopes, ao mencionar a possibilidade “alucinada” de clonar um Neandertal resumiu a questão comentando como “a empolgação biotecnológica às vezes borra a fronteira entre o que se pode fazer e o que se deve fazer”. A empolgação biotecnológica que assistimos hoje lembra muito a empolgação eugênica no início do século passado.
No final da fenomenal série “Pandora’s Box” de Adam Curtis, Joseph G. Morone discute o histórico desastroso da energia nuclear:
“Na era de ouro da ciência, em uma época quando a sociedade possuía a visão mais otimista da ciência, possuía-se uma visão basicamente errada a respeito. Acreditavam que esta forma da tecnologia era a forma que ela devia tomar de forma inevitável. E que se esta era a forma que ela tomava, então esta devia ser a forma certa.
Quarenta anos depois, temos uma visão similarmente ingênua, que não é mais tingida por esperança e otimismo, e sim por pessimismo e medo. Mas ainda temos esta visão de que a sociedade não pode moldar a tecnologia. De que a forma que a tecnologia toma é a forma que devemos aceitar. E assim como isto não era verdade em 1950, ela não é verdade hoje.
Esta não é uma história da tecnologia saindo de controle, embora muitos a entendam assim. A história da energia nuclear é uma história de decisões políticas, econômicas e sociais sendo feitas sobre a tecnologia, e as principais decisões não foram tomadas por tecnólogos. Foram tomadas nas salas de negócios.
O que a ciência e tecnologia lhe fornecem é uma gama de possibilidades. E essas possibilidades podem levá-lo a um sem número de direções. É uma força potencialmente liberadora. Mas para chegar lá, a sociedade deve acordar e perceber que não é uma decisão científica, não é uma decisão de engenharia.
É uma decisão moral”.
Destacando a questão moral, relembramos como a moral “tradicional”, promovida por instituições que alegam mesmo serem fontes da moralidade, pode ter impedido que jovens loiros e altos de traços clássicos concebessem bebês indiscriminadamente, valorizando o conceito de família, mas pouco ou nada fez contra o extermínio de famílias inteiras que não possuíam tais traços.
Yao Ming e seus mais de dois metros de altura são um indicador um tanto assustador de que a eugenia, se era e talvez ainda seja largamente uma pseudociência, pode sim produzir resultados concretos. Será esta forma aceitável? Aos chineses, por ora, aparentemente é. A nós, talvez não. Mas como Morone destacou, decisões morais não significam aceitar ou rejeitar completamente uma possibilidade científica, tecnológica, como se a primeira possibilidade fosse um imperativo definitivo em si mesmo.
Decisões morais devem moldar como as possibilidades infinitas da ciência podem ser aplicadas em prol de valores éticos. Um gigantesco desafio.
O Apocalipse Inevitável (fim)

“Não é o fim do mundo, mas você pode vê-lo de lá” – Pierre Trudeau
O Fim está Próximo, sempre esteve, sempre estará, exceto quando finalmente chegar. O lugar-comum de que a única certeza na vida é a morte também se aplica à espécie como um todo. E se mal conseguimos lidar com nossa própria mortalidade, que se dirá do inevitável fim da Humanidade – uma ideia tão perturbadora, tão assustadora, que pode ser mesmo impensável. De fato, a maior parte de nós lida com a questão evitando mesmo concebê-la: acredita-se que o apocalipse em si mesmo seria apenas uma grande revelação, o fim de uma era, enquanto a essência imortal de todos nós sobreviveria, de outra forma, eternamente. Se esta crença pode oferecer algum conforto imediato, permanece entretanto, e desafortunadamente, apenas uma questão de fé, e uma que pode ser perigosa quando motiva decisões em questões muito concretas.
No mundo real e objetivo que todos nós, crentes ou não, partilhamos, postergar o Apocalipse Inevitável é tudo que podemos fazer. Mais de 98% das espécies que já viveram foram extintas, vítimas de fenômenos naturais aos quais estavam completamente sujeitas. Embora nossa espécie tenha sido bem-sucedida em evitar o próprio fim – alcançando o número de 6,5 bilhões de indivíduos espalhados por todos os continentes – ela continua tão e por vezes mais vulnerável quanto outras espécies a uma série fenômenos naturais catastróficos. Mesmo aqueles perigos que conseguimos dominar, através da ciência e tecnologia, acabam por ser substituídos por outros criados pela mesma ciência e tecnologia. E os novos perigos de criação humana, como a Caixa de Pandora, uma vez descobertos não podem ser esquecidos, “desinventados”.

Um dos últimos grandes Apocalipses pelo qual a vida no planeta passou foi a extinção K-T, que varreu os dinossauros. Ela é o nexo final que se liga pelo Inverno Vulcânico, decorrente de erupções naturais e periódicas, ao Inverno Nuclear, consequência de um confronto atômico. Depois de reinar por milhões de anos, os dinos teriam sido extintos não apenas como consequência direta do impacto de um asteróide, mas também da nuvem de poeira que teria lançado na alta atmosfera, provocando efeitos similares, e apocalípticos, como o dos invernos vulcânicos ou nucleares. A descoberta e associação do impacto de um asteróide com a extinção K-T também ocorreu aproximadamente na mesma época que o Inverno Nuclear foi descoberto.
Dos confins do Universo, das profundezas do planeta, ou pela mais sofisticada e poderosa criação humana, a devastação da “Escuridão” vista por Lord Byron seria a mesma.
Ainda que por mágica esquecêssemos o conhecimento, a ciência nuclear, estaríamos tão vulneráveis quanto os dinossauros ao fim inevitável, e dificilmente adiável uma vez que o poderio nuclear é até o momento também o único que poderá um dia, sim, nos salvar de tal ameaça – a energia que podemos extrair de reações químicas é o fator limitador que torna tão difícil conquistar o espaço. Não podemos nem devemos desejar abandonar a ciência, precisamos apenas controlá-la. E para isso, precisamos compreendê-la melhor.
Mais que a conscientização a respeito do fato de que o Fim está Próximo e como o estamos constantemente postergando, salvando o mundo, ou pelo menos, a nós mesmos diariamente, esta série pretendeu chamar atenção aos nexos entre os diversos Apocalipses. Por uma série variada de conexões, o buraco na camada de ozônio, a guerra atômica, o inverno nuclear, o inverno vulcânico e mesmo a extinção dos dinossauros se relacionam. E atualmente, relacionam-se de forma especial com o aquecimento global.
Mais próximo da ameaça à camada de ozônio do que da extinção completa da humanidade vaticinada pelos proponentes do Inverno Nuclear, o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis é o “fim do mundo” da vez. Como todos os Apocalipses anteriores, enfrenta contestação seja ponderada e razoável do processo científico, seja a radical e falaciosa movida por um sem número de motivos. Diferenciar um do outro nem sempre é simples. Havia, e há, céticos e negadores da ameaça ao ozônio, do inverno nuclear, vulcânico e da extinção K-T provocada por um asteróide. É apenas o fato de que tais temas saíram de moda o que os torna menos polêmicos.
É curioso que sejam os contestadores do Aquecimento Global que mais chamem atenção a sua relação com os apocalipses anteriores – embora isso seja mais facilmente compreendido porque a lógica subjacente é a de que, se os apocalipses anteriores foram evitados, talvez porque nem mesmo fossem de fato reais, então este novo “fim do mundo” deve seguramente ser mais um exagero. Um raciocínio temerário: se ter sobrevivido o dia anterior fosse o único parâmetro para prever com confiança a chance de sobreviver ao dia seguinte, seríamos todos imortais.
A verdade é que passamos assustadoramente próximos do Fim incontáveis vezes. Adiar o Apocalipse contou inúmeras vezes com fatores arbitrários e apenas marginalmente dependentes da ciência e da razão. Ronald Reagan, como presidente dos EUA, deveria estar plenamente ciente de relatórios científicos sobre as desastrosas consequências de um confronto nuclear, mas como anotou em seu diário, ficou “profundamente deprimido” após assistir a “The Day After”, e quando se reuniu e assinou tratados de reduções de armas com o premiê soviético Mikhail Gorbachev, três anos depois, teria enviado um telegrama ao diretor do filme reconhecendo seu papel.
Será possível que apenas através de um filme feito para TV o comandante-em-chefe tenha finalmente entendido o que dezenas de think tanks, instituições e toda a comunidade científica expressavam há décadas? Talvez este seja o perigo de ter no comando da maior potência mundial um ator de Hollywood. Este é o perigo de viver sob sistemas políticos claramente inapropriados para lidar adequadamente com os desafios que encaramos – embora, paradoxalmente, o principal desafio do século passado tenha sido consequência justamente da busca por algum outro sistema revolucionariamente mais adequado.
Se críticos da “Farsa do Aquecimento Global” a associam ao Inverno Nuclear e mesmo à Eugenia, é igualmente curioso, e compreensível, que os principais proponentes do “Apocalipse” da vez por seu lado raramente mencionem sua relação com apocalipses anteriores. A estes ativistas interessa pintar o Aquecimento Global como a maior ameaça já enfrentada pela espécie humana em toda a história, e inseri-lo no contexto de perigos anteriores, tão ou mais prementes, não é conveniente.
Apesar de fora de moda, contudo, o Inverno Nuclear continua sendo uma ameaça:
O gráfico à esquerda já foi discutido aqui: em 1986, pouco depois da exibição de “The Day After” e a descoberta do Inverno Nuclear, EUA e a União Soviética entraram em acordo para reduzir drasticamente seus arsenais nucleares, em uma tendência que permanece até hoje. A linha negra total de armas sobre para então descer. Carl Sagan e um filme feito para TV, a seu modo, salvaram o mundo.
O gráfico à direita representa no entanto o Apocalipse Inevitável: apesar do número total de ogivas no mundo ter diminuído além das mais otimistas expectativas, o número de países com poderio atômico vem aumentando desde a primeira explosão em 1945, a uma média de um novo país para o clube nuclear a cada 5 anos. Não há sinal de que a tendência tenha se alterado. Cinco anos – calcule quantos novos países, quantos novos governos, presidentes ou generais, passaram a ter seu dedo sobre o botão vermelho desde que você nasceu. Aí podem se incluir Israel, Índia, Paquistão e Coréia do Norte. E em breve, provavelmente, Irã, como temido por Eli Wiesel em 1983.
Parece inevitável que cedo ou tarde, com tantos dedos, algum deles apertará o botão, provocando em minutos a morte de milhares, milhões. O mesmo estudo de Robock citado no texto anterior simulou o efeito de um conflito regional de pequena escala: não seria o fim, mas ele poderia ser visto de lá. Centenas de milhões seriam afetados em efeitos comparáveis ao do “Ano sem Verão” a inspirar “Frankenstein”. O gráfico da anomalia climática provocada mesmo por um conflito regional é fascinante, porque combina o famoso gráfico “hockey stick” para demonstrar o aquecimento global (em azul), com a previsão computacional que mostra os efeitos do confronto (em vermelho), com consequências climáticas já maiores do que toda a ação humana acumulada ao longo de mais de um século:
Este gráfico talvez resuma o nexo indissolúvel entre as ameaças constantes e diversas que enfrentamos.
Se evitar todos os Apocalipses anteriores não é motivo para muito conforto, deve ser de esperança. Pelo menos um dos Apocalipses que discutimos aqui, a ameaça à camada de ozônio por CFCs, então largamente utilizados industrialmente, foi contida com base em pesquisa científica e protocolos internacionais assinados e ratificados mundialmente com sucesso.
E embora Reagan tenha destacado o papel de um filme feito para a TV, também foi influenciado pela ciência do Inverno Nuclear, que Gorbachev citou como um imperativo moral para que alguma atitude fosse tomada. Tais alertas científicos podem ter um efeito ambíguo e discutível sobre a população em geral, mas seu efeito entre representantes pode ser decisivo, ainda que largamente imprevisível.
Ao encerrar esta série, citamos mais uma vez o filósofo francês Edgar Morin:
“Lá onde cresce o perigo, cresce também o que salva. De um modo trágico, quanto mais nos aproximarmos do perigo, mais teremos chances de sair dele, mas aumentarão também mais os riscos de nele mergulhar”.
O Apocalipse é Inevitável, mas pode ser adiado.
- – -
Releia toda a série:
O Apocalipse Inevitável (parte VII)
Deixe de lado imagens piscantes no Orkut, este talvez seja o pior GIF animado já criado. Criado por Luke Oman, da NASA, a animação deriva dos mais sofisticados modelos do clima terrestres disponíveis em 2007 (ModelE), e uma simples olhada já deve oferecer uma ideia do que retrata: o Inverno Nuclear como consequência da elevação de fumaça em uma guerra nuclear total entre EUA e Rússia, com o uso de quase todo o arsenal ainda disponível. A fumaça negra se dispersa pela alta atmosfera e afeta todo o globo, incluindo o nosso hemisfério sul.
Onde duas décadas antes Sagan, Turco et al modelaram a complexidade da atmosfera em apenas uma dimensão, agora Oman, Alan Robock e Georgiy Stenchikov usaram um modelo tridimensional com resolução de alguns graus de latitude e longitude e 23 camadas verticais na atmosfera estendendo-se até 80 km de altitude. Ele ainda foi combinado com um modelo de circulação oceânica com 13 camadas, o primeiro estudo do Inverno Nuclear a utilizar um modelo de circulação geral envolvendo o mar.
Sim, Michael, o Inverno Nuclear existe. Desde sua descoberta em 1982/83 até o início da década de 1990, cientistas tanto nos EUA quanto na União Soviética – Stenchikov foi co-autor do primeiro modelo tridimensional do Inverno Nuclear já em 1983 – produziram estudos publicados nos principais periódicos científicos indicando o grande risco de que as previsões catastróficas eram mais do que plausíveis. Ainda que em 1991 Sagan, Turco e outros tenham previsto erroneamente que a queima de poços de petróleo no Golfo Pérsico teriam consequências climáticas globais, o que não ocorreu, ainda que negadores do Inverno Nuclear tenham e continuem atacando violentamente suas conclusões, vinte anos depois a ciência da climatologia mais preocupada com o aquecimento global revisitaria – e vindicaria – as piores previsões de escuridão.
Porque o modelo usado por Robock et al é exatamente o mesmo modelo computacional usado para tentar compreender, e então prever, o aquecimento global. Há um enorme emaranhado de nexos, e em se tratando do futuro do planeta, talvez não seja surpresa que todos acabem se encontrando repetidamente. De aviões supersônicos ao buraco na camada de ozônio, do ozônio e as tempestades de areia em Marte ao Inverno Nuclear, do aquecimento global e erupções vulcânicas de volta ao Inverno Nuclear: o Apocalipse é Inevitável.
O modelo computacional para simular o Inverno Nuclear foi testado em seus resultados contra a realidade em casos como as erupções vulcânicas de Laki (1783) e Katmai (1912). Ele fornece uma simulação muito próxima do que foi efetivamente observado, e como vimos em registros históricos, incluindo aqueles especialmente relevantes como a arte do Grito da Natureza de Munch ou Frankenstein de Shelley, partículas chegando à estratosfera podem levar a um cenário tenebroso como a “Escuridão” de Byron. E se o modelo pode prever as consequências observadas de erupções vulcânicas, sua simulação de um confronto nuclear é o melhor que podemos avaliar de suas consequências. O resultado, novamente, é o GIF animado acima, talvez não tão poético ou lúgubre quanto um poema, romance ou pintura, mas que deve ser um alerta tão ou mais urgente.
[Com agradecimentos a José Ildefonso, Alan Robock oferece seus papers e apresentações para download]
- – -
Releia toda a série:






Não há conhecimento isolado: qualquer informação só é relevante no contexto de outras. E nada melhor para explorar esta teia de infinitos nexos do que um blog na rede.
Em 100nexos, este autor, 

