A Primavera Silenciosa da Nature (parte II)

“Houve outrora uma cidade no coração da América onde toda a vida parecia viver em harmonia com o ambiente. Então uma estranha moléstia avançou sobre a área e tudo começou a mudar. Um feitiço maligno foi lançado sobre a comunidade. Por todo o lugar se via a sombra da morte.

Fazendeiros falavam de muitas doenças em suas famílias. Na cidade, os doutores ficaram mais e mais intrigados por novos tipos de moléstias aparecendo em seus pacientes.

Havia uma estranha calmaria. Os pássaros, por exemplo, para onde teriam ido? Os poucos vistos estavam moribundos, tremiam violentamente e não podiam voar. Aquela era uma primavera sem vozes. Pelas manhãs, que outrora haviam vibrado com o coro dos papos-roxos, dos tordos-dos-remedos, dos pombos, dos gaios, das corruíras e de vintenas de outras aves canoras, não havia agora som algum, somente o silêncio pairava.

Nas fazendas, os galos cruzavam mas os pintinhos não chocavam. As macieiras floresciam mas nenhuma abelha voava entre as flores, não havia polinização e não haveria frutos.

Nas sarjetas e nas calhas, entre as telhas, um pó branco granulado ainda podia ser visto. Algumas semanas antes ele havia caído como neve sobre os telhados e jardins, os campos e rios. Nenhuma bruxaria, nenhuma ação inimiga havia silenciado o renascimento de uma nova vida naquele mundo golpeado pela morte. Fora o povo, ele próprio, que fizera aquilo”.

Com esta assustadora “Fábula para Amanhã” começa a “Primavera Silenciosa” (1962) de Rachel Carson, saudado como um dos marcos iniciais do movimento ambientalista. Aproximando-se dos 50 anos desde sua publicação, você pode jamais ter lido o livro de capa verde, mas sem dúvida já escutou alguma versão desta fábula apocalíptica, e é bem possível que o cenário do silêncio dos pássaros e das doenças misteriosas causadas por produtos químicos sintéticos façam parte de seus temores mais primordiais.

Como contou um amigo, quando o aluno comentou, “Bah, o Shakespeare é um clichê atrás do outro!”, o professor respondeu, “Claro, foi ele que criou eles”. A “Primavera Silenciosa” de Carson, com seus alertas sobre o abuso de componentes sintéticos, a manipulação do público incauto pela grande indústria e a delicada teia da vida em que vivemos pode soar como um amontoado de clichês ecológicos.

Claro, foi em grande parte este best-seller ainda lido em escolas que os levou a milhões de mentes. Primavera Silenciosa foi eleito recentemente como um dos 25 maiores livros de ciência pelos editores da Discover Magazine.

“Biocidas”

Em meio à poesia, havia sim ciência: com a comoção popular, o presidente John Kennedy ordenou que seus cientistas investigassem as alegações de Carson. Quando em maio de 1963 o relatório foi finalmente divulgado, nada menos que a própria Science opinaria como:

“O tão esperado relatório sobre pesticidas do Comitê de Assessoria Científica do presidente foi divulgado na semana passada, e embora seja um documento moderado, mesmo em tom, e cuidadosamente equilibrado em seu julgamento de riscos versus benefícios, ele se soma a uma vindicação razoavelmente completa da tese da Primavera Silenciosa de Rachel Carson”.

A tese do livro, novamente hoje um clichê, era realmente simples. O uso irresponsável e irrestrito de pesticidas exterminava não apenas insetos, como afetava animais como pássaros e mesmo seres humanos. Carson argumentava como não seriam “pesticidas”, e sim “biocidas”, porque sua ação não se limitava às pestes e sim se estendia a toda a vida. O DDT em particular podia ter uma ação muito restrita a insetos, mas por ser lipofílico e não se degradar facilmente, tendia a se concentrar cada vez mais na gordura de animais no topo da cadeia alimentar, com efeitos não desprezíveis por exemplo em algumas espécies de pássaros como o falcão peregrino.

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Mais do que seus efeitos colaterais, o próprio sucesso do DDT seria também seu fracasso, porque a evolução é literalmente uma força da natureza. Quase todos os insetos eram exterminados pelo DDT, mas os pouquíssimos indivíduos que por pequenas mutações eram mais resistentes ou mesmo imunes passavam então a se proliferar sem rivais. Enfatizando as ideias de Darwin para o desenvolvimento de resistência a pesticidas por insetos, Carson nota como “a guerra química nunca é vencida, e toda a vida fica encurralada no fogo-cruzado”. Insetos e pesticidas só se tornariam mais tóxicos e resistentes até que realmente não houvesse mais pássaros cantando pela manhã.

Dez anos após sua publicação, o DDT foi banido nos EUA e o uso e aplicação de pesticidas passou a ser melhor regulado por todo o mundo. A Convenção de Estocolmo, um tratado global do qual o Brasil faz parte e em vigor desde 2004, limita o uso de Poluentes Orgânicos Persistentes, incluindo além do DDT substâncias como as dioxinas.

Mas não há nada tão óbvio e ponderado que não possa ser distorcido para se transformar em algo abominável. A figura feminina de Rachel Carson e sua prosa repleta de referências poéticas seria transformada por alguns em um dos maiores males do último século, responsável pela morte de milhões.

No próximo texto.

A Primavera Silenciosa da Nature (parte I)

Imagine uma poção mágica capaz de aniquilar insetos transmissores das mais perniciosas doenças, salvando centenas de milhões de vidas. Jogue a poção mágica, e pouco tempo depois veja uma montanha de insetos caídos no chão. Talvez isso provoque o temor de que a poção pesticida seja altamente tóxica, afinal se mata insetos, o que mais pode matar? Mas imagine ainda que essa poção mágica tenha uma ação bem limitada aos insetos, e que seja tão segura que você poderia ingerir uma colher diariamente, sem nenhum efeito colateral significativo.

Não seria fantástico? O que é mais fantástico é que esta poção mágica já existe, e você talvez a conheça pelo nome de DDT, Dicloro-Difenil-Tricloroetano. A poção mágica foi contudo banida a partir da década de 1970 e desde então tem seu uso restrito inclusive no Brasil. Entender melhor por que isto aconteceu é entender algo das raízes do movimento ambientalista e de questões que foram e continuam sendo cruciais para o nosso bem-estar e o da vida no planeta.

Uma colher de sopa

Que o DDT é um pesticida de grande eficácia é um fato incontroverso: utilizado inicialmente para controlar vetores e surtos de doenças como malária e tifo durante a Segunda Guerra Mundial, durante a década de 1950 foi saudado literalmente como a poção mágica que erradicaria tais doenças por completo em todo o mundo e sozinho duplicaria a produtividade da agricultura, livre das pragas de seis pernas. Milhões de vidas foram realmente salvas e em várias áreas doenças foram efetivamente erradicadas após campanhas de dedetização. Em português, o DDT tornou-se mesmo verbo e profissão, ainda que hoje dedetizadores já não usem mais o Dicloro-Difenil-Tricloroetano.

Gordon.EdwardsSeria o DDT seguro à saúde humana? O entomologista americano J. Gordon Edwards dedicou sua vida a provar que sim, e de forma particularmente simples e corajosa. Edwards pegava uma caixa de DDT, enfiava uma colher de sopa no pesticida em pó e… botava goela abaixo, com alguns goles de água. A palestra que proferia depois sobre a segurança do DDT à saúde humana sem dúvida se tornava um tanto mais empolgante. Ao lado, uma fotografia de Edwards ingerindo mais uma colher de DDT ilustrando um artigo notório da revista Esquire em 1971.

J. Gordon Edwards faleceu em 2004, aos 84 anos de idade, enquanto escalava uma montanha com sua esposa. A causa da morte foi um ataque cardíaco.

Este, no entanto, é apenas o começo da história, e você não deve sair por aí tomando colheradas de DDT. A Primavera Silenciosa de Rachel Carson e os motivos muito razoáveis para o banimento do DDT, no próximo texto.

Basquete, Yao Ming e a Eugenia

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Com 2 metros e 29 centímetros de altura, Yao Ming é um gigante, o mais alto jogador de basquete na NBA americana em atividade. Sua altura e seu gosto por basquete não foram mera obra do acaso. Seu pai, Yao Zhiyuan, media mais de dois metros e sua mãe, Fang Fengdi, 1,90m. Ambos também eram jogadores de basquete profissional, e como Razib Khan notou em um post recente em Gene Expression, citando o livro “Superfusion”, de Zachary Karabell:

“[A mãe de Yao Ming] havia servido da Guarda Vermelha no ápice da Revolução Cultural, e era uma Maoísta ardorosa. Ela participou entusiasticamente no plano glorioso do governo local de usá-la e ao seu marido para produzir uma super-estrela dos esportes. As autoridades de Xangai que encorajaram o par investigaram várias gerações anteriores para se assegurar de que a altura fazia parte da linha de sangue. O resultado foi Yao, um bebê gigante que só continuou a crescer”.

Yao Ming nasceu com 5kg, e media 1,65m aos dez anos. Começou a praticar basquete pouco antes, não parando desde então. Sua concepção deliberada não é um evento isolado, uma vez que a China é efetivamente o único país no mundo a promover oficialmente a eugenia – termo cunhado por Francis Galton, que deve, e merece ser mais conhecido pelas suas contribuições à ciência estatística, entre tentas outras ciências.

Através do controle da reprodução e descendência dos indivíduos, a eugenia pretendia “melhorar as qualidades genéticas humanas”, um caminho cheio de boas intenções que encontrou todavia seu ápice mais tenebroso nas loucuras promovidas pelo regime nazista. A eugenia foi a pseudociência que embasou e levou do racismo ao genocídio.

Exterminar ou esterilizar indivíduos “inferiores” é parte do que seria a “eugenia negativa”, que ainda encontra eco hoje no humor macabro do prêmio Darwin, “honrando aqueles que melhoram a espécie… ao acidentalmente removerem-se dela!”. Complementando tais medidas para evitar que traços “negativos” se perpetuassem, estaria a “eugenia positiva”, justamente o que se vê no caso do jogador de basquete chinês, com a reprodução deliberada de um casal com a herança genética “positiva” que se deseja.

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A eugenia negativa também é levada a cabo na China: em 1995 foi colocada em prática a Lei de Saúde Materna e Infantil, que obriga que todos casais se submetam a exames médios para detectar doenças genéticas, infecciosas e mesmo doenças mentais. A critério de médicos, e de acordo com a lei, o casal pode ser proibido de ter filhos, podendo ser obrigado à esterilização. O controle eugênico não para aí, enquanto exames pré-natais também podem levar à decisão de terminar a vida de um feto ou bebê que apresente problemas mais sérios. O seguinte texto (em inglês) cita a lei chinesa e a opinião de um diretor de bioética chinês bem como a crítica de um sinologista alemão: Is China’s law eugenic?.

O assunto é complexo, e um breve post não poderia pretender abordar mesmo um sumário das questões mais importantes. Comentamos aqui, ao invés, apenas alguns nexos dispersos, e o principal deles seria a questão moral. Não deve ser coincidência que o único país a promover políticas claramente eugênicas seja um estado totalitário. É historicamente a moral popular corrente que limitou o avanço de políticas eugênicas – e, igualmente, não é tanto coincidência que os maiores extremos destas tenham sido cometidos por outro estado totalitário, durante o regime nazista.

Há no entanto algo um tanto chocante sobre a moral impondo limites à eugenia: ela tendeu a impor mais limites à eugenia positiva. Tanto sob Hitler quanto sob Stálin, eugenistas mais entusiasmados propuseram esquemas mirabolantes através dos quais os homens mais bem-dotados teriam incontáveis filhos com os melhores espécimes de mulheres, mas em ambos os regimes a ideia entrou em conflito com a moral vigente.

Mesmo sob o nazismo, o programa de eugenia positiva Lebensborn concebido pelo chefe da SS consistiu principalmente no apoio a mães “arianas” e seus bebês, evitando medidas como o aborto, e não propriamente incentivando que moças “arianas” engravidassem indiscriminadamente de membros “superiores” da SS, como se chegou a imaginar. O conceito de família era um dos pilares do mesmo nazismo.

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Esta moral que não aceitava crianças concebidas unicamente pelo seu alegado potencial genético no entanto não levantou grandes barreiras a medidas de eugenia negativa, como esterilizações compulsórias até os extremos do genocídio. E a moral é, ultimamente, tudo que pode impedir a prática ou não de algo tão terrível.

O editor da ciência da Folha e scibling Reinaldo José Lopes, ao mencionar a possibilidade “alucinada” de clonar um Neandertal resumiu a questão comentando como “a empolgação biotecnológica às vezes borra a fronteira entre o que se pode fazer e o que se deve fazer”. A empolgação biotecnológica que assistimos hoje lembra muito a empolgação eugênica no início do século passado.

No final da fenomenal série “Pandora’s Box” de Adam Curtis, Joseph G. Morone discute o histórico desastroso da energia nuclear:

“Na era de ouro da ciência, em uma época quando a sociedade possuía a visão mais otimista da ciência, possuía-se uma visão basicamente errada a respeito. Acreditavam que esta forma da tecnologia era a forma que ela devia tomar de forma inevitável. E que se esta era a forma que ela tomava, então esta devia ser a forma certa.

Quarenta anos depois, temos uma visão similarmente ingênua, que não é mais tingida por esperança e otimismo, e sim por pessimismo e medo. Mas ainda temos esta visão de que a sociedade não pode moldar a tecnologia. De que a forma que a tecnologia toma é a forma que devemos aceitar. E assim como isto não era verdade em 1950, ela não é verdade hoje.

Esta não é uma história da tecnologia saindo de controle, embora muitos a entendam assim. A história da energia nuclear é uma história de decisões políticas, econômicas e sociais sendo feitas sobre a tecnologia, e as principais decisões não foram tomadas por tecnólogos. Foram tomadas nas salas de negócios.

O que a ciência e tecnologia lhe fornecem é uma gama de possibilidades. E essas possibilidades podem levá-lo a um sem número de direções. É uma força potencialmente liberadora. Mas para chegar lá, a sociedade deve acordar e perceber que não é uma decisão científica, não é uma decisão de engenharia.

É uma decisão moral”.

Destacando a questão moral, relembramos como a moral “tradicional”, promovida por instituições que alegam mesmo serem fontes da moralidade, pode ter impedido que jovens loiros e altos de traços clássicos concebessem bebês indiscriminadamente, valorizando o conceito de família, mas pouco ou nada fez contra o extermínio de famílias inteiras que não possuíam tais traços.

Yao Ming e seus mais de dois metros de altura são um indicador um tanto assustador de que a eugenia, se era e talvez ainda seja largamente uma pseudociência, pode sim produzir resultados concretos. Será esta forma aceitável? Aos chineses, por ora, aparentemente é. A nós, talvez não. Mas como Morone destacou, decisões morais não significam aceitar ou rejeitar completamente uma possibilidade científica, tecnológica, como se a primeira possibilidade fosse um imperativo definitivo em si mesmo.

Decisões morais devem moldar como as possibilidades infinitas da ciência podem ser aplicadas em prol de valores éticos. Um gigantesco desafio.

O Apocalipse Inevitável (fim)

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Não é o fim do mundo, mas você pode vê-lo de lá” – Pierre Trudeau

O Fim está Próximo, sempre esteve, sempre estará, exceto quando finalmente chegar. O lugar-comum de que a única certeza na vida é a morte também se aplica à espécie como um todo. E se mal conseguimos lidar com nossa própria mortalidade, que se dirá do inevitável fim da Humanidade – uma ideia tão perturbadora, tão assustadora, que pode ser mesmo impensável. De fato, a maior parte de nós lida com a questão evitando mesmo concebê-la: acredita-se que o apocalipse em si mesmo seria apenas uma grande revelação, o fim de uma era, enquanto a essência imortal de todos nós sobreviveria, de outra forma, eternamente. Se esta crença pode oferecer algum conforto imediato, permanece entretanto, e desafortunadamente, apenas uma questão de fé, e uma que pode ser perigosa quando motiva decisões em questões muito concretas.

No mundo real e objetivo que todos nós, crentes ou não, partilhamos, postergar o Apocalipse Inevitável é tudo que podemos fazer. Mais de 98% das espécies que já viveram foram extintas, vítimas de fenômenos naturais aos quais estavam completamente sujeitas. Embora nossa espécie tenha sido bem-sucedida em evitar o próprio fim – alcançando o número de 6,5 bilhões de indivíduos espalhados por todos os continentes – ela continua tão e por vezes mais vulnerável quanto outras espécies a uma série fenômenos naturais catastróficos. Mesmo aqueles perigos que conseguimos dominar, através da ciência e tecnologia, acabam por ser substituídos por outros criados pela mesma ciência e tecnologia. E os novos perigos de criação humana, como a Caixa de Pandora, uma vez descobertos não podem ser esquecidos, “desinventados”.

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Um dos últimos grandes Apocalipses pelo qual a vida no planeta passou foi a extinção K-T, que varreu os dinossauros. Ela é o nexo final que se liga pelo Inverno Vulcânico, decorrente de erupções naturais e periódicas, ao Inverno Nuclear, consequência de um confronto atômico. Depois de reinar por milhões de anos, os dinos teriam sido extintos não apenas como consequência direta do impacto de um asteróide, mas também da nuvem de poeira que teria lançado na alta atmosfera, provocando efeitos similares, e apocalípticos, como o dos invernos vulcânicos ou nucleares. A descoberta e associação do impacto de um asteróide com a extinção K-T também ocorreu aproximadamente na mesma época que o Inverno Nuclear foi descoberto.

Dos confins do Universo, das profundezas do planeta, ou pela mais sofisticada e poderosa criação humana, a devastação da “Escuridão” vista por Lord Byron seria a mesma.

Ainda que por mágica esquecêssemos o conhecimento, a ciência nuclear, estaríamos tão vulneráveis quanto os dinossauros ao fim inevitável, e dificilmente adiável uma vez que o poderio nuclear é até o momento também o único que poderá um dia, sim, nos salvar de tal ameaça – a energia que podemos extrair de reações químicas é o fator limitador que torna tão difícil conquistar o espaço. Não podemos nem devemos desejar abandonar a ciência, precisamos apenas controlá-la. E para isso, precisamos compreendê-la melhor.

Mais que a conscientização a respeito do fato de que o Fim está Próximo e como o estamos constantemente postergando, salvando o mundo, ou pelo menos, a nós mesmos diariamente, esta série pretendeu chamar atenção aos nexos entre os diversos Apocalipses. Por uma série variada de conexões, o buraco na camada de ozônio, a guerra atômica, o inverno nuclear, o inverno vulcânico e mesmo a extinção dos dinossauros se relacionam. E atualmente, relacionam-se de forma especial com o aquecimento global.

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Mais próximo da ameaça à camada de ozônio do que da extinção completa da humanidade vaticinada pelos proponentes do Inverno Nuclear, o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis é o “fim do mundo” da vez. Como todos os Apocalipses anteriores, enfrenta contestação seja ponderada e razoável do processo científico, seja a radical e falaciosa movida por um sem número de motivos. Diferenciar um do outro nem sempre é simples. Havia, e há, céticos e negadores da ameaça ao ozônio, do inverno nuclear, vulcânico e da extinção K-T provocada por um asteróide. É apenas o fato de que tais temas saíram de moda o que os torna menos polêmicos.

É curioso que sejam os contestadores do Aquecimento Global que mais chamem atenção a sua relação com os apocalipses anteriores – embora isso seja mais facilmente compreendido porque a lógica subjacente é a de que, se os apocalipses anteriores foram evitados, talvez porque nem mesmo fossem de fato reais, então este novo “fim do mundo” deve seguramente ser mais um exagero. Um raciocínio temerário: se ter sobrevivido o dia anterior fosse o único parâmetro para prever com confiança a chance de sobreviver ao dia seguinte, seríamos todos imortais.

A verdade é que passamos assustadoramente próximos do Fim incontáveis vezes. Adiar o Apocalipse contou inúmeras vezes com fatores arbitrários e apenas marginalmente dependentes da ciência e da razão. Ronald Reagan, como presidente dos EUA, deveria estar plenamente ciente de relatórios científicos sobre as desastrosas consequências de um confronto nuclear, mas como anotou em seu diário, ficou “profundamente deprimido” após assistir a “The Day After”, e quando se reuniu e assinou tratados de reduções de armas com o premiê soviético Mikhail Gorbachev, três anos depois, teria enviado um telegrama ao diretor do filme reconhecendo seu papel.

Será possível que apenas através de um filme feito para TV o comandante-em-chefe tenha finalmente entendido o que dezenas de think tanks, instituições e toda a comunidade científica expressavam há décadas? Talvez este seja o perigo de ter no comando da maior potência mundial um ator de Hollywood. Este é o perigo de viver sob sistemas políticos claramente inapropriados para lidar adequadamente com os desafios que encaramos – embora, paradoxalmente, o principal desafio do século passado tenha sido consequência justamente da busca por algum outro sistema revolucionariamente mais adequado.

Se críticos da “Farsa do Aquecimento Global” a associam ao Inverno Nuclear e mesmo à Eugenia, é igualmente curioso, e compreensível, que os principais proponentes do “Apocalipse” da vez por seu lado raramente mencionem sua relação com apocalipses anteriores. A estes ativistas interessa pintar o Aquecimento Global como a maior ameaça já enfrentada pela espécie humana em toda a história, e inseri-lo no contexto de perigos anteriores, tão ou mais prementes, não é conveniente.

Apesar de fora de moda, contudo, o Inverno Nuclear continua sendo uma ameaça:

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O gráfico à esquerda já foi discutido aqui: em 1986, pouco depois da exibição de “The Day After” e a descoberta do Inverno Nuclear, EUA e a União Soviética entraram em acordo para reduzir drasticamente seus arsenais nucleares, em uma tendência que permanece até hoje. A linha negra total de armas sobre para então descer. Carl Sagan e um filme feito para TV, a seu modo, salvaram o mundo.

O gráfico à direita representa no entanto o Apocalipse Inevitável: apesar do número total de ogivas no mundo ter diminuído além das mais otimistas expectativas, o número de países com poderio atômico vem aumentando desde a primeira explosão em 1945, a uma média de um novo país para o clube nuclear a cada 5 anos. Não há sinal de que a tendência tenha se alterado. Cinco anos – calcule quantos novos países, quantos novos governos, presidentes ou generais, passaram a ter seu dedo sobre o botão vermelho desde que você nasceu. Aí podem se incluir Israel, Índia, Paquistão e Coréia do Norte. E em breve, provavelmente, Irã, como temido por Eli Wiesel em 1983.

Parece inevitável que cedo ou tarde, com tantos dedos, algum deles apertará o botão, provocando em minutos a morte de milhares, milhões. O mesmo estudo de Robock citado no texto anterior simulou o efeito de um conflito regional de pequena escala: não seria o fim, mas ele poderia ser visto de lá. Centenas de milhões seriam afetados em efeitos comparáveis ao do “Ano sem Verão” a inspirar “Frankenstein”. O gráfico da anomalia climática provocada mesmo por um conflito regional é fascinante, porque combina o famoso gráfico “hockey stick” para demonstrar o aquecimento global (em azul), com a previsão computacional que mostra os efeitos do confronto (em vermelho), com consequências climáticas já maiores do que toda a ação humana acumulada ao longo de mais de um século:

Hockey Stick vs Inverno Nuclear

Este gráfico talvez resuma o nexo indissolúvel entre as ameaças constantes e diversas que enfrentamos.

Se evitar todos os Apocalipses anteriores não é motivo para muito conforto, deve ser de esperança. Pelo menos um dos Apocalipses que discutimos aqui, a ameaça à camada de ozônio por CFCs, então largamente utilizados industrialmente, foi contida com base em pesquisa científica e protocolos internacionais assinados e ratificados mundialmente com sucesso.

E embora Reagan tenha destacado o papel de um filme feito para a TV, também foi influenciado pela ciência do Inverno Nuclear, que Gorbachev citou como um imperativo moral para que alguma atitude fosse tomada. Tais alertas científicos podem ter um efeito ambíguo e discutível sobre a população em geral, mas seu efeito entre representantes pode ser decisivo, ainda que largamente imprevisível.

Ao encerrar esta série, citamos mais uma vez o filósofo francês Edgar Morin:

“Lá onde cresce o perigo, cresce também o que salva. De um modo trágico, quanto mais nos aproximarmos do perigo, mais teremos chances de sair dele, mas aumentarão também mais os riscos de nele mergulhar”.

O Apocalipse é Inevitável, mas pode ser adiado.

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Releia toda a série:

O Apocalipse Inevitável (parte VII)

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Deixe de lado imagens piscantes no Orkut, este talvez seja o pior GIF animado já criado. Criado por Luke Oman, da NASA, a animação deriva dos mais sofisticados modelos do clima terrestres disponíveis em 2007 (ModelE), e uma simples olhada já deve oferecer uma ideia do que retrata: o Inverno Nuclear como consequência da elevação de fumaça em uma guerra nuclear total entre EUA e Rússia, com o uso de quase todo o arsenal ainda disponível. A fumaça negra se dispersa pela alta atmosfera e afeta todo o globo, incluindo o nosso hemisfério sul.

Onde duas décadas antes Sagan, Turco et al modelaram a complexidade da atmosfera em apenas uma dimensão, agora Oman, Alan Robock e Georgiy Stenchikov usaram um modelo tridimensional com resolução de alguns graus de latitude e longitude e 23 camadas verticais na atmosfera estendendo-se até 80 km de altitude. Ele ainda foi combinado com um modelo de circulação oceânica com 13 camadas, o primeiro estudo do Inverno Nuclear a utilizar um modelo de circulação geral envolvendo o mar.

Sim, Michael, o Inverno Nuclear existe. Desde sua descoberta em 1982/83 até o início da década de 1990, cientistas tanto nos EUA quanto na União Soviética – Stenchikov foi co-autor do primeiro modelo tridimensional do Inverno Nuclear já em 1983 – produziram estudos publicados nos principais periódicos científicos indicando o grande risco de que as previsões catastróficas eram mais do que plausíveis. Ainda que em 1991 Sagan, Turco e outros tenham previsto erroneamente que a queima de poços de petróleo no Golfo Pérsico teriam consequências climáticas globais, o que não ocorreu, ainda que negadores do Inverno Nuclear tenham e continuem atacando violentamente suas conclusões, vinte anos depois a ciência da climatologia mais preocupada com o aquecimento global revisitaria – e vindicaria – as piores previsões de escuridão.

Porque o modelo usado por Robock et al é exatamente o mesmo modelo computacional usado para tentar compreender, e então prever, o aquecimento global. Há um enorme emaranhado de nexos, e em se tratando do futuro do planeta, talvez não seja surpresa que todos acabem se encontrando repetidamente. De aviões supersônicos ao buraco na camada de ozônio, do ozônio e as tempestades de areia em Marte ao Inverno Nuclear, do aquecimento global e erupções vulcânicas de volta ao Inverno Nuclear: o Apocalipse é Inevitável.

O modelo computacional para simular o Inverno Nuclear foi testado em seus resultados contra a realidade em casos como as erupções vulcânicas de Laki (1783) e Katmai (1912). Ele fornece uma simulação muito próxima do que foi efetivamente observado, e como vimos em registros históricos, incluindo aqueles especialmente relevantes como a arte do Grito da Natureza de Munch ou Frankenstein de Shelley, partículas chegando à estratosfera podem levar a um cenário tenebroso como a “Escuridão” de Byron. E se o modelo pode prever as consequências observadas de erupções vulcânicas, sua simulação de um confronto nuclear é o melhor que podemos avaliar de suas consequências. O resultado, novamente, é o GIF animado acima, talvez não tão poético ou lúgubre quanto um poema, romance ou pintura, mas que deve ser um alerta tão ou mais urgente.

[Com agradecimentos a José Ildefonso, Alan Robock oferece seus papers e apresentações para download]

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Releia toda a série:

O Apocalipse Inevitável (parte VI)

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Pintado em 1893, “O Grito” de Edvard Munch é uma das representações mais icônicas da agonia e desespero, mas quem estaria gritando? Contrariando a interpretação mais óbvia da figura ensandecida com as mãos à cabeça (que inspirou uma famosa máscara usada em uma série de filmes), o título original da obra em alemão era “O Grito da Natureza”. Munch anotou em seu diário qual teria sido sua inspiração:

“Eu estava andando por um caminho com dois amigos, o Sol estava se pondo, e subitamente o céu ficou vermelho como sangue. Eu parei, sentindo-me exausto, e apoiei-me na cerca. Havia sangue e línguas de fogo sobre o fjord azul-escuro e a cidade. Meus amigos continuaram caminhando, e eu fiquei parado lá tremendo de ansiedade, sentindo um grito infinito passando pela natureza”.

“O Grito” retrata a agonia da natureza em um céu de “sangue e línguas de fogo”. O desespero da figura humana é inspirado pelo grito da própria natureza. E o mais surpreendente é que é possível que a agonia que Munch presenciou não fosse simplesmente uma metáfora, já que naquele mesmo ano a natureza rugiu com a erupção do vulcão na ilha de Krakatoa, Indonésia, uma das mais potentes na história humana. Ela quase varreu a ilha do mapa, sendo literalmente ouvida a mais de 5.000 km de distância, com efeitos globais. Com alcance muito maior do que o som, a fumaça lançada pelo vulcão chegou à Ásia, EUA e Europa, tingindo o céu de vermelho especialmente ao pôr-do-Sol. E quem primeiro associou a possibilidade de que “O Grito” possa ter sido inspirado pelos efeitos climáticos de erupções vulcãnicas, em um literal grito da natureza, foi Alan Robock, um dos pesquisadores recentes do Inverno Nuclear. Esta é mais uma peça na série sobre o Apocalipse Inevitável.

Prometemos no texto anterior abordar a ciência do Inverno Nuclear, mas fazemos este desvio pela arte porque ela pode ser um registro histórico fascinante e especialmente relevante. “O Grito” não é o único exemplo emblemático: outra obra-prima e icônica relevante aqui é nada menos que “Frankenstein”, de Mary Shelley, romance publicado originalmente em 1818, mas escrito durante o verão de 1816 quando a jovem escritora tinha apenas 18 anos. O que poderia tê-la inspirado?

Rumores de experimentos fantásticos e tenebrosos na “reanimação” de cadáveres com eletricidade e as pernas de rãs de Galvani foram influências diretas, mas o verão de 1816 também desempenhou sua parte, porque 1816 foi o “Ano Sem Verão”, com mudanças climáticas globais e inesperadas principalmente no hemisfério Norte, provocando fome e doenças que mataram centenas de milhares de vítimas. A narrativa de “Frankenstein” começa e termina em meio à escuridão e o gelo, espelhando algo do clima em que Mary Shelley estava confinada. O clima frio e chuvoso afetou inclusive a vila próxima do Lago Genebra onde Shelley se hospedou, inspirando não só a jovem como também John Polidori, abrigado – e confinado com as chuvas – na mesma cabana. Polidori escreveria “O Vampiro”, primeiro romance moderno com a temática de sugadores de sangue e por sua vez inspiração para o posterior “Drácula” de Bram Stoker. Na mesma vila, e inspirado pelo mesmo clima lúgubre, Lord Byron também escreveria o poema “Escuridão”, que você confere mais abaixo.

O Ano sem Verão foi resultado de uma série de fatores, desde uma menor atividade solar até uma série de grandes erupções vulcânicas que, como o Krakatoa, lançaram poeira na atmosfera. E entre estas grandes erupções, a que deu o golpe derradeiro foi a maior erupção em mais de 1.600 anos, a do Monte Tambora em abril de 1815, um evento super-colossal que lançou grandes quantidades de material na estratosfera.

Um outro grito da natureza, causando agonia e mortes à humanidade, que reagiu produzindo obras de arte que nos assombram até hoje – ainda que pelo visto, tenhamos tragicamente esquecido, e alguns jamais tenham entendido, a inspiração natural desta angústia. Apenas mais de 100 anos depois de Frankenstein de Shelley e exatos 90 depois do Grito da Natureza de Munch, cientistas finalmente associariam as consequências climáticas naturais do mais próximo que a Humanidade pôde chegar do poder de erupções vulcânicas. Tanto erupções colossais quanto ogivas nucleares têm sua potência comparada em megatons de TNT.

O poema “Escuridão” de Lord Byron é uma visão perturbadora de um Inverno Nuclear, mais de um século antes que um Apocalipse desta natureza pudesse ser criado por mãos – ou mesmo um dedo em um botão – humanas.

“Sonhei e não era propriamente um sonho.
O sol se apagara, as estrelas vagavam opacas no espaço eterno.
(Perdidas, não cintilavam mais)

A Terra, gélida e cega, oscilava obscura no firmamento sem luar;
Lampejos abriam as trevas, mas o dia não retornava.
Apavorados seres humanos abandonavam suas paixões.

Naquela devastação e percorridos por calafrios, desunidos corações,
– em egoística prece – clamavam pela claridade.
Súditos e reis ocupavam o mesmo lugar,
Palácios e choupanas crepitavam em imensa fogueira;
Cidades inteiras foram destruídas.”
[ESCURIDÃO (adaptação do poema Darkness, de George Gordon – Lord – Byron)]

O caminho que Sagan e a equipe TTAPS tomou para descobrir o Inverno Nuclear, como vimos, não foi inspirado na arte, e sim em Marte e na ciência atmosférica, que incluía a camada de ozônio. Foram trabalhos recentes, como o de Robock, que finalmente restabeleceram a ligação, como parte da resposta aos questionamentos da ciência do Inverno Nuclear. No próximo texto. [com agradecimentos a Fabiane Lima, Anderson Fernandes e Beto Santana da lista CA]

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O Apocalipse Inevitável (parte V)

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No deserto do real de Matrix (1999), o planeta está envolto nas trevas. A própria humanidade havia bloqueado a luz do Sol em uma última tentativa desesperada de vencer os robôs, que se alimentavam diretamente de energia solar. Como resposta, e de alguma forma que nunca foi realmente explicada (afinal, é apenas um filme) as máquinas passaram então a colher energia de bilhões de seres humanos cultivados em casulos, com as mentes ocupadas em um mundo virtual.

Começamos falando de Apocalipses da ficção porque em 2007, no deserto real e vermelho de Marte, dois de nossos mais valentes robôs, Spirit e Opportunity, foram atingidos por um problema muito parecido. O planeta árido vê redemoinhos e tempestades de poeira a todo momento, e periodicamente as gigantescas tempestades se reúnem para englobar Marte completamente. Detalhes de seu relevo, que geralmente podem ser vistos claramente a grande distância devido à ausência de nuvens, são turvados por uma espessa camada de poeira. A poeira que se eleva até a alta atmosfera de Marte bloqueia a luz do Sol, praticamente transformando o dia em noite, ou em um “crepúsculo ao meio-dia”, prejudicando assim a fonte de energia das sondas-robô, os painéis solares.

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Matrix e Marte, mas nós ainda estamos falando do Inverno Nuclear.

“A sonda espacial americana Mariner 9, o primeiro veículo a orbitar outro planeta, chegou a Marte no final de 1971. O planeta estava envolto por uma tempestade de poeira global. Enquanto as partículas finas lentamente retornaram à superfície, pudemos medir as mudanças de temperatura na atmosfera e superfície. Logo ficou claro o que havia acontecido”, escreveu Carl Sagan em um suplemento dominical lido por milhões naquele mesmo ano de 1983. O título? “O Inverno Nuclear”.

“Eu e meus colegas James B. Pollack e Brian Toon do Centro de Pesquisas Ames da NASA estávamos ansiosos por aplicar estas descobertas à Terra. … Juntando forças com Richard Turco, que havia estudado os efeitos de armas nucleares por muitos anos, começamos a dirigir nossa atenção aos efeitos climáticos da guerra nuclear”. O resultado desse trabalho seria o estudo científico que definiria o Inverno Nuclear.

Se a linhagem direta de conhecimento científico que levou à descoberta dos efeitos climáticos globais de uma guerra nuclear começava com Paul Crutzen e seus estudos sobre alta atmosfera, incluindo o ozônio, o que incluiu um ufólogo alertando sobre o câncer de pele no Congresso, foi Marte e suas tempestades de poeira que levaram Sagan ao Inverno Nuclear. O estudo TTAPS trabalha referindo-se tanto à ciência atmosférica terrestre de Crutzen quanto à extraterrestre desenvolvida entre outros pelo próprio Sagan.

Estes são detalhes deliciosos da história da ciência, no cruzamento entre ficção e realidade, sobre como cientistas planetários estudando a dinâmica de planetas a milhões de quilômetros de distância podem fazer descobertas importantes para bilhões de seres humanos em nossos próprios países. No entanto, estes detalhes curiosamente também seriam, e são usados, para criticar esta mesma ciência.

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Desde o início “céticos” e negadores do Inverno Nuclear questionaram a validez do conceito. Décadas de políticas e trilhões de dólares e rublos haviam sido investidos sem considerar os efeitos climáticos globais de um confronto nuclear. Que estes efeitos fossem apocalípticos e questionassem tais políticas não seria aceito sem contestação.

Segundo tais críticos, a promoção intensa feita por Sagan e seus colegas, mesmo antes da publicação na Science, incluindo coletivas de imprensa e inúmeros programas televisivos, incluindo o painel de debate após a exibição de “The Day After”, refletiriam muito mais ativismo político que uma descoberta científica. A crítica se estende até hoje. Recentemente, o escritor de ficção científica (!) Michael Crichton proferiu uma palestra comparando a famosa equação de Drake sobre a existência de civilizações extraterrestres – popularizada principalmente pelo mesmo Sagan – com a ciência do Inverno Nuclear. Para ele, seriam ambas muito questionáveis, enquanto nenhum dos parâmetros usados nos modelos poderiam ser conhecidos com a segurança apropriada. Ficção e ciência, extraterrestres e o futuro da Terra novamente se cruzando, mas para negar o Inverno Nuclear.

Além dos ataques aos proponentes e a seus motivos, o questionamento ao Inverno Nuclear se dirigiria de forma concentrada justamente ao fato de que se baseava em modelos computadorizados da atmosfera. Na década de 1980, com computadores menos poderosos que um aparelho de MP3, o modelo utilizado no estudo TTAPS era de fato primitivo: lidava, por exemplo, com apenas uma dimensão. Toda a complexidade tridimensional da atmosfera, as interações imensamente complexas em diferentes latitudes e longitudes, o comportamento de sistemas complexos e caóticos como nuvens, eram todos simplesmente ignorados em um modelo unidimensional simplificado.

“É um exemplo absolutamente atroz de ciência, mas eu receio muito em expor seus erros publicamente. Acho que vou me distanciar desta: quem quer ser acusado de ser a favor da guerra nuclear?”, teria confidenciado o físico Freeman Dyson a Russell Seitz. Seitz citaria várias outras figuras acadêmicas renomadas criticando a ciência do Inverno Nuclear, incluindo o prêmio Nobel Richard Feynman. “Você sabe, não acho que esses caras realmente saibam do que estão falando”, teria dito. Victor Weisskopf, físico do MIT, resumiria a questão comentando como “Ah! O Inverno Nuclear! A ciência é terrível, mas talvez a psicologia seja boa”.

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Um episódio especialmente embaraçoso aos defensores do Inverno Nuclear, e especialmente, a Carl Sagan ocorreu em 1991 quando em outro debate televisivo sobre as consequências da Primeira Guerra no Golfo, Sagan previu que a fumaça de centenas de poços de petróleo em chamas no Kwait, consumindo seis milhões de barris diariamente, teria um efeito similar ao de um Inverno Nuclear em pequena escala. A fumaça cheg
aria à alta atmosfera, e todo o sudeste asiático e possivelmente outros continentes ao norte poderiam passar um ano sem verão, frio e seco, prejudicando a agricultura sustentando centenas de milhões de pessoas. Em conjunto com Richard Turco, do Inverno Nuclear, também assinaria os mesmos alertas em editoriais publicados em jornais.

Nada disso aconteceu. De fato o impacto ambiental na região do Golfo Pérsico foi significativo, com dias transformados em noite, e a fumaça densa absorveu a radiação solar. No entanto ela nunca chegou à troposfera, nunca afetou assim áreas mais distantes, e à pouca altitude foi dissipada rapidamente pela ação atmosférica de nuvens e outros processos naturais.

Teria Sagan, ao tentar promover uma Verdade Inconveniente, vendido ao invés a Grande Farsa do Inverno Nuclear? Ao buscar salvar o mundo, teria subvertido a ciência que tanto defendeu como a vela na escuridão e a ferramenta indispensável a garantir nosso futuro? A resposta, ou o melhor que pudermos oferecer como resposta, no próximo nexo.

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O Apocalipse Inevitável (parte IV)

“Imagine uma sala encharcada de gasolina, onde há dois inimigos implacáveis. Um deles tem 9.000 fósforos. O outro tem 7.000 fósforos. Cada um deles está preocupado sobre quem está à frente, quem é mais forte. Bem, esse é o tipo de situação em que realmente estamos”, alertou Carl Sagan.

Era o ano de 1983, e o notório cientista participava de um debate televisivo transmitido logo após a exibição de “The Day After”, retratando os horrores de um confronto nuclear e acompanhado por milhões de norte-americanos. No painel de discussão ao vivo estavam figuras como os antigos secretário de estado americano Henry Kissinger e secretário de defesa Robert McNamara, o sobrevivente do holocausto judeu Elie Wiesel e o ultra-conservador William Buckley.

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O debate completo, em oito partes, pode ser conferido no Museum of Classic Chicago Television*: partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. O vídeo que inicia esta quarta parte da série sobre o “Apocalipse Inevitável” é porém um curta-metragem de animação, criado pelo soviético Garri Bardin no mesmo ano. “Conflito” (1983) explora a mesma metáfora dos fósforos e as consequências desastrosas de um confronto. Dos dois lados da Guerra Fria vozes se levantavam a respeito da situação crítica e absurda.

Afinal, a metáfora dos fósforos e a gasolina não era apenas um conto de terror. Logo na primeira oportunidade Sagan expôs como a visão tenebrosa dramatizada no filme era em verdade uma versão amenizada das consequências reais ainda mais terríveis de uma guerra nuclear. Em uma das primeiras grandes discussões públicas do conceito, Carl Sagan explicou o que seria o “Inverno Nuclear”. Você confere o doutor Sagan expondo a situação na segunda parte dos vídeos, abaixo (a partir de 1:40s):

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Consequência climática global da queima conjunta de dezenas de megalópoles, “como quase certamente ocorrerá”, as dimensões das chamas formariam uma coluna de poeira e fuligem que chegaria até a alta atmosfera. Uma vez chegando lá, circulariam por todo o planeta e levariam vários meses para se dissipar. Todo o planeta passaria à penumbra de um inverno prolongado, mergulhando a temperaturas congelantes de uma Era Glacial instantânea.

Além de “um ou dois bilhões de vítimas diretas” das explosões, os sobreviventes simplesmente não teriam o que comer enquanto a agricultura colapsaria. “Há uma possibilidade real de extinção da espécie humana”. Se o Apocalipse Nuclear era terrível, o Inverno Nuclear mostrava que seria realmente o apocalipse, o fim de nossa espécie.

Neste ponto, o moderador Ted Koppel interrompe Sagan e mostra-se surpreendido com os vaticínios terríveis anunciados. “Se nossos espectadores já não estavam deprimidos o suficiente depois de ver o filme, suspeito que você os deixou ainda piores”, comenta. Recebe a palavra Kissinger, e este é um momento importantíssimo, porque Kissinger, secretário de estado para duas administrações e uma das figuras a moldar os rumos da história no século 20, também se mostra surpreso.

“Eu escrevi um livro sobre este assunto há 30 anos, quando a noção de Guerra Nuclear generalizada surgiu. … E agora temos o senhor Sagan dizendo que é ainda pior do que isto”. O conselheiro de presidentes não sabia bem o que era o Inverno Nuclear, porque este era um efeito descoberto há pouco. A rigor, ainda não havia sido descoberto.

Dias depois do debate Sagan publicaria na Science o primeiro trabalho científico modelando, confirmando, e de fato cunhando o termo Inverno Nuclear. Conhecido como o estudo TTAPS, devido às iniciais de seus autores (Turco, Toon, Ackerman, Pollack, Sagan), o trabalho derivava de estudos realizados pouco antes por John Birks e Paul Crutzen sugerindo a possibilidade de um “crepúsculo ao meio-dia” após um confronto nuclear. Você pode se lembrar de Crutzen: é o mesmo cientista que também havia alertado sobre o perigo à camada de ozônio devido a poluentes, de que falamos na segunda parte desta série. De fato o Inverno Nuclear também afetaria o ozônio na alta atmosfera, que poderia ser reduzido a níveis baixíssimos também com enorme rapidez. Anos após a penumbra nuclear se dissipar, seria então a radiação ultravioleta direta do Sol a dizimar formas de vida sensíveis, de olhos humanos a plânctons nos oceanos na base da cadeia alimentar.

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O Inverno Nuclear era uma descoberta científica de gigantescas implicações, e é assustador constatar como a Humanidade passou tão perto do fim sem nem mesmo imaginar de antemão o que poderia lhe acontecer. Kissinger faz referência a considerações de inúmeros think tanks que aplicavam ciência e tecnologia à análise da guerra, utilizando a matemática da teoria de jogos criada exatamente para este fim, buscando estabilidade, o que levou ao insano conceito da Destruição Mútua Assegurada (MAD, em inglês). E em todos os cálculos sobre o número de ogivas, mortes, cidades e modelos psicológicos do Politburo, ignorava-se que em termos simples a fumaça de dezenas de cidades em chamas poderia cobrir o planeta assegurando, por fim, a destruição de toda a espécie humana. Por três décadas governantes assessorados por inúmeros tecnocratas consideraram a guerra nuclear sem ter ideia de suas consequências.

“Isto é uma boa notícia”, saudou o conservador Buckley ao ouvir a notícia de Sagan. Esta reação surpreendente reflete o fato de que o Inverno Nuclear seria paradoxalmente usado tanto por aqueles que defendiam um aumento no número de armas atômicas quanto por aqueles que promoviam sua redução. Desnecessário explicar os partidários da redução, mas aqueles que apoiavam o Inverno Nuclear como justificativa para que se continuasse aumentando o número de fósforos na sala encharcada de gasolina se baseavam justamente na Destruição Mútua Assegurada, que já contava com a ideia de que a impossibilidade de vencer um conflito nuclear supostamente levaria a uma maior estabilidade e segurança, uma vez que ninguém se atreveria a apertar o botão vermelho. Nesta interpretação da Teoria de Jogos, a ciência provaria o absurdo Orwelliano de que Guerra é Paz.

Mas a loucura, ao final, deu lugar à razão. “Modelos realizados por cientistas russos e americanos mostraram que uma guerra nuclear resultaria em um inverno nuclear que seria extremamente destrutivo a toda a vida na Terra”, disse o premiê soviético Mikhail Gorbachev. “Este conhecimento foi um enorme estímulo a nós, a pessoas de honra e moralidade, agir nessa situação”. E eles agiram.

Influenciados seja pelo filme, seja pela ciência do inverno nuclear, seja por inúmeros outros fatores, Reagan e Gorbachev estabeleceram um diálogo e a partir de 1986 EUA e URSS passaram a reduzir seus arsenais nucleares, em uma diminuição que se estende até hoje. O gráfico abaixo traçando a evolução no número de ogivas nucleares no mundo fala por si mesmo.

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Há enorme esperança aqui: no debate em 1983, McNamara, Kissinger e quase todos parecem concordar que uma redução dos arsenais a mesmo metade das dezenas de milhares de armas disponíveis em um prazo de uma ou duas décadas seria muito pouco provável. Mas foi o que aconteceu. O pouco provável aconteceu. O fim da própria União Soviética é provavelmente o fator determinante para essa redução, mas há enorme esperança no fato de que a redução se iniciou mesmo antes disto, e é possível que tivesse continuado fundamentada simplesmente na tomada de decisões políticas e morais baseadas em conhecimento científico a respeito de nosso futuro. Isso é possível.

De sua participação no trabalho científico sobre o Inverno Nuclear a seu ativismo transmitindo diretamente à população estes resultados, com a ajuda de um filme feito para a TV, Carl Sagan salvou o mundo.

A história, no entanto, não parou aí, enquanto o próprio Inverno Nuclear seria questionado como uma pseudociência. Na continuação.

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* Os vídeos do debate realizado após “Day After” foram disponibilizados pelo Museum of Classic Chicago Television, e estavam originalmente bloqueados aos internautas brasileiros. Solicitei ao administrador, que gentilmente liberou o acesso. Caso aprecie assistir na conveniência de seu computador esta peça relevante da história, um momento raro no cruzamento de ciência e política, faça uma doação ao museu sem fins lucrativos.

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O Apocalipse Inevitável (parte III)

Na noite de 20 de novembro de 1983 quase 100 milhões de americanos assistiram a um filme na TV. Era “The Day After” (1983), produzido por uma das principais cadeias televisivas, retratando em mais de duas horas e da forma mais realista possível – a um filme dramatizado – os efeitos de um confronto nuclear entre forças da OTAN e a então União Soviética. No clipe acima, que pode ser perturbador, estão os trechos mais impactantes do ataque nuclear em si mesmo, com ogivas explodindo sobre duas cidades do Texas e seus efeitos imediatos nos arredores.

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Os efeitos especiais de quase trinta anos podem parecer hoje datados, ainda que alguns momentos tenham sido extraídos diretamente de filmagens de testes nucleares reais. As imagens, no entanto, ainda devem causar impacto: abstraia as limitações dos efeitos especiais e lembre-se de que esse Apocalipse foi, e é, muito real. No evento de uma guerra nuclear, com a detonação de uma ogiva nuclear mesmo a quilômetros de distância, todos os seus aparelhos eletrônicos, computadores, Internet, celulares, irão queimar com o pulso eletromagnético, exatamente como os carros e o blecaute no filme. Momentos depois o estrondo, com a destruidora onda de choque e calor poderão atingi-lo. Ainda que se escape do impacto e calor, a batalha pela sobrevivência se dará com os efeitos da radiação e o colapso social, estes abordados ao longo do resto de “The Day After”. Se isto não lhe causar calafrios, nada mais o fará.

As cenas podem ser mais do que perturbadoras, traumatizantes, e com razão. Precisamos, e devemos temer este cenário, representando aquilo que sob nenhuma hipótese deve ocorrer. “The Day After” foi produzido em um momento crucial quando a Guerra Fria se aquecia novamente e um novo presidente republicano, Ronald Reagan, prometia que os EUA poderiam vencer um conflito nuclear com um número aceitável de “baixas”. Mostrar que este número “aceitável” de mortes era inaceitável para toda a população sob qualquer ponto de vista era o objetivo do drama.

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Segundo o diretor de “Day After”, Nicholas Meyer, quando três anos depois Reagan ao invés disso comprometeu-se a um tratado de redução de mísseis nucleares com o premiê soviético Mikhail Gorbachev, teria lhe enviado um telegrama: “Não pense que seu filme não teve parte nisso, porque teve”. Um filme salvou o mundo. Mas não apenas um filme, claro.

Logo após a exibição de “Day After”, com a população chocada pelo que havia assistido, o canal exibiu um debate com cientistas, políticos e representantes do governo. Presentes estavam nada menos que Henry Kissinger e Robert McNamara, o congressista William F. Buckley, o secretário de estado George Shultz e como cientista, o doutor Carl Sagan. Era finalmente hora de Sagan também salvar o mundo.

No próximo texto.

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O Apocalipse Inevitável (parte II)

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Esta é a história pouco conhecida de um homem que salvou o mundo. Físico e meteorologista na Universidade de Arizona, EUA, James McDonald tornou-se mais conhecido porém por sua apologia aos OVNIs. Acreditava firmemente que eram um mistério não resolvido e que a academia e órgãos oficiais não lhe dedicavam a atenção devida. Chegou a testemunhar no Congresso defendendo os discos voadores.

Foi sobre outra questão que McDonald testemunhou no Congresso pela segunda vez, em 1970. Já há mais de uma década políticos nos Estados Unidos discutiam a criação de sua própria frota de aviões supersônicos comerciais – abordamos a rocambolesca história do Concorde aqui. Mais alto, mais rápido, questão de orgulho nacional enquanto os europeus e os soviéticos investiam em seus aviões supersônicos. Como ser contrário a tal progresso?

Havia um problema: a poluição lançada por esses aviões diretamente na alta atmosfera, alterando a composição entre outras da camada de ozônio. Anos antes cientistas já haviam notado que esta poluição poderia interagir com o ozônio, diminuindo sua concentração e a proteção que ofereceria ao barrar radiações solares mais intensas. Diferentes acadêmicos incluindo Paul Crutzen – que ganharia o prêmio Nobel por tais pesquisas – alertariam sobre as possíveis consequências das emissões de óxido nítrico por aviões supersônicos.

d6f56e655611Entra McDonald e seu segundo testemunho no Congresso. “É minha estimativa presente que a operação de SSTs [aviões supersônicos] nos níveis de frota estimados atualmente para 1980-1985 poderia aumentar tanto a transmissão de radiação solar ultravioleta a ponto de causar algo na ordem de 5~10.000 casos adicionais de câncer de pele ao ano apenas nos EUA”. Lembra o Sunblock 5000, não? Levem o projeto à frente, e verão milhares de mortes por câncer, advertiu McDonald.

Funcionou. O Congresso cortou o financiamento ao avião supersônico americano, depois de já ter investido mais de um bilhão de dólares, à época. Mais do que convencer o Congresso, o risco à camada de ozônio e as milhares de mortes que poderia causar foram explorados pela imprensa e impressionaram o público, tornando-se elemento importante no movimento ambientalista. Tão relevante que tais temores foram finalmente amplificados, tornando-se conhecimento comum e mesmo alvo de paródias de Hollywood, após a descoberta de que de fato havia uma diminuição na concentração do ozônio sobre a Antártida – nunca chegou a formar um buraco de fato, mas constitui uma rarefação significativa – e o entendimento de que, mesmo sem centenas de aviões supersônicos na estratosfera, poluentes então largamente usados em geladeiras ou latas de spray, os CFCs, silenciosa e lentamente rumavam até o espaço onde destruíam a camada protetora.

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Não foi tudo apenas devido a McDonald, é bem verdade – o Concorde europeu, como vimos, foi levado até o fim causando prejuízo a britânicos e franceses, sem nunca se tornar economicamente viável e com apenas 20 aviões produzidos em toda a história, por isso mesmo de efeitos negligenciáveis sobre a camada de ozônio. No início da década de 1970, discutiam-se frotas de centenas de aviões supersônicos voando diariamente, e isso nunca se concretizou, talvez nunca se concretizasse. Lembre-se também que McDonald não foi o único a alertar sobre os perigos ambientais de poluir a alta atmosfera, e outros cientistas como Crutzen foram mesmo premiados com o Nobel por suas pesquisas na área. Não falamos aqui de um super-herói que interrompeu sozinho um asteróide em direção à Terra, estes são infelizmente apenas personagens de ficção. O que temos é a história real, e nesta história, o ufólogo sim desempenhou seu papel. E ao invés de levar o Nobel, McDonald suicidou-se poucos meses depois de seu testemunho no Congresso.

Se lembramos aqui como uma curiosidade o interesse e apologia de McDonald a OVNIs, isso certamente não foi ignorado à época em que se lutava ferozmente a respeito. E em se tratando de verbas de bilhões de dólares à indústria aeronáutica, não faltaram os que ridicularizaram o físico por suas crenças em discos voadores. Um congressista foi especialmente enfático e buscou direcionar o questionamento a McDonald à ufologia, que em nada se relacionava com a questão do ozônio e aviões supersônicos. Mas, argumentou o congressista, qualquer um que acreditasse em homenzinhos verdes não merecia ser levado a sério.

Depois de mais de uma década de confrontos e ostracismo por seu envolvimento com OVNIs, somado a problemas pessoais, James McDonald decidiu tirar a própria vida em 13 de junho de 1971. Mesmo hoje o envolvimento de McDonald com OVNIs é usado por aqueles que defendem que a idéia do buraco no ozônio seria uma farsa, uma conspiração – assim como o aquecimento global. Buscam ressaltar o envolvimento do ufólogo como se o perigo sobre o qual alertou fosse algo absurdo, comumente omitindo que McDonald foi apenas um dos cientistas que advertiram com base em evidência razoável sobre as consequências de poluir a alta atmosfera. Não foi o primeiro, nem foi o último. Foi apenas um deles, um que também era um ufólogo.

O ufólogo, e físico, e meteorologista, desempenhou sua parte em um esforço que ajudou a preservar a camada de ozônio. O desenvolvimento de modelos atmosféricos confirmaria os fundamentos do alerta, e o cancelamento do projeto supersônico americano e o posterior banimento internacional de poluentes como os CFCs, com sinais de que a camada protetora deve se recuperar, também vindicariam um ponto em que o homem que acreditava em homenzinhos verdes estava essencialmente correto. A seu modo, e fazendo bem mais do que a parte que cabe a cada um de nós, James McDonald salvou o mundo.

A história não pararia aí, e um Apocalipse ainda mais imediato e terrível seria impedido através de ideias derivadas do mesmo buraco na camada de ozônio. Era a vez de Carl Sagan salvar o mundo do Holocausto Nuclear. No próximo nexo.

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