O Tao do Google

Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucionários mas com resultados concretos ainda longe de serem tão vistosos lançou o novamente revolucionário computador pessoal Macintosh em um comercial que também se tornou icônico, dirigido por Ridley Scott e veiculado durante o Super Bowl. Uma heroína com o logo do Macintosh salva a humanidade da conformidade representada pelo “Grande Irmão”, que discursava:

Hoje, celebramos o primeiro aniversário glorioso das Diretivas de Purificação de Informação. Criamos, pela primeira vez na história, um jardim de ideologia pura – onde cada trabalhador pode florescer, seguro das ervas daninhas que transmitem verdades contraditórias. Nossa Unificação de Pensamentos é uma arma mais poderosa que qualquer frota ou exército na Terra. Somos um só povo, com uma vontade, uma determinação, uma causa. Nossos inimigos vão tagarelar até a morte, e nós iremos enterrá-los em sua própria confusão. Nós iremos prevalecer!.

Ao que a heroína lança uma marreta libertadora e destrói a enorme tele-tela, deixando os espectadores estupefatos com a explosão. “Em 24 de janeiro, Apple Computer lançará o Macintosh. E você verá por que [o ano de] 1984 não será como 1984 [de George Orwell]”.

Quase 30 anos depois, a Apple Computer, Inc. já não fabrica mais apenas computadores, mudando seu nome apenas para Apple Inc., e é a companhia com maior valor de mercado no mundo, superando gigantes petrolíferas e mesmo concorrentes da indústria de tecnologia de informação como Microsoft e IBM – esta última o alvo original do comercial de 1984. Suas reservas de capital são maiores do que o PIB de vários países. É uma ironia fina aquela que interpreta que se há hoje um Grande Irmão “purificando” informação, criando um jardim de aplicativos puros onde cada usuário possa florescer seguro das ervas daninhas que transmitem interfaces contraditórias, é a própria Apple, que com sua Unificação de Pensamentos transformou sua marca na propriedade intelectual das mais valiosas, e poderosas, do planeta. O Grande Irmão carismático em seus Keynotes para um público babando pela última novidade era ninguém menos que o próprio Steve Jobs.

Esse cúmulo da ironia se deu em pouco mais de uma geração, em uma história que contém meandros fractais – reviravoltas sobre reviravoltas. Mas este é um comentário sobre o Google Inc., que precisou começar pela Apple porque nenhuma outra empresa de tecnologia que busque vender também um verniz de ideologia é tão icônica quanto aquela fundada por Jobs. Ou pelo menos, tão valiosa quanto a Apple Inc. é hoje.

Se a Apple vendeu-se como uma empresa visionária de produtos à frente de seu tempo, o Google passou boa parte de seu tempo promovendo o lema informal menos pretensioso “don’t be evil”, ou “não seja malvado”. Embora design nunca tenha sido seu ponto forte, o Google se destacou pela tecnologia, o que é uma grande vantagem quando se é uma empresa de tecnologia. Enquanto à época outras grandes corporações moviam enormes fundos e conglomerados de mídia para capitalizar um ecossistema que buscava sempre prender os visitantes dentro de “jardins de ideologia pura”, de propriedade desta ou daquela corporação, o Google apostava na eficiência de seu buscador como ponto de início e norte para todos internautas.

Não era necessário prender o visitante em uma rede infindável de sites de sua propriedade, pelo contrário, quanto mais rápido um visitante saísse de seu buscador encontrando o que procurava, mais provável era que ele retornasse depois ao seu buscador quando pensasse ir a outro lugar. Como uma espécie de koan zen budista, para fazer o visitante retornar, faça-o ir embora. Tente prendê-lo, e ele irá fugir. E à medida que o volume de informações na rede crescia geometricamente, a tecnologia do Google mostrou-se em anos decisivos a mais capaz de oferecer resultados relevantes ao usuário.

Em 2011 em um testemunho no senado americano, Eric Schmidt, então chairman do Google, concordou que o Google detém hoje o monopólio na área de mecanismos de busca. Pouco mais de uma década depois de sua fundação, em menos de uma geração, uma startup baseada em ideias revolucionárias de tecnologia venceu todos os recursos investidos por gigantes de mídia e se tornou ela mesma mais valiosa que o maior conglomerado tradicional de mídia, a Disney.

E como você pode não ser “malvado” se detém o monopólio da área mais importante da Internet e é uma das empresas mais valiosas do mundo? É simplesmente impossível. Vender-se como o underdog, aquele competidor pequeno mas valente desafiando o gigante tirânico, não funciona quando você mesmo se torna o gigante. Você também se torna automaticamente o tirano.

Mal o Google consolidou seu monopólio dos mecanismos de busca, uma forma nova de uso da rede emergiu – as redes sociais. O Facebook como rede social é desde o início um “jardim de ideologia pura” de propriedade de Mark Zuckerberg, fechado aos olhos indexadores do Google, e um ao qual os visitantes não precisam se lembrar de ir ao Google para gerar, consumir ou encontrar conteúdo: basta perguntarem aos amigos que também fazem parte da rede social. É uma forma fundamentalmente diferente de utilizar a Internet, e uma que não passa pela ideologia original do jardim aberto do Google.

O que os grandes conglomerados de mídia não conseguiram concretizar à força no primeiro boom da Internet na virada do milênio, a tecnologia das redes sociais tornou hoje não só possível, como transformou em realidade. Com um crescimento orgânico e viralizado, onde todos entram porque outros já entraram, e sem vender nem mesmo um verniz de ideologia, o Facebook se consolidou como o maior “jardim de ideologia pura” já criado. Um local onde cada mudança na forma como Zuckerberg apresenta sua timeline afeta instantaneamente a maneira com que milhões de pessoas consumirão informação. Discutir o impacto que a introdução de hashtags terá no ecossistema do Facebook é um indicador claro da pureza deste jardim onde não há ervas daninhas que não sejam podadas.

Se a possibilidade de usar outros sites em apenas um clique era um argumento usado por Schmidt para o fato de que o monopólio do Google não era prejudicial ao consumidor, quando esta possibilidade se mostrou uma ameaça concreta, o Google passou a exercer sua tirania. Todos usuários de qualquer propriedade do Google, agora parte de um jardim de ideologia, precisam aderir ao Google+. A ameaça do Facebook é tão séria à visão original do Google que hoje está claro que esta visão original foi simplesmente abandonada. Hoje, o objetivo do Google é o mesmo que o do Facebook, Apple, IBM, Microsoft, do IngSoc e do Grande Irmão. É o mesmo que o da outrora gigante AOL. É prender você em um jardim de ideologia pura de sua propriedade, do qual você não deve sair, onde todos seus pensamentos possam ser capitalizados e vendidos. Um perfil, um login, uma rede social, única, para todo o planeta, é o sonho perseguido por todas estas gigantes flexionando bilhões capitalizados no mercado.

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O objetivo nada secreto de toda corporação é o lucro, não deveria haver nenhuma grande novidade nisto. Se por um breve período o Google promoveu uma filosofia aparentemente diferente, é porque na peculiar situação que existia, a filosofia contrária prometia maiores lucros no médio e longo prazo. “Nós acreditamos firmemente que no longo prazo, seremos melhor servidos – como acionistas e de todas outras formas – por uma companhia que faz coisas boas para o mundo mesmo que deixemos de lado alguns ganhos de curto prazo”, declarava o IPO do Google no mais próximo de um manifesto “don’t be evil” a que se chegou.

Funcionou, dez anos depois o Google trouxe enormes retornos a seus acionistas. A constatação triste é que hoje, todos os ganhos do Google, incluído, devem ser de curto prazo.

Se a história de reviravoltas de empresas de tecnologia é um parâmetro, porém, é muito provável que as empresas mais valiosas e poderosas do mundo daqui a uma geração ainda nem existem, e enquanto empresas com centenas de bilhões em capitalização movem seus exércitos em estratégias para criar jardins de ideologia pura, uma nova empresa focada em tecnologia ainda por surgir pode sequer depender de um clique para ser acessada.

Google, eu gostaria que fosse você, mas de toda forma, obrigado pelos peixes.

Quicksort, em dança húngara

Se você nunca ouviu falar em quicksort talvez não veja muita graça nesse vídeo. Mas deveria: é um algoritmo de ordenação e entendê-lo é entender alguns dos princípios fundamentais da computação moderna, a começar pela própria ideia de algoritmo.

Ao assistir à peculiar dança húngara, você consegue adivinhar quais são as regras pelas quais o algoritmo quicksort funciona? Depois de tentar, veja a resposta aqui.

Aqui em 100nexos, já apresentamos o fabuloso algoritmo de ordenação Maggie. [via haha.nu]

Design Inteligente x Algoritmo Genético

Brincadeira de criança – balançar de pé, mais rápido, mais alto. Nesta versão virtual, no entanto, quem ganha: o boneco com movimentos programados pelo designer muito inteligente, o usuário “munimuni”, ou aqueles resultado de um algoritmo genético após 22 gerações?

O algoritmo genético simula a evolução natural. De início, os movimentos são aleatórios, desengonçados, em uma convulsão descoordenada. O percurso do balanço foi dividido em 32 partes, e para cada uma delas o boneco pode abaixar ou levantar (0 ou 1). Os melhores movimentos de cada geração são transmitidos para a próxima, com pequenas variações, e assim sucessivamente. É fascinante ver cada batalhão dentro de uma geração e a evolução em pleno curso.

O resultado você vê ao final do vídeo. O boneco verde faz os movimentos programados pelo designer inteligente, muito parecidos com aquele que todos nós fazemos. Já o boneco vermelho, com movimentos determinados pelo algoritmo genético, continua com trejeitos um tanto engraçados. Mas os resultados podem surpreender!

Confira muito mais no canal de 99munimuni no Youtube.

Um guia rápido para o novo Google Reader

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Com as mudanças colocadas em prática hoje, as funcionalidades sociais do Google Reader foram extintas. E agora?

O botão +1 substitui o antigo “Like, você clica e estará promovendo a popularidade do item que está lendo. Importante: ao clicar neste botão você não estará compartilhando o item que está lendo com ninguém. Veja o próximo item.

Para onde foi o botão de “Share”, para compartilhar posts? Ele está no topo do Reader! Do lado superior direito:

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É preciso selecionar o item que você quer compartilhar e então clicar em “Share” no topo, escolher os círculos com que deseja compartilhar e então finalmente em “Share” outra vez.

Também é possível compartilhar um item no Google+ dentro do item, clicando no botão +1, passando o mouse sobre ele para ver a opção de “Share on Google+”, selecionando os círculos e compartilhando.

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Anteriormente, ao compartilhar um item você o compartilhava com todos seus amigos ou mesmo com toda a rede. Agora, para compartilhar com o mesmo nível de abertura será preciso escolher os “Extended Circles”. Do contrário, apenas as pessoas nos círculos que você escolheu verão seu item, e mesmo que alguém destes círculos queira “re-compartilhar” o item com mais pessoas, poderá ter problemas.

Sim, são no mínimo três cliques, talvez mais, para substituir uma funcionalidade que na versão anterior do Google Reader necessitava de apenas um clique ou tecla.

E o bookmarklet para compartilhar qualquer página? O Google Reader se integrava com o Notes para permitir compartilhar páginas com um bookmarklet. Ele não funciona mais, mas há o bookmarklet do Google+. Ele permite compartilhar a página atual no G+ com um clique.

Para onde foram meus amigos? Quem eu seguia, quem me seguia? Todos estão no Google+ e a única forma de ler os itens deles, e deles lerem os seus, será através dos streams de círculos no Google+.

Mas onde estão os meus amigos do Reader no Google+? Para descobrir todos a quem você seguia e quem lhe seguiam, será preciso acessar as configurações do Reader. Dentro do Reader, no canto superior direito há uma engrenagem, acesse “Reader Settings”, e então a tab “Import/Export”.

Lá você encontrará tanto a “List of people that you follow” quanto a “List of people that follow you” para fazer o download no formato JSON. O nome e endereço dos perfis deles estão lá, nos arquivos exportados following.JSON e followers.JSON.

E o que faço com esses JSON? O formato JSON foi feito para ser mais amigável e compreensível, mas se você abrir mesmo a pequena lista de amigos que acabou de baixar nesse formato em um editor de texto, pode não entender nada.

Thiago Avelino criou um app que filtra os arquivos JSON e lista o endereço dos perfis: http://readertogplusfriends.appspot.com/

Ainda será preciso visitar cada um dos perfis e adicioná-los um a um aos círculos do G+.

E agora? Se você se antecipou à mudança e já criou um círculo com todas as pessoas que você seguia no Reader, ou se os criou agora, basta acessar o stream desse círculo no G+ e basta que todos nesse círculo passem a compartilhar os itens no G+ e basta que aqueles que o seguiam também tenham criado seus círculos incluindo você e você também compartilhe tudo no G+ e nenhuma das pessoas tenha se confundido ou esteja compartilhando com círculos fechados para que tudo fique quase como era antes.

O Google Reader era, e continua sendo, a forma mais prática de consumir conteúdo da rede. Os sites disponibilizam o feed RSS de seu conteúdo, e o Reader, em um aplicativo completamente na nuvem, permite que você organize e acompanhe esses feeds em tempo real a partir de uma única interface focada no conteúdo. Lamentavelmente, esta atualização pouco (ou nada) adicionou de funcionalidade no Reader como leitor de feeds.

O Google Reader também era, e não é mais, uma rede social distinta focada nos usuários desse aplicativo.

Serpentes

A sugestão de infinitos anéis entrelaçados, percorridos por três Serpentes, na última gravura do artista holandês M.C. Escher, revisitada em uma animação tridimensional de Cristóbal Vila.

Depois de mergulhar na versão digital, confira como Escher criou originalmente a obra há quatro décadas, gravando em madeira os blocos que imprimiriam o círculo completo em três partes idênticas – cada uma delas com três cores, preto, marrom e verde.

O vídeo do artista criando estas obras desafiando a precisão manual, sempre com a sugestão da perfeição geométrica, é imperdível.

Não por coincidência, o próprio Escher era um admirador da arte abstrata e geométrica que adornava a arquitetura islâmica, tema de outros vídeo de Vila, Isfahan:

Vila talvez seja mais conhecido por um outro vídeo recente sensacional associando a sequência de Fibonacci a formas da natureza.

Benoit Mandelbrot (1924-2010)

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No último dia 14 de outubro, faleceu aos 85 anos o matemático Benoit Mandelbrot. Uma das figuras mais influentes na área nas últimas décadas, Mandelbrot se tornou conhecido como pai da geometria fractal, termo que cunhou e popularizou.

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O amigo girino oferece um tutorial sobre fractais com ênfase em seu aspecto matemático e computacional. O Osame também havia escrito um texto para leigos sobre Fractais: Uma nova visão da natureza.

[Imagens: Mandelbrot recursivo; conjunto de Mandelbrot]

Somos um epifenômeno

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Toda a humanidade foi infectada pelo vírus zumbi, que mata em 24 horas. Não há cura, todos irão morrer. Todos os mortos, depois de mais 24 horas, se tornam zumbis e podem vagar indefinidamente exigindo “cééérebros”. Mas há esperança.

Nem todos foram infectados ao mesmo tempo, e se duas pessoas vivas conseguirem agarrar um zumbi, podem revivê-lo como uma pessoa normal em um dia. Infelizmente, o tratamento é um paliativo que só funciona temporariamente, mais precisamente por 24 horas, após as quais a pessoa morre outra vez. E mais um dia depois, volta a se tornar um zumbi.

Pode soar como um enredo elaborado de um péssimo filme de zumbis, mas são as regras do “Jogo da Morte”, um apelido para uma variante criada por Brian Silverman para o “Jogo da Vida” – não, não o de roletas e tabuleiro –, uma das mais populares aplicações de autômatos celulares (CAs). Você confere mais sobre CAs, o Jogo da Vida de John Conway e a possibilidade de que o Universo seja um programa em um grande computador em “O Universo é Matrix?”.

Por aqui, convido você a apreciar a animação abaixo:

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Ela ilustra a situação já vários dias após a infecção, onde cada pixel representa uma pessoa. O cenário começa já com uma vasta área de pixels pretos, os zumbis, destino que aguarda a todos. Contudo restam algumas pessoas vivas, os pixels brancos, e algumas mortas que ainda não se converteram em zumbis, em azul. Cada quadro da animação representa a passagem de um dia. Ao todo, são 201 dias.

Note como a mudança de estado das pessoas de vivas, para mortas, para zumbis, e eventualmente de volta à vida se propaga pela área com grande rapidez. As formas que parecem viajar pela animação não são zumbis correndo em busca de “cééérebros”. Nesta representação, os pixels, as pessoas, permanecem imóveis e o que está se propagando é o padrão de pessoas/cadáveres/zumbis. O que se desloca na animação é a infecção, não as pessoas.

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Se você ainda está lendo este texto, talvez por pura paixão por zumbis, ainda assim já pode estar se perguntando aonde se quer chegar. Bem, a forma como um padrão inicial (a semente) rapidamente se espalha por toda a área e gera uma enorme variedade de padrões em verdade indica como esta representação, este autômato celular, é capaz de representar complexidade. Tanto é assim que seu nome original não era “Jogo da Morte”, envolvendo infecções e mortos-vivos.

O autômato celular foi inicialmente batizado como “Cérebro de Brian”, porque ao invés de zumbis você pode imaginar neurônios prontos para disparar – os pixels pretos. Os neurônios disparando, brancos, estão “vivos”. Os neurônios que acabaram de disparar precisam de um ciclo de descanso, estão “mortos”, são azuis. E, finalmente, um neurônio dispara se dois neurônios adjacentes estão disparando. Exatamente as mesmas regras, exatamente a mesma ilustração, mas se este texto começasse falando de neurônios você talvez não tivesse chegado até aqui. Confesse.

Além da brincadeira e da coincidência entre zumbis e cérebros, este texto fala de epifenômenos. Na animação acima, por exemplo, o fenômeno observado de um padrão de infecção propagar-se de maneira estável, cruzando a tela, é um epifenômeno da infecção zumbi. Isto é, que a humanidade está sendo afligida por esta terrível doença que só um péssimo roteirista ou matemático imaginaria, este é o fenômeno principal, todos podemos concordar. Que um padrão de pessoas vivas, mortas e zumbis se propague entre a população é um fenômeno secundário, paralelo. É um epifenômeno.

Agora, relembremos que a animação também é uma analogia do “Cérebro de Brian”, ou o seu cérebro, ou o meu cérebro. Que neurônios andam disparando para lá e para cá segundo alguma regra, esse é o fenômeno. Que padrões de neurônios disparando se propaguem por este modelo de cérebro, que aumentem em complexidade aparente e gerem uma pletora de imagens, esse será um fenômeno secundário, paralelo. Será um epifenômeno.

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Seríamos um epifenômeno? Consciência e inteligência em si mesmas são epifenômenos de outras adaptações evolutivas. Se fossem o fenômeno principal da vida, da evolução, esperaria-se que tudo fosse consciente e inteligente, quando em verdade poucas espécies dedicam muitos recursos à inteligência, e nós permanecemos largamente isolados em nossa consciência, inclusive, da solidão. Sentimentos e pensamentos que partilhamos apenas parcialmente com alguns de nossos parentes símios e mamíferos mais próximos.

A verdadeira inspiração para este texto, contudo, é notar como o próprio Universo pode ser um epifenômeno. Em “O Universo é Matrix?”, abordamos a questão de que, se o Universo é um programa em um computador, não é necessário presumir que este programa tenha sido projetado para processar nossa existência. Retorne à animação da infecção zumbi ou de um cérebro. Note como a complexidade que se vê é um epifenômeno, algo secundário que ocorre casual e paralelamente a um fenômeno primário.

Pois bem, autômatos celulares como o “Jogo da Morte”, ou o “Cérebro de Brian”, já foram demonstrados como computadores universais. Pode-se criar um padrão inicial de pessoas vivas/mortas/zumbis em um grande cenário que seja capaz de processar informação – representada por mais padrões de pessoas – exatamente como qualquer computador. Se o Universo é um programa computável, ele poderia ser computado pelo “Jogo da Morte”. Ele poderia ser computado como padrões de infecção zumbi.

Jürgen Schmidhuber, do Instituto Dalle Molle de Estudos em Inteligência Artificial na Suíça, nota que uma xícara de chá, simplesmente ao existir, estaria efetuando cálculos. Epifenômenos ocorrem na interação entre o chá e a xícara, o ar e tanto mais. O que computam? Provavelmente nada muito interessante, mas se ela pode ser vista como um computador efetuando cálculos quaisquer, nosso próprio Universo poderia estar tendo lugar em Outro como algo tão desinteressante quanto uma xícara de chá é para nós.

O padrão de infecção zumbi é algo bem mais interessante que uma xícara de chá, por outro lado, e ilustra talvez de forma ainda mais poderosa como epifenômenos complexos podem emergir. Nosso Universo pode não só ser Matrix, pode ser um padrão de infecção zumbi em outro Universo. Alheio a todo o o drama, o pr

A Garota Afegã em 3D

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A Garota Afegã é uma das mais famosas e celebradas fotografias modernas, capturada pelo fotógrafo Steve McCurry em junho de 1984 em um campo de refugiados, enquanto o Afeganistão era ocupado por forças soviéticas. Como capa da revista National Geographic e a imagem mais reconhecida da história de mais de 100 anos da publicação, a menina só foi identificada por nome e localizada quase vinte anos depois como Sharbat Gula, já uma mulher de 30 anos vivendo sob o regime fundamentalista Talebã.

Nesta bela imagem de enorme contexto histórico, o detalhe é que o que vemos aqui não é uma fotografia. É uma recriação digital realizada por computação gráfica pelo artista Hyun Kyung Up. Ele utilizou os programas Z-Brush, 3D Max e Photoshop para “expressar as singulares obras de arte [de McCurry]”, que vem fazendo um tour e passou inclusive pelo Brasil.

Abaixo, algumas capturas de tela do processo de modelagem:

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A recriação é imensamente bela e quase perfeitamente acurada, mas admirei ainda mais o relance parcial de seu rosto visto de frente – ainda que sem os poderosos olhos verdes. Esta outra visão de Sharbat Gula tem grande significado porque, como se descobriu, Gula só foi fotografada três vezes em toda sua vida. A primeira justamente aos doze anos, no que se tornou o registro icônico. Apenas ao redor de 2002 a busca por ela pôde ser empreendida, e como parte da procura ela foi fotografada uma segunda vez, identificada, para então ser finalmente clicada novamente por McCurry. Ela mesma só viu seu famoso retrato em 2003.

Hyun Kyung Up pode ter recriado outra visão de uma beleza jovem e também perturbadora que estaria do contrário perdida para sempre.

Vinte e seis anos depois, tanto mudou, e no entanto, tão pouco. No ocidente, especialmente nos EUA, onde antes uma beleza perturbadora chamou atenção ao sofrimento de refugiados por todo o mundo durante uma ocupação soviética, agora uma outra revista publica em sua capa um retrato chocante de outra bela jovem afegã, mas desta vez, horrivelmente desfigurada. Desta vez são os próprios EUA que ocupam o Afeganistão, e a mensagem que se pretendeu transmitir foi bastante diferente.

Não é minha intenção afirmar aqui qualquer posicionamento político simples sobre a ocupação do Afeganistão, os EUA, ou mesmo a URSS e o Talebã. Se 26 anos depois tanto mudou, mas tão pouco mudou, é porque as questões não são nada simples. Mas ao partilhar esta reinterpretação fabulosa de uma fotografia belíssima e repleta de significado precisava mencionar ao menos alguns dos nexos políticos que esta arte pode inspirar. Até porque o título deste post pode soar como uma versão superficial e de puro entretenimento para uma fotografia tão séria.

“A Garota Afegã em 3D” e a arte digital, como arte, podem e devem provocar reflexão. Com ZBrush, Max e Photoshop.

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[Sugestão de Paulo Dias na Ciencialist. Arte apresentada no fórum ZBrushCentral]

A barra de progresso de download é uma ilusão

Olhar uma barra de progresso avançando lentamente não é um dos momentos mais emocionantes ao mexer em um computador, mas já inclui uma ilusão de percepção. Um estudo de Chris Harrison, Zhiquan Yeo e Scott Hudson, da Universidade de Carnegie Mellon, mostra que barras de progresso animadas, que hoje são onipresentes em sistemas operacionais, aparentam ser até 11% mais rápidas do que realmente são.

No vídeo acima, cortesia da New Scientist, todas as barras com animações variadas avançam com a mesma velocidade, mas é possível perceber que algumas parecem andar mais rápido que outras. Posteriormente vemos como uma barra em que a variação de cor se torna mais rápida à medida que a barra se aproxima do final parece acelerar – quando a velocidade é, em verdade constante. Finalmente, vemos como uma animação com “ondas” movendo-se na mesma direção do progresso da barra parece fazê-la andar mais devagar. Ondas no sentido contrário, ao invés, aceleram a percepção de avanço.

Tudo ilusão, e uma baseada em estudos anteriores que já haviam mostrados como estímulos rítmicos – como ondas piscando – podem alterar a percepção de tempo, e também como nossa percepção de movimento depende do contexto. O primeiro efeito explicaria a ilusão de movimento acelerado com piscadas gradualmente acelerando, o segundo responderia pela aceleração aparente à medida em que as ondas viajam no sentido contrário parecem destacar o movimento da barra de progresso.

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Fãs de produtos Apple ficarão animados com o fato de que barras de progresso com animações similares alcançaram os computadores da empresa de Steve Jobs já há mais de uma década, mas usuários Windows vêm apreciando barras de progresso mais animadas em versões recentes do sistema. Tais melhorias visuais não parecem ter levado em conta tais efeitos de percepção: as animações foram originalmente inseridas provavelmente como um simples indicador de que o sistema não travou e então também como atrativos visuais.

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Curiosamente, talvez por isso mesmo nenhum desses sistemas aplica as ilusões da forma mais efetiva indicada agora pelo trabalho de Harrison. A direção em que as “ondas” de movimento na barra viajam deveria ser invertida, e as mudanças pulsantes de cor poderiam, ao invés de ser constantes, acelerar à medida em que a tarefa chegasse perto do fim.

São apenas ilusões de progresso: a velocidade das barras continuará exatamente a mesma, mas este é um caso em que o usuário poderá gostar de ser enganado, vendo o tempo passar mais rápido.

Só torçamos para que operadores de telemarketing não passem a explorar também ilusões auditivas. [via Gizmodo BR]

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Harrison, C., Yeo, Z., and Hudson, S. E. 2010. Faster Progress Bars: Manipulating Perceived Duration with Visual Augmentations. In Proceedings of the 28th Annual SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems (Atlanta, Georgia, April 10 – 15, 2010). CHI ’10. ACM, New York, NY. (22% acceptance rate, Best Paper Nomination)

Espirrando — e triplicando a resolução de seu monitor

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Você já espirrou na tela do monitor? É algo fascinante – se apreciado da forma correta, claro, tudo pode ser fascinante. Experimente. Não é preciso contaminar a tela; pode-se molhar a mão e então chacoalhá-la, jogando muito levemente gotículas de água sobre ele. Gotículas, é bom alertar, não se deve encharcar o monitor.

Aqui está o fascinante: as gotas sobre o monitor adquirem uma aparência multicolorida, alternando entre vermelho, verde e azul, mesmo que o monitor esteja exibindo uma imagem completamente branca. Isto ocorre porque a imagem completamente branca é em verdade formada por uma série de elementos vermelhos, verdes e azuis, e as gotículas de água agem como lentes de aumento, permitindo que você veja estes minúsculos elementos individualmente. Você também poderia se fascinar observando o monitor com uma lupa – só não seria algo tão nerd (ou nojento?) quanto admirar gotículas de cuspe sobre o monitor.

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