Arte em Ondas Estacionárias

Uma corda, dois motores. Girando em sentidos contrários, a instalação de arte de Daniel Palacios cria ondas estacionárias que variam de acordo com o movimento do público ao redor. A arte cria tanto formas tridimensionais quanto sons cortando o ar.

Entender algo da arte envolvendo ondas estacionárias revela um tanto do segredo desse outro vídeo:

Aqui, o truque principal está na câmera, que captura imagens em vários quadros por segundo – a olho nu não se vêem as gotas imóveis no ar, exceto se todo o conjunto fosse iluminado por luz piscante, estroboscópica. Mas se poderia sim ver os fios de água dobrados pelo som, em ondas estacionárias no ar.

A Inteligência é uma Força Fundamental da Natureza

Existem quatro forças fundamentais na natureza. Tudo que conhecemos interage fundamentalmente através destas quatro forças: gravidade, eletromagnetismo e as forças nucleares forte e fraca. Cada uma se comporta e é modelada de forma diferente, e depois que Albert Einstein unificou massa e energia, seu grande sonho passou a ser unificar todas as forças fundamentais em um só modelo, de forma a atingir uma Teoria de Tudo. Todo o Universo modelado fundamentalmente por um conjunto único de equações.

Que as forças nucleares forte e fraca fossem descobertas – Einstein iniciou seu projeto apenas com a gravidade e eletromagnetismo – e a física quântica demonstrasse que em escala subatômica tudo se comportava de forma, digamos, quântica, significou que seus sonhos permaneceram inacabados. A fotografia de como deixou seu escritório em Princeton para a posteridade de certa forma reflete sua obra sem fim.

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Desde então, não descobrimos mais forças fundamentais na natureza, e de fato conseguimos unificar duas delas: a força nuclear fraca e o eletromagnetismo podem ser modelados como formas diferentes da mesma interação fundamental, a força eletrofraca. Já há alguns anos a teoria de Supercordas promete terminar o serviço, mas a Teoria de Tudo permanece ainda assim um sonho.

Quando se ouve falar de uma “Teoria de Tudo”, um dos pensamentos mais naturais é imaginar quão estranho ou mesmo insano seria que tudo que conhecemos, que tudo que existe, seja modelado por um conjunto único de equações. Compreenderíamos instantaneamente todo o Universo? Onde estariam nossos sonhos, seriam eles reduzidos a simples equações?

O espetáculo de uma revoada de estorninhos deve nos ajudar a entender melhor o que exatamente o sonho de uma Teoria de Tudo representa.

Em uma revoada de estorninhos, mais de mil indivíduos podem voar em conjunto. Cada um deles interage apenas com aqueles próximos a si e reage de acordo com regras simples, porém coletivamente exibem um comportamento emergente hipnotizante. A simplicidade de cada agente individual, e a complexidade emergente do conjunto, foi modelada e demonstrada inicialmente no campo da Inteligência Artificial com os “Boids” de Craig Reynolds.

Inteligência Artificial modelando o comportamento da inteligência natural de estorninhos é algo fascinante com resultados como o que você vê acima.

Talvez ainda mais fascinante é a abordagem tomada por físicos da Universidade de Roma: eles modelaram o comportamento de revoadas de estorninhos baseados no magnetismo. A forma como estorninhos mudam de direção em revoada pode ser modelada exatamente com as mesmas ferramentas matemáticas que descrevem partículas de metal mudando seu spin em reação a campos eletromagnéticos.

O que os físicos italianos indicaram é que estorninhos podem se comportar como partículas e sua interação pode ser modelada como uma das forças fundamentais. Mas é a inteligência de tais estorninhos que reproduz a interação fundamental, não há realmente nenhum campo de força à distância entre um e outro estorninho. Não além daqueles que existem também entre duas pedras, que sem inteligência podem colidir livremente se lançadas ao ar.

Se por um lado o estudo dos físicos italianos demonstra a aplicação de um modelo matemático simples a um comportamento complexo, ele deve ressaltar como a metáfora também funcionaria no sentido inverso. Há muitos outros comportamentos complexos que não são modelados matematicamente. A forma como a inteligência pode reger o comportamento de um sem número de seres poderia ser interpretada como um universo de diferentes “forças fundamentais” que dificilmente seriam unificadas. Se a inteligência é uma força fundamental da natureza, há infinitas forças fundamentais na natureza.

Além das forças fundamentais, há uma infinidade de epifenômenos que emergem a partir daí, adicionando e multiplicando a complexidade do Universo em todas as formas que conhecemos – e a infinitude de outras que ainda iremos descobrir.

Mola Maluca desafia a gravidade

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Publiquei no Sedentário&Hiperativo um texto sobre o experimento com a “mola maluca” aparentemente desafiando a gravidade. Confira!

O Relojoeiro do Ferrofluido nas Bolhas de Sabão

Kim Pimmel combina “bolhas de sabão comuns com um exótico ferrofluido para criar uma instigante história, usando lentes macro e técnicas de lapso de tempo. O corante [vermelho] e o ferrofluido preto deslizam pelas estruturas das bolhas, atraídos pelas forças invisíveis da ação capilar e magnetismo”.

O vídeo deve remeter qualquer espectador a estruturas biológicas, e em especial, à complexidade das estruturas biológicas. E isso não é mera coincidência.

Na própria origem do termo “célula” nas observações de Robert Hooke no século 17, lá estavam as bolhas de sabão. E mesmo nas revoluções biológicas modernas que modelaram a membrana celular com conhecimentos adentrando a físico-química, também lá estavam as bolhas de sabão! Há trechos fabulosos desta ligação entre algo tão mundano com um conceito-chave no entendimento de uma unidade básica da vida em Planar Lipid bilayers (BLMs) and their applications.

E bolhas de sabão ainda podem ser usadas didaticamente para entender melhor o funcionamento da membrana celular (PDF).

Além das bolhas se sabão, o ferrofluido, um líquido suscetível à ação de campos magnéticos, também encontra ligações inusitadas. O que o artista usou aqui é provavelmente feito usando o toner negro de impressoras. O vídeo anterior de Pimmel ilustra essa dança de partículas de toner em resposta a campos magnéticos:

Os nexos da origem das copiadoras fotostáticas mais conhecidas como Xerox é tema para outro post, mas no ferrofluido também está algo da história da ciência, enquanto Michael Faraday utilizava raspas de ferro para ilustrar os então misteriosos e invisíveis campos magnéticos.

Acima, um dos primeiros diagramas representando linhas de força magnéticas, por Faraday em 1832.

O que nos leva ao nexo que une todos estes: a complexidade. Estamos acostumados a associar complexidade a dispositivos artificiais intrincados, ou alternativamente à própria vida, que ao longo de quase toda nossa história só poderíamos presumir também ser algo projetado, por mãos e mentes superiores às nossas.

E, no entanto, a complexidade nos cerca. Bolhas de sabão e principalmente pó de toner de uma impressora são elementos manufaturados, sim, mas quem esperaria ver tanta complexidade neles?

De fato, a complexidade nos cerca e fenômenos intrincados ocorrem à nossa volta, passando ao largo de nossos artifícios bem como daquilo que consideramos vivo. Ela é apenas largamente invisível aos nossos olhos, que do contrário estariam saturados de um universo de fenômenos.

Mesmo quando a complexidade é visível, é comumente  tomada como algo banal. Porque se pó de toner em meio a bolhas de sabão em uma bacia de água com um eletroímã ao centro fossem algo que ocorresse naturalmente, provavelmente nos pareceria tão “simples” e banal quanto as cores iridescentes de uma película de óleo sobre a água, dos cristais de gelo sobre uma nuvem.

Há, finalmente, a complexidade visível que é atribuída ao divino, como as cores refratadas do arco-íris. O que não deixa de ser curioso ao constatarmos que em um dia de Sol podemos criar nossos arco-íris simplesmente criando um jato de água com um a mangueira, mas ver algo como o que o artista Kim Pimmel criou requer um pouco mais de trabalho.

Pelo que poderíamos pensar que o deus do arco-íris é menos poderoso ou mesmo menos criativo que Pimmel.

A cantada, o ditador e os prodígios de lógica

Harry: “Um homem não pode dizer que uma mulher é atraente sem isso ser uma cantada?”
Sally: “Certo, certo”.
Harry: “Que quer que eu faça? Retiro o que disse, OK? Retiro”.
Sally: “Não pode retirar”.
Harry: “Por que não?”
Sally: “Porque já foi dito”.
Harry: “O que devemos fazer? Chamar a polícia? ‘Já foi dito!’”.

Dizer “empiricamente, você é atraente” pode não ser a melhor das cantadas, mas é uma cantada. E Sally não gostou do avanço porque Harry ainda estava saindo com Amanda, sua amiga. Por mais que ele tentasse retirar o que foi dito, bem, já foi dito. Nem chamar a polícia adiantaria.

Hipoteticamente, se Harry começasse a contar que gosta de fotografia e comentasse casualmente que Sally deveria ser muito fotogênica, as situações embaraçosas que compõem toda a comédia romântica de “Harry e Sally” (1989) poderiam ser evitadas. O que leva a um paradoxo aparente: seja dizendo direta e enfaticamente que acha Sally atraente, seja comentando casualmente algo sobre a simetria do rosto de Sally ou a iluminação incidindo sobre sua pele, a informação trocada parece a rigor a mesma. E mesmo no segundo caso hipotético, tanto Sally quanto Harry saberiam da mesma forma que Harry estava passando uma cantada.

Em um fabuloso RSAnimate, uma série de animações da RSA, Steven Pinker explica como o paradoxo se relaciona com os conceitos de conhecimento individual e mútuo usados na Teoria de Jogos.

Conhecimento individual é você saber que Steven Pinker é um fabuloso divulgador de ciência. Conhecimento individual também é que eu, por uma feliz coincidência, também saiba que Pinker é um fabuloso divulgador de ciência. Mas agora que você leu estas linhas, você sabe que eu sei, e eu sei que você sabe, que Pinker é um fabuloso divulgador de ciência. É agora um conhecimento mútuo. E ele pode fazer toda a diferença.

Como Pinker nota, quando toda uma população questiona a autoridade de um ditador, mas dentro de suas casas, há algo como conhecimento individual de que o ditador não poderia se manter no poder. Quando toda a população sai às ruas, a (im)popularidade do ditador pode permanecer a mesma, mas agora todos podem se ver e reconhecer mutuamente seu descontentamento coletivo. Na história da Roupa Nova do Rei, todos sabiam, todos podiam ver que o Rei estava nu, mas foi necessária uma criança declarar em voz alta o que todos sabiam, mas ninguém compartilhava, para que o Rei finalmente se descobrisse nu. Da insatisfação à revolução, é necessário um reconhecimento mútuo, compartilhado.

O que nem sempre é desejável, como mostram Harry e Sally, e como Pinker explica o paradoxo aparente da diferença entre uma cantada direta e uma indireta. Por que uma pode ofender e outra não?

Porque uma cantada direta faz com que Harry e Sally saibam claramente que Harry está interessado em Sally. Não há como retirar, não há como negar. “It’s out there”, já foi dito. É um conhecimento mútuo.

Mas uma indireta permitiria “manter a ficção de amizade”. Harry pode fingir que Sally não entendeu sua indireta, e Sally pode fingir que Harry realmente gosta muito de fotografia. Enquanto não surgir um menino para dizer em voz alta que Harry está a fim de Sally, ambos podem fingir que não há nenhuma tensão nessa amizade quase colorida.

Se você sabe que eu sei que você sabe, você leu o texto publicado aqui no final do mês passado que, por serendipidade, lidava basicamente com a mesma questão de conhecimento mútuo na Teoria de Jogos através da fábula das crianças prodígios de lógica com lama na testa. Com uma diferença.

Naquele texto iniciei com uma citação da série de ficção científica (?) V – A Invasão (1983), onde um alienígena reptiliano comenta como:

“Esses terráqueos são estúpidos. Isso os torna imprevisíveis”.

Uma simples cantada revela que em nossas relações sociais, e especialmente nossas relações afetivas, somos prodígios de lógica lidando imediatamente com as nuances entre o que sabemos, o que sabemos que a outra pessoa sabe, e o que sabemos que a outra sabe que sabemos.

Curiosamente, a imprevisibilidade continua a mesma. [via Roberto Moschen, Alenônimo]

Das propriedades físicas de uma fumaça

Primeiro pensei que a fumaça deve ser comportar dessa forma porque está misturada ao ar viciado que exalamos, repleto de gás carbônico.

Mas então, a fumaça em si mesma deve ser também mais pesada que o ar, como um aglomerado de partículas, contribuindo para o efeito.

Ou não? [via Nerdcore]

Gnarls Barkley – Gone Daddy Gone (e cores falsas)

O clipe brinca com a ideia de pequenos insetos repugnantes, usando a estética de micrografias coloridas artificialmente. Porque pulgas e moscas não são laranjas ou roxas ou verdes. É ciência aplicada a Gnarls Barkley. De certa forma.

As cores em tons de roxo, verde e laranja quase fosforescentes são uma referência às cores falsas usadas para dar mais vida e facilitar a compreensão de imagens em tons de cinza, como as produzidas por microscopia eletrônica de pequenos insetos. Você confere um monte de belíssimas imagens do mundo micro e nanoscópico no blog da Scibling Fernanda, o Bala Mágica, mas apresentamos aqui mesmo esta singela pulga. Que não é rosa de verdade.

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Como o nome diz, microscópios eletrônicos funcionam através de elétrons, que permitem uma resolução muito maior do que raios de luz visível. Infelizmente, elétrons não são refletidos como a luz visível, em um espectro de cores, mas simplesmente como áreas de maior ou menor intensidade. As imagens geradas por essa técnica são assim, quando cruas, em tons de intensidade, cinza, em preto e branco.

Cientistas costumam colorir as imagens tediosas para destacar certas partes. A forma como o fazem não é arbitrária: termografias, por exemplo, costumam representar a radiação térmica emitida em uma cena, com imagens em um arco-íris de cores em que cada cor indica uma temperatura. Comumente cores frias começando com o preto e azul indicam menor radiação e cores mais quentes até o branco, maior. Você também deve conhecer termografias como a visão do “Predador”.

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Não são cores reais, são cores falsas de uma paleta multicolorida dando vida a dados originalmente em tons de intensidade. Em preto e branco.

Mesmo imagens astronômicas fabulosas como as produzidas pelo telescópio espacial Hubble contam com uma paleta de cores que não é equivalente a uma visão em “cores reais”. Como microscópios eletrônicos modernos e câmeras térmicas, o Hubble captura imagens através de sensores eletrônicos com particularidades próprias. Ele o faz com diferentes filtros de cor, gerando imagens com informações de cor reais, com o detalhe de que os filtros que usa não são os mesmos que reproduziriam uma visão humana comum.

É por isso que imagens do Hubble podem ser mais interessantes que as captadas por telescópios óticos comuns, não apenas por sua maior resolução, mas porque as paletas de cores buscam realçar ao máximo a informação que pode ser transmitida. Os resultados são mesmo um tanto psicodélicos, pois permitem enxergar algo comumente oculto a simples vista.

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Psicodélico como um clipe do Gnarls Barkley com pulgas multicoloridas. Artificialmente.

Agora você sabe que pulgas não são roxas de verdade, o Predador é um alienígena que usa uma falsa paleta de 256 cores para realçar uma imagem em tons de preto e branco e as mais belas imagens do Hubble têm cores que não poderiam ser vistas a olho nu. Nada disso é realmente segredo, mas para descobrir estes detalhes é preciso mergulhar um pouco na fonte dos muitos arco-íris do muito pequeno e do incomensuravelmente grande que a ciência nos apresenta.

Ah sim, a mosca com óculos do clipe já foi criada por cientistas.

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O óculos foi cortado a laser para servir na cabeça de dois milímetros da mosca, como forma de promover a precisão de superior a um milésimo de milímetro da companhia alemã. E não, a mosca não é azul de verdade, mas isso você já sabia.

Gagasaurus rex

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Lembro de ter lido quando criança como nunca saberíamos quais seriam as verdadeiras cores dos dinossauros. Como outras declarações sobre os limites da ciência, esta não durou muito: cada tipo das principais formas de pigmentação por melanina é contida em organelas de forma diferente. E elas se fossilizam! Analisando assim estruturas celulares fossilizadas, uma boa indicação das cores de pelo menos alguns dinossauros de até 125 milhões de anos já foram realizadas. Por sua vez, elas também dão maior suporte à tese de que dinossauros possuíam penas. Penas coloridas.

Esta é a ciência, é bem verdade, e os métodos para estimar as cores e mesmo as penas de dinossauros não são ainda universalmente aceitas, embora já sejam hoje amplamente consideradas. É uma revolução paleontológica em pleno andamento. Tão recentemente quanto em Jurassic Park (1994), os velociraptors eram retratados como terríveis répteis, mas descobertas em anos recentes evidenciam como estes répteis estão entre aqueles que também deviam possuir penas.

Ainda deviam ser terríveis, mas com penas. Multicoloridas.

Foi brincando com isso que o artista Gerson Witte criou essa nova ilustração (clique para ampliá-la), onde também explora com humor a ideia de que dinossauros teriam pêlos. Que seriam “proto-penas”.

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Cores, penas, pêlos, tudo outra vez segundo novas teorias e evidências paleontológicas, que vêm revisando inclusive a ideia de que seriam criaturas de sangue frio, ou que várias espécies famosas de dinossauros seriam em verdade formas diferentes de uma mesma espécie.

Curiosamente, outras técnicas de microscopia e análise também indicam que esculturas gregas clássicas não eram formas totalmente brancas e sóbrias do mármore puro, como as obras da Renascença as imaginaram. Essa aparência seria em verdade o resultado de mais de um milênio de cores desbotando. Eram originalmente estátuas repletas de cores gritantes, e você confere abaixo, uma reconstrução da estátua de um arqueiro no Templo de Afaia na ilha grega de Aegina, 490 A.C.:

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Apesar do que filmes e livros em preto e branco nos fizeram pensar, a antiguidade, mesmo aquela de milhões de anos, era inundada de cores.

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[Gerson Witte também havia ilustrada Manadas de Homo Sapiens. O Gagasaurus rex foi criado por estudantes do Instituto de Arte de Pittsburgh]

O Deus Relojoeiro

Cercados como estamos de tecnologia derivada da física de semicondutores, onde tudo é digital e vem embalado em chips e cápsulas, já nos distanciamos de alguns ícones da sofisticação da tecnologia no passado. Mas nada que câmeras digitais e as maravilhas da rede de computadores não possam compensar:

Charlie Visnic capturou a beleza de um relógio mecânico e seus mecanismos bem de perto, complementada por uma trilha sonora também própria. Aprecie e compreenda melhor como religiosos compararam, e continuam comparando, um “Criador” do Universo a um relojoeiro.

Se tiver mais dez minutos, assista também ao vídeo abaixo, um documentário de 1949 explicando melhor como cada uma das peças funciona.

Nenhum destes mecanismos é divino, sobrenatural, inexplicável. São todas criações humanas, fruto de séculos de desenvolvimento, e em certos aspectos remontando mesmo à Grécia Antiga, espelhando o movimento dos planetas pelo céu.

Um relógio eletrônico digital baseado nas vibrações de um cristal de quartzo pode ser mais preciso, e a ciência e tecnologia envolvida em sua criação é mais sofisticada, mas eu sempre admirei essas maravilhas mecânicas. Lamento o dia em que martelamos com iPhones. [via MAKE]

Baleias, ovelhas e cavalos no espaço

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“Também não se falou mais no fato de que, contra todas as probabilidades, uma cachalote havia de repente se materializado muitos quilômetros acima da superfície de um planeta estranho. E como não é este o ambiente natural das baleias em geral, a pobre e inocente criatura teve pouco tempo para se dar conta de sua identidade ‘enquanto’ cachalote, pois logo em seguida teve de se dar conta de sua identidade ‘enquanto’ cachalote morto”. – Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias

Se uma baleia cachalote em pleno espaço é um dos eventos mais improváveis que se pode imaginar, o que você diria da seguinte história: o óleo de baleia, especificamente o espermacete de cachalotes, seria prezado por suas propriedades únicas como o baixíssimo ponto de congelamento, e assim estaria sendo usado para lubrificar desde o telescópio espacial Hubble até a sonda interestelar Voyager? Algumas variantes chegam até a especular que estas sondas espaciais usariam óleo de baleia como combustível!

Adorável e absurda como possa parecer, infelizmente a anedota deve ter pouco tempo para se dar conta de sua identidade enquanto anedota para logo em seguida se dar conta de sua identidade enquanto mito desmentido. Com mais rumores circulando a respeito nos últimos meses, o perfil oficial da NASA para o Hubble no Twitter esclareceu que a história simplesmente:

“Não é verdade. Falei com o Gerente de Sistemas Astrofísicos da NASA que trabalhou no Hubble. Ele diz que não há óleo de baleia na nave”.

A importação de óleo de baleias foi proibida nos EUA a partir de 1976, e fornecedores de lubrificantes vinham se adaptando à regulação bem antes disso. Segundo a última fornecedora de óleo de baleia lubrificante nos EUA, a Nye Lubricants, “foi fácil encontrar um substituto para óleo de espermacete”. Óleo de jojoba, uma planta americana, “de onde pode ser expresso um óleo virtualmente idêntico em estrutura molecular”.

O óleo de baleia sim era apreciado por suas propriedades, mas quaisquer que fossem pelo visto jojoba o substituiu. E óleos sintéticos podem ter substituído a jojoba. Afinal, as propriedades do óleo de baleia também não eram tão únicas assim. Ao contrário da lenda, o espermacete sim se congela, de fato muito facilmente, a ponto de que parte pode se solidificar e formar velas.

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Mas afinal, não sabe ainda o que é o espermacete de que falamos? Em espanhol, Felix Ares explica “De velas y ballenas” tudo sobre o óleo e algo de sua história, incluindo como a unidade de medida do padrão SI para a intensidade luminosa, a candela (cd), foi estabelecida derivada da intensidade de luz de uma vela de espermacete inglesa.

Enquanto os alemães definiam sua unidade de luminosidade a partir de uma lamparina queimando acetato de amila e os franceses queimavam azeite de colza, quando um comitê internacional decidiu em 1948 padronizar a unidade através de meios mais confiáveis, foi a vela de espermacete inglesa a referência escolhida.

Mesmo hoje, a intensidade luminosa do monitor que você deve estar observando neste exato momento é definida em candelas, e assim se o espermacete de cachalotes não viaja entre as estrelas, ele ao menos encontra seu caminho como padrão de medida que deve se estender ainda por um bom tempo.

Unidades de medida nos levam às ovelhas. Em outra anedota curiosa, Carl Pyrdum lembra que o tamanho dos sofisticados e-readers, do Kindle ao tablet iPad, deriva do tamanho padrão de livros, por sua vez derivados… do tamanho de ovelhas medievais!

Na Europa, livros eram feitos de pergaminhos, e os pergaminhos feitos de pele de ovelha dependiam do tamanho das criaturas. “Despele, corte as partes curvas das pernas, e você fica com um gigantesco pergaminho, muito grande para a maior parte dos usos em livro”, conta Pyrdum.

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Mas está tudo bem, porque você pode dobrá-lo no meio, e terá um par de folhas (quatro páginas contando a frente e verso) que você pode juntar com várias outras folhas de mesmo tamanho para fazer um livro de tamanho ‘folio’. Dobre de novo e você obtém um livro de oito páginas chamado ‘quarto’, que é o livro do tamanho de um dicionário ou enciclopédia”. E assim por diante.

O tamanho da tela do iPad deve algo ao tamanho da pele de ovelhas medievais dobradas duas vezes. Talvez três. A história, que ainda não pude confirmar ou refutar, lembra uma das já clássicas sobre a origem da bitola dos trilhos americanos. Diz a lenda que a medida foi herdada dos ingleses, que a herdaram de suas carroças, por sua vez herdadas da largura das estradas do império romano, finalmente determinadas pela largura ocupada por dois traseiros de cavalos. Como a bitola ferroviária determinou a largura máxima de foguetes transportados por trens, os traseiros de cavalos romanos teriam determinado a largura de foguetes lançadores.

Fabulosa como seja a lenda, aqui está mais uma oportunidade para que ela se dê conta de sua identidade enquanto mito parcialmente desmentido. Como Cecil Adams, um dos mais famosos destruidores de mitos, “lutando contra a ignorância desde 1973”, já abordou o tema há dez anos, a linhagem de traseiros de cavalos romanos até foguetes lançadores da NASA não é contínua como quer dizer a lenda. Ao final, por outro lado, traseiros de cavalos sim foram o padrão mais ou menos constante e informal que fez com que estradas romanas, inglesas, e então ferrovias no Velho e Novo Mundo tivessem a mesma bitola aproximada que têm. Dois traseiros de cavalos são uma medida conveniente para a largura de uma estrada.

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Ao pesquisar os diversos nexos para este texto que já ficou mais longo do que esperava, encontrei ainda outra hist
ória de como óleo de baleia teria desempenhado um papel crucial na conquista espacial. E uma um tanto inacreditável.

Bem, na década de 1980, a NASA perdeu muitos de seus dados, incluindo as gravações originais em alta qualidade do pouso na Lua. Por quê?

“Suas primeiras estações registravam dados de satélite em fitas mestre de alta resolução que usavam óleo de baleia para aglutinar partículas de ferro no acetato. O óleo de baleia tornava as fitas muito mais duráveis, mas quando a pesca comercial de baleias foi proibida em meados dos anos 1980, a NASA não pôde mais adquirir essas fitas de longa durabilidade. Então ela reutilizou as antigas. Engenheiros da NASA gravaram em cima de 200.000 fitas mestre, incluindo registros em alta resolução de espaçonaves diversas como os primeiros satélites Landsat e a Apollo 11, preservados apenas em cópias de baixa resolução. ‘Enorme quantidade de dados foi perdida’”.

Poderia ser apenas mais uma lenda sobre óleo de baleia e a NASA, não fosse o fato de que o parágrafo vem diretamente da Science. Será mesmo esta a explicação para a perda do que pode ter sido um dos mais importantes registros na história da humanidade? Falta de fitas de gravação com óleo de baleia?

Chamem-me Ishmael”.

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