KONY 2012, MENGISTU 1985

À esquerda, um dos maiores fenômenos da nova mídia. Em cinco dias, “Kony 2012” já foi visto mais de 70 milhões de vezes. À direita, um outro fenômeno de mídia, há uma geração: o final do concerto “Live Aid”, transmitido ao vivo para 150 países, com uma audiência estimada em quase 2 bilhões de pessoas, na música tema “We are the World”.

Ambos buscam comover e conscientizar espectadores sobre tragédias na África e como essa comoção pode ser convertida em ação. Ambos se centram em crianças em sofrimento e como cada um de nós pode fazer a diferença e ajudá-las com atitudes a nosso alcance.

Com tanto em comum, um deles, promovido há 27 anos, pode fornecer lições sobre aquele que acabou de atingir seu coração. Porque enquanto “Live Aid” em 1985 seguramente salvou milhares de crianças famintas de uma morte agonizante, talvez seja surpreendente descobrir que a ação também desempenhou um papel na morte de milhares de outras crianças e adultos.

Odeio Segundas-Feiras

Em fim dos anos 1970, o músico Bob Geldof fez sucesso com músicas como “I Don’t Like Mondays”. Pouco depois, comoveu-se com a cobertura da BBC sobre o estado urgente da fome na Etiópia, e em 1984 compôs e organizou uma ação beneficiente em torno da música “Do They Know It’s Christmas?” (Elas sabem que é Natal?), com a colaboração de alguns dos maiores pop stars de seu tempo, o “Band Aid”. O single foi um dos maiores sucessos da história da música.

No ano seguinte, o “Band Aid” levou ao maior concerto da história, com a mesma causa humanitária. “Live Aid” comoveu bilhões e arrecadou centenas de milhões de dólares. Um enorme sucesso.

Ao final, mais de 400.000 pessoas morreram com a Grande Fome entre 1983 e 1985 na Etiópia. Algumas estimativas chegam a um milhão de vítimas. Sucesso? Sim, o pesquisador Alexander de Waal estima que Live Aid amenizou o número de mortes de um quarto a até metade. Este foi um sucesso, mas descobrir que na melhor das hipóteses este estrondoso sucesso tenha sido apenas o alívio parcial de uma tragédia que ao final matou centenas de milhares já é descobrir como salvar o mundo através do ativismo beneficiente está um tanto longe de realmente salvar o mundo.

Nem o maior concerto beneficiente da história pôde acabar com a fome em uma pequena região específica do planeta, nem mesmo por um período limitado. Live Aid não chegou nem perto do objetivo declarado e apelativo de “acabar com a fome” mesmo por um breve momento. E este foi o sucesso. Houve também o fracasso.

MENG 1985

O que as músicas, o concerto e a comoção não promoveram foram uma das principais razões para a Grande Fome. Segundo o mesmo de Waal:

“Hoje não é mais seriamente disputado que a maciça quantidade de ajuda após o Band-Aid contribuiu mais para a sobrevivência do governo etíope, cujo exército era a principal razão para a fome, que para a dos famintos”.

O governo etíope à época era o Dergue, uma junta militar liderada por Mengistu Haile Mariam. Como outros governos revolucionários comunistas, e à semelhança de figuras como Stálin e Mao, Mengistu e seu comitê pretendiam transformar radicalmente seu país, e isso envolveu políticas radicais de mudanças na agricultura. Exatamente como nos Grandes Saltos de Stálin e Mao na União Soviética e China, as mudanças foram desastrosas e levaram a Grandes Fomes, com a morte de parte significativa de sua população.

Live Aid não foi um movimento político, e sim humanitário, promovido por organizações não-governamentais. Não tinha o objetivo de interferir politicamente na região, muito pelo contrário, apenas de ajudar os famintos em necessidade extrema. Ao fazê-lo, contudo, inevitavelmente auxiliavam o governo corrente a se manter no poder e a promover suas políticas. É impossível mudar o mundo sem envolver-se politicamente.

“Grandes quantidades de comida internacional foram desviadas para milícias do governo. O fluxo de ajuda permitiu manter postos de guarda que teriam do contrário se rendido e manteve estradas abertas que permitiam aos militares reabastecer suas linhas. A distribuição de comida envolvia jovens que eram então alistados à força. Provavelmente a maior parte da ajuda para a África por mais de uma década tenha contribuído para a institucionalização da violência”, avalia de Waal.

Inúmeras organizações não-governamentais associadas passaram a colaborar diretamente com os planos de realocação de Mengistu, motivados em parte justamente pela atenção que a fome no país estava recebendo internacionalmente. “O governo de Mengistu tornou-se mestre em manipular a propaganda humanitária. Ele reconheceu que a imprensa internacional está mais preocupada com a contribuição marginal feita à sobrevivência dos agricultores. Em geral não mais que 10% da ração média diária era provida pela ajuda internacional enquanto mais de 90% era derivada do esforço próprio dos agricultores. Este último podia ser destruído sem protesto internacional, fornecendo uma conveniente população cativa aos militares, e uma população necessitada para as agências de ajuda”.

As agências de ajuda ajudaram a produzir pessoas necessitadas. Se as imagens de crianças famintas são tocantes, mais imagens foram produzidas. Estima-se que os planos de realocação forçada de Mengistu, onde a ajuda internacional contribuiu diretamente, tenha vitimado adicionalmente dezenas ou até centenas de milhares de pessoas.

Este foi um fracasso, mas um ignorado, relativizado ou justificado pelos apologistas do Live Aid. Segundo a crítica de David Rieff, uma única ONG, a seção francesa dos Médicos Sem Fronteiras se recusou a apoiar Mengistu direta ou indiretamente, e foi expulsa da Etiópia.

Não se sabe exatamente quantos morreram na Grande Fome Etíope. Não se sabe exatamente quantas vidas Live Aid salvou, nem se sabe quantas contribuiu para que não fossem salvas. Tais vidas sempre estiveram em risco, com ou sem a interferência ou “ajuda” internacional. É muito provável que o saldo final tenha sido positivo. Entretanto, ele com certeza não foi apenas positivo.

Devia então Geldof ter centrado sua campanha em uma ação mais política contra o Derg? Contra Mengistu e seu regime em 1985? Estaria Kony 2012 fazendo algo melhor?

MUSEVENI 2012

Avance vinte anos, e Joseph Kony é um criminoso, não há dúvida. Individualmente é um criminoso mais cruel que o oficial Mengistu. E para detê-lo, a campanha Kony 2012, organizada pela ONG “Invisible Children, Inc.”, bem ao contrário do Live Aid, defende ações intervencionistas diretas, como advogar pela ação de tropas americanas na região.

Mas, bem similar ao Live Aid na prática, a Invisible Children também trabalha com grupos como o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA). Aqui está uma fotografia dos três fundadores da ONG em uma brincadeira, portando armas ao lado do SPLA:

GlennaGordonInvisibleChildrenA

As armas são do SPLA, na direita está o narrador do vídeo Kony 2012.

A ONG colabora ainda com o exército ugandês, liderado por Yoweri Museveni. Como notam os críticos, tanto o SPLA quanto o exército ugandês também são acusados de crimes contra a população, como estupros e saques. Eles também já chegaram a sequestrar crianças para compor seus exércitos – exatamente o mote da campanha KONY 2012. Suas violações de direitos humanos não são, ao menos hoje, tão atrozes como as de Kony ou Mengistu. Ambos são exércitos do governo, com maior legitimação popular, nenhum é condenado como criminoso por tribunais internacionais. Mas Museveni e seus oficiais, um dos quais é apresentado no vídeo, não são figuras de mãos limpas. Como deve estar claro, esta não é, nem jamais foi, uma questão simples.

Em sua resposta às críticas, a Invisible Children deixa claro que nenhum recurso é direcionado ao governo ugandês, e que “a única forma plausível e apropriada de deter Kony e proteger os civis que ele ataca é coordenar esforços com governos locais”. Na prática, nada diferente do que as ONGs beneficientes na Etiópia fizeram.

Falando em recursos, a Invisible Children também deixa claro que apenas 37% dos U$8,9 milhões de dólares arrecadados no ano passado foram direcionados a programas diretos de ajuda na África Central. Os outros 63% foram gastos na criação de mídias, administração e programas de conscientização. O filme que o comoveu, de uma qualidade cinematográfica impressionante, não foi um acidente, quase um milhão de dólares foram gastos para produzir tais filmes apenas no ano passado. Mais de 1,4 milhão de dólares foram gastos administrativos.

Boas intenções

“Não é melhor fazer algo ao invés de ceder ao cinismo e não fazer nada?”, pergunta David Rieff. “O ditado de Edmund Burke de que para que o mal triunfe, tudo que é preciso é que ‘os homens de bem não façam nada’ encapsula esta visão. Mas se pode argumentar também que no negócio de altruísmo global, por vezes é melhor não fazer nada. É claro, aqueles que acreditam que é sempre melhor fazer algo tendem a acreditar que quaisquer consequências negativas de suas ações derivam de não terem feito o bastante”.

A questão da ajuda humanitária à África é um tema polêmico, e que devia ser muito mais polêmico. É extremamente positivo que venha à tona. Aqui em 100nexos, costumamos citar o trabalho de Adam Curtis, que abordou as histórias desastrosas da usina de Volta em Gana, da intervenção da CIA no Congo, ou mais extensamente da influência de ideias liberais e humanitárias no genocídio na Ruanda. As melhores intenções, os sonhos mais belos do que é certo podem ter resultados terríveis.

Há mais de dez anos tento fazer algo promovendo o pensamento crítico, e no ano passado participei de um evento de conscientização, a “Overdose Homeopática”. Não são, de longe, questões tão delicadas ou urgentes quanto aquelas enfrentadas na África Central. Estamos mais próximos dos EUA do que da Etiópia. Porém algo dos dilemas entre a ação e a inação, sobre abordagens, conscientização e consequências, bem como um tanto das críticas recebidas a qualquer ativismo, guardadas as enormes diferenças em proporção, têm um tanto em comum.

Kony 2012, como Live Aid, já é um sucesso. E em novos tempos, é fabuloso ver a rapidez com que não só a comoção se disseminou, como também o aprofundamento e a análise da questão, incluindo as críticas. Tudo isso, incluindo as críticas, foi despertado pela organização Invisible Children.

Se em 2011 apenas pouco mais de um terço de seus recursos foram investidos em ações diretas na África, talvez em 2012 e em anos futuros, com mais recursos e economias de escala, possam investir uma proporção e quantia maior em tais ações. Talvez tais ações realmente se integrem com as comunidades locais, que sejam capazes de utilizar a ajuda de forma sustentável para solucionar seus próprios problemas de maneira duradoura. Talvez Kony seja capturado e seja mais um de muitos criminosos genocidas a serem detidos e julgados. A ação de voluntários pode fazer com que esses muitos “talvez” se tornem sucessos concretos.

Em meio à apatia e cinismo, ao medo paralisante de errar, a vontade e a coragem de de mudar o mundo são sentimentos valiosos. A atitude de fazer algo para mudar o mundo é louvável. É preciso lembrar, apenas, que por vezes, com as melhores intenções, podemos acabar por mudar o mundo para pior.

Joseph Kony e Mengistu Mariam, afinal, também são revolucionários. Ambos continuam livres.

Ramanujan e 11/11/11 11:11:11

“O Twitter divulgou um vídeo que mostra uma visualização global de todos os Tweets mencionando 11:11 no dia 11/11/11. Depois há uma segunda onda que seriam os tweets às 23h11, ou 11:11 PM” – Renê Fraga

O vídeo é curioso pela onda que acompanha o fuso horário, e porque a segunda onda que comenta o 11:11 PM se destaca mais nos EUA, onde de fato se usa a convenção AM/PM e não algo como 23h11. Talvez melhor do que qualquer texto longo isso ilustre como o momento é resultado de uma série de convenções arbitrárias, indo do fuso horário à forma como registramos as horas ao longo do dia.

É o não tão velho dilema de que determinar a data e hora exatas do Fim do Mundo deve lidar hoje com questões de fuso horário, e mesmo do horário de verão. Foi-se o tempo em que o Sol parar no céu era um fenômeno universal.

Enquanto uma pequena parte da população mais crédula esperou algo acontecer ansiosamente nesse momento, outra parte da população mais cética desdenhou da superstição – enquanto imagino que quase todos tenham visto o evento apenas como uma curiosidade.

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O que ele revela também é nossa fascinação por reconhecer padrões. O padrão 11/11/11 é óbvio, mas o óbvio é muito relativo. Uma famosa anedota matemática conta que o matemático inglês G.H. Hardy foi visitar o gênio indiano Srinivasa Ramanujan no hospital, mas Ramanujan não era um gênio qualquer: era um gênio matemático, considerado por muitos um dos maiores que já existiu.

“Eu havia pegado um táxi de número 1729 e comentei que o número parecia bem monótono”, contou Hardy, “e esperava que isso não fosse um mau agouro”.

“Não”, respondeu Ramanujan de pronto, “é um número muito interessante; é o menor número que pode ser expresso como a soma de dois cubos [positivos] em duas formas diferentes”.

As duas formas são 1^3 + 12^3 = 9^3 + 10^3 = 1729.

Se para nós 11/11/11 é um padrão interessante evidente, para Ramanujan não só 1729, como praticamente todos os números possuíam e eram parte de padrões interessantes. E como se vê, mesmo entre matemáticos como Hardy e Ramanujan tais padrões podem ser vistos como sinais.

“Todo positivo inteiro é um dos amigos pessoais de Ramanujan” – J.E. Littlewood

A prova de que todos os números são interessantes é mesmo um paradoxo divertido: se houvesse números que não fossem interessantes, então o menor desses números se tornaria automaticamente interessante por ser o menor número não-interessante. E assim por diante.

Um guia rápido para o novo Google Reader

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Com as mudanças colocadas em prática hoje, as funcionalidades sociais do Google Reader foram extintas. E agora?

O botão +1 substitui o antigo “Like, você clica e estará promovendo a popularidade do item que está lendo. Importante: ao clicar neste botão você não estará compartilhando o item que está lendo com ninguém. Veja o próximo item.

Para onde foi o botão de “Share”, para compartilhar posts? Ele está no topo do Reader! Do lado superior direito:

readershare

É preciso selecionar o item que você quer compartilhar e então clicar em “Share” no topo, escolher os círculos com que deseja compartilhar e então finalmente em “Share” outra vez.

Também é possível compartilhar um item no Google+ dentro do item, clicando no botão +1, passando o mouse sobre ele para ver a opção de “Share on Google+”, selecionando os círculos e compartilhando.

Screen shot 2011-10-28 at 2.01.30 PM

Anteriormente, ao compartilhar um item você o compartilhava com todos seus amigos ou mesmo com toda a rede. Agora, para compartilhar com o mesmo nível de abertura será preciso escolher os “Extended Circles”. Do contrário, apenas as pessoas nos círculos que você escolheu verão seu item, e mesmo que alguém destes círculos queira “re-compartilhar” o item com mais pessoas, poderá ter problemas.

Sim, são no mínimo três cliques, talvez mais, para substituir uma funcionalidade que na versão anterior do Google Reader necessitava de apenas um clique ou tecla.

E o bookmarklet para compartilhar qualquer página? O Google Reader se integrava com o Notes para permitir compartilhar páginas com um bookmarklet. Ele não funciona mais, mas há o bookmarklet do Google+. Ele permite compartilhar a página atual no G+ com um clique.

Para onde foram meus amigos? Quem eu seguia, quem me seguia? Todos estão no Google+ e a única forma de ler os itens deles, e deles lerem os seus, será através dos streams de círculos no Google+.

Mas onde estão os meus amigos do Reader no Google+? Para descobrir todos a quem você seguia e quem lhe seguiam, será preciso acessar as configurações do Reader. Dentro do Reader, no canto superior direito há uma engrenagem, acesse “Reader Settings”, e então a tab “Import/Export”.

Lá você encontrará tanto a “List of people that you follow” quanto a “List of people that follow you” para fazer o download no formato JSON. O nome e endereço dos perfis deles estão lá, nos arquivos exportados following.JSON e followers.JSON.

E o que faço com esses JSON? O formato JSON foi feito para ser mais amigável e compreensível, mas se você abrir mesmo a pequena lista de amigos que acabou de baixar nesse formato em um editor de texto, pode não entender nada.

Thiago Avelino criou um app que filtra os arquivos JSON e lista o endereço dos perfis: http://readertogplusfriends.appspot.com/

Ainda será preciso visitar cada um dos perfis e adicioná-los um a um aos círculos do G+.

E agora? Se você se antecipou à mudança e já criou um círculo com todas as pessoas que você seguia no Reader, ou se os criou agora, basta acessar o stream desse círculo no G+ e basta que todos nesse círculo passem a compartilhar os itens no G+ e basta que aqueles que o seguiam também tenham criado seus círculos incluindo você e você também compartilhe tudo no G+ e nenhuma das pessoas tenha se confundido ou esteja compartilhando com círculos fechados para que tudo fique quase como era antes.

O Google Reader era, e continua sendo, a forma mais prática de consumir conteúdo da rede. Os sites disponibilizam o feed RSS de seu conteúdo, e o Reader, em um aplicativo completamente na nuvem, permite que você organize e acompanhe esses feeds em tempo real a partir de uma única interface focada no conteúdo. Lamentavelmente, esta atualização pouco (ou nada) adicionou de funcionalidade no Reader como leitor de feeds.

O Google Reader também era, e não é mais, uma rede social distinta focada nos usuários desse aplicativo.

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