Ateísmo Humano

No Congresso Humanista 2012, com a mestre de cerimônias Shirley Galdino

No início de setembro de 2012, a Liga Humanista Secular (LiHS) realizou o I Congresso Humanista Secular em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Reunindo pela primeira vez ateístas, humanistas e secularistas de todo o país e do mundo em um grande evento no Brasil, eu estive lá, e uma palavra que pode resumi-lo é que foi histórico!

O termo pode parecer um tanto exagerado para o que, à primeira vista, pareça apenas uma série de palestras feitas lá no Sul. Para expressar e compartilhar melhor a satisfação que tive em acompanhar e participar desse evento, vou contar um pouco de minha história me aventurando como parte destes grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas.

A “Sociedade da Terra Redonda”

Há mais de dez anos, existia no país um grupo significativo de ateus, agnósticos, humanistas, céticos, racionalistas e tantos mais unidos pela internet em todo o Brasil e pelo mundo para trocar ideias e promover ações defendendo seus direitos e ideais para transformar a sociedade como um todo para melhor.

Era a “Sociedade da Terra Redonda” (STR), criada em 1999 por “Léo Vines”. Como muitos ateus à época, tenho orgulho de ter feito parte deste grupo, ajudando a produzir como co-editor três números da “Revista Terra Redonda”. Entre os outros editores voluntários da STR encontramos nomes que podem ser reconhecidos ainda hoje neste mesmo ativismo: Daniel Sottomaior, que viria a fundar a ATEA, e Asa Heuser, hoje presidente da mesma LiHS. Outro co-editor da revista Terra Redonda era o professor Renato Zamora Flores, um dos palestrantes no CHS2012 e a quem também tive o privilégio de enfim conhecer pessoalmente e fechar um ciclo.

Se há mais de dez anos já existia um grupo como a STR, se ele reunia algumas das figuras que hoje defendem esses ideais através de organizações formais com ações concretas, indo de campanhas de conscientização a eventos com luminares internacionais, o que aconteceu com a STR?

Bem, ela não aconteceu. Justamente quando os esforços eram para que se formalizasse – em maio de 2004! –, indo além de um grupo de pessoas unidas pela rede para se tornar uma instituição formalizada na sociedade, a figura central no grupo, seu criador, deixou-o de lado. O grupo ficou no limbo por anos, sem estar certo sobre se o presidente ainda retornaria, se delegaria responsabilidades para permitir a continuidade do projeto, ou se o barco deveria ser mesmo abandonado. Em retrospecto, hoje é claro que o barco deveria ter sido abandonado prontamente e o momentum de colaboradores preservado. Mas se passaram oito anos. Foi um fim “não com um estrondo, mas com um suspiro”. Um longo e incerto suspiro.

Limbo e Renascimento

Ao longo destes anos do limbo da STR, grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas, mas acreditam firmemente em outras, continuaram formando grupos e subgrupos pela internet unidos seja pela crença ou descrença. Porém o rubicão de “grupos de internet” continuou não sendo cruzado. Aqui se inclui o próprio CeticismoAberto, projeto que mantenho desde 2001 e ainda não é uma associação formalizada.

Por algum tempo em sua evolução o sítio online CeticismoAberto foi hospedado como uma área da STR, e durante o limbo da STR, percebi o valor e a necessidade que havia em auxiliar outras iniciativas na rede a encontrar algo tão básico quanto uma hospedagem fixa, para que seus responsáveis pudessem concentrar seus esforços em criar e divulgar conteúdo. Com o estabelecimento do CeticismoAberto de forma independente, desde agosto de 2006 ele passou a sustentar o chamado projeto HAAAN, uma incubadora de projetos de divulgação do pensamento crítico pela rede. O nome foi escolhido pela sonoridade (“hãããn”) e por não ter associação direta a nada, de forma que cada site hospedado possa firmar sua própria identidade e ao final estabelecer-se sozinho.

Através do projeto HAAAN hospedamos iniciativas eletrônicas selecionadas, com um foco em iniciativas analisando de forma crítica temas extraordinários, na linha do CeticismoAberto. Apesar de não ter o ateísmo ou o laicismo dentro do foco, o HAAAN também já hospedou na rede a iniciativa “Brasil para Todos”, que foi uma das ações que Sottomaior levou à frente depois da STR e antes de fundar a ATEA, com a bandeira do Estado laico. Hospedamos, registramos e ajudamos a criar ainda o site da “União Nacional dos Ateus” (UNA) e mesmo o “Bule Voador”, lançado na rede em 2008.

E foi em 2008 que o rubicão foi finalmente cruzado. Em agosto de 2008 a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, ATEA, foi fundada por um trio incluindo Daniel Sottomaior. A associação logo pôs em prática ações concretas de destaque além do mundo virtual, incluindo ações jurídicas e campanhas de divulgação em outdoors.

Por sua parte, e ao longo do tempo o Bule Voador, de suas origens como um blog, passou a ser mantido como canal de comunicação pela LiHS, que assim como a ATEA, foi muito além do que o próprio HAAAN ou o CeticismoAberto alcançaram. Esses grupos cruzaram o rio e se estabeleceram formalmente: se o limbo da STR durou anos, eles foi superado pelo estabelecimento formal primeiro da ATEA e então da LiHS.

Depois de praticamente uma década desde que começaram a se organizar através da tal de Internet, grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas no Brasil finalmente saíram da rede e solidificaram sua posição na sociedade. São instituições.

Pouca Fé

Entetanto, minha fé em grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas não durou tanto. Ao longo deste ativismo, de editor da STR, já fui um associado da ATEA, diretor da UNA e membro-emérito da LiHS. Hoje não sou formalmente associado a nenhum desses grupos ou associações. Para explicar essa posição, mais história.

Apoiar e participar de iniciativas promovendo ciência, com foco na análise crítica de alegações extraordinárias, ao longo de mais de uma década tem sido extremamente gratificante. Não me lembro de qualquer conflito ou divergência que não valesse a pena, não me recordo de nenhuma frustração que não fosse compensada por uma grande satisfação. Ter respondido a duas ações judiciais movidas por um suposto “premonitor”, apesar do inconveniente e do prejuízo financeiro, é mais do que compensado pelo apoio recebido de todas as formas de todos amigos e colegas, o que permitiu atravessar essa pendenga jurídica com duas vitórias judiciais. Meu amigo e advogado, Alexandre Medeiros, aceitou a causa pelo CeticismoAberto. Foi um de vários apoios fundamentais que recebi. Ser ofendido por certas figuras é de certa forma um elogio, receber o apoio de outras é um dos prêmios mais valorosos que se pode receber. O “ativismo cético”, se o chamarmos assim, abriu-me muitas portas, permitiu que aprendesse e ganhasse muito, inclusive profissionalmente. Nada foi em vão.

Infelizmente o mesmo não se pode dizer do ativismo ateu. Para mim, sempre foi nítida a diferença na prática entre a luta por estas duas causas tão próximas. No ativismo ateu, desde o início de meus contatos, desde a STR, divergências internas tendem a fragmentar grupos já pequenos e quantidades absurdas de esforços são dedicadas a tarefas pouco produtivas ou mesmo contra-produtivas – incluindo fomentar mais divergências internas. A STR não implodiu, ela definhou antes de implodir, mas vários grupos contemporâneos ou mesmo posteriores implodiram ou mesmo explodiram em tempestades internéticas durante o período do limbo. Não que tempestades internéticas façam qualquer barulho fora da Internet.

Mesmo após o limbo, com o estabelecimento da primeira organização formal para defesa de direitos de ateus e outras causas relacionadas, os desentendimentos continuaram, e em certos pontos se acentuaram. A UNA teve como um de seus germes a dissidência da ATEA, e a LiHS em sua gênese compartilhou também muito com a UNA, embora por fim também acabasse por haver divergências entre esta e a própria UNA. Não que isso a aproximasse da ATEA, pelo contrário. O episódio duplo da série South Park, “Go God Go”, satirizando o neo-ateísmo, pode ser simplesmente bobo ao retratar Richard Dawkins apaixonado por um Senhor Garrison transexual, mas na apresentação da guerra absurda entre grupos ateístas sobre a “questão final” irrelevante a sátira é praticamente um documentário.

Profundamente decepcionado com a capacidade de ateus organizarem-se em torno de ideais comuns para promover ações efetivas que mudem a sociedade para melhor, vendo esforços serem perdidos e erros repetidos desde o início com a STR, acabei por solicitar meu desligamento de todos esses grupos e associações de pessoas-que-não-acreditam-em-deus.

Além da decepção, enquanto estava envolvido diretamente nesses grupos eu também me envolvi em divergências que consumiam esforços e não levam a nada de positivo. O vírus da necessidade de vencer o último debate da Internet é contagioso, e eu certamente não estou imune a ele. Se a Internet fomentou o surgimento de inúmeros grupos de minorias, ateus incluídos, ela também infecta aqueles em sua ânsia pela razão e retórica, pela ilusória e breve “fama” de internet, a discussões sem fim pela rede. Em nome da razão, mas em verdade sob seu disfarce, argumentos secos são disparados para servir ao que são claramente desentendimentos pessoais mesquinhos.

A Internet, sua impessoalidade, seu imediatismo, desperta um lado negativo da discussão racional. Se como ferramenta a Internet fomentou o surgimento de inúmeros grupos, ela trouxe também o cavalo de tróia que tem destruído e atrasado grupos ateus há mais de uma década. Este não é um fenômeno exclusivo do Brasil, tampouco um vírus no qual o único vetor seja a rede eletrônica, mas se há uma análise que possa arriscar do (não) desenvolvimento dos grupos ateus por aqui ao longo de uma década, é esta.

Fé Renovada

É aqui, finalmente, que chegamos ao I Congresso Humanista Secular do Brasil em Porto Alegre. Descrente, penso que posso confessar hoje que não esperava muito do evento. Há um limite para o que um pequeno grupo de pessoas consegue fazer, ainda que algumas dediquem esforços heroicos. E grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-coisas, como havia me desiludido, nunca conseguem ficar muito grandes. Minha falta de fé significou que, com pouco tempo antes do evento, não preparei como deveria as palestras que fui convidado a apresentar. Ninguém deveria reparar muito, imaginei, não esperando muito seja de mim, seja do evento.

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Eu estava errado. A imagem acima traduz como estava errado. Esses não são os palestrantes. Esses são mais de uma dezena de organizadores presentes, ao final do evento, boa parte dos quais vieram de quase todos os cantos do Brasil. E boa parte dos organizadores não pôde estar presente, mas também colaborou para concretizar um evento espetacular, não só por si mesmo como também pela forma como foi concretizado.

No momento em que me desiludia e me afastava do ativismo ateu e ainda prestava atenção a algumas velhas novas tempestades internéticas, se consolidava um grupo grande e organizado de pessoas centradas e dedicadas a realmente fazer coisas. Fora da Internet. E o mais importante, que descobri durante o congresso e pude acompanhar após ele: é uma instituição sólida, que não depende exclusivamente de um punhado de pessoas. Depende de um grande grupo de pessoas, suficiente para dar segurança institucional à associação.

A Liga Humanista Secular concretiza hoje não apenas o que sonhava ao participar da STR há dez anos, mas vai além. Seu escopo é amplo, sua visão é clara, sua execução tem sido muito eficiente. O evento equilibrou bem todos os eixos do humanismo secular, apresentados pelo então presidente da LiHS, Eli Vieira.

Os vídeos das palestras ainda devem ser divulgados pela LiHS, toda e cada apresentação foi espetacular. Ainda me centrando nesta visão mais ampla do evento e do movimento ateu, se há uma palestra que gostaria de comentar, é a palestra do filósofo português Desidério Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Em linguagem e abordagem acessíveis, o professor expôs ideias e argumentos profundos condensados no pequeno espaço temporal da palestra. Na resposta às perguntas da plateia, o filósofo se colocava no lugar daqueles que lhe faziam perguntas e procurava a melhor forma de efetivamente transmitir sua resposta. Uma palestra de filosofia imensamente prazerosa e empolgante, de um tema central a todos que lá estavam, proferida por um experiente professor.

O título deste texto, “ateísmo humano”, é um certo contraponto a um texto anterior publicado aqui, “ateísmo halsenflugel”, em que criticava a abordagem feroz que Eli Vieira e um dos participantes do Bule Voador faziam sobre a definição “correta” de “ateísmo”, apoiados largamente no que seria a abordagem filosófica do tema. Pois se aquilo representava um erro e ainda outro retrocesso contraprodutivo na história do movimento ateu no país, bem, Eli Vieira, ainda como presidente da LiHS, foi um dos responsáveis pelo equilíbrio de abordagens e também pela participação brilhante do filósofo Desidério Murcho.

Assistir ao espetáculo proporcionado pelo ateísmo humanista renovou minha fé e orgulho em ser humano e ateu.

Um Movimento sobre Nada – e Tudo

O ateísmo, por si só, é literalmente nada, é a ausência de crença em deus. A vertente do ateísmo mais popular, e a que é tida automática e orgulhosamente como sinônimo de ateísmo, é o ateísmo racionalista, aquele a que se chega após uma análise racional dos argumentos sobre deus e a conclusão de que não haveria razão para aceitar esse conceito. Que é uma questão de fé, e uma que ateus racionais escolheram descartar.

Este ainda é um conjunto de valores bem tênue, e um tanto confuso. Se é a razão o valor comum que une ateus racionalistas, não deveriam se centrar em associações racionalistas, ao invés de ateístas, sendo este mero detalhe? Se, por outro lado, a causa mais urgente pela qual devem lutar é pela aplicação de direitos e liberdades definidas constitucionalmente, não deveriam se centrar em associações de direitos humanos e constitucionais?

As duas e novas associações formais no país oferecem escolhas, não necessariamente excludentes. A ATEA, Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, tem como foco o ateísmo, a congregação de ateus, a defesa de seus direitos. A LiHS, Liga Humanista Secular, tem como foco o humanismo secular, uma posição filosófica mais ampla e ao mesmo tempo mais estrita.

Mais ampla e mais estrita? Mais ampla porque o humanismo secular promove valores indo da razão à ética, pela qual o Congresso Humanista Secular de 2012 contou com a participação de acadêmicos, jornalistas e defensores de direitos humanos. Sua ação na rede tem se destacado ultimamente na defesa de direitos LGBT e pelo feminismo. Essa amplitude angariou a contribuição e participação de ativistas de um amplo espectro.

Há contudo um posicionamento político estrito nos valores do humanismo secular. Em retrospecto, não é surpresa que isso cause repulsa daqueles que discordam de um ou outro destes aspectos promovidos – ou simplesmente discutidos! – pela LiHS. O humanismo secular é amplo em sua abordagem, e pode ser um tanto estrito em suas conclusões. Apenas a tolerância pode estender e abrigar neste espectro opiniões divergentes sobre assuntos específicos quando a concordância em temas mais relevantes deve ter prioridade. Esta tolerância nem sempre é exercida como deveria seja por pessoas de fora ou de dentro da LiHS.

Como não é surpresa que haja aqueles que se sintam inconformados com o foco estrito da ATEA, que por vezes permite em silêncio discursos de ódio entre suas fileiras tão condenáveis quanto o mesmo ódio do qual procura defender ateus. Afinal, congregar e defender ateus é sua prioridade maior.

Fundamentalmente, tanto a LiHS quanto a ATEA são associações irmãs. A defesa dos direitos de ateus é um dos objetivos do humanismo secular, por sua parte a ATEA declara explicitamente entre seus objetivos a promoção de sistemas éticos seculares. Uma anedota ilustra bem essa congruência de valores: o presidente da ATEA, Daniel Sottomaior, é pessoalmente um defensor ferrenho do vegetarianismo como conclusão ética racional. O ex-presidente da LiHS, Eli Vieira, recentemente também passou a defender no âmbito pessoal, com ênfase, o vegetarianismo como conclusão ética racional.

A diferença na abordagem e ênfase destes dois grupos, assim como seus eventuais conflitos, advém mais das prioridades e características de seus dirigentes e seu histórico do que de uma incompatibilidade de princípios. Como são instituições formalizadas e democráticas, é minha esperança que estes conflitos ainda sejam solucionados, se não pelos voluntários de hoje, pelos de amanhã. Foi uma pena não ver a ATEA representada no Congresso Humanista Secular.

Encontrando Nada, e Tudo

E, como a história se repete, por pouco a LiHS não se viu representada como apoiadora do II Encontro Nacional de Ateus (IIENA), coordenado pela Sociedade Racionalista, um novo grupo articulado nas redes sociais e que conta já com mais de 130.000 seguidores no Facebook. Após um desentendimento em outra tempestade virtual contraproducente, os ânimos por fim se acalmaram e ultimamente valores comuns prevaleceram.

Depois do Congresso Humanista, e após um primeiro encontro bem-sucedido no ano passado, o segundo encontro nacional de ateus neste fim-de-semana (17/02) promete. Com minha fé renovada em grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-coisas, participarei de mais um evento, e já contribuí com a “vakinha” para ajudar a cobrir os custos locais. Será fabuloso encontrar outras pessoas-que-não-acreditam-em-coisas, incluindo aí uma palestra do procurador Jefferson Dias, autor da ação que levou à condenação do canal de TV Band, após declarações proferidas pelo apresentador José Luis Datena reconhecidas pela Justiça como impróprias, a esclarecer a população sobre a diversidade religiosa e a liberdade de consciência e de crença no Brasil.

Resultados concretos estão sendo alcançados. A Internet também pode favorecer e alavancar o que há de melhor em nós, eventos em escala nacional ou internacional como os que estão sendo promovidos seriam impossíveis, com os escassos recursos de que se dispõe, sem a rede eletrônica. E a notícia da vitória judicial sobre o discurso de ódio de Datena na TV acompanha o enorme sucesso que o vídeo-resposta de Eli Vieira, o mesmo ex-presidente da LiHS, alcançou refutando as falácias pseudocientíficas de um pastor condenando a homossexualidade “cientificamente”.

Ainda me preocupa que a nova Sociedade Racionalista não seja uma associação formalizada, já adentrando o segundo ano organizando um evento em escala nacional. Ainda preocupa que as rixas entre os grupos por vezes se aprofundem ao invés de serem remediadas. Ainda preocupa que os mesmos erros continuem sendo repetidos. Mas já estou há algum tempo afastado de tudo isto, sentado agora confortavelmente como espectador, apenas mais um ateu na multidão, e se antes o que me restava era descrença e decepção, o que há agora é esperança e, como um termo que não me canso de repetir, fé.

As vitórias e conquistas recentes são espetaculares. Os últimos meses têm sido quase inacreditáveis após uma década de esforços pouco produtivos. Ateus têm salvação, e pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas podem criar coisas fantásticas e concretas para beneficiar toda a sociedade. Aos poucos, a sociedade muda, para melhor, com a participação de ateus, em nome de deus algum, pela sociedade em si mesma.

***

[Agradeço especialmente a Daniel de Oliveira e Cíntia Brito dos Santos pela acolhida, compartilho a honra que me foi ser palestrante acompanhado de figuras tão ilustres, e parabenizo todos da LiHS, em especial à comissão organizadora que vi correndo por horas seguidas, em um evento de tirar o fôlego e inspirar ânimos.]

KONY 2012, MENGISTU 1985

À esquerda, um dos maiores fenômenos da nova mídia. Em cinco dias, “Kony 2012” já foi visto mais de 70 milhões de vezes. À direita, um outro fenômeno de mídia, há uma geração: o final do concerto “Live Aid”, transmitido ao vivo para 150 países, com uma audiência estimada em quase 2 bilhões de pessoas, na música tema “We are the World”.

Ambos buscam comover e conscientizar espectadores sobre tragédias na África e como essa comoção pode ser convertida em ação. Ambos se centram em crianças em sofrimento e como cada um de nós pode fazer a diferença e ajudá-las com atitudes a nosso alcance.

Com tanto em comum, um deles, promovido há 27 anos, pode fornecer lições sobre aquele que acabou de atingir seu coração. Porque enquanto “Live Aid” em 1985 seguramente salvou milhares de crianças famintas de uma morte agonizante, talvez seja surpreendente descobrir que a ação também desempenhou um papel na morte de milhares de outras crianças e adultos.

Odeio Segundas-Feiras

Em fim dos anos 1970, o músico Bob Geldof fez sucesso com músicas como “I Don’t Like Mondays”. Pouco depois, comoveu-se com a cobertura da BBC sobre o estado urgente da fome na Etiópia, e em 1984 compôs e organizou uma ação beneficiente em torno da música “Do They Know It’s Christmas?” (Elas sabem que é Natal?), com a colaboração de alguns dos maiores pop stars de seu tempo, o “Band Aid”. O single foi um dos maiores sucessos da história da música.

No ano seguinte, o “Band Aid” levou ao maior concerto da história, com a mesma causa humanitária. “Live Aid” comoveu bilhões e arrecadou centenas de milhões de dólares. Um enorme sucesso.

Ao final, mais de 400.000 pessoas morreram com a Grande Fome entre 1983 e 1985 na Etiópia. Algumas estimativas chegam a um milhão de vítimas. Sucesso? Sim, o pesquisador Alexander de Waal estima que Live Aid amenizou o número de mortes de um quarto a até metade. Este foi um sucesso, mas descobrir que na melhor das hipóteses este estrondoso sucesso tenha sido apenas o alívio parcial de uma tragédia que ao final matou centenas de milhares já é descobrir como salvar o mundo através do ativismo beneficiente está um tanto longe de realmente salvar o mundo.

Nem o maior concerto beneficiente da história pôde acabar com a fome em uma pequena região específica do planeta, nem mesmo por um período limitado. Live Aid não chegou nem perto do objetivo declarado e apelativo de “acabar com a fome” mesmo por um breve momento. E este foi o sucesso. Houve também o fracasso.

MENG 1985

O que as músicas, o concerto e a comoção não promoveram foram uma das principais razões para a Grande Fome. Segundo o mesmo de Waal:

“Hoje não é mais seriamente disputado que a maciça quantidade de ajuda após o Band-Aid contribuiu mais para a sobrevivência do governo etíope, cujo exército era a principal razão para a fome, que para a dos famintos”.

O governo etíope à época era o Dergue, uma junta militar liderada por Mengistu Haile Mariam. Como outros governos revolucionários comunistas, e à semelhança de figuras como Stálin e Mao, Mengistu e seu comitê pretendiam transformar radicalmente seu país, e isso envolveu políticas radicais de mudanças na agricultura. Exatamente como nos Grandes Saltos de Stálin e Mao na União Soviética e China, as mudanças foram desastrosas e levaram a Grandes Fomes, com a morte de parte significativa de sua população.

Live Aid não foi um movimento político, e sim humanitário, promovido por organizações não-governamentais. Não tinha o objetivo de interferir politicamente na região, muito pelo contrário, apenas de ajudar os famintos em necessidade extrema. Ao fazê-lo, contudo, inevitavelmente auxiliavam o governo corrente a se manter no poder e a promover suas políticas. É impossível mudar o mundo sem envolver-se politicamente.

“Grandes quantidades de comida internacional foram desviadas para milícias do governo. O fluxo de ajuda permitiu manter postos de guarda que teriam do contrário se rendido e manteve estradas abertas que permitiam aos militares reabastecer suas linhas. A distribuição de comida envolvia jovens que eram então alistados à força. Provavelmente a maior parte da ajuda para a África por mais de uma década tenha contribuído para a institucionalização da violência”, avalia de Waal.

Inúmeras organizações não-governamentais associadas passaram a colaborar diretamente com os planos de realocação de Mengistu, motivados em parte justamente pela atenção que a fome no país estava recebendo internacionalmente. “O governo de Mengistu tornou-se mestre em manipular a propaganda humanitária. Ele reconheceu que a imprensa internacional está mais preocupada com a contribuição marginal feita à sobrevivência dos agricultores. Em geral não mais que 10% da ração média diária era provida pela ajuda internacional enquanto mais de 90% era derivada do esforço próprio dos agricultores. Este último podia ser destruído sem protesto internacional, fornecendo uma conveniente população cativa aos militares, e uma população necessitada para as agências de ajuda”.

As agências de ajuda ajudaram a produzir pessoas necessitadas. Se as imagens de crianças famintas são tocantes, mais imagens foram produzidas. Estima-se que os planos de realocação forçada de Mengistu, onde a ajuda internacional contribuiu diretamente, tenha vitimado adicionalmente dezenas ou até centenas de milhares de pessoas.

Este foi um fracasso, mas um ignorado, relativizado ou justificado pelos apologistas do Live Aid. Segundo a crítica de David Rieff, uma única ONG, a seção francesa dos Médicos Sem Fronteiras se recusou a apoiar Mengistu direta ou indiretamente, e foi expulsa da Etiópia.

Não se sabe exatamente quantos morreram na Grande Fome Etíope. Não se sabe exatamente quantas vidas Live Aid salvou, nem se sabe quantas contribuiu para que não fossem salvas. Tais vidas sempre estiveram em risco, com ou sem a interferência ou “ajuda” internacional. É muito provável que o saldo final tenha sido positivo. Entretanto, ele com certeza não foi apenas positivo.

Devia então Geldof ter centrado sua campanha em uma ação mais política contra o Derg? Contra Mengistu e seu regime em 1985? Estaria Kony 2012 fazendo algo melhor?

MUSEVENI 2012

Avance vinte anos, e Joseph Kony é um criminoso, não há dúvida. Individualmente é um criminoso mais cruel que o oficial Mengistu. E para detê-lo, a campanha Kony 2012, organizada pela ONG “Invisible Children, Inc.”, bem ao contrário do Live Aid, defende ações intervencionistas diretas, como advogar pela ação de tropas americanas na região.

Mas, bem similar ao Live Aid na prática, a Invisible Children também trabalha com grupos como o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA). Aqui está uma fotografia dos três fundadores da ONG em uma brincadeira, portando armas ao lado do SPLA:

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As armas são do SPLA, na direita está o narrador do vídeo Kony 2012.

A ONG colabora ainda com o exército ugandês, liderado por Yoweri Museveni. Como notam os críticos, tanto o SPLA quanto o exército ugandês também são acusados de crimes contra a população, como estupros e saques. Eles também já chegaram a sequestrar crianças para compor seus exércitos – exatamente o mote da campanha KONY 2012. Suas violações de direitos humanos não são, ao menos hoje, tão atrozes como as de Kony ou Mengistu. Ambos são exércitos do governo, com maior legitimação popular, nenhum é condenado como criminoso por tribunais internacionais. Mas Museveni e seus oficiais, um dos quais é apresentado no vídeo, não são figuras de mãos limpas. Como deve estar claro, esta não é, nem jamais foi, uma questão simples.

Em sua resposta às críticas, a Invisible Children deixa claro que nenhum recurso é direcionado ao governo ugandês, e que “a única forma plausível e apropriada de deter Kony e proteger os civis que ele ataca é coordenar esforços com governos locais”. Na prática, nada diferente do que as ONGs beneficientes na Etiópia fizeram.

Falando em recursos, a Invisible Children também deixa claro que apenas 37% dos U$8,9 milhões de dólares arrecadados no ano passado foram direcionados a programas diretos de ajuda na África Central. Os outros 63% foram gastos na criação de mídias, administração e programas de conscientização. O filme que o comoveu, de uma qualidade cinematográfica impressionante, não foi um acidente, quase um milhão de dólares foram gastos para produzir tais filmes apenas no ano passado. Mais de 1,4 milhão de dólares foram gastos administrativos.

Boas intenções

“Não é melhor fazer algo ao invés de ceder ao cinismo e não fazer nada?”, pergunta David Rieff. “O ditado de Edmund Burke de que para que o mal triunfe, tudo que é preciso é que ‘os homens de bem não façam nada’ encapsula esta visão. Mas se pode argumentar também que no negócio de altruísmo global, por vezes é melhor não fazer nada. É claro, aqueles que acreditam que é sempre melhor fazer algo tendem a acreditar que quaisquer consequências negativas de suas ações derivam de não terem feito o bastante”.

A questão da ajuda humanitária à África é um tema polêmico, e que devia ser muito mais polêmico. É extremamente positivo que venha à tona. Aqui em 100nexos, costumamos citar o trabalho de Adam Curtis, que abordou as histórias desastrosas da usina de Volta em Gana, da intervenção da CIA no Congo, ou mais extensamente da influência de ideias liberais e humanitárias no genocídio na Ruanda. As melhores intenções, os sonhos mais belos do que é certo podem ter resultados terríveis.

Há mais de dez anos tento fazer algo promovendo o pensamento crítico, e no ano passado participei de um evento de conscientização, a “Overdose Homeopática”. Não são, de longe, questões tão delicadas ou urgentes quanto aquelas enfrentadas na África Central. Estamos mais próximos dos EUA do que da Etiópia. Porém algo dos dilemas entre a ação e a inação, sobre abordagens, conscientização e consequências, bem como um tanto das críticas recebidas a qualquer ativismo, guardadas as enormes diferenças em proporção, têm um tanto em comum.

Kony 2012, como Live Aid, já é um sucesso. E em novos tempos, é fabuloso ver a rapidez com que não só a comoção se disseminou, como também o aprofundamento e a análise da questão, incluindo as críticas. Tudo isso, incluindo as críticas, foi despertado pela organização Invisible Children.

Se em 2011 apenas pouco mais de um terço de seus recursos foram investidos em ações diretas na África, talvez em 2012 e em anos futuros, com mais recursos e economias de escala, possam investir uma proporção e quantia maior em tais ações. Talvez tais ações realmente se integrem com as comunidades locais, que sejam capazes de utilizar a ajuda de forma sustentável para solucionar seus próprios problemas de maneira duradoura. Talvez Kony seja capturado e seja mais um de muitos criminosos genocidas a serem detidos e julgados. A ação de voluntários pode fazer com que esses muitos “talvez” se tornem sucessos concretos.

Em meio à apatia e cinismo, ao medo paralisante de errar, a vontade e a coragem de de mudar o mundo são sentimentos valiosos. A atitude de fazer algo para mudar o mundo é louvável. É preciso lembrar, apenas, que por vezes, com as melhores intenções, podemos acabar por mudar o mundo para pior.

Joseph Kony e Mengistu Mariam, afinal, também são revolucionários. Ambos continuam livres.

Ramanujan e 11/11/11 11:11:11

“O Twitter divulgou um vídeo que mostra uma visualização global de todos os Tweets mencionando 11:11 no dia 11/11/11. Depois há uma segunda onda que seriam os tweets às 23h11, ou 11:11 PM” – Renê Fraga

O vídeo é curioso pela onda que acompanha o fuso horário, e porque a segunda onda que comenta o 11:11 PM se destaca mais nos EUA, onde de fato se usa a convenção AM/PM e não algo como 23h11. Talvez melhor do que qualquer texto longo isso ilustre como o momento é resultado de uma série de convenções arbitrárias, indo do fuso horário à forma como registramos as horas ao longo do dia.

É o não tão velho dilema de que determinar a data e hora exatas do Fim do Mundo deve lidar hoje com questões de fuso horário, e mesmo do horário de verão. Foi-se o tempo em que o Sol parar no céu era um fenômeno universal.

Enquanto uma pequena parte da população mais crédula esperou algo acontecer ansiosamente nesse momento, outra parte da população mais cética desdenhou da superstição – enquanto imagino que quase todos tenham visto o evento apenas como uma curiosidade.

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O que ele revela também é nossa fascinação por reconhecer padrões. O padrão 11/11/11 é óbvio, mas o óbvio é muito relativo. Uma famosa anedota matemática conta que o matemático inglês G.H. Hardy foi visitar o gênio indiano Srinivasa Ramanujan no hospital, mas Ramanujan não era um gênio qualquer: era um gênio matemático, considerado por muitos um dos maiores que já existiu.

“Eu havia pegado um táxi de número 1729 e comentei que o número parecia bem monótono”, contou Hardy, “e esperava que isso não fosse um mau agouro”.

“Não”, respondeu Ramanujan de pronto, “é um número muito interessante; é o menor número que pode ser expresso como a soma de dois cubos [positivos] em duas formas diferentes”.

As duas formas são 1^3 + 12^3 = 9^3 + 10^3 = 1729.

Se para nós 11/11/11 é um padrão interessante evidente, para Ramanujan não só 1729, como praticamente todos os números possuíam e eram parte de padrões interessantes. E como se vê, mesmo entre matemáticos como Hardy e Ramanujan tais padrões podem ser vistos como sinais.

“Todo positivo inteiro é um dos amigos pessoais de Ramanujan” – J.E. Littlewood

A prova de que todos os números são interessantes é mesmo um paradoxo divertido: se houvesse números que não fossem interessantes, então o menor desses números se tornaria automaticamente interessante por ser o menor número não-interessante. E assim por diante.

Um guia rápido para o novo Google Reader

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Com as mudanças colocadas em prática hoje, as funcionalidades sociais do Google Reader foram extintas. E agora?

O botão +1 substitui o antigo “Like, você clica e estará promovendo a popularidade do item que está lendo. Importante: ao clicar neste botão você não estará compartilhando o item que está lendo com ninguém. Veja o próximo item.

Para onde foi o botão de “Share”, para compartilhar posts? Ele está no topo do Reader! Do lado superior direito:

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É preciso selecionar o item que você quer compartilhar e então clicar em “Share” no topo, escolher os círculos com que deseja compartilhar e então finalmente em “Share” outra vez.

Também é possível compartilhar um item no Google+ dentro do item, clicando no botão +1, passando o mouse sobre ele para ver a opção de “Share on Google+”, selecionando os círculos e compartilhando.

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Anteriormente, ao compartilhar um item você o compartilhava com todos seus amigos ou mesmo com toda a rede. Agora, para compartilhar com o mesmo nível de abertura será preciso escolher os “Extended Circles”. Do contrário, apenas as pessoas nos círculos que você escolheu verão seu item, e mesmo que alguém destes círculos queira “re-compartilhar” o item com mais pessoas, poderá ter problemas.

Sim, são no mínimo três cliques, talvez mais, para substituir uma funcionalidade que na versão anterior do Google Reader necessitava de apenas um clique ou tecla.

E o bookmarklet para compartilhar qualquer página? O Google Reader se integrava com o Notes para permitir compartilhar páginas com um bookmarklet. Ele não funciona mais, mas há o bookmarklet do Google+. Ele permite compartilhar a página atual no G+ com um clique.

Para onde foram meus amigos? Quem eu seguia, quem me seguia? Todos estão no Google+ e a única forma de ler os itens deles, e deles lerem os seus, será através dos streams de círculos no Google+.

Mas onde estão os meus amigos do Reader no Google+? Para descobrir todos a quem você seguia e quem lhe seguiam, será preciso acessar as configurações do Reader. Dentro do Reader, no canto superior direito há uma engrenagem, acesse “Reader Settings”, e então a tab “Import/Export”.

Lá você encontrará tanto a “List of people that you follow” quanto a “List of people that follow you” para fazer o download no formato JSON. O nome e endereço dos perfis deles estão lá, nos arquivos exportados following.JSON e followers.JSON.

E o que faço com esses JSON? O formato JSON foi feito para ser mais amigável e compreensível, mas se você abrir mesmo a pequena lista de amigos que acabou de baixar nesse formato em um editor de texto, pode não entender nada.

Thiago Avelino criou um app que filtra os arquivos JSON e lista o endereço dos perfis: http://readertogplusfriends.appspot.com/

Ainda será preciso visitar cada um dos perfis e adicioná-los um a um aos círculos do G+.

E agora? Se você se antecipou à mudança e já criou um círculo com todas as pessoas que você seguia no Reader, ou se os criou agora, basta acessar o stream desse círculo no G+ e basta que todos nesse círculo passem a compartilhar os itens no G+ e basta que aqueles que o seguiam também tenham criado seus círculos incluindo você e você também compartilhe tudo no G+ e nenhuma das pessoas tenha se confundido ou esteja compartilhando com círculos fechados para que tudo fique quase como era antes.

O Google Reader era, e continua sendo, a forma mais prática de consumir conteúdo da rede. Os sites disponibilizam o feed RSS de seu conteúdo, e o Reader, em um aplicativo completamente na nuvem, permite que você organize e acompanhe esses feeds em tempo real a partir de uma única interface focada no conteúdo. Lamentavelmente, esta atualização pouco (ou nada) adicionou de funcionalidade no Reader como leitor de feeds.

O Google Reader também era, e não é mais, uma rede social distinta focada nos usuários desse aplicativo.

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