Eu vos refuto, Giannetti!

O avanço dos métodos de estudo do cérebro, notadamente os modelos neurofisiológicos de acesso aos mecanismos formadores da memória e a imagem por ressonância magnética funcional,  revolucionou, na última década, a maneira como entendemos o ato de pensar. Se por um lado ampliamos a capacidade de enxergar a extensão de um certo fenômeno neural, por outro reduzimos a psicologia, a sociologia e, arriscaríamos a dizer, a psiquiatria, a um evento pura e simplesmente neurobiológico. Em seu livro “O erro de Descartes”, o neurocientista António Damásio desbanca a ideia dualista do filósofo francês de razão e emoção. Para Damásio, por mais racional que determinada decisão possa nos parecer, ela sempre será forjada por reações eletroquímicas cerebrais que acontecem à revelia de nossa consciência.

O erro de Damásio é reduzir e explicar todo fenômeno cognitivo a partir desse modelo. Ele lança mão da hipótese do marcador-somático, segundo a qual as emoções são imagens somáticas (corporais, assim digamos) que nos dizem o que é bom e o que é mau. Nas palavras de Damásio “a interação entre um sistema interno de preferências e conjuntos de circunstâncias externas aumenta o repertório de estímulos que serão marcados automaticamente. (…) No nível neural, os marcadores-somáticos dependem da aprendizagem dentro de um sistema que possa associar determinados tipos de entidades ou fenômenos à produção de um estado do corpo, agradável ou desagradável”. O erro consiste em sempre associar cognitivamente uma reação emocional à causa da emoção ou à causa das mudanças corporais (rubor, por exemplo) que podem acompanhar uma perturbação emocional, pois muitas vezes ignoramos as causas dos nossos sentimentos emocionais. A genialidade de Freud consistiu em, para além de qualquer modelo bioreducionista, enxergar que, justamente porque ignoramos muitas das causas de tais sentimentos emocionais, somos seres plurais.

Na última semana, acabei a leitura do mais recente livro do Eduardo Giannetti, A ilusão da alma. Biografia de uma ideia fixa (Cia. das Letras). Risível esboço, embora mais palatável, de O erro de Descartes, o escritor incide nos mesmos erros do neurocientista português. Giannetti chega ao absurdo de citar o caso de Joseph F., um professor primário de meia-idade do estado da Virgínia que passa a cometer  atos de pedofilia. Durante a investigação criminal, um tumor na região frontal do cérebro é fortuitamente descoberto e ressecado. Após a cirurgia, Joseph F. cura-se de suas perversões sexuais por um ano e meio, quando volta a praticá-las e descobre-se, então, que o tumor recidivou. A absurda e pueril conclusão de Giannetti é: “atribuir culpa moral e responsabilizar criminalmente as vítimas desse tipo de distúrbio é tão absurdo como censurar uma pessoa alérgica por estar espirrando”. Giannetti estaria certo caso não houvesse o exemplo contrário: a maioria dos pedófilos não possui nenhum tumor cerebral. Acerta no particular (caso Joseph F.), erra no geral (todos os demais pedófilos).Falácia de generalização.

Giannetti, poderia terminar com uma citação de Novalis, Santo Agostinho, Nietzsche ou Shakespeare, mas  Caetano Veloso cai como uma luva ao dizer que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

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Discussão - 18 comentários

  1. Érico disse:

    Não entendi afinal o erro de Damásio, pois mesmo as emoções sendo “imagens somáticas (corporais, assim digamos) que nos dizem o que é bom e o que é mau” (sem discutir a validade dessa definição, que aliás, acho uma grande bobagem) não exclui em nada a natureza eletroquímica do comportamento e muito menos nega que sejamos “seres plurais”.

  2. Amigo de Montaigne disse:

    Érico,
    o problema é o reducionismo da explicação de Damásio e a interpretação equivocada de Giannetti.
    Sim, você está correto: em última análise, tudo é atividade eletroquímica, porém existem variáveis culturais, sociais e, claro, genéticas que interferem na plasticidade sináptica.
    Por exemplo: estudos com indivíduos pedófilos mostram que,em grande parte, eles sofreram abuso sexual quando crianças. Há, certamente, uma “circuitaria” (dopaminérgica, talvez) que reforça e induz o comportamento de abuso contra terceiros quando essas crianças crescem. O que devemos fazer? Coibir a pedofilia (reduzindo, assim, o risco de que novos adultos pedófilos, como num ciclo vicioso, apareçam) ou inocentar o pedófilo (pois, pelo que diz Giannetti, o monstro pedófilo não teria culpa, pois o comportamento abjeto precede a sua consciência e decorre de reações eletroquímicas alheias a ele)?

  3. Chloe disse:

    Caro Amigo de Montaigne,
    gostei muito dessa postagem.
    Há 3 dias eu quase comprei O Erro de Descartes, livro sobre o qual sou curiosa desde que li As Paixões da Alma.
    Mas já estou com alguns na fila, vai ter que esperar um pouco.
    Foi bom saber sua opinião a respeito.
    Abç. ; )
    C.
    PS. Lembro-me de uma postagem sua, onde você compartilhou conosco uma pintura do Picasso, que era um homem com uma mulher e crianças, talvez esposa e filhos. Gostaria de acessar essa tela novamente mas não salvei esse link, será que o Amigo lembra qual era a postagem? Obrigada! ; )

  4. Érico disse:

    Ah sim, mas então não seria o erro de Giannetti? Nesse aspecto eu concordo com você. Agora, não é papel da ciência o julgamento ético das explicações neurológicas. Não acho (e também tenho certeza que não é preocupação da ciência) que desvendar o caminho eletroquímico de um ato criminoso é inocentá-lo.
    De qualquer maneira ue posso adiantar que a gente tá ainda MUITO longe de explicar o comportamento em nível molecular.
    Mas não tenha dúvida que os estudos recentes em neurologia incluem sim as variáveis culturais, sociais e genéticas. Eles são incrivelmente interdisciplinares, ou como vc colocou, plurais.

  5. Amigo de Montaigne disse:

    Érico, melhor dizendo, seria o erro de Gainnetti e a simplificação de Damásio.
    Sim, os estudos sérios levam em consideração essas variáveis todas.
    Abs, Amigo de montaigne.

  6. Miss Persefone disse:

    mulier tum bene olet, ubi nihil olet? (risos)
    nasci moça de exalar palavra – assim me fizeram os deuses.
    e se me apresento ao texto, seu, é só por nele, texto seu, gostar dos cheiros.
    pois então que comprei o ilusão da alma por não resistir ao hábito, compulsão, fetiche. Estava a perambular a FNAC – ponto de encontro marcado para um almoço – e cometi lá 3 ou 4 livros que me chamaram os olhos. ao ilusão entreguei minha tarde deste mesmo dia – por descobrir se deixaria de lado o disfarce da ficção para vir e se expor ao debate… não veio, não deixou.
    não li o damásio, não frequento as neuro-razões e fosse razoavelmente competente no improviso teria um algo mais a negar aqui para manter um ritmo mais coeso no tempo da fala – mas não fui, não sou.
    por outro lado, saí da leitura com o inevitável bode à civilização da coca-cola. mais um a supostamente descrever ou decifrar brilhantemente códigos científicos X da nossa vã filosofia sem, de facto, decifrar porra nenhuma e ninguém nem tchum. (exceto por vós, até agora, nobre senhor)
    como diz meu amigo joão eulálio, não é qualquer um que sobrevive resoluto ao palco e como dizia um meu professor de colégio: seja para ler filosofia ou estudar minhocas, há que se discernir as matemáticas mais particulares das partículas.
    ups. zeus chama. e zeus tudo pode. difícil são o humor e os raios…

  7. Amigo de Montaigne disse:

    Miss Persefone,
    seja bem-vinda ao Amigo de Montaigne. Não é necessário que se frequentem as “neuro-razões” para que haja discernimento.
    O que você quis dizer com “bode à civilização coca-cola”?
    Obrigado por seu comentários.
    aMiGo dE mOnTaIgNe

  8. Miss Persefone disse:

    bonjour, ça va. isso é meu bode à síndrome da embalagem: essa impressionante capacidade d e algumas pessoas em agrupar similares informação/conhecimento/achismo em embalagens múltiplas e muitas – mas curiosamente carimbá-las como “exclusiva/nova/reveladora”.
    ainda que admire todo e qualquer homem que busque ou mesmo se aproprie de conhecimento, quando há inércia no pensar, me parece um pouco gratuito…
    tem gente que diz que é estoicismo exagerado meu.

  9. maria disse:

    pois é, o erro não é procurar – ou reconhecer – as bases neurobiológicas do comportamento. o erro é misturar esse conhecimento com ética, com normas da sociedade.
    um tumor no cérebro pode explicar um comportamento (mesmo que não seja a única causa possível para ele), mas não justificá-lo ou torná-lo lícito.
    a biologia e as regras que nossa sociedade escolheu para si são coisas distintas. mas o conhecimento da biologia pode ajudar a prever desvios e, quem sabe, preveni-los.

  10. Nilson disse:

    Lembrei de um filme que vi no supercine, num sábado que não tinha nada para fazer: na história, a mulher batia a cabeça e virava uma ninfomaníaca (segundo informação no filme, seria baseado numa “história real”).
    Não sei, se seria seria o mesmo caso do tumor – mas não acho que seria um erro dizer que as mulheres ninfomaníacas (raríssimas) não seriam culpadas por este comportamento. É claro que nem todas andam por aí batendo a cabeça, mas por algum outro problema, elas poderiam ter uma determinada área do cérebro danificada (genética, por exemplo).
    Então, o caso do tumor poderia ser generalizado se considerarmos que este causaria alguma interferência numa área específica do cérebro (por meio de pressão, por exemplo). Assim, em muitos pedófilos, não todos, outros fatores causariam esta interferências: por exemplo, causas genéticas e inclusive abuso na infância.
    Lembro que vi, certa vez, num documentário, um especialista mostrando que o ato de sacudir uma criança com força – o que presumivelmente pais violentos fariam – causaria danos em determinada área do cérebro.
    Eduardo Giannetti não poderia ter alguma razão? Num caso um tumor agindo sobre uma área do cérebro, noutros esta área não funciona direito devido a uma doença genética ou não, uma agressão na infância.

  11. Amigo de Montaigne disse:

    Maria,
    o seu comentário resumiu perfeitamente o erro de Giannetti. Obrigado por sua lúcida observação.
    Abs, Amigo de Montaigne.

  12. Poderosa Aphrodite disse:

    mon cher nilson – at first, je vous offre this porgy and bess: http://www.youtube.com/watch?v=kP5O_NUhrK0&feature=related
    and then there was two and there is tea and also this sort of f**cking endless night (je vous salue Insomnie). mas sei não cabron – anterior ao “erro em si” capaz de habitar um erro outro – que é esse recorte excessivo – esse jeito/mania nossa de fragmentar mais e mais e mais o conhecimento e sua consequente compreensão e por vezes sorver e lamber só o corte e esquecer, largar da coisa maior, da coisa juntada; aquela que abrange e significa, sabe?
    modica a modo dicta or ex ipso non idem?
    (e no relógio o ponteiro avisa e aproxima a manhã)

  13. Amigo de Montaigne disse:

    Somente uma Afrodite, poderosa, seria capaz de tão agudos comentários.
    “Merci”

  14. nilson disse:

    Escrevi sobre o filme, pois parece que não existe prova científica que “problemas” no cérebro podem ser determinantes ou apenas predisporem algum tipo de comportamento.
    Na minha opinião, em algum casos, cultura e educação não é suficiente para alterar um comportamento derivado de problemas cerebrais (de origem genéticos ou devido acidentes).
    Experiências com gêmeos, por exemplo, mostram similaridades de comportamento surpreendentes (pelo que já li).
    Poderosa Aphrodite, desculpe minha burrice, mas não entendi nada do que quiz dizer. Quanto à opera não entendo inglês , apenas leio mas a wikipedia não me permitiu inferir nada mais profundo sobre a referida ópera.

  15. Helena de Tróia disse:

    Nilson caro, soubesses tu que Aphrodite não passa de uma exibicionista coquete, gratuita e fútil, aguardarias a persona mais adequada e gentil e interessante e inteligente enfim…

  16. Karl disse:

    Que bom, caro Aleph, que aproveitaste nossas conversas em algo útil, exceto é claro, o consumo de certa bebida de coloração vermelho encarnada que te furtas a me oferecer.
    Genial. Acho que se encaixou perfeito aqui. Tive uma outra leitura do livro que me atrevi a postar. http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2010/09/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian.php
    Acho ainda que o fisicalismo é uma parte importante da filosofia da mente e o livro tem o mérito de tocar neste difícil tema, em que pese a fascinação que por ele revelou o autor, o que deve ter obstruído algo de seu pensamento claro. O Palmeiras não é culpado de todos os palmeirenses, non é vero?

  17. Gilberto disse:

    A única diferença entre o ser humano (eu, voce e todos os outros) de outros seres vivos é que devido a Evolução das Espécies (Darwin é um gênio)o nosso cérebro se sofisticou, talvez já sejamos o que os cientistas estão tentando criar … a Inteligência Artificial. Seja um Ateu e Cientista. É apenas o início de uma vida mais leve e inteligente.

  18. Amigo de Montaigne disse:

    Gilberto,
    pois sou ateu e cientista e não acredito que isso seja “o início de uma vida mais leve e intreligente”.
    Achar que todo ateu e cientista é inteligente é incidir no mesmo erro de Giannetti: a falácia da generalização, que é sempre simplista.
    Otto Maria Carpeaux não era ateu. G.K.Chesterton não era ateu. Guimarães Rosa não era ateu.

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