2011: meu balanço

 

O próximo ano está aí. O ano que agora finda nos legou algumas lições. De longe, a mais importante delas foi a derrocada do livre mercado fundamentalista e do capitalismo assim baseado. Quem havia enterrado Keynes não poderia estar mais equivocado. Estados se agigantam para que a crise seja detida. Prejuízos privados são convertidos em dívida pública. A globalização mostra que nada mais é que um fenômeno econômico que não pode romper as barreiras políticas. A China se globaliza comercialmente mas mantém o rígido isolamento e cerceamento político. A Primavera Árabe desenha um novo mundo em que a sucessão do poder não pode mais ser garantida em nome de uma questionável tradição. Movimentos como Ocupar Wall Street se rebelam contra a perversa lógica de perpetuação da iniquidade social. E o Brasil, apoiado num discurso panglossiano, não enxerga que os problemas de infra-estrutura e a péssima educação serão entraves intransponíveis em poucos anos.

Na música, 2011 foi um ano de mais do mesmo. Sem comentários.

Na literatura, mais uma decepção com a escolha política do Nobel. Tomas Tranströmer se junta a Herta Müller e a Le Clézio na galeria das escolhas, no mínimo, questionáveis. O lado bom foram as reedições de grandes clássicos em português, em especial “Guerra e Paz” e “Os miseráveis”, ambas pela Cosac Naify. O obra de Tolstói foi, pela primeira vez, traduzida diretamente do russo por Rubens Figueiredo. Pedro Maciel nos legou mais um romance-ensaio arrebatador. “Previsões de um cego” (ed. LeYa) é carregado de lirismo e reforça a vocação do escritor que repara naquilo que outros apenas enxergam. Edmund de Waal e os 264 netsuquês foram outra grata surpresa que acabo de ler. “A lebre com olhos de âmbar” (ed. Intrínseca) é daqueles livros que nos causam tristeza quando terminamos, pois a história poderia se prolongar sem fim, nos legando, homeopaticamente, uma ou duas páginas por dia. Mas dizem que o infinito habita em nós.

Enfim, 2011 não deixará muita saudade. Esperemos 2012. E como escreveu Luis Fernando Verissimo no Estadão de hoje, “e fé em 2012, pois anos pares são sempre melhores do que anos ímpares, uma estatística histórica que eu acabei de inventar para nos animar”.

 

P.S.: Seria injusto com algumas pessoas se não registra-se aqui, no rodapé, que, no plano pessoal, 2011 foi o melhor ano da minha vida. Inesquecível.

 

 

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Discussão - 5 comentários

  1. Karl disse:

    Caríssimo Amigo, excelente retrospectiva de 2011. Em se tratando de literatura, principalmente.

    Aqui venho, bissextamente, pescar algo para ler… Obrigado.

    PS. Faltou uma retrospectiva futebolística que ficarei aguardando ansiosamente, hehe

  2. amontaigne disse:

    Prezadíssimo Karl, obrigado pela visita sempre mui lisonjeira. Quanto ao futebol, mais uma demonstração de subdesenvolvimento. O Barcelona mostrou que ainda somos bons no samba e na caipirinha. E só.

    Abraço!

  3. Chloe disse:

    Caro Amigo de Montaigne,
    bem coerente o seu balanço.
    Mas infelizmente o ano ainda não tinha acabado…
    E reservou para seu último dia essa notícia nada comemorável.
    Se 2011 já não deixaria muita saudade, agora menos ainda.
    Sinto muito. : \
    C.

  4. Sibele disse:

    Caro Amigo, excelente balanço. Gostei principalmente do 1º parágrafo.

    Quanto à cultura, além da literatura, o cinema repetiu sua impressão sobre a música nesse ano?

  5. amontaigne disse:

    Sibele, obrigado.

    O cinema teve bons poucos momentos. O melhor, na minha opinião, foi “Meia-noite em Paris”. Achei o Lars e o seu “Melancolia” extremamente pretensiosos e nauseabundos. Os dois. A declaração imbecil dele em Cannes só reitera o que eu escrevi. O ano foi ruim para o cinema.

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