A arte de começar

Não é nenhum segredo que um bom prefácio, uma boa epígrafe, uns bons primeiros parágrafos podem ganhar o leitor mais facilmente. Comprei alguns livros baseado apenas na epígrafe. Hilda Hilst me ganhou assim: “E ainda que as janelas se fechem, meu pai/ É certo que amanhece”. E lá fui eu e a “obscena senhora D.”. Corre-se o risco do engodo, mas um bom começo quase sempre me garantiu uma leitura à altura do início. De modo mais recente, lembro-me de ter folheado uma dezena de lançamentos nas estantes da livraria. Fui fisgado pela epígrafe de “A ausência que seremos” (Cia. das Letras), do escritor colombiano Héctor Abade: “E por amor à memória trago no rosto o rosto de meu pai”, verso emprestado do poeta Yehuda Amichai. O livro não me decepcionou e foi das melhores leituras do ano que finda. Agora, se eu tivesse que eleger o prefácio que mais me tocou e que até hoje não consigo ler sem uma grande emoção citaria este: “ Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade,um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis” (Victor Hugo, Os miseráveis).         

                

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Discussão - 7 comentários

  1. Sibele disse:

    Dois meses depois, no seu caso é a arte de “recomeçar”, rs!

    Bem-vindo de volta! Fez falta! 🙂

  2. amontaigne disse:

    É verdade. Prometo ser mais assíduo. 😉

  3. Karl disse:

    Caraca, que enquadrada, hein? Bem-feito, hehe. Vê se toma vergonha agora…

  4. Anonimo disse:

    Bom retorno!

  5. Eliana Teixeira disse:

    Caro Amigo,

    Bem-vindo! Confesso que estou aliviada com seu retorno. Tenho muitos assuntos pendentes sobre os quais adoraria ouvir sua opinião, mas não vou cansá-lo agora. Vou esperar que desfaça as malas e se aninhe em seu canto, coloque sua escrivaninha do seu jeito para que possa trabalhar em paz e só então voltarei a aborrecê-lo.
    A única questão que gostaria que você me esclarecesse é que acabei de receber um convite para add um certo “Michel du Montaigne” no Facebook e ele se identifica como sendo você. Mas, como achei que as pontas não estavam bem amarradas, resolvi consultá-lo se efetivamente você abriu uma página no Facebook com esse nome me enviou uma solicitação de amizade.

    Atenciosamente,

    Eliana Teixeira

  6. amontaigne disse:

    Cara Eliana,

    Abri uma conta no Facebook. Infelizmente, o sistema de gerenciamento da rede social impede a criação de um perfil com o nome “Amigo de Montaigne”.
    Obrigado pelos comentários e pelos “posts” FB.

    Cordialmente, Amigo de Montaigne.

  7. Marcus disse:

    Fantástico este post!!!

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