Contra a cultura

A crise econômica já é fato consolidado. A análise retrospectiva da história demonstra que é esse o terreno propício para despertar o gigante (quase) adormecido da xenofobia. Os governos dos países em crise, como regra, aumentam o protecionismo contra a concorrência estrangeira e intensificam a vigilância das fronteiras para minimizar a entrada de imigrantes ilegais. O crescente desemprego e a queda da qualidade dos serviços básicos fornecidos pelo estado fomentam o ódio ao estrangeiro. Eis aí o bode expiatório ideal. Muito me assusta a crescente presença de textos na imprensa internacional invocando a a preservação da “cultura europeia”, a necessidade de manter os “bárbaros africanos” longe do território italiano, “berço inviolável do Renascimento”, a defesa das “raízes culturais do Velho Mundo” contra a degradação pelos imigrantes, quase sempre pintados como “muçulmanos fundamentalistas que não hesitam em dar cabo à própria vida em nome de um deus ou de um livro religioso”. Ora, está claro para mim que não existe nada mais falacioso do que invocar a defesa da “cultura europeia”. Simplesmente porque ela não existe. Explico. Há uma evidente confusão entre identidade cultural e cultura. Povos podem apresentar alguns hábitos e costumes que emprestam um denominador comum a eles. Temos o chá das cinco dos ingleses, a siesta dos espanhóis, o amor pela bicicleta dos franceses, o culto à cerveja dos alemães, para citar alguns, apenas. Tudo isso nada mais é que identidade cultural. A “cultura”, por outro lado, não apresenta nenhum  tipo de característica que seja exclusividade deste ou daquele grupo de pessoas. Assim, falar numa “cultura europeia” é algo não só mentiroso como perigoso. A cultura, por definição, é universal, atemporal e não respeita fronteiras. Roubando as palavras de Fernando Savater, “ninguém chama de ‘culto’ quem conhece a sua língua, mas sim àquele que é capaz de falar e ler em várias; nem àquele que sabe tudo sobre o seu bairro, mas sim ao que se interessa por relacioná-lo com o inabarcável universo”. Não há nada que se assemelhe mais entre as árvores do que as suas próprias raízes. Dispam-se. E já somos todos iguais.

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Discussão - 3 comentários

  1. Meu medo maior é o crescimento da xenofobia no Brasil.

    []s,

    Roberto Takata

  2. amontaigne disse:

    Takata,

    você tem razão. Vide o caso recente dos haitianos e bolivianos.
    O Brasil pode nos surpreender – negativamente.
    Ideia para outro post, quem sabe?

    Abraço!

  3. Neilton disse:

    amontaigne,

    se fosse só isso!
    Aqui no Brasil, temos uma xenofobia pesada entre os estados, principalmente a relação sul-sudeste e nordeste. Que chega beirar absurdos, digo isso porque vejo inclusive no mundo acadêmico.

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