Pedras pelo caminho
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento… Minha pedra de Calcutá!
(Mário Quintana)
Olhe bem para a imagem acima. Seriam mesmo pedras de Calcutá pelo caminho? Nem de Calcutá, e nem mesmo pedras… . São apenas singelas nanoestruturas cuja imagem foi obtida por uma técnica conhecida como microscopia eletrônica de varredura. As cores ficam por conta do gosto do “artista”, que as inseriu depois, empregando um programa de imagem.
Mais uma bela obra do concurso Science as Art (2011), promovido pela Materials Research Society.
Porto Alegre me faz tão sentimental …..
Porto Alegre, 30 de abril de 2012.
(por volta das 19h15min)
Enquanto escrevo essas linhas, na zona de embarque do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, estou naquele estado de espírito insólito em que felicidade e tristeza convivem de forma estranhamente harmoniosa. São meus últimos momentos como moradora dessa cidade, após um período marcante que durou cerca de 10 anos. Citando o escritor romano Plutarco, navegar é preciso. Após minha defesa da tese, que contou com a avaliação de uma banca elegante, propositiva e exigente (me invejem, foi uma banca excelente), chegou o momento de agradecer, refletir, relembrar e … mudar.
Nasci numa cidade do norte do RS chamada Passo Fundo, e lá vivi até os 19 anos. Num belo dia, nasceu aquela vontade de ir por mares nunca antes navegados, e parti para Porto Alegre. Meus planos consistiam em terminar a faculdade de Farmácia e logo em seguida voar para mais longe. Porto Alegre, na minha visão de adolescente, era um lugar cinzento povoado por seres estranhos de sotaque metido a besta. Não fazia parte dos planos fazer grandes amizades ou criar vínculos duradouros, mas sim apenas atingir metas acadêmicas e ir embora. Era minha forma tosca de lidar com a experiência do desconhecido. Acontece que Porto Alegre me trucou. E bonito.
Lembro bem do dia da primeira matrícula na faculdade, e dos sentimentos de excitação e medo pelo que estava por vir. Lembro das primeiras vezes em que saí pelos bares da Cidade Baixa, ainda deslumbrada com um novo mundo que se abria. Da primeira vez em que passeei pela Redenção, impressionada com o fato de um parque daquele tamanho estar cravado no meio de tanta urbanidade. Lembro de quando comecei minha primeira iniciação científica na área de tecnologia farmacêutica e da minha primeira apresentação em um Salão de Iniciação Científica da UFRGS (que acabou definindo alguns rumos da minha vida, mas deixo essa pra contar em outro momento).
Lembro dos queridos amigos que fiz ao longo desses anos, das pequenas loucuras que vivemos juntos e da cumplicidade que tornou essas amizades tão especiais. Lembro da solidão e da saudade. Dos amores e das decepções. Das escolhas erradas e das superações. Lembro de um momento de profunda tristeza que vivi, e de tantos momentos de profunda alegria que guardarei com carinho. Lembro de quando minha irmã veio morar comigo, e foi um sol na minha vida (aqui pode agradecer também pelas cervejas, rsrsrsrs). Lembro dos meus pais, da minha família, das milhares de ausências minhas porque sempre havia algo no lab para fazer. E do quanto eles me apoiaram sempre.
Lembro de tudo o que aprendi durante o mestrado, a bolsa DTI e o doutorado. Do quanto sou grata às professoras Sílvia e Adriana, que me receberam em seu grupo e sempre acreditaram no meu trabalho. E lembro também dos colegas sensacionais desse grupo, que contribuíram para tornar tão ricas minhas vivências ali. E, claro, como esquecer daqueles que me fizeram enxergar mais longe, meus queridos colegas, alunos e amigos do PEAC? E do maravilhoso e inesperado “presente” que ganhei de tabela ao participar desse projeto? (né, Fabiano?)
Porto Alegre me dói … ainda mais agora, nesses minutos de despedida. Se estou chorando? Estou, embaraçosamente. Em Porto Alegre vivi, cresci, caí, me levantei. Estou indo a um novo lugar, para começar uma nova vida há muito ansiada. Não há como não ficar extremamente feliz. Mas ao mesmo tempo bate uma tristeza, sabe? É que Porto Alegre me tem / não leve a mal / … Obrigada, cidade querida, por tudo. Estarás sempre no meu coração.
“- última chamada para o vôo AD 4062 …”
Ok, hora de enxugar as lágrimas e sorrir. Campinas, estou chegando … para contigo também construir uma linda história … .
Novo episódio sobre Nanotecnologia no Fronteiras da Ciência
Foi ao ar essa semana o episódio II sobre Nanotecnologia do programa Fronteiras da Ciência - o qual pode ser ouvido semanalmente na Radio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1080 AM), ou a partir do arquivo em mp3 disponibilizado na página http://frontdaciencia.ufrgs.br/.
Nesse segundo episódio (informações sobre o primeiro episódio podem ser conferidas aqui), as discussões giram em torno dos aspectos toxicológicos, ambientais e regulatórios envolvidos no uso e produção de nanopartículas, nanofobia e atendados terroristas a nanocientistas (sim, isso tem acontecido….) e percepção pública do tema no Brasil e no mundo. A gravação pode ser acessada aqui. Clique, ouça, opine!
Rito de passagem
Fiquei ausente desse espaço do qual tanto gosto por um longo tempo. O motivo? Uma mistura de coisas. O blog começou como uma terapia para mim, como forma de (tentar) tornar útil um período onde fiquei “de molho” por conta de um problema de saúde, e também como válvula de escape para distrair o coração. Não precisei de pouco mais que meia dúzia de posts para me dar conta de que era muito, muito mais que isso. Era um resgate do meu gosto pela área de comunicação (uma carreira que quase trilhei) e uma maneira de expressar o quanto gosto de ciência e do que ela representa. E depois de mais alguns posts, descobri que havia também um grande bônus em blogar sobre ciência, que é poder trocar ideias e opiniões além das barreiras geográficas dos pampas, que foram minha casa desde sempre.
Já faz um bom tempo que o coração não precisa mais ser distraído. Estou feliz. Somou-se a isso o pânico do último “ano” – aquele em que o aluno de doutorado precisa fechar todas as pontas soltas da tese e trabalhar feito um condenado, caso não tenha tido a sorte de conduzir um projeto que tenha rendido bons frutos logo no início. Se fechei tudo? Fiz o melhor que pude, mas não posso lutar contra o fato de que nunca fechamos totalmente as pontas de uma ideia. Com as respostas, surgem novas perguntas. E essa talvez seja mais uma lição de humildade entre tantas que vivi como farmacêutica cursando doutorado em química.
Amanhã será minha defesa. E no meio do “ensaio” da minha apresentação, resolvi parar para escrever. Não porque precise de uma válvula de escape (como nos primeiros posts lá no longínquo 2009), ou porque ache a ciência apaixonante (eu acho, mas agora a razão não é essa). Resolvi parar para escrever porque simplesmente preciso registrar o quanto esse rito de passagem é marcante na vida de quem resolveu seguir o caminho acadêmico. Passamos a entrar no “mundo adulto científico”, com todas as benesses e agruras inerentes a essa condição. Um novo aprendizado, novas lições de humildade. E certamente, mais postagens, porque vou confessar: estava com uma saudade danada daqui.
Fronteiras da Ciência
“Numa atmosfera descontraída – como numa roda de mate – cientistas conversam sobre assuntos do momento e tentam preencher as lacunas deixadas pelo sistema educacional e pela desinformação dominante na mídia.”
Esse é o programa Fronteiras da Ciência, veiculado semanalmente na Radio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1080 AM). Uma iniciativa de um grupo de professores e alunos da comunidade acadêmica, com apoio do Instituto de Física, o Fronteiras da Ciência está ganhando cada vez mais ouvintes ávidos por temas tão variados quanto Exoplanetas e Machu Picchu, passando por discussões sobre pós-modernismo (viu, Karl?), origem da vida, inteligência artificial, entre tantas outras.
O tema do programa dessa semana é… adivinhe…. sim! Nanotecnologia. O que é nanotecnologia? O quão grande é um número como o mol? E o quão pequeno é algo nanométrico? Há produtos contendo nanotecnologia sendo comercializados hoje? E a questão da regulação desses produtos, como fica? O que tem sido feito nessa área no Brasil?
Tive o prazer de discutir sobre essas e outras questões com os professores Jeferson Arenzon e Naira Balzaretti, ambos do Instituto de Física da UFRGS, nesse Fronteiras que está imperdível. A gravação pode ser acessada aqui. Clique, ouça e opine!
Um banco público para estimular a inovação no Brasil
As empresas estão erradas em temer investimentos de risco? Ora, uma empresa visa prioritariamente o lucro. É por isso que o desenvolvimento estratégico do país passa pela criação de soluções que tornem investimentos em CT&I mais atraentes. Confesso que, quando soube que Aloizio Mercadante seria o novo Ministro de Ciência e Tecnologia, fiquei com um pé um pouco atrás. Porém, vejo com bons olhos uma novidade apresentada em Brasília na semana que passou: a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), uma agência de fomento ligada ao MCT, recebeu carta patente do Banco Central para se transformar em um banco público de fomento à inovação, nos moldes do BNDES. Isso ocorrerá em até 3 anos, e tornará possível uma maior liberdade na captação de recursos que aquela existente hoje, atrelada ao FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Essa mudança se traduz em ampliação de incentivos fiscais para inovação, criação de fundos setoriais, e um estímulo ao desenvolvimento de tecnologia de ponta no setor privado brasileiro. Sejamos exportadores de commodities, sim. Mas sem esquecer que o PIB de um país também está diretamente ligado ao acúmulo de conhecimento passível de ser aplicado em processos produtivos. E a detenção desse conhecimento não só é estratégica, como também pode significar uma maior soberania nacional.
Química e risadas em 140 caracteres
Sim, é possível aliar química e risadas em 140 caracteres! E também física, matemática, biologia, informática …..
Ivan Baroni, Luiz Fernando Giolo e Paulo Pourrat são os responsáveis pelo perfil @PiadasNerds no microblog Twitter. Lá é possível encontrar piadinhas rápidas, hilárias, nerds. Eu sigo. E me divirto!
O perfil fez tanto sucesso (hoje tem mais de 82 mil seguidores!), que transformar a iniciativa em livro seria uma questão de tempo. Nesse glorioso primeiro de abril de 2011, as melhores livrarias do país passaram a comercializar o livro Piadas Nerds, o qual está organizado por capítulos (Matemática, Ciências Humanas, Química, Física, Biologia, Informática, Cultura Nerd e Séries). Cada capítulo tem uma breve apresentação, escrita por convidados muito especiais: Marcos Castro, Carol Zoccoli, adivinhem…. eu (hehehe), Dulcídio Braz Jr., Átila Iamarino, Henrique Fedorowicz e Fernando Caruso, com apresentação geral de Luis Brudna e ilustrações de Carlos Ruas.
Adorei participar, e me diverti demais escrevendo a apresentação do capítulo de química. Aí vai um trecho dela (se quiser ler tudo, amigo, compre o livro – custa menos de vinte mangos):
“Alguns dizem que para identificar um químico, é só reparar no indefectível jaleco sujo, manchado e furado. Outros afirmam que basta você observar se ele lava as mãos ANTES de ir ao banheiro. Bem, uma coisa é certa, o químico sempre tem programa para a sexta à noite: terminar aquele experimento importantíssimo no laboratório. No fundo, o químico é um ser incompreendido pela sociedade. Se, para o resto do mundo, o que está naquela folha que o químico chacoalha por aí cheio de orgulho são só umas linhas completamente sem sentido, para ele são o resultado da análise daquele experimento importantíssimo, que gerou sinais capazes de desnudar aos poucos a estrutura de qualquer molécula mais tímida, despi-la completamente e… conduzir ao êxtase! É, talvez seja muito tempo no laboratório, mesmo….
E como sobreviver a tanto tempo no laboratório sem perder completamente a sanidade? Ora, apelando para muito bom-humor. O humor químico é assim: vê trocadilhos em tudo. Às vezes, nem precisa do trocadilho… Convenhamos que quando você descobre que pode chamar o 4-(prop-1-en-1-il)fenol simplesmente de anol, a piadinha infame torna-se inevitável. É nesse espírito e para nosso deleite que a turma do Piadas Nerds reuniu neste capítulo o melhor do humor químico expresso em 140 caracteres – e é com muito orgulho que apresento-o ao caro leitor (é nox mano!).”
O lançamento oficial do livro acontecerá em Sampa, dia 16 de abril, às 16h na livraria Cultura (Loja Record) e em Campinas, dia 18 28 de abril, às 19h na FNAC do shopping Dom Pedro.
A celebração de 2011
[continuação do post anterior]
Na verdade, faz só 100 anos que sabemos que o átomo se constitui em um núcleo positivo muito pequeno, rodeado por um grande espaço que contém elétrons de carga negativa. É curioso pensar que certos eventos, como os primeiros testes com aeroplanos motorizados ou a transmissão dos primeiros sinais de rádio através do Atlântico, são anteriores a essa descoberta. Ainda deve haver pelo mundo senhores centenários que nasceram naquele ano de 1911! Minha bisavó, por exemplo (que tive a sorte de conhecer e com a qual convivi até ano passado), nasceu só 3 anos depois. (Adendo 10 abril 2011: cabe mencionar também que tenho uma avó que nasceu só 5 anos depois de 1911, e ainda está viva e lúcida – sou ou não sou uma privilegiada?)
E por que isso é tão relevante? Ora, imagine um mundo onde não se sabe que o átomo é composto por núcleo e eletrosfera. Está percebendo a ausência de algumas coisas? Não? Pense melhor. A obtenção de novas substâncias está diretamente relacionada à capacidade do ser humano em controlar a forma como os átomos se conectam uns com os outros. E isso passa pelo entendimento de como a eletrosfera é. E então? Chegou a alguma conclusão de como seria esse mundo? Bem, tire da sua rotineira existência um monte de coisas, que vão de uma simples embalagem de pasta de dente até a aspirina que você toma. E não esqueça de tirar também algumas dezenas de anos da sua expectativa de vida, caro leitor.
Para alguns, química é a ciência que estuda a matéria e suas transformações (embora também possa ser um bairro em Barra do Piraí, RJ). Para outros, é uma ferramenta usada pelo ser humano para reinventar seu próprio mundo. Algo dessa importância precisa ser celebrado. E esse ano foi escolhido pela UNESCO justamente para isso: celebrar a química! Celebremos, pois, o Ano Internacional da Química. Tim-tim!
P.S.1: Cabe salientar que a grande inspiração para definir 2011 como o Ano Internacional da Química foi o centenário da entrega do prêmio Nobel de Química à incomparável doutora Marie Curie.
P.S.2: Se você quiser saber o que está sendo feito no Brasil e no mundo para celebrar o Ano Internacional da Química, vale passar aqui e aqui.
A revolução de 1911
“- Revolução? Em 1911? Fernanda enlouqueceu… tanto tempo longe do blog fez mal pra cabeça dela…”.
ou
“-Bem, houve mesmo uma revolução na China em 1911…. mas como isso estaria relacionado à química ou à nanotecnologia? Bala Mágica por acaso virou blog de história agora? Fernanda enlouqueceu… tanto tempo longe do blog fez mal pra cabeça dela…”
Embora tenha mesmo ficado distante do blog porque meu lado rato-de-laboratório aflorou de forma particularmente intensa nos últimos tempos, ainda não perdi o juízo. Realmente acredito que uma revolução aconteceu em 1911, e não foi na China. Ora, vejamos…. há cem anos uma mulher ganhou o Prêmio Nobel de Química. Sim, a admirável pesquisadora franco-polonesa Marie Sklodowska-Curie. Admirável, por ser a primeira mulher a receber o título de Doutora em Ciências na Europa e ainda por cima ser a primeira pessoa a receber dois Prêmios Nobel na vida – de Física em 1903, pela descoberta da radioatividade, e de Química logo depois, pela descoberta dos elementos polônio e radio. Embora possa parecer, não é da revolução feminista que quero falar. Até porque sabemos que ela aconteceu só uns cinqüenta anos depois.
A revolução à qual me refiro começou sem armas, mas com muitos choques. Foi causada pela descoberta de novos espaços, mas sem tomada de territórios. Não ocorreu por iniciativa de ativistas políticos ou de um líder do povo, mas sim por causa de um pequeno grupo de físicos, na solidão de um laboratório na Universidade de Manchester (UK).
A saga começa cerca de 10 anos antes da data apontada no título desse post, quando os físicos Ernest Rutherford e Paul Villard classificaram diferentes tipos de radiação conforme sua capacidade de penetrar em objetos e causar ionização. A radiação foi dividida por esses cientistas em alfa, beta e .. adivinhe… gama. Destas, a radiação alfa é aquela que apresenta menor capacidade de penetração, podendo ser bloqueada por uma simples folha de papel. Podemos considerar essa radiação como sendo partículas com carga positiva e massa determinada – hoje, sabemos que partículas alfa nada mais são que dois prótons e dois nêutrons (ou seja, o núcleo de um átomo de hélio-4). Só para situar o leitor sobre o grau de conhecimento da época, ainda acreditava-se que os átomos eram formados por um mar de carga positiva contendo regiões pontuais de carga negativa (o famoso modelo do pudim de passas sobre o qual ouvimos falar na escola).
As partículas alfa podem ser obtidas a partir do decaimento de brometo de radio, um dos compostos radioativos descobertos por madame Curie. E foi justamente brometo de radio que os físicos Hans Geiger e Ernest Marsden utilizaram para produzi-las, num experimento famoso coordenado por Ernest Rutherford em 1909. Ao redor de uma folha de ouro muito fininha mesmo, foi disposta uma folha circular de sulfeto de zinco. A ideia era bombardear a tal folha de ouro fininha com partículas alfa, pra ver o que aconteceria. O sulfeto de zinco atuaria como uma espécie de filme fotográfico, marcando os locais para onde as partículas alfa seriam projetadas após o bombardeio. Qual seria a hipótese lógica para esse experimento na época? Todas as partículas alfa (cuja carga era positiva, já se sabia) atravessariam a folha de ouro, porque a carga positiva estaria bastante “espalhada” no pudim esférico que constituía os átomos, de forma que não haveria repulsão significativa de carga. Algumas partículas alfa poderiam sofrer alguns pequenos desvios, se encontrassem pelo caminho as “passas” de carga negativa mais concentrada ali presentes.
Surpreendentemente, os cientistas observaram não só o esperado, mas também algo completamente bizarro: algumas daquelas partículas alfa bombardeadas simplesmente ricochetearam de volta! Rutherford interpretou esse resultado no seu famoso artigo de 1911, como sendo causado pela presença de algo realmente muito denso e pequeno no centro do átomo, que impediria a passagem das partículas alfa numa colisão de frente. Esse “algo” provavelmente teria carga positiva também. E as cargas negativas? Bem, elas deveriam estar ali no átomo para neutralizar as cargas positivas. No entanto, muitas partículas alfa não foram desviadas, e se topassem com cargas negativas, necessariamente seriam desviadas (aquela velha história dos opostos, você sabe). Bem, se não bateu em nada positivo, nem em nada negativo, não bateu…. em nada! Sim, o átomo seria um sistema composto por um núcleo muito pequeno de carga positiva e massa considerável, envolto por um gigantesco espaço onde estariam os elétrons de carga negativa e um monte de ….. vazio. Tal qual uma bola de futebol no meio de um estádio, com apenas algumas centenas de pessoas nas arquibancadas, assim seria um átomo com seu núcleo e seus elétrons (os quais estariam nessa região imensa ao redor do núcleo, chamada eletrosfera). Definitivamente, os dias de analogia culinária para o átomo haviam acabado.
As ideias de Rutherford serviram como base para um novo entendimento sobre a estrutura da matéria. Desde então, tivemos um século de descobertas espantosas, e um salto gigantesco no âmbito da química – motivo mais que suficiente para um ano inteiro de celebração. Interessante como descobrir tudo e nada onde menos se esperava fez toda a diferença …
[continua no próximo post .... ]
(a reflexão que resultou nesse post e no próximo veio de uma conversa sobre história da ciência, no meio de tantas outras, num desses dias de fevereiro… obrigada ao Fabiano pela inspiração e pelas ideias para esses textos)
Geiger, H., & Marsden, E. (1909). On a Diffuse Reflection of the Formula-Particles Proceedings of the Royal Society A: Mathematical, Physical and Engineering Sciences, 82 (557), 495-500 DOI: 10.1098/rspa.1909.0054
Rutherford, E. (1911). The Scattering of α and β Particles by Matter and the Structure of the Atom Philosophical Magazine , 6 (21), 669-688
Adeus, 2010!
DA FELICIDADE
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!(Mário Quintana)
Do desenvolvimento de uma vacina para o H1N1 até as experiências envolvendo o Grande Colisor de Hadrons no CERN (apresentado a nós in loco pelo professor Dulcídio), passando por bactérias sob holofotes, pode-se dizer que 2010 foi um ano agitado no mundo científico. No meio disso tudo, algo que achei particularmente interessante foi a demonstração de efeitos quânticos em um objeto visível (um ressonador super-resfriado que “vibrou” e “não vibrou” ao mesmo tempo!!), cujos resultados foram publicados em abril por pesquisadores dos Estados Unidos. No entanto, nem tudo são flores…. Cabe lembrar que 2010 também foi marcado pelo incêndio de proporções escandalosas (no sentido real e no figurado também) ocorrido no Instituto Butantã, cujas perdas foram inestimáveis. Além disso, o ano termina com uma proposta de corte de R$ 610 milhões no orçamento de 2011 para a ciência e tecnologia do Brasil, o que não deixa de causar certa apreensão. E se essas coisas causam desânimo, não se pode deixar de ter a esperança renovada ao ler a conclusão de artigo científico mais sensacional do ano, cuja pesquisa foi elaborada por uma turminha com idade entre 8 e 10 anos e publicada em uma revista de alto impacto pela qualidade de seu conteúdo científico (mais detalhes aqui e aqui): “Science is cool and fun because you get to do stuff that no one has ever done before” (Ciência é legal e divertida porque você faz coisas que ninguém nunca fez antes).
Imaginávamos, nos primeiros dias de 2010, que essas e outras coisas aconteceriam no decorrer do ano? Muitas delas, certamente que não (inclusive a posição que no fim das contas coube ao Grêmio no Brasileirão, admito….). Nessas horas vemos que um ano-novo de verdade é muito mais que um evento cronológico, é algo que construímos a cada dia dos 365 que temos. Como já escreveu Drummond (“Jornal do Brasil”, Dezembro/1997), “(..) não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo (…) É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.”
Encerrando esse post do mesmo jeito que comecei – no embalo das palavras do meu querido Mário Quintana -, desejo a você, leitor, que encontre seus óculos na ponta do nariz nesse ano de 2011… Até lá …











