Yes, nós temos nanomedicamentos!

No início desse mês, a Tati Nahas do Ciência na Mídia me enviou um material de procedência da Veja, que tratava sobre o desenvolvimento de um medicamento inovador para hipertensão desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais. O referido medicamento, ainda em testes, emprega a nanotecnologia para regular o processo de vasodilatação, o que o tornaria mais eficaz e com menos efeitos colaterais.

O coordenador dessa pesquisa, Dr. Robson Santos, é especialista no peptídeo vasoativo que compõe esse medicamento, chamado angiotensina-1-7. Esse peptídeo está naturalmente presente no nosso organismo, mas se tentarmos ingeri-lo, ele será facilmente degradado pelas enzimas do trato gastrointestinal e não funcionará. De acordo com a reportagem da Veja, esse peptídeo seria revestido com açúcares que o protegeriam dessa degradação. Na hora não entendi como açucares poderiam servir de proteção a um peptídeo e resolvi consultar o currículo do Dr. Santos. Foi quando me deparei com a descrição de um produto com data de 2001 (Preparação de formulações de antagonistas dos receptores AT1 usando as ciclodextrinas, seus derivados e os polímeros biodegradáveis) que entendi o que o pessoal da Veja quis dizer. O açúcar ao qual eles se referem são de uma classe específica, muito interessante, denominada ciclodextrinas.

Ciclodextrinas são açucares que têm a forma de cones, como na figura abaixo:

A parte externa desses cones tem alta afinidade pela água e a parte interna não. Por isso, moléculas que caibam dentro do cone e que tenham pouca afinidade pela água (como as gorduras) podem ficar protegidas do meio externo e ainda por cima podem ter sua solubilidade “aumentada”. Ao incorporar o peptídeo angiotensina-1-7 em ciclodextrinas, é como se ele ficasse dentro de uma caixinha protetora e chegasse intacto ao seu local de ação no organismo.

Legal, né? Mas não pense que essa é a única perspectiva de nanomedicamento 100 % nacional. Em 2007, a Incrementha PD&I, empresa na época sediada no Cietec e fruto da união de esforços da Biolab e da Eurofarma, já havia anunciado o lançamento do primeiro fármaco brasileiro desenvolvido com nanotecnologia. O produto, ainda em testes, é um anestésico de uso tópico sem similares no mundo que foi desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por meio de uma parceria Universidade-Empresa, no âmbito do Edital 12- 2005 do CNPq e já teve sua patente depositada. De acordo com o Diretor da Biolab Dante Alário Júnior, “investir em pesquisa é ter um futuro com garantias reais de permanência no mercado e manutenção da competitividade. Não consigo enxergar o futuro das farmacêuticas sem inovação”. É de iniciativas como essa que nosso país precisa.

Agradecimento a Tati Nahas por instigar o post.

Uma dica para quem quiser saber mais sobre ciclodextrinas: artigo de revisão muito bem escrito, publicado na Química Nova, de autoria de Cristina G. Venturini e col., aqui.
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Discussão - 3 comentários

  1. @Cris
    Falou a autora! hehehe. Eu achei o artigo bom mesmo.
    Bj!
    Fe

  2. Oi! Eu tambem adorei! eheheh Figura muito boa aquela das ciclodextrinas! bjo E esse artigo sobre ciclodextrinas e otimo e bem didatico! (rs)

  3. Tatiana Nahas disse:

    Oi, Fer!
    Que bom encontrar teu post sobre aquela matéria! Enviei com interesses escusos: é que eu precisava que alguém entendido me explicasse 🙂
    Parabéns pelo post muito didático, como sempre!
    Beijão,
    Tati

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