A direção do futuro

Viradas de ano são momentos em que muitas pessoas fazem um balanço sobre suas vidas. Onde acertaram, onde erraram, quais foram seus ganhos e suas perdas no ano que passou. O futuro é vorazmente desejado, e a expectativa de que seja auspicioso embala os primeiros dias de janeiro. O tempo (e como o percebemos) vem sendo foco de discussão de filósofos e poetas desde priscas eras. Para o filósofo Santo Agostinho, somente o presente existe – o passado é memória, o futuro ainda não aconteceu.



“Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito?”
[AGOSTINHO, S. Confissões. 18a. Edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.]


Newton considerava o tempo linear, infinito e completamente dissociado do conceito de espaço. Einstein abalou as estruturas da física ao demonstrar que o tempo pode ser curvado e não existe independentemente do espaço. Stephen Hawking, para completar, afirmou que o tempo teve um início e terá um fim. Os físicos podem ser mais poéticos do que imaginam…
Estava perdida nesses pensamentos filosóficos até esse instante, quando escutei um barulho na cozinha – acabaram de derrubar um copo no chão! Os cacos de vidro que resultaram dessa queda jamais voltarão espontaneamente a ser copo, porque seu grau de desordem (entropia) aumentou. A segunda lei da termodinâmica é inexorável! O universo tende a aumentar sua entropia até um máximo e não há o que possamos fazer a respeito. Um vidreiro poderia coletar os cacos de vidro e reconstruir o copo, mas o seu aumento de ordem implicaria em um aumento de desordem dos arredores (pois energia seria requerida no processo de reconstrução, a qual seria gerada pela queima de combustível – e combustível queimado tem entropia maior que combustível não-queimado).
Se a entropia do universo sempre aumenta, então logicamente a entropia de ontem é menor que a de hoje, que por sua vez é menor que a de amanhã. “O crescimento da entropia designa, pois, a direção do futuro” [Ilya Prigogine, O Fim das Certezas – Tempo, Caos e Leis da Natureza, Editora UNESP, São Paulo, p. 25, 1996]. É a famosa seta do tempo, da qual somos atores, vítimas e, muitas vezes, fugitivos frustrados. Embora a passagem do tempo seja inevitável, a forma como a percebemos pode ser cruel ou apaziguadora. Tudo depende de nosso olhar.
“Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante;
Nem toda a tua Piedade ou o teu Saber a atrairão de volta, para que risque sequer metade de uma linha;
Nem todas as tuas Lágrimas lavarão uma só de tuas Palavras.”
Omar Khayyam (poeta, matemático e astrônomo persa)
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Discussão - 14 comentários

  1. Fernanda Poletto disse:

    Que é isso, Hélio – não há do que se desculpar!!!
    Obrigada pela visita e pelos comentários!
    Abraço,
    Fernanda

  2. Hélio Molina Jorge Júnior disse:

    Fernanda!
    Desculpe-me pelo comentário efetuado antes. É que eu só tinha visto aquele post.
    Você escreve muito bem!
    Promove uma interdisciplinaridade entre ciência e vida cotidiana.
    Parabéns!!!

  3. Sibele disse:

    Excepcional! Parabéns, Fernanda! Bala Mágica cada vez melhor!

  4. luana disse:

    Caramba….eu tenho que fazer essa disciplina.
    Mas como ouvinte, óbvio, hahah.
    bj

  5. Luís Brudna disse:

    Certo. A palavra ´desordem´ é útil para o entendimento rápido dos processos. É como os antigos usos da palavra ´fluido´.
    Parabéns pela coragem de escrever sobre entropia. 🙂 É um terreno pantanoso. 🙂

  6. Fernanda Poletto disse:

    Você tem razão, Brudna. Usei “desordem” como uma aproximação para facilitar o entendimento leigo, mas entropia está mais corretamente relacionada com o número de configurações possíveis do sistema – o que foi genialmente demonstrado por Boltzmann e é a interpretação estatística que o Takata menciona em seu comentário logo acima. A ideia foi tão impactante e é tão bonita que a equação que ele demonstrou, S = k*ln W (sendo S entropia, k a constante de Boltzmann e ln W o logaritmo natural do número de configurações), como sabemos, foi gravada na sua lápide.
    Obrigada por comentar!

  7. Luís Brudna disse:

    É um tanto complicado associar entropia com desordem. O termo ´desordem´ carrega alguns problemas… o que é mais organizado, ABCDE ou ACBED? Ambos dependem de interpretação subjetiva.
    Sei que o teu exemplo foi um pouco alem, tendo ´considerações energéticas´
    Gosto das considerações feitas por Frank L. Lambert, nos sites dele… http://secondlaw.oxy.edu/
    Tipo essa…
    Energy spontaneously tends to flow only from being concentrated in one place to becoming diffused or dispersed and spread out.
    Tem mais sobre isso em artigos dele no Journal of Chemical Education.
    Shuffled Cards, Messy Desks, and Disorderly Dorm Rooms – Examples of Entropy Increase? Nonsense!
    J. Chem. Educ., 1999, 76 (10), p 1385
    DOI: 10.1021/ed076p1385
    Simply changing the location of everyday macro objects from an arrangement that we commonly judge as orderly to one that appears disorderly is a “zero change” in the thermodynamic entropy of the objects because the number of accessible energetic microstates in any of them has not been changed.

    Tenho que reler alguns artigos dele… já perdi o tônus mental sobre a questão. hehe
    Ah… tenho autorização do Lambert pra traduzir uns textos dele. Mas faltou tempo pra continuar.
    Traduzi alguma coisa… aqui>>
    http://www.gluon.com.br/fq/textos/entropia-parte1.html

  8. Muito legal o texto. Mas o que mais me chamou a atenção foi a frase do Omar Khayyam. A minha favorita dele é:
    “Que a tua sabedoria não seja humilhação para o teu próximo. Guarda domínio sobre ti mesmo e nunca te abondone à tua cólera. Se esperas a paz definitiva, sorri ao destino que te fere: não firas a ninguém.”
    Parabéns pelo blog!

  9. Fernanda Poletto disse:

    Oi, Joao!
    Obrigada, esses posts são resultado dos meus estudos para uma disciplina de fisico-química, do doutorado. Não sei se você vai lembrar, mas há um tempão atrás você enviou-me um link cuja referência é um artigo do qual você pediu para que eu comentasse. Pois agora tenho condições de comentá-lo – será a sequência desse post.
    Abraços,
    Fernanda

  10. Joao disse:

    Não é que normalmente não goste dos teus posts. Mas estas numa onda muito bacana.
    Eu tambem penso assim. Nem percebo muito bem que a entropia possa aumentar para os “dois lados” no tempo, como sugere o ROberto Takata. Mesmo o Big Bang é um aumento de entropia.
    E como diz o Brian Green nos ainda não estamos a ver os cacos a saltarem todos juntos para formar um copo. O que aconteceria se puzessemos o filme a andar para trás.
    Na melhor das hipoteses a entropia seria constante, sendo que se aumentava num lado teria sempre de diminuir noutro. E assim seria simetrica no tempo. acabaria a seta. Mas então onde estão esses fenomenos todos para compesar o Big Bang? Até as estruturas dissipativas têm de ter um fonte de energia muito grande (que se orienta pelas leis da termodinamica).

  11. Fernanda Poletto disse:

    Muito legal! Essa área de nanossensores está bem adiantada, e a engenhosidade de algumas soluções encontradas pelos pesquisadores é fascinante. Obrigada pelo link!

  12. Mas pelo raciocínio de Boltzman, a entropia não pode ser a origem da seta do tempo. Pois, embora verdade que ela aumente em direção ao futuro, é esperado que ela aumente em direção ao passado também – ao menos se deixarmos tudo ao cargo da física estatística.
    Discuti isso alhures:
    http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/59639
    http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/59744
    http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/59706
    http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/59718
    —————-
    []s,
    Roberto Takata

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