Um causo sobre cachaça

Na quinta-feira passada, estava eu degustando cachaças numa famosa cachaçaria de São Paulo, na excelente companhia de Igor S. e Rafael, quando vejo meus dois companheiros de mesa rindo e se perguntando se por acaso existia cachaça de silício. O motivo da gracinha foi uma pergunta feita ao garçom pela moça da mesa ao lado: “-Vocês têm cachaça orgânica?
(Se você tiver a oportunidade, experimente a cachaça Paladar, produzida em Minas Gerais e envelhecida em tonéis de Amburana. Satisfação garantida.)
Lógico que eu também achei a maior graça do pedido da moça e da gracinha subsequente, porque sempre associei “orgânico” com “tudo aquilo que possui cadeias de carbono e hidrogênio na sua estrutura”. Fui buscar outros usos do termo “orgânico” e, para minha surpresa, descobri a Lei No 10.831, de 23 de dezembro de 2003, que dispõe sobre agricultura orgânica. De acordo com o Art. 1º desta Lei, “[c]onsidera-se sistema orgânico de produção agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas, mediante a otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não-renovável, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer fase do processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e comercialização, e a proteção do meio ambiente.” De acordo com o Art. 3º do Decreto No. 6323, que regulamenta essa lei, são diretrizes da agricultura orgânica I – contribuição da rede de produção orgânica ao desenvolvimento local, social e econômico sustentáveis; IV – incentivo à integração da rede de produção orgânica e à regionalização da produção e comércio dos produtos, estimulando a relação direta entre o produtor e o consumidor final; entre outras. Fica claro, lendo a Lei No. 10.831 e o Decreto No. 6323, que a cultura orgânica é mais que um processo sem agrotóxicos de origem sintética. É praticamente uma filosofia de vida.
É inegável que a quantidade reduzida de agrotóxicos nos produtos orgânicos em comparação com os convencionais pode ser vantajosa para a saúde humana. Mas isso é uma vantagem ambiental? Pode parecer estranho levantar esse questionamento, mas ao perguntar a Luiz Bento do Discutindo Ecologia, qual sua opinião sobre o assunto, meu colega de SBBr citou um artigo científico sobre o tema e contou-me que, “como a agricultura orgânica não usa organismos geneticamente modificados e nem excesso de agrotóxico e fertilizante, a sua produção por hectare acaba sendo menor. Dessa forma, seria preciso uma área maior de plantio para ter uma produção equivalente à da agricultura tradicional. O resultado seria um maior impacto na biodiversidade. Em resumo: melhor por um lado, pior por outro.”
Em termos nutricionais, não há dados conclusivos de cunho epidemiológico que mostrem que tais produtos são mais nutritivos que aqueles de origem orgânica. No entanto, a maioria das pessoas procura os alimentos orgânicos porque estes são “mais saudáveis”. Isso permite concluir que há um fator subjetivo forte nesse tipo de compra. Isso acaba elevando bastante o preço de produtos orgânicos no varejo, embora o seu custo de produção seja relativamente semelhante ao de produtos convencionais. Ora, então comprar diretamente do produtor acaba sendo não só ambientalmente menos impactante – pois elimina os intermediários e toda a poluição causada por eles -, como também muito mais barato.
No fim das contas, alimentos orgânicos podem ser uma ideia interessante, mas não são a “salvação da lavoura” (belo trocadilho do Luiz Bento!). Consumir menos sempre é melhor que consumir muito, por mais “verde” que seja o produto.
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Discussão - 21 comentários

  1. Fernanda Poletto disse:

    Verdade… Quando a discussão é puramente emocional, é fácil descambar para o preconceito (de ambos os lados)

  2. Humberto disse:

    Bom, uma coisa eu tenho certeza…
    Transgênicos/agrotóxicos/orgânicos deveriam
    ser tema de MUITOS, MUITOS debates e não essa
    briga política que virou a coisa.

  3. Selma Clemes Kulkamp disse:

    Obrigada pelas informações!
    Sempre aprendemos coisas novas a cada dia. E no que se refere ao cultivo orgânico dos alimentos, penso que um dos aspectos positivos não foi mencionado: a policultura em pequenos espaços, com presença de vegetação nativa e consequente aproveitamento da presença dos animais, visando ao equilíbrio do ecosistema (coisa que agroTÓXICOS não permitem).

  4. Fernanda Poletto disse:

    Bacana, Mauro!
    Obrigada pela indicação

  5. Mauro Rebelo disse:

    Aqui está a referência do artigo que eu mencionei acima: Ames & Gold 2000 Paracelsus to parascience: the environmental cancer distraction. Mutation Research/Fundamental and Molecular Mechanisms of Mutagenesis. 447:3-13
    É ótimo!

  6. Joey Salgado disse:

    Hehe, você realmente precisa passar essas músicas para a gente ouvir, Igor! Com as letras, por favor, rs.

  7. Igor Santos disse:

    Ítalo, não concordo com sua ideia de generalização.
    Não foi dito que qualquer plantação “orgânica” é intrinsicamente menos produtiva, mas que o conjunto total o é. Ou isso está errado? A produção tradicional geral não é mais eficiente que a orgânica?
    Quanto ao resto do comentário eu acho que você tem razão.
    Só gostaria de completar que também torço para que o ScienceBlogs não caia na aridez acadêmica.
    Pessoas que sabem usar humor ao informar devem continuar a fazê-lo.

  8. Mauro Rebelo disse:

    Fernanda, ótimo texto. Precisamos desmistificar esses ‘orgânicos’ mesmo. Os organofosforados que consumimos como resíduos de agrotóxicos nos alimentos são um percentual ínfimo do percentual de organofosforados naturais presentes nos vegetais. Daqui a pouco eu posto uma refência super legal sobre isso aqui pra vocês.

  9. A coisa não é tão simples assim. Generalizações são sempre perigosas, ainda mais em termos científicos, em que as questões não são tão dogmaticamente fechadas. A agricultura orgânica não se resume à ausência do uso de adubos minerais e agrotóxicos. Tampouco é sempre verdadeiro que a produtividade em sistemas orgânicos seja invariavelmente menor que a agricultura convencional.
    Embora nutricionalmente não haja diferença entre produtos ditos orgânicos e aqueles produzidos sob sistemas convencionais, as concentrações de resíduos de agrotóxicos, obviamente, tendem a ser menores nos produtos orgânicos. Além disso, há agrotóxicos cuja ação é sistêmica, ou seja, agem quando são absorvidos pelas plantas – neste caso, se certo período de tempo não for observado entre sua aplicação e a colheita, pouco importa lavar o produto ou não.
    Embora acredite sinceramente no potencial positivo da tecnologia da transgenia para a agricultura, principalmente se não houver monopólios de multinacionais, creio ser ainda um exagero considerar que a eliminação de culturas geneticamente modificadas causaria fome no mundo – além do algodão, cultivado pela fibra, a maior parte dos cultivos transgênicos no mundo são de soja e milho que servirão como ração animal para alimentar as bocas dos países desenvolvidos, principalmente. Também é ingênuo considerar que esta tecnologia é isenta de riscos.
    A agricultura orgânica, e outras práticas agroecológicas, também visam a melhoria ou conservação dos recursos naturais no próprio agroecossistema e entorno e isto raramente é considerado.
    Creio que todos temos direito de dar opinião, mas em um blog de ciência, ou em qualquer meio de divulgação científica, a opinião deve ser minimamente bem informada, sob o risco de desinformar muito mais do que informar. A questão da agricultura orgânica, da agricultura agroecológica, da própria agricultura dita convencional é muito mais complexa do que imaginam certos meios de comunicação mal informados e francamente “agrófobos”. Torçamos para que o ScienceBlogs não caia na tentação da discussão fácil e superficial.

  10. Renan disse:

    Não tenho nada a acrescentar. Apenas recomendo o episódio de Penn & Teller’s Bullshit! sobre Alimentos Orgânicos. Não é nenhum tratado científico, mas vale muito pelas risadas =P.

  11. Fernanda Poletto disse:

    Você conseguiu bolar essa frase (rimada!) para uma música? Nossa, eu preciso ouvir suas músicas! 🙂
    Seu argumento é válido, se formos avaliar tudo o “que pode fazer mal”, não nos alimentamos mais… [modosarcásticoon] e nem respiramos também (quer oxidante melhor que oxigênio?) [modosarcásticooff]

  12. Igor Santos disse:

    Douglas, a maioria das pessoas acha que o que comemos hoje existe “naturalmente”. Triste.
    Fernanda e Joey, eu usei de um argumento exagerado para demonstrar (pessimamente, vendo agora) que a quantidade de agrotóxico ingerida pelo consumidor é mínima.
    “Uma xícara de café contém mais carcinógenos naturais que o equivalente a um ano de resíduos de agrotóxicos consumidos em frutas e demais vegetais” (eu sei que é verdade porque usei essa frase numa música minha).

  13. Cris disse:

    Oiiii!
    tenho que comentar! porque eu acreditava muito nos produtos organicos ate agora! achava interessante essa questao de nao utilizar agrotoxicos, mas agora estou em duvida. Porque a producao e’ menor, os locais que eu compro produtos sem agrotoxicos, vendem alface, por exemplo, ao dobro do valor que estamos acostumados a pagar. Conversando com o dono de uma dessa lojas ele me disse que compra de uma pessoa que praticamente tem uma horta atras de casa! Realmente as pessoas nao conseguem produzir em grandes quantidades!

  14. No último comentário, a Fernanda tocou pra mim no ponto mais importante dos orgânicos: não prejudicarem a saúde de quem trabalha no campo. Porque, de resto, a agricultura orgânica, como qquer outro tipo de agricultura, causa SIM impactos na biodiversidade. O que é preciso ser feito sempre é dosar se o benefício supera as desvantagens.
    Outro ponto importante que eu gostaria de colocar, até mesmo por eu trabalhar área de Genética Vegetal: é muito comum as pessoas (e inclusive a própria Lei que regulamenta a Agricultura Orgânica) terem uma visão na qual organismos geneticamente modificados e/ou melhoramento genético de qualquer tipo é a oposição a agricultura orgânica. De maneira nenhuma!
    O desenvolvimento de uma variedade de planta que tenha capacidade de crescer melhor, seja por transgenia ou por melhoramento “clássico”, é uma coisa boa pra agricultura, seja ela orgânica ou não. E pode, ao mesmo tempo, diminuir o uso de agrotóxicos e aumentar a produtividade por área, evitando assim o uso de mais terras. Pensem nisso…

  15. Joey Salgado disse:

    @Igor
    Há o problema de certos tipos de agrotóxicos clorados, que oxidam e geram compostos menos solúveis em água e com mais afinidade à membranas, ou mesmo, que nesse processo formam substâncias menores que permeiam mais facilmente a casca, acumulando no interior do alimento.
    Mas, como a Fernanda apontou, o problema maior reside na longa exposição continuada, como acontece com agricultores.

  16. Fernanda Poletto disse:

    Num dos seminários da pós-graduação do instituto de química da UFRGS, há cerca de 1 mês, assisti à palestra de uma aluna que trabalha com o assunto. Ela nos mostrou dados muito interessantes sobre os níveis de agrotóxicos nos alimentos. Pena que não tenho tais dados para mostrar aqui, mas algo pode ser encontrado nesse site da ANVISA: http://www.anvisa.gov.br/DIVULGA/noticias/2009/150409_1.htm .
    Confesso que fiquei um pouco assustada naquele dia. Nem todos os agrotóxicos ficam apenas nas cascas, depende da composição química – por mais que se lave com água, nem tudo é retirado. Por isso, a recomendação é ingerir uma grande variedade de alimentos, pois para cada um é usado um tipo de agrotóxico diferente.
    Nesse ponto, acho que os alimentos orgânicos podem ser interessantes, mas não se pode exagerar seus benefícios – que, na minha opinião, residem principalmente na redução da exposição do PRODUTOR aos agrotóxicos, já que a exposição ocupacional sempre é a mais grave.

  17. Igor Santos disse:

    Agrotóxico fica na casca e sai lavando. Se o povo fosse menos porco temeria menos a comida que come.
    Se eliminarmos produtos geneticamente não teríamos mais o que comer.
    Fora do ciclo da moda, dificilmente um produto “orgânico” é melhor, pois precisa também de fertilizantes e pesticidas que, por não contarem com a eficiência da produção em massa, são caros, dispendiosos e produzem muita sujeira.
    Agricultura orgânica não é tão limpinha quanto os modistas fazem parecer.
    E a inclusão de um sempre que possível num texto de lei sempre deixa a porteira aberta a sacanagens.
    P.S. Desde que cheguei que estou trabalhando em um aguardente inorgânico. Aguardem o lançamento da Quartzchaça.

  18. Júlia disse:

    Agora vou pra São Paulo só para tomar a cachaça!

  19. Rafael_RNAm disse:

    Ufa, ainda bem q vc colocou o nome da cachaça ae. Eu queria lembrar mesmo.
    E vamo q vamo no desenvolvimento da cachaça de silicio! Região de produção: Vale do Silício.

  20. Joey Salgado disse:

    Isso de alimento orgânico, para mim, é uma piada. Principalmente porque, certa feita, contei para alguém que eu trabalhava com química orgânica, ao que a pessoa disparou “ah, você mexe com alface, é?”
    Macaquinho do Chongas para esse acéfalo => http://scienceblogs.com.br/rnam/macaco-chongas.jpg
    😉
    Inté!

  21. Também estranho até hoje o uso da palavra ‘orgânico’ com essa acepção. Os franceses dizem ‘biologique’ – o que não é muito melhor… Imagine só: “Tem tomate biológico?” “Tem não”. “Então vai o abiótico mesmo”…

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