Blogs de ciência podem estimular o engajamento público em temas de C&T?

Há pouco mais de um ano, percebi que havia uma grande lacuna no conhecimento das pessoas em geral sobre nanobiotecnologia e seus impactos. E as pessoas têm o direito de saber sobre esse assunto, sem histrionismos ou falácias, já que esta tecnologia estará cada vez mais presente no dia-a-dia de todos. Não sou jornalista, não sou dona de revista ou jornal, nem sequer faço parte do corpo docente de alguma universidade (ainda sou aprendiz, com todas as vicissitudes de tal condição). No entanto, tenho um computador e acesso à internet, além de ideias… e um gosto especial pela escrita. Daí a usar um weblog como ferramenta para divulgar o tema Nanobiotecnologia, que é meu foco de estudo offline, foi um pulo. Mas qual meu objetivo, no final das contas? Informar? Ensinar? Criticar? Intercalar a função de arauto da boa-nova com a de advogada-do-diabo frente a um suposto milagre? Talvez tudo isso junto. Engraçado como às vezes só refletimos mais profundamente sobre nossas práticas quando há um estímulo pontual para que isso aconteça. O meu foi um convite muito especial que recebi há alguns meses: participar de uma mesa-redonda intitulada “A prática da divulgação científica e as novas mídias sociais”, que ocorrerá durante a VIII Escola do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT). O tema é novo e ainda se falará muito dele: como (e porque) weblogs e redes sociais podem ser agentes difusores do conhecimento científico e gatilhos para o engajamento público nos temas de C&T. No entanto, é difícil entender o novo sem conhecer aquilo que o precedeu. Por isso, olhar para trás foi meu primeiro movimento para tentar clarear algumas ideias que vêm rondando meus pensamentos desde que o Bala Mágica foi lançado.
Antes do século XVII, não havia uma distinção clara entre ciência e filosofia. A partir do século XVII, alguns pensadores, como o italiano Galileu Galilei (1564-1642), o francês René Descartes (1596-1650) e o inglês Isaac Newton (1642-1727), quebraram paradigmas ao defender o uso da experimentação, do método, da matemática e a exclusão do misticismo para entender os fenômenos naturais. Não é a toa que os historiadores chamam esse período de Revolução Científica. Logicamente, o ambiente social daquela época propiciou tal revolução. Dentre os acontecimentos que favoreceram a Revolução Científica cabe destacar a invenção da prensa móvel pelo alemão Johannes Gutenberg (1398-1468), que por si só já iniciou outra revolução, a da Imprensa. Eis a primeira reflexão: comunicação sempre foi uma peça-chave para o estabelecimento e a propagação da ciência.
O advento da imprensa tirou as amarras impostas por um conjunto de clérigos sobre o que é a Verdade, já que a produção de material escrito não era mais privilégio de alguns sacerdotes enclausurados em seus mosteiros. Estava dada a largada para a disseminação do livre-pensamento. Pelo menos na teoria e pelo menos para os “incluídos”, capazes de ler. Desde então, o número de alfabetizados aumentou, e o custo para adquirir livros, revistas, jornais, etc foi se tornando mais acessível. De lá para cá, a ciência evoluiu e, com ela, cresceram as esperanças de que as descobertas científicas contribuiriam para tornar o mundo um lugar melhor. Começou a surgir a noção de que era preciso “educar o povo” nas coisas de ciência, por meio da transmissão do conhecimento do especialista para o leigo, de forma verticalizada. No entanto, o acúmulo de informação não significa a compreensão dessa informação. E a informação fora de um contexto socioeconômico raramente desperta interesse público. Isso é particularmente importante no caso de assuntos científicos, porque a ciência gera muito mais perguntas que respostas, e jamais será capaz de oferecer uma Verdade, mas apenas modelos e aproximações. Essa ideia de transmissão verticalizada da informação passou a ser questionada, e estratégias dialógicas foram (e ainda são) propostas para substituí-la. Passou-se a falar em dar uma chance ao diálogo entre cientistas e leigos. E um diálogo é feito de perguntas e respostas. Eis a segunda reflexão: talvez a comunicação científica deva cada vez mais incluir as perguntas, e não só oferecer as respostas. A comunicação de ciência não pode mais ser uma via de mão única. Afinal, cabe à sociedade debater quais perguntas são mais importantes/urgentes, pois é esta sociedade quem sentirá as implicações dos avanços da C&T. Mais que informar sobre as últimas novidades dos periódicos científicos, a divulgação científica deve fomentar o exercício da cidadania.
Será que a internet, com seu efeito de rede e alto poder de disseminação de informações, pode fazer diferença nesse processo? Quais seriam as consequências disso e os desafios a serrem enfrentados, hoje e no futuro? Essas perguntas suscitaram mais reflexões, que reservo para o debate com os professores Dulcidio Braz Júnior (do blog Física na Veia!) e Leandro Tessler (IFGW/UNICAMP, do blog Cultura Científica), com moderação do professor Marcelo Knobel (IFGW/UNICAMP), nessa terça-feira (20/07), que ocorrerá às 18h30min no CBPF.
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Discussão - 11 comentários

  1. supratall disse:

    Acabei de entrar nesse mundo da ciência, curso primeiro periodo de Biomedicina na Federal Fluminense, e quero parabenizá-la pelo blog, pelas idéias, e por me permitir conhecer de modo fácil esse mundo fascinante da nanotecnologia. Vou voltar sempre =)

  2. E aí Fernanda. Sou teu colega, estudo aqui do outro lado da Ramiro Barcelos Comunicação Científica e exatamente o tema de minha tese creio que seja do teu interesse blogs. Mais especificamente os links nos blogs de pesquisadores brasileiros.Sou professor do Departamento de Ciências da Informação e gostaria de saber se tu tens um tempo para um rápido café, ou quem sabe uma entrevista. Se der, mande um rama por -email.
    Abraços

  3. HPLC disse:

    Quanto mais informação ao alcanse das pessoas, melhor!

  4. Fernanda Poletto disse:

    Oi, Osame
    Sem dúvida, preciso me aprofundar no assunto. Não tenho pretensão de me considerar autoridade nele (que é tema para uma vida inteira, e comecei a estudá-lo há pouco). Nesse texto, me referi aos monges copistas. Eles também eram responsáveis pelo ensino, mas para jovens que se tornariam religiosos também. Filhos de famílias nobres e ricas aprendendo coisas por lá sem a perspectiva de seguir o caminho da religião eram a minoria. No fim das contas, o conhecimento formal da época ficava restrito a um grupo ligado à Igreja, e era fortemente centrado nas questões teológicas…
    Obrigada pela sugestão de leitura, sempre é bom 🙂
    Abraço,
    Fernanda

  5. Giulia disse:

    Acabei de entrar nesse mundo da ciência, curso primeiro periodo de Biomedicina na Federal Fluminense, e quero parabenizá-la pelo blog, pelas idéias, e por me permitir conhecer de modo fácil esse mundo fascinante da nanotecnologia. Vou voltar sempre =)

  6. disse:

    Parabéns,Fernanda,pelo post(excelente) e pela participação na mesa! E para Sibele ,também meus parabéns,muito bem colocado os motivos da necessidade de “educar o povo”.
    abraços

  7. Sibele disse:

    Excelente, Fernanda! Sucesso à mesa-redonda e que essa sua oportuna reflexão extrapole as discussões ali.
    E repito a pergunta da Tati: será que vão disponibilizar o vídeo, ou terá live streaming?
    Quanto a essa sua assertiva: “Começou a surgir a noção de que era preciso ‘educar o povo’ nas coisas de ciência, por meio da transmissão do conhecimento do especialista para o leigo, de forma verticalizada“, é preciso esclarecer o porquê de ser preciso ‘educar o povo’.
    Essa noção só surgiu pela necessidade imposta pelo modelo econômico vigente – orientado para o alto desempenho dos meios e processos produtivos, impulsionando a evolução da técnica e das tecnologias, e ao mesmo tempo gerando um progresso científico e tecnológico sem precedentes na humanidade, e que exige uma operacionalização mais intensiva e especializada. Mas a alta complexidade tecnológica perpetrada por tal modelo não é acompanhada pela formação e capacitação técnica dos contingentes humanos necessários, devido, entre outras condições restritivas, às deficiências do sistema educacional, tornando as tentativas de adesão insuficientes para manter a prerrogativa de eficiência e eficácia exigida. O que vemos são as massas crescentes de “analfabetos funcionais”, “analfabetos digitais” e “analfabetos científicos”.
    Essa problemática induz a novas abordagens, forjadas pela necessidade de enfrentamento dos desafios gerados pelo modelo: a noção de transdisciplinaridade e diversidade, de multidimensionalidade e de interação dos fenômenos, a necessidade da recomposição dos saberes e das ações de âmbitos antes não devidamente considerados, como o educativo, o psicossocial, o comunicacional. Tais novos conceitos convergem na ideia da sociedade em rede, que ganha destaque como modelo dinâmico, dialógico e participativo, e que substituirá aquele tradicional ainda vigente, de estrutura piramidal e baseado na linearidade e ascendência. Essa nova abordagem envolvendo noções como rede, complexidade, diversidade e interação dissemina-se em várias áreas e direcionam sua ressignificação para o enfrentamento de tais desafios, mas não podemos perder de vista seu fulcro, primariamente e essencialmente, econômico.

  8. Tati Nahas disse:

    Bela reflexão, Fer! Peninha não assistir à mesa redonda… Você sabe se irão gravar e disponibilizar o vídeo na web ou se haverá transmissão ao vivo por streaming?

  9. Luiz Sampaio disse:

    Muito bom, Fernanda.
    Nos veremos no CBPF.

  10. Osame disse:

    Curti o post, mas acho que valeria a pena vc se aprofundar na Historia da Ciencia, Fernanda. Duas sugestoes:
    http://www.americanas.com.br/AcomProd/1472/129592
    Acho que o consenso dos historiadores é que Newton é o ultimo mago renascentista, nao o primeiro cientista moderno.
    http://comciencias.blogspot.com/2010/05/roberto-martins-e-divulgacao-cientifica.html
    E acho que os seguidores de Aristoteles eram legitimos professores em academias e universidades, e nao monges enclausurados em mosteiros…

  11. Dayse Lima disse:

    Estamos aguradando impacientes por essa discussão, Fernanda!

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