Da arte clássica à arte quântica

Levante a mão aí quem nunca recebeu um spam sobre física quântica, a la “Quem somos nós”. Pois é, não é só nanotecnologia que está na moda, física quântica também está. Conceitos difíceis, como o princípio da incerteza de Heisenberg, são falaciosamente deturpados para convencer o leitor de que ele é capaz de modificar o universo – nada mais óbvio, não? Se o observador influencia o objeto observado, e estamos todos inseridos no Universo, influenciamos o Universo! Sem entrar no mérito se influenciamos ou não o Universo (ou pelo menos o quanto nosso quarto permanece arrumado ao longo de uma semana), é uma tremenda sacanagem usar o princípio da incerteza como base para essa argumentação, porque o princípio da incerteza é válido para dimensões no máximo da ordem de alguns poucos nanometros (e olhe lá…)!! Levante a mão aí quem tem um tamanho total menor que alguns nanometros (update 10-07-2010, vide comentário 2) e está próximo do zero absoluto.
Pois bem, essa digressão feroz foi só uma digressão, mesmo. O que queria mostrar a você hoje é o uso não-falacioso do termo quântico ligado a algo que enleva o espírito: a arte. Sim, arte quântica. Em 2007, Ee Jin Teo (National University of Singapore) criou uma réplica fotoluminescente 500 x 500 micrometros do quadro “The Ancient of Days”, de William Blake. A “tela” consistiu de silício poroso, e o “pincel” foi um feixe de helio, com subsequente impressão eletroquímica em ácido fluorídrico. Devido ao efeito de confinamento quântico, emissão de luz visível é observada a partir do esqueleto de silício de dimensão nanométrica criado após a impressão. A pré-irradiação com um feixe de hélio é capaz de mudar a resistividade local do silício e o comprimento de onda de emissão da luz do silício poroso formado. Quanto maior a dose do feixe, mais para o vermelho o comprimento de onda da fotoluminescência é deslocado dentro do espectro de luz (que na faixa do visível vai do azul arroxeado, passando pelo verde, amarelo, laranja, até o vermelho). Altíssimas doses deslocam tanto o comprimento de onda que ele sai da faixa do visível, resultando nas partes da imagem que percebemos como preto. A obra de arte quântica rendeu a Teo o primeiro lugar no prêmio de 2007 “Science as Art”, da MRS, empatado com outras obras também sensacionais (uma delas já apresentada aqui).
ancient of days.jpg
PS.: de acordo com o princípio da incerteza, não é possível determinar ao mesmo tempo, com alto grau de precisão, a posição e o momento de uma partícula porque, para observa-la, é preciso fazer incidir sobre ela um raio de luz. Esse raio de luz afeta a partícula: 1) se ele for pouco energético (com comprimento de onda longo), perturbará menos a partícula e conseguiremos determinar sua velocidade, mas não será possível determinar a sua posição com precisão maior do que a distância entre cristas de onda sucessivas; 2) se o raio de luz for muito energético (com comprimento de onda curto), será possível determinar a posição da partícula com maior precisão, mas isso afetará bastante sua velocidade.
outro PS.: 500 micrometros é o mesmo que meio milímetro.
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Discussão - 9 comentários

  1. Victor disse:

    oi eu sou o victor,sou filho da porf tania, voce poderia me comentar sobre os liquiodos nao newtonianos porque eu presciso das informaçoes sobre eles para um trabalho para a escola.

  2. HPLC disse:

    Bem interessante!

  3. No Ano Internacional da Biodiversidade, o Museu Exploratório de Ciências (MC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realiza no dia 12 de agosto, em Campinas, o fórum “Biodiversidade em perspectiva: patrimônio genético, patentes e pirataria”. Afinal, a quem deve pertencer os royalties das descobertas científicas no Brasil e no resto do mundo?
    O evento é gratuito e acontece no Auditório do Centro de Convenções da Unicamp (CDC) das 9 às 17 horas. Podem participar pesquisadores, professores, estudantes e demais interessados no assunto. As inscrições devem ser realizadas no site http://www.cgu.unicamp.br até o dia 10 de agosto.

  4. Pô Fernanda,
    Faltou você falar da medicina quântica. Nada a dizer sobre esta nova forma de terapia? Um grande amigo meu, cientista, a utilizou. E me disse que se sentiu bem melhor. Dureza.

  5. Rodrigo disse:

    Sim, muito bom. Gostei de você não ter se apegado apenas nas questões artísticas do quadro e seu significado tecnológico. Muito válido você tentar passar para nós algo da técnica da sua confecção. Forte abraço, Rodrigo.

  6. saulo marx disse:

    gostei daqui. voltarei mais vezes. parabéns.

  7. Fernanda Poletto disse:

    Oi, Osame
    Você está correto – em condições especiais de laboratório, fenômenos quânticos podem ocorrer em escala macroscópica. Um artigo que pode ser acessado aqui mostra a produção de um condensado de até 100 milhões de átomos (!) (link gentilmente indicado pelo Renan). Para o leitor mais curioso, sugiro a leitura desse excelente texto do professor Amir O. Caldeira, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp.
    Abraços,

  8. Fernanda, na verdade com os condensados de bose einstein e outros fenomenos quanticos macroscopicos, acho que a escala quantica nao é necessáriamente nanometrica. Na verdade, uma onda plana eletronica (ao contrario de um pacote de ondas) tem comprimento infinito (e incerteza maxima na posicao do eletron).

  9. Joey Salgado disse:

    Belíssimo. Interessante representar em escala micrométrica a visualização da criação do universo, ordens de grandeza maior. (Bom, pelo menos para mim foi o que Blake quis simbolizar com essa pintura, hehe).
    Abraço!

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