Pensamento de Segunda

“A ciência pode purificar a religião de erros e superstições. A religião pode salvar a ciência da idolatria e dos falsos absolutos.”

Papa João Paulo II

Erbos a atircse ad eset – Ou de como se escrever de trás pra frente

Escrever de trás para frente

Escrever de trás para frente. Fonte: artlivros.wordpress.com

Essa semana o Mauro Rebelo publicou no Você que é Biólogo um texto com a tese dele sobre como escrever uma tese. Eu ia fazer um comentário no texto dele, mas aí o comentário foi crescendo tanto que resolvi transformá-lo num post apresentando minha própria tese sobre como escrever uma tese.

Eu e o Mauro concordamos em pelo menos uma coisa, começar pelo título e terminar na bibliografia é bem pouco produtivo. Mas acredito que meu método seja um pouco mais direto que o dele. Gosto de dividir a tese (artigo, monografia etc) em dois longos argumentos, um para a introdução e um para todo o resto do texto. Depois basta escrevê-los de trás para frente, começar pela conclusão e então escrever as premissas.
O primeiro argumento para mim termina com algo do tipo: “Portanto, responder a pergunta… é importante.” Daí vou preenchendo com os argumentos que me levaram a chegar àquela pergunta, em especial mostrando o que já foi estudado e onde o assunto está mal explicado.
No segundo argumento eu começo contando a principal conclusão do estudo numa resposta bem direta à pergunta do argumento anterior. É isso que dá ligação às duas partes do texto. A partir dessa conclusão busco listar os argumentos que me levaram a ela colocando meus dados para dialogar com a bibliografia, a soma desses dois pedaços produz minha discussão. Os resultados são a lista dos dados que usei na discussão para embasar minha conclusão. Na metodologia listo os procedimentos que me levaram àqueles resultados. Por fim, volto a amarrar as duas partes do texto listando as predições que me levaram àqueles métodos.
Acredito que assim os textos ficam mais concisos e é difícil omitir alguma premissa importante sem querer. Para ser honesto, a tese não é exatamente minha. A ideia de escrever de trás para diante é do Prof. Bill Magnunson do INPA. Já a dos dois argumentos é do Prof. Gilson Volpato da UNESP. Pronto, essas formulas são sempre um clichê e meio inúteis, mas fica aí o meu modelo. Espero que ajude alguém.

Perito Criminal – Profissão Biólogo

Pensamento de Segunda

“Eu não tenho filosofia, tenho sentidos

se falo na natureza não é porque saibam o que ela é

mas por que a amo, e amo-a por isso

porque quem ama nunca sabe o que ama

nem sabe por que ama, nem o que é amar

o amor é a eterna inocência

e a única inocência é não pensar.”

Fernando Pessoa (Aberto Caeiro)

Pensamento de Segunda

“É preciso saber falar claramente. Os jargões da terminologia científica são lixo mental.”

Martin Fischer

Pensamento de Segunda

“A consciência é algo tão misterioso para nossa própria espécie que não dá para tentar avaliar sua existência em outras.”

Lewis Thomas

Analista de meio ambiente – Profissão Biólogo

Pensamento de Segunda

“O homem, por natureza, deseja saber”

Aristóteles

O macaco prego brigão

Naquela manhã no consultório psicanalítico…

Essa carinha fofa engana, o macaco prego é bom de briga
Essa carinha fofa engana, o macaco prego é bom de briga. Fonte: wikipedia.com

 

Era a primeira vez que a doutora contratava um secretário e ela já estava arrependida. De um lado da antessala estava o dito cujo, contido à força por ela. Do outro, dois macaquinhos. O da frente, o líder do bando, com uma expressão assustada continha o outro que, irado, tentava desvencilhar-se e voltar a agredir o secretário.

O macaco dominante resolveu a contenda empurrando para dentro do consultório o colega irado. Quando a doutora entrou o macaquinho estava empoleirado no encosto do divã com a cauda enrolada à haste do abajur e o peito arfando. A doutora sentou-se na poltrona com o bloquinho na mão e o cabelo desgrenhado.

- Deixe-me adivinhar. Ímpetos de violência incontrolável?

- A senhora é boa mesmo, doutora. – Resmungou o primata com desdém.

- Quer me contar sobre sua semana?

- Eu tenho escolha?

- Sempre! Você paga a consulta agora e se livra de mim na hora.

- Foi uma semana normal. Comemos frutos, um ou outro inseto, patrulhamos o território, cuidamos de nossas fêmeas e dormimos. Nada excepcional. – Após alguns segundos de silêncio no fim da frase a analista sacou o bloquinho de recibos da gaveta.

- Ok! Ok! Vamos conversar. Meu líder não me deixa sair daqui antes do fim da consulta. – Protestou o macaco prego contrariado.

- Vamos começar por ele então. Como é a relação de vocês? – Perguntou a psicóloga guardando o talão de recibos.

- Ele manda e eu obedeço. Próxima pergunta.

- Na próxima resposta agressiva eu encerro a consulta. Você se sente valorizado por ele?

- Subordinados nunca são valorizados.

- E isso te incomoda. – Foi mais uma afirmação do que uma pergunta, mas a única saída para o macaquinho era responder.

- Eu não me importo muito. Dá para ver que alguns macacos são mais bem tratados, mas eu não ligo.

- Como foi a briga que o trouxe aqui?

- Qual delas? Na que eu peitei um bando inteiro com 20 machos? – Debochou o macaquinho que agora escorregou pelo encosto e deitou-se no divã relaxado.

- Você se acha muito poderoso com essa sua atitude agressiva, né?

- De certa forma, sim.

- Seu líder também acha isso?

- Mas que saco! Essa consulta é sobre mim ou sobre ele? – Gritou o prego mostrando os caninos inferiores.

Passaram-se alguns instantes que pareceram horas para o macaco enquanto sua expressão agressiva dava lugar a um beicinho de tristeza.

– Não, ele não me valoriza. – Bingo. A analista acertou na mosca.

- Sr. Cebus, é comum que animais sociais ousem agredir quando eles esperam construir uma reputação. Também é comum que macacos sejam agressivos quando sabem que podem contar com o apoio do bando, mesmo que haja mais oponentes. Essa sua violência é só vontade de ser notado, respeitado e recebido pelo grupo. Mas existem outras formas que não colocar seu bando em risco toda vez que escuta um grupo rival.

- É, eu sei. Acho que devo desculpas ao meu bando e ao seu secretário. – Respondeu o macaquinho cabisbaixo.

A presença da doutora entre o cliente e seu secretário era quase uma escolta. Ela observou o cliente e seu líder seguindo até o elevador certa de que tinha feito seu melhor, mas preocupada com o prego. Ser terapeuta não é fácil.
ResearchBlogging.org

Meunier, H., Molina-Vila, P., & Perry, S. (2012). Participation in group defence: proximate factors affecting male behaviour in wild white-faced capuchins Animal Behaviour, 83 (3), 621-628 DOI: 10.1016/j.anbehav.2011.12.001

Pensamento de Segunda

“Encantamento é o que leva à filosofia, é um tipo de desejo pelo conhecimento.”

São Tomás de Aquino

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