Evitando virar almoço 2 – Camuflagem
A técnica dessa semana de evitar virar comida talvez seja a mais conhecida delas. Entendo aqui camuflar-se estritamente como ter uma cor que se confunde com o meio. Essa é uma técnica mista, porque envolve a forma passiva, simplesmente ter a cor do ambiente que você ocupa, e uma forma ativa, nas espécies que mudam de cor ou que viram seu lado menos colorido quando se sentem ameaçados (pense numa borboleta que tem um lado da asa azul royal iridescente e o outro acinzentado como uma casca de árvore).
Alguns animais são mestres do disfarce e se camuflam absurdamente bem. Mas pense que uma leve capacidade de se camuflar já pode reverter em sobrevivência e ser valorizada em termos evolutivos. Esses exemplos de camuflagem perfeitos demais me preocupam um pouco porque parecem que foram desenhados por alguém com um propósito. Não foram! Parecer 10% com uma folha seca pode significar 10% mais sobrevida, 10% mais filhotes e, voi là, está fixada a característica.
Um problema da camuflagem é que em geral ela limita os ambientes em que um animal pode viver. Imagine um dragão do mar como o da foto acima num costão rochoso, ou uma aranha como essa numa flor vermelha. A solução para isso apareceu em animais que mudam de cor e, com isso, conseguem se esconder em vários ambientes. O exemplo clássico são os camaleões, mas pessoalmente invejo muito mais os linguados e as sibas. Especialmente em vésperas de prova quando todos os alunos estão procurando você para tirar dúvidas e tudo o que queremos é sumir.
Pensamento de Segunda
Se você quer ir depressa, vá sozinho. Se você quer ir longe, vá acompanhado.
Provérbio africano
Evitando virar almoço 1 – Coloração disruptiva
Os animais têm um monte de técnicas para evitar virar comida dos outros animais. Algumas são técnicas ativas, comportamentos que o animal realiza. Outras são formas passivas, características que o animal sempre tem, que servem de proteção. Nas próximas semanas veremos algumas dessas técnicas a começar por hoje.
Predadores frequentemente precisam escolher uma presa e atacá-la individualmente. Já reparou como uma alcateia de lobos isola um búfalo? E se for difícil saber onde começa um animal e onde termina o outro? Experimente contar quantas zebras tem na figura acima. Espero as respostas nos comentários. Agora imagine esse monte de listrinhas correndo e se embaralhando. Espero que você não tenha labirintite.
Pensamento de Segunda
Quando a natureza ganha voz ela conta segredos tão profundos que só em sonhos somos capazes de compreender.
Gustav Mahler
O futuro da água
Uma vez assisti uma palestra falando sobre o que se procura no espaço para justificar uma busca mais aprofundada por vida naquela direção. Me chamou a atenção que um dos fatores é a existência de água como condição sine qua non da vida. Pois bem, acho que estamos colocando a nossa em risco.
Sendo a água o solvente universal que dá sustentação à vida na Terra, parece que não estamos nos preocupando muito com isso. Meu doutorado demonstra como até atividades tidas como preocupadas com a preservação (o ecoturismo) podem ter um forte impacto se não forem gerenciadas com cuidado. Lá mesmo onde curso o doutorado, na UNESP de São José do Rio Preto, a professora Lilian Casatti tem se preocupado com a influência da complexidade do habitat, dentro e fora dos rios, nos ecossistemas, especialmente sobre os peixes. Ela falou sobre isso nessa matéria recentemente publllicada na Epoch Times.

Cabeceiras preservadas assim são raras, mas são também a base para a água do planeta todo.
O fato é que ainda não nos damos conta da conexão que existe entre tudo em termos ecológicos. Temos uma visão microecológica dos impactos, achando que um desmatamento pequeno só afetará aquele local. Não é verdade! Uma só atmosfera, fluxos de massas de ar, rios extensos, correntes marinhas e espécies migratórias garantem que um impacto local se torne um problema global.
Para isso também serve a ciência: gerar informação capaz de subsidiar políticas públicas conservacionistas. O problema está na falta de disposição de muitos tomadores de decisão de escutar o que o cientista tem a dizer. Enquanto mantivermos esse diálogo de surdos as perspectivas não são nada boas.
Pensamento de Segunda
Cientista é um aparelho que serve para transformar café em teorias.
Alfred Renyi
Pensamento de Segunda
O mundo seria um lugar vazio se pensássemos só em montanhas e rios e cidades, mas conhecer pessoas que sentem e pensam como nós faz da Terra um jardim povoado.
Johann von Goethe
O besouro fratricida
Para minha irmã.
Feliz aniversário.
Naquela manhã, no consultório psicanalítico…
A secretária não parava de olhar o besouro, primeiro cliente a chegar naquela manhã. Ele tinha duas olheiras sob os olhos compostos e as antenas pendiam desoladamente no alto da cabeça amarela. Ao perceber-se observado ele tentou inutilmente afastar a cara de preocupação. A psicanalista, que havia acabado de chegar para o trabalho, cutucou a atendente e pediu baixinho que parasse de encarar os pacientes. Em seguida chamou para entrar o besouro. Ele nem alçou voo. Arrastou o corpo que parecia mais pesado que de costume com os élitros baixos e um olhar lívido.
-Tive o sonho mais terrível com meus irmãos essa noite! – Declarou sem rodeios o besouro. A terapeuta nada disse. Quer dizer, ela disse que estava muito interessada e que preferia que o cliente narrasse todo o sonho antes que ela se pronunciasse. Mas tudo isso foi transmitido com um olhar consternado e interessado para o ocupante do divã que, sem alternativa, continuou a falar.
-De repente eu estava de volta à folha de batata onde nasci, àquela superfície tenra que aconchegava e deliciava. Sempre adorei comer folhas de batata, sabe, doutora? Então, lá estava eu, recém-saído do meu ovo e cercado dos ovinhos dos meus irmãos. Mas não era o mesmo campo verdejante e seguro onde nasci. No meu sonho eu eclodi num campo devastado, as folhas estavam já todas carcomidas por outros herbívoros e zumbiam no ar as asas e o fedor de percevejos vorazes e outros predadores. Apavorado com a visão daquele campo e a falta de perspectivas para meu futuro tomei a mais drástica das decisões. Comecei a destroçar e devorar os ovos de meus irmãos. – O besouro narrava com tamanho terror que às vezes lhe faltava ar. E prosseguiu.
-Doutora, meu corpo, ainda com forma de lagarta, se atirou sobre os ovos ao meu redor, maxilas em atividade, quebrando, rasgando e devorando meus irmãos. Dos ovos saíam gritos implorando piedade, mas eu os ignorava. Hemolinfa esbranquiçada escorria dos cantos da minha boca e eu gargalhava em meio à destruição de meus irmãos. Foi a coisa mais horrível! Só sosseguei quando todos já estavam estraçalhados ao meu redor. – Ele contava com movimentos frenéticos da hipofaringe e do labro como a analista jamais havia pensado possível.
-Acordei apavorado e não consegui mais dormir. Fiquei pensando em meus irmãos, minha irmã em especial. Quanto tempo não a vejo! Se mudou para tão longe, doutora. Fiquei preocupado com ela. Me senti culpado pelo sonho. Que bobagem, foi só um sonho, não é? Mas fiquei, sabe? Queria falar com ela, saber como estão as coisas. Se eu vou ganhar sobrinhos essa primavera. Sabe, doutora, durante o sonho eu me via comendo meus irmãos e ao mesmo tempo me recriminava, pensava nos meus sobrinhos que eu estava condenando a jamais nascerem. Acho que nessa hora estava já meio dormindo e meio acordado, sabe? Passei o resto da noite em claro. – A psicóloga ainda não havia aberto a boca desde o início da sessão, o que não era bem um problema, mas chegara a hora de intervir.
-Sr. Leptinotarsa, – A doutora não cansava de se surpreender com os nomes de seus clientes. – duas forças habitam os seres vivos: Pulsão de vida e Pulsão de morte. Entre os besouros da batata o canibalismo de ovos é fazer uso da pulsão de morte, devorando os irmãos de ninhada. Isso é mais comum na pulsão de vida daqueles que estão ameaçados por falta de comida e excesso de predadores. Exatamente o seu enredo onírico.
-Mas como é que esses besouros ficam em paz depois do que fizeram. Eu estou carregando uma tonelada de culpa por ter sonhado com isso. Imagine quem praticou mesmo o canibalismo! – Surpreendeu-se o cliente.
-Olha, nossos sonhos são manifestaçõesdessas pulsões básicas e incontroláveis. A culpa é a censura por atendermos nossos instintos. Portanto, a felicidade está fadada ao fracasso, já que sempre haverá duas forças contraditórias. Só nos resta aceitar uma infelicidade mais branda. Nem imagino a culpa deles, mas não devorar os irmãos também é um problema. Se não comerem, tanto eles quanto os irmãos serão alvos dos predadores antes de tornarem-se adultos. Comendo os irmãos pelo menos eles chegam mais rápido à idade adulta e evitam serem presas dos percevejos. Só sobra o irmão mais velho e toda a plantação só para ele. O que também é uma vantagem na hora de competir por alimento. Sabe como é: “Ao vencedor as batatas.”
-Que coisa triste, doutora. Ainda bem que nascemos na plantação de batatas mais farta que existe.
-Nosso tempo acabou, mas acho que esse assunto também.
A psicanalista ficou em sua escrivaninha enquanto o crisomelídio ia embora, dessa vez voando pesadamente. Talvez pela culpa, talvez pelo exoesqueleto quitinoso. Enquanto isso a doutora pensava em como somos tentados a julgar antes de saber a história de vida de cada um. Mesmo as atrocidades mais graves têm seus motivos.
Collie, K., Kim, S., & Baker, M. (2013). Fitness consequences of sibling egg cannibalism by neonates of the Colorado potato beetle, Leptinotarsa decemlineata Animal Behaviour, 85 (2), 329-338 DOI: 10.1016/j.anbehav.2012.11.013
Pensamento de Segunda
Se as pessoas só são boas porque temem punições ou esperam recompensas, então somos mesmo um bando de infelizes.
Albert Einstein
Uma malvácea muito popular
Certos produtos são tão artificiais que esquecemos que têm uma raiz natural em sua composição, mesmo que essa raiz tenha sido abandonada na composição moderna. É o caso do refrigerante mais famoso do mundo. Se você der uma olhadinha na lista de ingredientes dessa bebida verá que um dos principais ingredientes vem da noz de Cola.
A Cola, Cola acuminata, é uma árvore da família Malvaceae, a mesma do algodão, hibisco, baobá e cacau. Suas nozes vêm de um fruto rugoso e duro que contém oito sementes com um invólucro branco, mas vermelhas por dentro. As nozes podem ser secas e trituradas ou fervidas para a extração da cola. Essa árvore cresce até os 25 m na África tropical da Nigéria ao Congo.

De onde vem a noz de Cola? Ilustração de Franz Köhler
A masca da noz de Cola lembra muito a da folha de coca em termos culturais. Revigora, espanta a fome e dizem que até impotência resolve. É usada em rituais que vão da escolha do nome do bebê ao funeral, adivinhos também leem o futuro nas nozes da Cola, mais ou menos como fazem com búzios. Nas tribos, a masca é feita numa grande roda como se faz com o chimarrão no sul. Não é só na cultura ocidental pós-industrial que a Cola é importante!
Hoje é comum produzir o sabor da Cola artificialmente e a extração e comercialização da semente em si perdeu muito interesse. No entanto a noz ainda é cultivada na África e em outras regiões quentes.






Eduardo Bessa é zoólogo na Universidade do Estado de Mato Grosso e especialista em comportamento animal.