Dentes e o bebê de 5 meses

Nossos dentes contam uma história interessante sobre a evolução humana, e isso fica muito evidente na dentição dos bebês. O próprio fato de termos uma mandíbula com dentes recobertos de um esmalte, o tecido mais mineralizado e duro do nosso corpo, demonstra que compartilhamos uma característica com todos os outros vertebrados mandibulados, incluindo os tubarões, peixes ósseos, anfíbios, répteis, aves e os outros mamíferos.

Entre os vertebrados mandibulados, somos característicos por termos dentes diferentes de acordo com a parte da mandíbula na qual eles crescem. Também é peculiaridade dos mamíferos que os dentinhos que nascem nos bebês de cerca de cinco meses duram uma parte da vida e depois são trocados por dentes definitivos.

De fato, a dentição dos mamíferos é muito diferente da dos demais vertebrados e existe grande variação interna ao grupo. Dentes adaptados a uma dieta onívora, com a presença de incisivos, caninos, pré-molares e molares largos e com cúspides baixas, são típicos de primatas. Os 32 dentes que carregamos na boca são semelhantes aos 32 apresentados por chimpanzés.

Em nossa história mais recente nossos dentes encolheram, especialmente os caninos. As causas disso ainda são discutidas, mas dentes menores podem decorrer de uma mudança da dieta para itens mais moles ou da introdução do fogo e do cozimento de alimentos.

Os dentes que começam a nascer por volta do quinto mês de vida do bebê são marcas indeléveis de seu passado evolutivo e suas relações de parentesco com tantos outros animais.

Coordenação motora e o bebê de 4 meses

No quarto mês de vida de um bebê talvez o mais surpreendente seja o ganho de coordenação que ele obtém. Rapidamente o bebê aprende a segurar objetos e trazê-lo até a boca, rolar para ficar de bruços e manter uma postura mais rígida do corpo. É fato que ainda falta precisão aos movimentos, mas isto se desenvolverá rapidamente com a prática.

O cerebelo é o principal responsável pela coordenação motora e manutenção da postura do bebê.

O principal órgão relacionado à coordenação é o cerebelo, é nele que ocorrerá o grande ganho de desempenho neste mês. Na verdade o cerebelo sofre um estirão de desenvolvimento antes do 2º ano de idade. Tudo o que se aprende a fazer se chama memória procedural e é o tipo de memória mais estável que temos. Os resultados deste estirão e deste aprendizado duradouro são perceptíveis no comportamento do bebê.

O córtex somatosensorial é responsável por receber informações do corpo, como por exemplo em que postura estamos.

Outro ingrediente desta habilidade motora mais aprimorada é a propriocepção, um dos nossos sentidos menos explorados. Sem tirar os olhos da tela enquanto lê este post, diga em que posição estão seus braços, mãos, pernas e pés. A propriocepção é esta habilidade de reconhecer sua postura sem precisar olhar. São pequenos sensores de pressão posicionados nos principais músculos e articulações do corpo que informam sobre o ângulo formado entre dois ossos ou o grau de contração de um músculo esquelético, ou seja, em que posição você está. Interpretar estes sinais é uma habilidade que o cérebro ganha com o tempo, em especial nessa fase precoce da infância.

Mesmo os movimentos mais estabanados de um bebê são parte de um treino para ganhar a precisão que um adulto demonstra. Estes mesmos movimentos aparentemente grosseiros são o resultado de um surpreendente desenvolvimento neuronal e muscular por dentro do bebê. Em breve eles darão lugar aos engatinhar, andar, empilhar bloquinhos, dançar, jogar bola e, um dia, dirigir um automóvel ou digitar num teclado coisas sobre o desenvolvimento dos bebês. Mas por enquanto tudo isso está no futuro.

Teoria da mente e o bebê de 3 meses

Acredito que a diferença do cérebro humano para outros animais esteja mais em aspectos quantitativos que qualitativos. Não é que tem coisas que só nós consigamos fazer, é só que algumas coisas nosso cérebro faz melhor. Uma das mais incríveis capacidades desse nosso órgão é conseguir se colocar no lugar dos outros, o que os especialistas chamam de teoria da mente.

Muito cedo aprendemos a captar nos outros seu estado de espírito interno e modificar nosso comportamento em função disso, às vezes até sentindo o mesmo que um semelhante. Essa é uma característica muito importante para nossa organização social, grupos que compartilham um sentimento são muito mais unidos, como qualquer líder sabe.

O desenvolvimento dessa habilidade começa com a simples imitação de expressões faciais. Nosso rosto é um cartaz indicando nossas emoções, funciona como um portal para nossos sentimentos. É claro que elas podem ser fingidas e há quem diga que não é a emoção que gera nossas expressões, mas o contrário. Mesmo assim sabemos que as expressões faciais não só são universais na nossa espécie e até alguns primatas aparentados, mas tem um forte componente instintivo de forma que mesmo bebês cegos logo começam a sorrir quando estão felizes e fazer biquinho quando estão chateados.

Por volta dos três meses os bebês começam a imitar as expressões de quem os cerca, construindo vínculos muito fortes com quem cuidar deles. Isso é especialmente útil para a sobrevivência do bebê, que pela empatia será mais cuidado e protegido, mas é também a base de toda nossa socialidade. Um vídeo mostrando algo parecido viralizou recentemente. Nele um bebê escuta a mãe cantar uma música triste e logo começa a chorar.

Outra habilidade determinante para o desenvolvimento da teoria da mente em humanos ocorre com o desenvolvimento por volta dos três meses da capacidade do foco de atenção. O bebê passa a direcionar todos os seus sentidos para um mesmo foco. Em ambos os casos falo em “por volta dos três meses” porque essa é a tendência central. Alguns bebês podem começar ainda mais cedo, outros demorar um pouco mais, sem fugir da normalidade. Ficar atento a estes sinais, no entanto, pode ajudar no diagnóstico de alguns problemas, como o espectro autista.

Como eu mencionei no início desse post, só diferimos de outros animais pela qualidade de nossa capacidade de projetar sentimentos. Mesmo assim, observar bebês captando as emoções de quem os cerca demonstra uma habilidade prodigiosa de nossos cérebros. Falando nisso, você assistiu o vídeo do bebê escutando a música? Reparou que quando ele faz cara de choro tendemos a fazer a mesma expressão facial? Mostre o vídeo para alguém e observe acontecer.

A evolução da fofura e o bebê de 2 meses

Da primeira vez que minha esposa deixou nosso bebê para eu cuidar enquanto ela colocou meu macacãozinho preferido nele. Como ficar indiferente àquela coisinha fofa quando ele precisou de mim?

Como resistir? A fofura do bebê pode ser produto da evolução para despertar nosso instinto de proteção e cuidado. (Imagem: bebeequilibrado.com)

A mesma estratégia que minha esposa fez vem sendo repetida pela seleção natural há muitas gerações. Provavelmente toda a aparência de um bebezinho é produto de um longo processo de seleção. Ao que tudo indica, olhos grandes, bochechas redondas, uma cabeçona com boca e nariz pequenos têm um efeito cativante sobre todo ser humano, aumentando a chance de que os donos dessas características sejam protegidos e cuidados.

Em comportamento animal, sempre que um sinal é aproveitado para uma nova finalidade na comunicação, chamamos isso de exploração sensorial. Um exemplo seriam os lebistes. Parece que as fêmeas desse peixe adoram frutinhos alaranjados porque eles possuem um nutriente essencial para elas. Casualmente, alguns machos desenvolveram manchas laranja na cauda e se tornaram os queridinhos das meninas. É provavelmente isso que ocorre com bebês.

Para confirmar basta olhar os bonzinhos e os malvados numa animação do tipo Pokemon. Em geral vilões têm espinhos, olhos pequenos e uma boca com dentes grandes. Os mocinhos, por outro lado, tendem a lembrar a forma de um bebê, sendo roliços e de olhos grandes.

Qual dos personagens acima você diria que é o mocinho e qual é o vilão? Formas arredondadas com cabeça e olhos grandes são naturalmente cativantes. (Imagem: pokemon.com)

Qual dos personagens acima você diria que é o mocinho e qual é o vilão? Formas arredondadas com cabeça e olhos grandes são naturalmente cativantes. (Imagem: pokemon.com)

E como teria evoluído esse padrão? Imaginemos que, por algum motivo essas formas já apelassem a alguns adultos, que houvesse um gene para o gosto pela fofura. Quando seus bebês nasceram eles herdaram essa preferência. Dentre esses bebês, alguns eram mais rechonchudos e tinham olhos maiores, outros não. Imaginemos que exista um gene da fofura também. Os donos das características mais cativantes foram mais bem cuidados e tiveram maiores chances de sobreviver à infância. Por isso eles produziriam filhos igualmente ou mais fofos, mas também teriam maior propensão a cuidar desses bebês. Melhor cuidada, essa segunda geração, ainda mais fofa que a anterior, cresceria mais saudável, melhor cuidada, até chegar a sua vez de ter filhos. Os bebês da terceira geração poderiam nascer até mais fofos que seus pais, que teriam uma grande propensão a proteger esses bebês. E assim por diante.

Perceberam como forma-se uma espiral de evolução explosiva a partir do momento em que esses genes passarem a viajar juntos nos corpos dos bebês? O bebê com genes para ser fofo também carrega os genes para cuidar de seres fofos, potencializando a seleção da fofura ao extremo que temos atualmente. Os evolucionistas, com suas teorias, chamam isso de seleção “runaway”. Pessoalmente, prefiro chamar de cute-cute.

Estupro, ninguém merece

O resultado da pesquisa do IPEA intitulada “Tolerância social à violência contra a mulher” fez barulho nos últimos dias. Ele aponta que 65,126,0%* dos 3810 entrevistados, dos quais 66% eram mulheres e 4434% (Obrigado asd) homens, concordam que mulheres com roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Em outra parte da pesquisa, 58,5% dos entrevistados atribuíram a causa do estupro à mulher não saber se comportar. A pesquisa desencadeou uma campanha nas redes sociais durante o fim de semana.

O tema é espinhoso e passional, mas vou me arriscar a comentá-lo do ponto de vista do comportamento sexual na esperança de não ser mal interpretado. Antes de começar, ressalto que avaliar as bases biológicas de um comportamento não tem nada a ver com justificá-lo, muito menos concordar com ele. Sou radicalmente contra o estupro, apenas acredito que minha linha teórica pode ajudar a compreender e até evitar esse problema social.

Em diversas espécies nas quais a seleção sexual é forte, apenas uma pequena parte dos machos consegue satisfazer os critérios de seleção das fêmeas. Assim, machos incapazes de adquirir uma parceira da forma tradicional desenvolvem comportamentos reprodutivos alternativos. Alguns se passam por fêmeas para entrar num harém, outros roubam cópulas furtivamente. Uma forma comum de burlar a escolha da fêmea por parceiros é o sexo coercivo, especialmente, em espécies agressivas com machos maiores que as fêmeas.

Mecópteros como este são forçados a copular por machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Mecópteras como esta são forçadas a copular com machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Insetos mecópteros do gênero Panorpa constituem um exemplo disso. Nestes insetos só machos que presenteiam a fêmea com alimento são aceitos para acasalar, mas machos que não conseguem esse alimento podem forçar a fêmea a copular segurando-as com uma pinça que têm no abdômen enquanto fazem a penetração. Algo semelhante acontece com andorinhas do penhasco. Machos em geral começam a construir seus ninhos e cortejam fêmeas que os ajudarão a terminar o trabalho. Conseguir um bom local para nidificar é difícil, então, machos que não conseguem encurralam a fêmea no fundo do ninho de outro casal quando seu parceiro está ausente e forçam a cópula.

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

O que podemos tirar daí? É possível projetar algo disso nos casos de violência sexual em humanos? Suspeito que sim. No caso do sexo coercivo ser um comportamento reprodutivo alternativo, podemos prever que ele será praticado por homens incompetentes em conseguir uma parceira, mas que se valem de força. Ele também deverá ocorrer, preferencialmente, com mulheres mais indefesas e sexualmente férteis, entre 13 e 40 anos, com pico por volta dos 20 a 30 anos.

Há outra hipótese, entretanto, que sugere que o sexo coercivo, assim como diversos outros comportamentos masculinos como a masturbação, não é uma adaptação, mas um efeito colateral da superestimulação sexual. Neste caso, poderíamos prever que estupradores são homens com vida sexual muito ativa e baixa seletividade de parceiras e que a idade das vítimas não importaria muito.

Infelizmente, um assunto cercado de tanto tabu torna difícil acumular dados isentos o suficiente para avaliar essas hipóteses. Sabe-se que estupradores condenados costumam ter um histórico de frustração em atrair parceiras espontaneamente, o que concorda com a primeira hipótese. Por outro lado, outro relatório do IPEA aponta que 50,7% dos estupros registrados no SUS ocorrem com menores de 13 anos, o que concordaria com a segunda hipótese caso a mesma pesquisa não sugerisse que apenas cerca de 10% dos casos de estupro são relatados, às vezes por ser um parente ou “amigo”.

É claro que são necessários mais estudos e dados confiáveis para tomar decisões que levem à redução desse crime e garantam às mulheres a liberdade e segurança que merecem sem culpá-las por um desvio do comportamento masculino. Menos preconceito contra análises adaptativas do comportamento humano também não cairia mal, já que negar as bases biológicas do comportamento humano é tapar o sol com a peneira. Conhecer nosso lado instintivo, em vez de negá-lo, me parece a melhor forma de usar essa razão da qual tanto nos orgulhamos para evitar irracionalidades como o estupro. Frise-se que dizer que um comportamento ocorre na natureza não significa aceita-lo. Mas, no final, a conclusão que mais importa é que #ninguém merece ser estuprado. É direito da mulher se portar ou se vestir como bem entende e é dever do homem, ele sim, saber se comportar.

*Atualização: É claro que o percentual ainda assusta, mas uma errata divulgada uma semana depois pelo IPEA mostrou que dois gráficos foram trocados. Interessantemente, agora o que choca é a opinião de que mulher que continua com um marido agressivo é porque gosta de apanhar, ignorando completamente a relação de medo que surge num relacionamento violento.

Visão, audição e o bebê de um mês

O mundo sensorial que cerca o bebê muda radicalmente do primeiro mês em diante. Ele, que nasceu altamente dependente do tato e do olfato, vai passar por um grande desenvolvimento da visão e da audição nesse período. Estes dois são os sentidos mais importantes para todo grande primata diurno, daí a importância das mudanças que ocorrem no 2º mês de vida.

A audição dos bebês já nasce bem desenvolvida, mas está praticamente igual à do adulto a partir da 6ª semana de vida. É nesse período que o bebê realiza sua primeira audiometria, ou teste da orelhinha. O pediatra ou fonoaudiologista irá checar se as diferentes frequências de som já são percebidas pelo ouvido, mesmo em volume baixo. Isso é um indicador da atividade da cóclea; sons mais agudos ativam as células sensoriais que ficam na entrada da cóclea; sons mais graves ativam as células sensoriais do fundo desse órgão.

O som atinge o pavilhão (1) e é direcionado ao tímpano (2), nos ossículos do ouvido médio sofre amplificação até chegar à cóclea (3). As células sensoriais no início da cóclea são sensiveis a sons agudos, as do final aos sons graves. Essa informação é levada ao cérebro pelo nervo auditivo (4) (Imagem: Schweiz)

Já a visão ainda tem um longo caminho a percorrer e só estará semelhante à visão de um adulto por volta do 8º mês. Mesmo assim, os progressos do 2º mês de vida são marcantes. Enquanto no primeiro mês o bebê tinha dificuldade em coordenar a movimentação dos dois olhos simultaneamente, o que frequentemente o deixava com um olhar vesgo, agora a coordenação é maior e ele passa a seguir objetos com o olhar. Paralelamente, o campo de foco começa a ultrapassar os 20 cm iniciais, permitindo que o bebê comece a enxergar objetos mais distantes. Isto se deve ao amadurecimento dos músculos oculares, tanto os que movimentam o globo como um todo quanto o que traciona o cristalino.

Anatomia de um olho infantil. (Imagem: oculos.blog.br)

Outra mudança é o amadurecimento da retina. A vitamina A, que era até proibida em produtos estéticos para a gestante, agora pode ser receitada pelo pediatra ao bebê. Essa vitamina irá permear os bastonetes da retina na forma de retinol e melhorar a visão com pouca luz, entre outras funções da vitamina A na pele e mucosas. A percepção de cores primárias pelo bebê irá melhorar, o que pode ser notado pelo crescente interesse pelo móbile, por exemplo, devido a essas mudanças biológicas.

 

Instinto, aprendizado e o recém nascido

Uma das primeiras coisas que todo pai nota em seu bebê é a capacidade de agarrar. Todo bebê segura firmemente com as mãos qualquer coisa que seja posicionada na palma de sua mão. Este comportamento já está presente na hora do parto, mesmo em prematuros, e se mantém até o segundo mês. É um excelente candidato àquele comportamento instintivo, sem nenhum componente aprendido. Só que não.

O reflexo de agarrar emociona os pais pela interação e tem bases evolutivas fundamentais

O reflexo de agarrar emociona os pais pela interação e tem bases evolutivas fundamentais

Os etólogos clássicos descreviam dois comportamentos extremamente simples: o padrão fixo de ação e os atos reflexos. O padrão fixo de ação é a resposta a um determinado fator ambiental conhecido como estímulo-sinal que, depois de desencadeado, não depende mais do ambiente. Ou seja, ao perceber o estímulo-sinal o animal, qualquer que fosse, dispararia o comportamento e seria incapaz de modulá-lo e de interrompê-lo, independente do que ocorresse ao redor. Padrões fixos de ação eram entendidos como comportamentos altamente estereotipados e invariáveis entre indivíduos. Parece combinar com o comportamento de agarrar.

Nos anos 50 a etologia passou por uma mudança de paradigma que propunha que nenhum comportamento é totalmente instintivo nem totalmente aprendido. Na verdade essa distinção é totalmente impossível. Então o que poderia não ser instintivo em se agarrar?

Agarrar-se é um comportamento adaptativo para os bebês de tempos passados, quando não havia carrinhos dobráveis, bebês-conforto ou moisés. Ser levado com a mãe dependia do filhote se agarrar aos pelos dela. Pelos estes que nem mais existem. Como o comportamento de agarrar não causava nenhum prejuízo, a seleção natural não se deu ao trabalho de extirpá-lo do repertório dos nossos bebês. Ele permanece lá como um dente do siso ou um apêndice.

Mesmo assim, o agarrar-se passa por aprendizado. Nos primeiros dias após o parto ele é forte, mas desajeitado, à maneira de alguém puxando outro pelos cabelos. Com o passar das semanas torna-se mais coordenado, com os dedos e o polegar formando um cilindro e tendo maior firmeza, à maneira como seguramos uma lata. A força preênsil vai reduzindo com a aproximação do terceiro mês de vida até que o reflexo desaparece.

O mesmo pode ser dito do reflexo de sucção. É certo que os recém nascidos já têm o costume de sugar o que se lhes ponha na boca. No entanto, qualquer pessoa que já acompanhou uma mãe sabe da dificuldade do aprendizado da chamada pega. O recém nascido frequentemente não sabe ao certo como abocanhar o seio da mãe, surgindo dificuldade em alimentar-se e dor à mãe. É só a prática e a capacidade de aprendizado dos nossos bebês que permite o aumento na eficiência da mamada.

Nem instinto, nem aprendizado. Todo comportamento é uma mescla desses dois componentes indissossiáveis. A grande riqueza do comportamento animal reside na certeza dos comportamentos adaptativos, mas também na flexibilidade que eles mesmos têm para responder rapidamente ao ambiente.

A íbis criativa

ResearchBlogging.orgNaquela manhã, no consultório psicanalítico…

A secretária recém contratada enfiou a cabeça dentro do consultório interrompendo a consulta anterior da doutora, que atendia uma poliqueta fêmea afeita a sexo grupal, numa orgia chamada epitoquia.

-Doutora, o pássaro que vai entrar na próxima consulta está rasgando suas revistas.

-Por favor, não me interrompa. A sessão de terapia é um momento muito íntimo entre profissional e paciente. Deixe-a rasgar o que quiser.

A íbis careca e criativa. Fonte: arkive.org

Momentos depois a doutora abre a porta e deixa passar a poliqueta. A íbis que era a próxima cliente tinha ao seu redor um conjunto de dobraduras feitas com diversas páginas de revistas. Os origamis, todos representando outras íbis, desenhavam no chão formações diversas.

-Vamos entrando, Dona Geronticus, a senhora é a próxima. – A doutora acompanhou a ave totalmente sem penas na cabeça vermelha semelhante à de um urubu caminhando com deselegância para dentro de sua sala e se empoleirando no encosto do divã. – O que a traz aqui hoje, minha cara?

- Doutora, será que tenho uma fixação na fase anal? Adoro inventar coisas diferentes na hora de voar, mas ninguém reconhece a genialidade do que eu crio. Tenho uma dependência de reconhecimento.

-Ninguém reconhece sua genialidade. Fale mais sobre isso.

-Bom, as íbis carecas sempre voam em formação de V. Me parece que todas nós nascemos assim e só sabemos fazer isso. Não nos questionamos, não damos asas à nossa imaginação. Só papagaiamos um padrão. Odeio isso. Eu prefiro criar! Prefiro inventar formações novas. Toda vez que chega minha hora de assumir a frente do bando eu dirijo as outras meninas para fazermos os mais lindos padrões nos céus. Passei pela fase das figuras, desenhando corações, trevos, ondas, casas. Passei pela fase dos emoticons, com as mais diferentes carinhas. Passei pela fase das mensagens, voávamos escrevendo “papagaio come milho, periquito leva a fama” ou “de grão em grão a galinha enche o bico”. Adoro inventar formações diferentes. O problema é que minhas companheiras de bando ficam rechaçando minha criatividade, me inibindo. Não aguento mais essa vida burocrática de só voar em V, mas se elas não querem colaborar, não consigo dar vazão à minha arte! Me ajude, doutora. Como posso abrir a mente delas?

-De fato, a senhora é muito inventiva e reconheço o mérito nisso. Mas já considerou que talvez exista uma razão de ser para todas as outras íbis só voarem no tradicional V? Talvez fosse melhor direcionar sua criatividade para outras áreas.

-Mas por que haveria uma vantagem específica em voar em V? Por que não em círculo ou em X?

-Olha, pesquisadores sugerem há décadas que esteja relacionado à economia de energia e ao aproveitamento do vórtex criado na ponta da asa da ave ao lado, mas nunca foi possível medir se as aves conseguem de fato se posicionar e abanar as asas da forma realmente mais econômica. Seria necessário usar sensores de posição nas aves que seriam grandes e pesados demais para não atrapalhar no próprio voo. A menos que uma íbis resolva estudar isso.

-Doutora, que grande ideia. Sempre quis me tornar uma cientista. Elaborar as mais audaciosas hipóteses e os mais belos teoremas matemáticos de excelência em voo. Seria perfeito! – Sorriu a ave com seu bico adunco e um leve arrepio nas coberteiras atrás da cabeça.

Várias espécies, como os gansos acima, voam em V. Fonte: sharing the planet with animals.

-Não tente mudar a forma de voo, a formação em V aparentemente proporciona uma economia energética razoável, por isso outras formações não são feitas em geral. Não é falta de criatividade, é um ótimo alcançado empiricamente. Nosso horário acabou. Posso ajuda-la em algo mais?

-Não, foi ótimo ter vindo. A senhora deu uma excelente ideia. – E lá se foi volitando a íbis, com uma nova perspectiva, ignorando o elevador e saltando janela a fora. Na antessala do consultório.

A secretária correu até a janela. – Passarinho estranho, hein doutora. Todos os seus pacientes são assim?

-Minha cara, de perto ninguém é normal. Nem a senhorita! E ela não é um passarinho, é uma ave. Uma íbis criativa.
Portugal, S., Hubel, T., Fritz, J., Heese, S., Trobe, D., Voelkl, B., Hailes, S., Wilson, A., & Usherwood, J. (2014). Upwash exploitation and downwash avoidance by flap phasing in ibis formation flight Nature, 505 (7483), 399-402 DOI: 10.1038/nature12939

A vaca subordinada

ResearchBlogging.org
Naquela manhã, no consultório psicanalítico…

Era o primeiro dia da secretária e ela não parava de encarar a cliente que esperava a doutora no sofá de frente ao seu balcão. Uma enorme vaca, com ancas carnudas e manchas nos pelos mascava sabe-se lá o que do mesmo jeito que a secretária mascava seu chiclete. Ela  já estava desconfortável com o olhar insistente da vaca, com seus olhos plácidos, mas isto era pouco comparado ao mal-estar de atender uma vaca num consultório psicanalítico.

-Moooça, você sabe se a doutora demora? – Perguntou a ruminante no exato momento em que a porta se abriu convidando-a para entrar.

-Bom dia, queira entrar e se acomodar no divã.

Respeite as mais velhas. Vacas mais velhas ocupam postos hierárquicos mais altos.

-Muuuito bom dia, doutora. Pedi esta sessão porque estou desapontada com o juízo que minhas companheiras de rebanho fazem de mim. Elas não me respeitam, ficam seguindo cegamente os palpites de uma vaca velha que é puro osso. Ninguém me escuta, fingem que eu não existo. Outro dia uma delas disse…

-Por favor, fale de você. Não quero saber o que as outras dizem. Quero saber como você se sente. – Interrompeu a psicanalista.

-Muuuda, eu me sinto muda. Ou então invisível. Ninguém me percebe! – Mugiu a cliente triste.

-Me desculpe a indiscrição, mas quantos anos a senhora tem?

-Moooagem nenhuma, eu sou jovem, não tenho problema em dizer minha idade. – Respondeu a vaca.

-Imaginei, a senhora sabe que entre as suas pares a idade é o mais importante na definição de quem manda no rebanho?

-Múúúmias, quer dizer que eu devo seguir as múmias do rebanho? Pois para mim é a força que define. Eu, uma vaca grande, forte e viçosa, é que deveria liderar aquele bando de múmias. Não consigo aceitar que eu não seja a líder. – Revoltou-se a vacona.

-Pois é, em muitos animais é mesmo a força que determina a hierarquia, mas não é sempre assim. Vacas mais velhas sabem onde o pasto está melhor, são mais sábias. Por isso são respeitadas.

-Mooodestamente, tenho que reconhecer que elas são mesmo experientes. Têm seus méritos para liderar o bando. Mas eu também tenho.

-Nem tudo se ganha na força, minha cara. Por que não experimenta a tranquilidade de se deixar liderar, aproveita este tempo para aprender muito e espera que seu dia de líder ainda vai chegar? – Sugeriu a terapeuta.

-Muuuito obrigado, doutora. Não era o que eu esperava, mas vou tentar. Um dia chega a minha vez. – Despediu-se a cliente passando pela secretária que ainda ruminava seu chiclete.
Radka Sarova, Marek Spinka, Ilona Stehulova, Francisco Ceacero, Marie Simeckova, Radim Kotrba (2013). Pay respect to the elders: age, more than body mass, determines dominance in female beef cattle Animal Behaviour DOI: 10.1016/j.anbehav.2013.10.002

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