O que pensam os leitores sobre a teoria da evolução?

Já que eu estava demorando tanto para escrever aproveitei para lançar este post no dia da publicação da Origem das Espécies em comemoração. Os dados apresentados aqui foram obtidos através da enquete que fiz dia 7 de outubro último, de um questionário por e-mail ou pessoalmente e de uma tabulação de comentários no próprio blog. Apresentei-os na mesa redonda da qual participei no Enconntro Anual de Etologia sob um enfoque mais comportamental, mas aqui vão só alguns pensamentos que me ocorreram vendo os dados.

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Foram obtidas um total de 169 respostas divididas como mostra o gráfico de pizza. Ao lado dele vocês podem perceber uma escala da importância atribuída a cada um dos tópicos que eu mesmo sugeri como os responsáveis pelas maiores críticas à evolução. Outra coisa que achei interessante fazer foi comparar onde há discordâncias entre o que os professores julgam ser inaceitável e o que os aprendizes julgam inaceitável. Isso me remeteu a professores enfatizando pontos passivos e aprendizes não tendo suas dúvidas sanadas.

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Apesar do número relativamente pequeno de críticas ao registro fóssil, um verdadeiro top ten hit nos ataques criacionistas à evolução há exatos 150 anos, vale a pena enfatizá-lo. Dedicar a este ponto o descarte da teoria evolutiva só pode ocorrer por um bom desconhecimento da paleontologia, tanto no que diz respeito à descoberta de fósseis como ao próprio processo de formação deles. Encontrar fósseis não é uma tarefa fácil, os afloramentos onde eles ocorrem são verdadeiras emersões do passado no presente. É como um sonho, a princípio passamos toda a fase REM do nosso sono sonhando, mas apenas nos recordamos do que sonhamos nos segundos imediatamente anteriores ao despertar. Alguns sonhos são nítidos e claros, mas a maioria é fragmentária e confusa. O mesmo ocorre com as jazidas fossilíferas, a maioria do passado fica oculto por toneladas de sedimentos. Isso imaginando que a fossilização ocorreu, o que nem sempre é o caso. De fato, fossilizar-se é mais excessão do que regra, o que torna ainda mais raro ter registros claros do passado. No entanto, quando encontramos jazidas contendo uma história bem documentada da evolução os exemplos são belíssimos, vide “à beira d’água” de Carl Zimmer.

O primeiro ponto em que há discordância entre as dúvidas dos aprendizes e os esforços dos educadores está na crença de que a evolução tem um objetivo. Poucos aprendizes julgaram este como um ponto importante, mas os professores mencionam dedicar-se muito a elucidá-lo. De fato, acho um desserviço à evolução reforçar a perfeição das coisas vivas. Me divirto muito mais enfatizando como somos um amontoado de gambiarras que funcionam mais ou menos bem pelo menos até a hora de acasalar e passar tais gambiarras pra frente. Foi isso que eu e o Carlos Hotta do Brontossauros tentamos passar neste episódio das aventuras do Guto e Dadá, personagens genialmente criados por ele para a Ciência Hoje das Crianças e que eu tive a honra de bolar algumas histórias.

Outra dificuldade  comum na compreensão da evolução é mais um problema dos nossos cérebros pleistocênicos do que da teoria em si. Não fomos programados a pensar com grandes quantias de nada. Lembro-me de uma vez em que um operário muito humilde ganhou na mega-sena e foram perguntar-lhe o que faria com o prêmio de 36 milhões que havia recebido. Ele respondeu que finalmente teria dinheiro para comprar a bicicleta que o filho queria. Não sabemos pensar com 36 milhões de reais assim como não sabemos pensar com 4,2 bilhões de anos. Por isso adoro as projeções de proporcionalidade que fazem disso, como comparar a escala de tempo geológica com o calendário de um ano (vou lançar este post na véspera de ano novo) ou com o comprimento do seu braço que eu repito todo semestre em sala de aula.

O segundo ponto em que as opiniões de aprendizes e professores discordam é quanto à impossibilidade de um processo parcialmente aleatório gerar tamanha complexidade. Aí assustadoramente os professores julgaram a questão sem importância enquanto os aprendizes a julgaram fatídica para a aceitação da teoria. Só para constar, estas discordâncias foram avaliadas pela estatística de qui-quadrado com nível de significância de 0,05 e esperando-se que cada parte dedicasse atenção igual à questão. A resposta deste problema para mim reside no “parcialmente” aleatório. Há que se lembrar que só metade da equação darwinista (herança com modificação) é aleatória. Outro exercício útil aí é a divisão de qualquer coisa complexa em infinitos passos intermediários que poderiam ter surgido casualmente e se dispersado pela população, como Dawkins faz com o olho no relojoeiro cego.

Um outro ponto interessante é que muita gente ainda faz a maior confusão entre as idéias de Darwin e as teorias de origem da vida, um professor meu de muito tempo atrás dizia que a origem das espécies nem diz como surgiu a primeira e nem define espécie. Aí houve mais uma discordância entre a opinião dos parendizes e dos professores. Sendo que, via de regra, os professores afirmavam que seus antecessores não ensinaram evolução direito, por isso os alunos não a compreendiam. Outra crítica interessante e fácil de responder é a que diz que a evolução é só uma teoria, uma prova clara de que quem diz isso não entende filosofia da ciência. Para isso vejam este video formidável que peguei no youtube neste post aqui.

Por fim, o tópico mais mencionado foi o da discordância entre religião e evolução. O Osame Kinouche, do Sem Ciência, lembrou em seu comentário que não existe nenhuma correlação intrinseca entre a aceitação da evolução e a crença religiosa. De fato, as duas coisas pertencem a esferas da nossa vida bem distintas, fé não se discute, não exige evidências materiais. Só acho que trabalhar suas idéias com crítica e exigindo sustentação factual quando se está pensando cientificamente e desligar essa chave mental quando entra-se no templo (qualquer que seja ele) é uma postura meio esquizofrênica que eu não conseguiria levar, mas se você consegue é melhor aceitar a evolução em paralelo a manter sua religião do que jogar fora o bebê junto com a água da banheira.

Feliz aniversário de 150 anos da Origem das Espécies a todos. Vamos unir esforços porque esta idéia vale a pena!

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Discussão - 12 comentários

  1. Hélio de Sá Bandeira junior disse:

    Não Bessa, eu não preciso revisar conceito nenhum. A questão, é que até agora a teoria da evolução não mostrou para que veio.

  2. Hélio bandeira disse:

    “A evolução é uma TEORIA CHEIA DE FATOS.” Vejam só que paradóxo: como é que é cheia de fatos e nunca perde o STATUS DE TEORIA minha cabeça agora girou. Vamos ver o que realmente é fato:” Exatamente na proporção em que este processo atuou em enorme escala, também o número de variedades intermediárias, que existiu anteriormente, deve ter sido realmente grande. Por que, então, não se acha toda formação geólogica e todo estrato cheio de tais elos intermediários? A geologia não revela qualquer cadeia organica assim finamente graduada; e esta talvez seja a objeção mais ÓBVIA e grave que podeser levantada contra a minha teoria.” Charles Darwin em origens das espécies. Vamos ver mais fatos:” Defendo a ideia de que o súbto aparecimento de espécie no registro de fósseis e NOSSO FRACASSO DE PERCEBER A SUBSEQUENTE MUDANÇA EVOLUTIVA DENTRO DELE…” Estephen Jay Gold, biólogo, paleontólogo e evolucionista até de baixo d’água e ajudou Niles Eldrege a desenvolver a teoria do equilibrio pontuado. Justamente pela avassaladora ausencia de gradualismo fóssil. Vamos ver mais fatos: ” Se o gradualismo fóssil é mais um produto do pensamento ocidental do que um fato da natureza, não seria então razoável considerar FILOSÓFIAS alternativas de mudanças para ampliar o nosso universo de preconceitos CONSTRANGEDORES?” Estephen Jay Gold em o polegar do panda ed. Martins Fontes. Vamos ver mais fatos: ” O registro fóssil, com suas transições ABRUPTAS não ofereceu nenhum SUPORTE A MUDANÇA GRADUAL nen o principio da seleção natural a requer… no entanto a ligação desnecessária forjada por Darwin TORNOU-SE UM DÓGMA CENTRAL DA TEORIA SINTÉTICA.” Estephen Jay Gold em o polegar do panda. Vamos ver mais fatos: Oprofessor de anatomia e fisiologia Dr. Randy L. Wysong, D.V.M., conclui os” fatos” da evolução:” compreendemos que a evolução significa a formação incial de organismos desconhecidos, apartir de produtos químicos desconhecidos, numa atmosfera ou oceano de composição desconhecida, sob condições desconhecidas, culos organismos subiram então numa escala evolucionista desconhecida, mediante um processo desconhecido, deixando uma evidencia desconhecida.” Que belo fato heim? Vamos ver mais, tá tão bom não é? W.R. Tompson, diretor do instituto de controle biológico de otawa, no canada também nos mostrou os fatos da evolução, tá la, no préfacil da edição centenaria de origens das espécies. Vamos conferir: “Há grande divergencia de opniões entre os biólogos, não só quanto às causas da evolução, mas até mesmo, sobre o procasso em si. Isso existe porque a evidencia é INSATISFATÓRIA, e não permite nenhuma conclusão abalisada. Assim, é correto e apropriado trazer ao público não científico OS DESACORDOS DA EVOLUÇÃO.” Pra mim dizer que algo é um fato eu tenho que provar. Como eu descordo que a evolução seja um fato, fui atrás das provas. Não que eu tenha nada contra ninguém, mas eu gosto do preto no branco, de matar à cobra e mostrar o pau. Quem gosta de blá,blá,blá e conversa fiada é Jô Soares, eu não.

  3. Marão disse:

    Com essa pesquisa Bessa arranca minhocas do asfalto. Gostaria de vê-la melhor amparada por amostragem mais extensa e categorias mais diversificadas; o caldo seria mais grosso, creio. Mandou bem o moleque!

  4. Sibele disse:

    Bessa, parabéns pela pesquisa. Muito me agrada ver que este condomínio de blogs de Ciência está voltando-se para si mesmo como objeto de estudo, permitindo assim considerações sobre as visões a respeito da Ciência de seu público leitor e mesmo sobre o impacto do que é difundido aqui, a exemplo de outra pesquisa conduzida pelo RNAm.
    Apenas gostaria de ressaltar uma ressalva nessa sua pesquisa, já colocada pela Maria em seu comentário na ocasião da enquete: da forma como foram divididas as categorias, observa-se claramente no gráfico de pizza que os “aprendizes” são majoritários entre os respondentes.
    Realmente, a categorização limitou as opções dos participantes, pois se não professores de algum nível ali elencado, restringiu-os todos indistintamente numa categoria a meu ver muito inespecífica, com um grande potencial de enviesar os resultados obtidos. Ou um profissional de Biologia com nível superior, embora não docente, pode ter o mesmo peso de um estudante que é realmente um aprendiz?

  5. Alexandre disse:

    A evolução é uma teoria repleta de fatos. E a religião é ficção.

  6. Caro Eduardo,
    Excelente postagem. Seria muito legal se educadores de ciências biológicas conhecessem os resultados de sua pesquisa.
    abraços,
    Roberto Berlinck

  7. Tati Nahas disse:

    Oi, Bessa,
    Ficou muito jóia a análise da pesquisa! Muito boa a reflexão sobre o hiato entre o que o é é uma dúvida do aluno e o que o professor procura enfatizar nas aulas.
    E não sabia que vc tinha participação no Guto e Dadá! Outro dia achei uma historinha dessas na CHC (a das plantas carnívoras) fazendo uma pesquisa para incluir em um material didático para o fundamental I. Daí fui parabenizar o Hotta e ele me mandou o link do blog com várias outras histórias – fantásticas!
    Parabéns pelo trabalho!
    [ah, e sobre a disposição dos gráficos, que vc conversava com o Takata, aqui aparecem os dois ok, mas não lado a lado como diz o texto. na verdade, há um parágrafo de texto entre eles que já aborda outro assunto. Nada que importe, acho que essas apresentações sempre variam conforme o navegador de quem lê…]

  8. bessa disse:

    Vai entender…

  9. Agora aparece tudo certinho.
    []s,
    Roberto Takata

  10. bessa disse:

    Rapaz, que coisa. Fiz de tudo pra trocar a figura e não consigo. Houve uma intrusão demoníaca no meu post e o histograma não cede lugar à pizza. O mais legal é que se você clicar no histograma aparece a pizza! Vou precisar da ajuda das entidades superiores do SBBr pra resolver essa. Que zica!

  11. Muito legal o trabalho. Mas acho que houve um problema na hora de subir as figuras: está um gráfico em barras (não em pizza) e aparentemente ambos os gráficos são iguais.
    []s,
    Roberto Takata

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