Estupro, ninguém merece

O resultado da pesquisa do IPEA intitulada “Tolerância social à violência contra a mulher” fez barulho nos últimos dias. Ele aponta que 65,126,0%* dos 3810 entrevistados, dos quais 66% eram mulheres e 4434% (Obrigado asd) homens, concordam que mulheres com roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Em outra parte da pesquisa, 58,5% dos entrevistados atribuíram a causa do estupro à mulher não saber se comportar. A pesquisa desencadeou uma campanha nas redes sociais durante o fim de semana.

O tema é espinhoso e passional, mas vou me arriscar a comentá-lo do ponto de vista do comportamento sexual na esperança de não ser mal interpretado. Antes de começar, ressalto que avaliar as bases biológicas de um comportamento não tem nada a ver com justificá-lo, muito menos concordar com ele. Sou radicalmente contra o estupro, apenas acredito que minha linha teórica pode ajudar a compreender e até evitar esse problema social.

Em diversas espécies nas quais a seleção sexual é forte, apenas uma pequena parte dos machos consegue satisfazer os critérios de seleção das fêmeas. Assim, machos incapazes de adquirir uma parceira da forma tradicional desenvolvem comportamentos reprodutivos alternativos. Alguns se passam por fêmeas para entrar num harém, outros roubam cópulas furtivamente. Uma forma comum de burlar a escolha da fêmea por parceiros é o sexo coercivo, especialmente, em espécies agressivas com machos maiores que as fêmeas.

Mecópteros como este são forçados a copular por machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Mecópteras como esta são forçadas a copular com machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Insetos mecópteros do gênero Panorpa constituem um exemplo disso. Nestes insetos só machos que presenteiam a fêmea com alimento são aceitos para acasalar, mas machos que não conseguem esse alimento podem forçar a fêmea a copular segurando-as com uma pinça que têm no abdômen enquanto fazem a penetração. Algo semelhante acontece com andorinhas do penhasco. Machos em geral começam a construir seus ninhos e cortejam fêmeas que os ajudarão a terminar o trabalho. Conseguir um bom local para nidificar é difícil, então, machos que não conseguem encurralam a fêmea no fundo do ninho de outro casal quando seu parceiro está ausente e forçam a cópula.

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

O que podemos tirar daí? É possível projetar algo disso nos casos de violência sexual em humanos? Suspeito que sim. No caso do sexo coercivo ser um comportamento reprodutivo alternativo, podemos prever que ele será praticado por homens incompetentes em conseguir uma parceira, mas que se valem de força. Ele também deverá ocorrer, preferencialmente, com mulheres mais indefesas e sexualmente férteis, entre 13 e 40 anos, com pico por volta dos 20 a 30 anos.

Há outra hipótese, entretanto, que sugere que o sexo coercivo, assim como diversos outros comportamentos masculinos como a masturbação, não é uma adaptação, mas um efeito colateral da superestimulação sexual. Neste caso, poderíamos prever que estupradores são homens com vida sexual muito ativa e baixa seletividade de parceiras e que a idade das vítimas não importaria muito.

Infelizmente, um assunto cercado de tanto tabu torna difícil acumular dados isentos o suficiente para avaliar essas hipóteses. Sabe-se que estupradores condenados costumam ter um histórico de frustração em atrair parceiras espontaneamente, o que concorda com a primeira hipótese. Por outro lado, outro relatório do IPEA aponta que 50,7% dos estupros registrados no SUS ocorrem com menores de 13 anos, o que concordaria com a segunda hipótese caso a mesma pesquisa não sugerisse que apenas cerca de 10% dos casos de estupro são relatados, às vezes por ser um parente ou “amigo”.

É claro que são necessários mais estudos e dados confiáveis para tomar decisões que levem à redução desse crime e garantam às mulheres a liberdade e segurança que merecem sem culpá-las por um desvio do comportamento masculino. Menos preconceito contra análises adaptativas do comportamento humano também não cairia mal, já que negar as bases biológicas do comportamento humano é tapar o sol com a peneira. Conhecer nosso lado instintivo, em vez de negá-lo, me parece a melhor forma de usar essa razão da qual tanto nos orgulhamos para evitar irracionalidades como o estupro. Frise-se que dizer que um comportamento ocorre na natureza não significa aceita-lo. Mas, no final, a conclusão que mais importa é que #ninguém merece ser estuprado. É direito da mulher se portar ou se vestir como bem entende e é dever do homem, ele sim, saber se comportar.

*Atualização: É claro que o percentual ainda assusta, mas uma errata divulgada uma semana depois pelo IPEA mostrou que dois gráficos foram trocados. Interessantemente, agora o que choca é a opinião de que mulher que continua com um marido agressivo é porque gosta de apanhar, ignorando completamente a relação de medo que surge num relacionamento violento.

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Discussão - 8 comentários

  1. […] A situação que imediatamente vem à mente é o estupro, ou sexo coercivo, do qual já tratei num outro momento. No entanto, existem outros casos em que a força pode ser usada para conseguir o que se quer. […]

  2. asd disse:

    “66% eram mulheres e 4434% (Obrigado asd) homens”

    agora sim!

  3. asd disse:

    “dos 3810 entrevistados, dos quais 66% eram mulheres e 44% homens”

    66% + 44% = fail

  4. Lucas Sawaris disse:

    Não vou entrar no mérito da pesquisa em si, vou somente comentar sobre uma tática de reprodução alternativa em besouros escarabeíneos muito interessante.
    Em algumas espécies do gênero Onthophagus, o tamanho dos cornos dos machos é decisivo em embates pela dominância da entrada de túneis. Este túnel é o local onde as fêmeas depositam o recurso em formato de bola (excremento, sim, são os famigerados “rola-bostas”) em que irão depositar os ovos após a cópula com o macho, e nesta bola-ninho a larva se desenvolverá. Entretanto, machos com cornos menores ou ausentes, executam uma estratégia alternativa para acessar a fêmea.. Cavam túneis paralelos ao “oficial” e copulam com a fêmea, enquanto o macho maior fica guardando a porta do túnel…

    Não é um caso de cópula forçada, mas achei legal os exemplos de táticas alternativas..
    Abraço professor.

  5. FabioLugar disse:

    Grande Bessa!

    Concordo que investigar as eventuais bases adaptativas dos comportamentos humanos, principalmente os mais abjetos, é necessário e de forma alguma recai na justificativa moral de tal ato (isso seria uma falácia naturalista).

    Dito isso, algo me diz que o comportamento humano de estupro pode ter bases muito mais complexas do que a relação direta com aptidão. Ao exemplo dos bonobos, que se valem de sexo para resolver conflitos e reforçar laços, não me parece que esse comportamento surgiu apenas porque os que faziam mais sexo tinham mais prole, mas talvez por fitness mediado por privilégios sociais (AKA: a interação entre o comportamento de corte e uma organização social complexa).

    Visto que o comportamento de estupro está também relacionado à uma questão de dominancia, onde ele ocorre fora de qualquer contexto onde existe a possibilidade de gerar prole (e.g. homens estuprando crianças, ou mesmo homens estuprando homens, sem desejo sexual explicito envolvido), me parece mais provável que o contexto social talvez ajude a entender as eventuais vantagens evolutivas (se alguma) do comportamento.

    Outra possibilidade é que o que chamamos de “estupro” seja um conjunto de comportamento totalmente distintos, com origens e “funções” distintas.

    • Eduardo Bessa disse:

      Com certeza, Fábio. Aquele parágrafo que fala de uma hipótese alternativa começa essa discussão dos aspectos sociais do estupro, mas é certo que a discussão é bem complexa. Obrigado pelo comentário.

  6. Há uma boa dose de polêmica quanto à possibilidade de se considerar os casos em animais não-humanos – particularmente em insetos – como estupro ou cópula forçada. Ao menos entre os especialistas em tefritídeos e drosófilas há essa discussão: o quanto a fêmea é mesmo passiva e impossibilitada de evitar a cópula nesses casos.

    Agora quanto à segunda questão destacada do estudo do Ipea: “Em outra parte da pesquisa, 58,5% dos entrevistados atribuíram a causa do estupro à mulher não saber se comportar.”<=Eu acho que a interpretação é um pouquinho diferente: não necessariamente atribuem como *a* causa dos estupros, mas pode ser também como *um dos fatores* que contribuiriam com o estupro. Já que a pergunta formulada é que haveria menos estupros, não necessariamente que não haveria estupro algum.

    []s,

    Roberto Takata

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