O futuro da água
Uma vez assisti uma palestra falando sobre o que se procura no espaço para justificar uma busca mais aprofundada por vida naquela direção. Me chamou a atenção que um dos fatores é a existência de água como condição sine qua non da vida. Pois bem, acho que estamos colocando a nossa em risco.
Sendo a água o solvente universal que dá sustentação à vida na Terra, parece que não estamos nos preocupando muito com isso. Meu doutorado demonstra como até atividades tidas como preocupadas com a preservação (o ecoturismo) podem ter um forte impacto se não forem gerenciadas com cuidado. Lá mesmo onde curso o doutorado, na UNESP de São José do Rio Preto, a professora Lilian Casatti tem se preocupado com a influência da complexidade do habitat, dentro e fora dos rios, nos ecossistemas, especialmente sobre os peixes. Ela falou sobre isso nessa matéria recentemente publllicada na Epoch Times.

Cabeceiras preservadas assim são raras, mas são também a base para a água do planeta todo.
O fato é que ainda não nos damos conta da conexão que existe entre tudo em termos ecológicos. Temos uma visão microecológica dos impactos, achando que um desmatamento pequeno só afetará aquele local. Não é verdade! Uma só atmosfera, fluxos de massas de ar, rios extensos, correntes marinhas e espécies migratórias garantem que um impacto local se torne um problema global.
Para isso também serve a ciência: gerar informação capaz de subsidiar políticas públicas conservacionistas. O problema está na falta de disposição de muitos tomadores de decisão de escutar o que o cientista tem a dizer. Enquanto mantivermos esse diálogo de surdos as perspectivas não são nada boas.
Uma malvácea muito popular
Certos produtos são tão artificiais que esquecemos que têm uma raiz natural em sua composição, mesmo que essa raiz tenha sido abandonada na composição moderna. É o caso do refrigerante mais famoso do mundo. Se você der uma olhadinha na lista de ingredientes dessa bebida verá que um dos principais ingredientes vem da noz de Cola.
A Cola, Cola acuminata, é uma árvore da família Malvaceae, a mesma do algodão, hibisco, baobá e cacau. Suas nozes vêm de um fruto rugoso e duro que contém oito sementes com um invólucro branco, mas vermelhas por dentro. As nozes podem ser secas e trituradas ou fervidas para a extração da cola. Essa árvore cresce até os 25 m na África tropical da Nigéria ao Congo.

De onde vem a noz de Cola? Ilustração de Franz Köhler
A masca da noz de Cola lembra muito a da folha de coca em termos culturais. Revigora, espanta a fome e dizem que até impotência resolve. É usada em rituais que vão da escolha do nome do bebê ao funeral, adivinhos também leem o futuro nas nozes da Cola, mais ou menos como fazem com búzios. Nas tribos, a masca é feita numa grande roda como se faz com o chimarrão no sul. Não é só na cultura ocidental pós-industrial que a Cola é importante!
Hoje é comum produzir o sabor da Cola artificialmente e a extração e comercialização da semente em si perdeu muito interesse. No entanto a noz ainda é cultivada na África e em outras regiões quentes.
Endogamia
Faraós egípcios, labradores com displasia coxofemoral e gêmeos de Cândido Godói todos compartilham a endogamia. Endogamia é a prática de acasalamentos entre organismos aparentados numa população. Isso fará com que os alelos (as diferentes versões de um mesmo gene) herdados por indivíduos de populações endogâmicas tenham vindo frequentemente do mesmo ancestral. A endogamia tem como efeito direto a redução dos heterozigotos (Aa, lembram-se?), que frequentemente são indivíduos mais resistentes. Além disso, muitos problemas genéticos só se expressam em homozigose recessiva (aa) ou dominante (AA). Assim, a endogamia frequentemente traz problemas às populações, ou pelo menos algumas peculiaridades, como bem lembrou o Kardec.
Akhenaton, sua nora era sua filha, seu bisneto era filho de seus dois netos e o avô e o tio-avô de seu tataraneto eram a mesma pessoa. Hein? (Fonte: Wikipedia)
Hoje temos até leis a respeito dos graus de parentesco entre noivos, nosso código civil fala em três graus de diferença no mínimo (primos, por exemplo). Mas essa não foi sempre a regra. Na 18ª dinastia do Egito antigo, por exemplo, a endogamia era forte e, em prol da pureza do sangue real, casamentos entre irmãos e primos eram comuns, sabe-se lá a que custo para a saúde dos faraós. Sugeriu-se que os traços afeminados de Akhenaton, faraó dessa dinastia, pudessem de fato ser uma síndrome como a de Marfan ou Frölich, mas vestígios de seu DNA mumificado derrubaram a hipótese.
O pedigree de uma raça canina (qualquer raça, na verdade), depende do cruzamento seletivo entre os melhores representantes daquela raça, muitas vezes parentes próximos. Com isso alguns problemas genéticos tendem a aparecer, é o caso da displasia coxofemoral, uma falha na articulação entre fêmur e bacia causada pela musculatura desproporcional, especialmente comum em raças acima dos 25 kg. Esse e muitos outros problemas ocorrem na cruza de cães de raça, por isso sou contra o cruzamento caseiro de cães de raça. Apenas criadores credenciados têm os registros necessários para fazer os cruzamentos que mantenham as características da raça sem reforçar excessivamente as doenças genéticas. Isso ocorre principalmente com a inserção de genes estranhos rotineiramente.

Sem o alelo P72 a população de Cândido Godói seria bem menor! (Fonte: prefeitura de Cândido Godói)
A pequena cidade de Cândido Godói, no interior do Rio Grande do Sul, tem dez vezes mais gêmeos que a média nacional (1 em cada dez partos ali é de irmãos gêmeos). Por anos imaginou-se que o fenômeno se devesse a alguma substância na água ou às experiências do médico nazista Josef Mengele, que passou por ali. Nada disso, a geneticista Úrsula Matte, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, encontrou nas famílias com gêmeos uma recorrência do alelo P72, compartilhado por endogamia nessa cidade de cerca de 6500 habitantes.
O que é, o que é?
O que têm em comum a 18ª dinastia egípcia, os cães com displasia coxo-femural e os gêmeos de Cândido Godoi, Rio Grande do Sul?
Respondam nos comentários que eu posto na quarta-feira o resultado.
A alga e o assassinato de Mércia
É tão raro acontecer que resolvi dar mais visibilidade. Vocês viram que um biólogo pode ser o responsável pela prova mais contundente do julgamento de Mizael Bispo dos Santos? O réu, acusado de assassinar a namorada Mércia Nakashima, tinha vestígios de uma alga do gênero Chaetophora na sola do sapato. É a biologia fazendo parte da ciência forense.

A alga que sabia demais: Chaetophora sp. Fonte: eol.org
Imagine que haja na cena do crime uma alga que só ocorra ali. Encontrar vestígios dela no sapato do acusado seria uma prova de que, em algum momento ele esteve no local. Chamamos de endemismo a ocorrência de um organismo apenas numa região. Isso pode ocorrer por isolamento reprodutivo. Uma alga como a Chaetophora, restrita a ambientes de água doce e lenta, até poderia ser endêmica da represa de Nazaré Paulista, já que tanto o rio que chega ao reservatório quanto o que sai têm águas mais rápidas, mas não é esse o caso. Afinal, a represa não é antiga o suficiente para ter gerado uma especiação. Se a alga não é endêmica da represa, como ela pode ser uma prova contra Mizael?
A alga Chaetophora não é exatamente rara nas represas brasileiras, mas por crescer aderida a superfícies lisas, como outras plantas aquáticas, e ser muito suscetível à dessecação só poderia ter ido parar na sola do sapato de Mizael se ele tivesse andado dentro da água com esse sapato. Além disso, o volume de poluentes orgânicos presentes na represa (hipereutrofização) favorece a proliferação dessa alga específica justamente ali. Assim, se não é definitivo que Mizael só pode ter estado na cena do crime, ele pelo menos esteve caminhando de sapatos dentro de uma represa eutrofizada como a de Nazaré Paulista. Pode ser uma prova relativamente fraca isoladamente, mas acompanhada de outras tantas a biologia presta seu papel na justiça, assim como em tantas outras faces da vida.
Vício
Estou olhando para o armário. Sei que ela está lá dentro. Pelo menos dessa vez é consciente. Desejo mais uma dose. A ideia domina meus pensamentos como um refrão chato, recorrentemente. Tantas vezes nem me dou conta. Quando percebo já consumi mais um pouco. Só resta a embalagem vazia evidenciando meu fraquejo.

Um vício pernicioso e perigoso. Fonte: usp.com.br
O pó branquinho, refinado, nem apela tanto a mim, mas acabo consumindo escondido, de outras formas às quais não resisto. Conheço bem esse desejo que sinto agora. Sei que ele só aquieta se eu ceder, mas voltará mais forte depois. Penso na sensação do consumo. No bem-estar instantâneo que ela me dá. Na substância entrando no meu corpo, sendo absorvida no meu sistema digestório, entrando no sangue. No alívio de senti-la atingir meu cérebro. Meu sistema límbico excitado pelo prazer do consumo vai lembrar daquilo e, como agora, me fazer querer mais.
Mas sei também dos malefícios. Pelo menos conscientemente sei. Conheço tanta gente que se perdeu para o vício. Tanta gente que morreu por ele, na minha própria família. Tento pensar na dependência, tento pensar no estrago que virá se eu ceder. Tento me convencer de que não posso abrir mão das conquistas que alcancei até agora, de todo o trabalho feito para me livrar. Na deterioração do meu corpo que o consumo causará. Na insulina que um dia pode não ser mais suficiente. Nada adianta, o pensamento retorna cada vez com mais força.
Um lado sombrio de mim contra-argumenta: Quase todo o mundo usa e nada acontece. Não seja paranoico. É só mais um pouquinho, não vai te fazer mal. Você merece, já está sem faz algum tempo. É tão bom. Resolvo tomar uma atitude. Visto-me e saio, sem dinheiro no bolso para evitar comprar na rua, onde em toda esquina é fácil encontrar. Vou dar uma volta. Tentar esquecer. Pelo menos adiar ceder ao vício. Muita gente nem me considera um viciado, mas eu sei da verdade. Sou viciado em açúcar.
O dia em que conheci a Maria Gorda

- Maria Gorda
Maria Gorda é um baobá enorme que cresce em Paquetá, bucólica ilhota da Baía de Guanabara. Essa árvore centenária, personagem até do Pequeno Príncipe, cresça numa curva da praia dos Tamoios. Ela foi colocada na ilha pelo Dr. José Caetano de Almeida Gomes, médico e naturalista apaixonado pela botânica. A cinturinha da Maria Gorda já tem três metros (diâmetro de caule à altura do peito, uma medida comum em fitossociologia), outros baobás mais velhos chegam a até 8 m. Uma gordinha simpática e bonita de se admirar.

O baobá da Ilha de Paquetá
Sereias existem? O documentário
Meu padrasto é um homem muito inteligente e uma conversa sempre agradável. Parte dessas conversas, pelo menos comigo, tem por enredo documentários que ele adora assistir na TV a cabo. Esses tempos estávamos conversando e ele me contou de um documentário sobre sereias que o deixou muito intrigado.
No filme “Sereias, o corpo encontrado” o biólogo marinho Brian McCormick, funcionário da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), descobre um som diferente, que eles denominam bloop, através de microfones submarinos. Sua equipe sai então em busca de mais evidências quando começa a ter contratempos com a marinha americana em casos de encalhes de baleias. Na África do sul um animal não identificado é encontrado no conteúdo estomacal de um tubarão branco. McCormick não só relaciona esse corpo aos bloops que seu microfone gravou, mas também o identifica como uma sereia, um hominídio semi-aquático produtor de ferramentas e que se comunica usando sons, um canto, inclusive compreensíveis por outros mamíferos aquáticos.
Nunca fui muito fã de documentários de história natural, mas acho que o Discovery Channel exagerou dessa vez. O estilo tem até um nome: Mockumentary, uma fusão das palavras mock (imitar) e documentary (documentário); e não é o primeiro exibido pelo canal que já levou ao ar “Dragões, uma fantasia real”. O próprio canal deveria usar um disclaimer mais enfático avisando ser uma brincadeira (parece que no início do vídeo aparece algo avisando tratar-se de ficção científica). Fiz uma pesquisa mais aprofundada para apresentar a vocês. Vamos às minhas evidências:
1) Não há nenhum artigo científico sobre biologia marinha publicado por Brian McCormick.
2) Também não há nenhum artigo apresentando o Bloop produzido por qualquer mamífero marinho. Mas, como o Willy me alertou, o som existe e pode ser escutado aqui. Obrigado pelo comentário!
3) O IMDb traz a lista de atores que integram o elenco do filme, entre eles Sean Michael no papel de Brian McCormick. O ator também estrelou papéis importantes como o do policial em “Esqueceram de mim 4”!
4) A própria emissora emitiu uma nota de imprensa afirmando que o programa é de ficção científica baseada em alguns eventos reais e hipóteses científicas. A própria NOAA veio a público afirmar que sereias, até o momento, existem apenas no imaginário humano.
Desbancada a farsa, fica meu sentimento de que, com tanta realidade encantadora para descrever nesses canais, para que enganar a audiência? Ainda conhecemos muito pouco dos nossos oceanos e até hoje espécies novas de baleia são descobertas, então não me surpreenderia se um dia descobríssemos sim algo como uma sereia. Que fique claro, no entanto, que até o momento não existe evidência nenhuma da existência desses seres.
Os camundongos inconformados
Naquela manhã, no consultório psicanalítico…
A doutora aguardava dois clientes camundongos, mas estava preocupada mesmo era com a reação da secretária. Sua última ajudante ficou apavorada quando um cliente antigo, um ratão do banhado que tinha medo de água, entrou na sala de espera. Ela sempre achara simpática a cara daquele animal, mas concordava que o rabo era repugnante.
A primeira cliente já aguardava na antessala. Uma mãe de oito camundonguinhos de olhos fundos e mamas inchadas de devoção pelos seus filhotes se queixava do parceiro que não a ajudava.

Fêmeas de camundongo pedem ajuda para cuidar da prole a seus parceiros usando feromônios e ultrassons. Fonte: eurekalert.org
-Para mim, doutora, a demonstração maior da inutilidade dos machos são aqueles mamilos. Usaram tão pouco que perderam a função! Por mim eles todos podiam cair em desuso e desaparecer que não fariam falta.
-Não seja tão lamarckista. – Interpelou a doutora.
-Extremista?
-Lamarckista. Deixa para lá. Você já pediu a ajuda dele para cuidar das crianças?
-É claro que sim.
-Mostre para mim como você falou com ele. Finja que sou seu marido e me peça ajuda. – Sugeriu a terapeuta usando a técnica do espelho.
-Ora, doutora. Eu pedi. Ah, não sei. Falei mais ou menos assim… Bom, ele nãos está vendo como estou sobrecarregada? Não acho que eu precisasse falar. O que é? Ele queria participar só na hora de fazer a ninhada? Não é justo! Ele fica lá só metido nas coisas de macho dele e não olha para mim. Não colabora. Esquece as minhas necessidades e as dos filhos dele. Nem parece que moramos na mesma cuba do mesmo biotério.
- Você tem razão, mas se não contar para ele que precisa de ajuda não pode exigir que ele adivinhe. Machos são menos inclinados a cuidar da prole mesmo, especialmente em mamíferos como você. Você tem que pedir ajuda do jeito certo.
-Que jeito é esse? – Perguntou a roedora arregalando os olhinhos escuros, mexendo de leve as orelhinhas arredondadas e eriçando as vibrissas.
-Bom, primeiro você precisa liberar feromônio e então emitir vocalizações ultrassônicas. Uns 38 kHz são suficientes.
-ASSIM?!?-Gritou estridentemente a Sra. Mus fazendo tremer os vidros do consultório e levando a analista a tampar os ouvidos, mas num tom que você e eu não escutaríamos.
-Isso, mas não precisa ser tão alto, só agudo. Agora vá para casa e semana que vem você me conta no que deu. – A doutora encerrou a seção encaminhando a primeira cliente até a porta e já chamando o segundo, um camundongo macho de outra espécie. Ao se cruzarem na sala de espera a cliente anterior lançou-lhe um olhar cheio de ressentimento que a ela pareceu cabido contra camundongos machos, mas deixou-o sem entender nada.
-Doutora, toda minha vida imaginei a casa dos meus sonhos. A mais linda da ravina. Localização e tamanho de cada cômodo, portas, janelas e corredores amplos. Sonhava em deixar aquelas tocas tradicionais para trás, viver numa casa aconchegante e cheia de personalidade, a minha personalidade. Desde que me lembro vivo em tocas exatamente iguais, um longo corredor de entrada, uma câmara central e um corredor de fuga quase até a superfície para o caso da invasão de um predador. Meus pais vivam assim, meus avós paternos e maternos viviam assim. Queria sair desse ciclo. – Queixava-se o camundongo deitado no divã. – O problema é que, agora que chegou a minha hora de realizar o sonho, fazer minha própria toca, não consigo abandonar o paradigma. Estou construindo os mesmos túneis estreitos e longos, câmaras e saídas de emergência de meus ancestrais.
-É comum reencenarmos coisas do passado, Sr. Peromyscus…
-Eu sei, doutora. É aquela história freudiana de recordar, repetir e elaborar os traumas. Né? – interrompeu o roedor.
-Não exatamente. Aí o que está acontecendo é que suas tocas são influenciadas pelos genes. Você herdou essa conformação de toca de ambos os seus pais, portanto tende a repeti-la.
-Mas, doutora, os genes controlam até isso? Não é determinismo demais? – Perguntou o cliente franzindo as sobrancelhas e apertando a boca até quase fazer sumir os longos incisivos.
-Compreendemos ainda muito pouco sobre o papel dos genes no comportamento e sua modulação, mas parece que no caso da sua toca você está geneticamente condenado a repetir a morada dos seus pais. Até as três sequências genéticas que indicam o comprimento do túnel de entrada e a sequência que indica a presença da saída de emergência são conhecidas para a sua espécie. – Sentenciou a psicóloga.
Despediram-se na porta do elevador, o camundongo se esgueirando ligeiro pelo canto do corredor, resignado e mudo. Enquanto isso a doutora pensava como todos nós temos dificuldade de lidar com a realidade. Dois camundongos tão diferentes, mas tão semelhantes. Um quer mudar o parceiro, o outro o lar. Somos todos inconformados. O que não é de todo mau, já que esse inconformismo nos move.
Liu, H., Lopatina, O., Higashida, C., Fujimoto, H., Akther, S., Inzhutova, A., Liang, M., Zhong, J., Tsuji, T., Yoshihara, T., Sumi, K., Ishiyama, M., Ma, W., Ozaki, M., Yagitani, S., Yokoyama, S., Mukaida, N., Sakurai, T., Hori, O., Yoshioka, K., Hirao, A., Kato, Y., Ishihara, K., Kato, I., Okamoto, H., Cherepanov, S., Salmina, A., Hirai, H., Asano, M., Brown, D., Nagano, I., & Higashida, H. (2013). Displays of paternal mouse pup retrieval following communicative interaction with maternal mates Nature Communications, 4 DOI: 10.1038/ncomms2336
e
Weber, J., Peterson, B., & Hoekstra, H. (2013). Discrete genetic modules are responsible for complex burrow evolution in Peromyscus mice Nature, 493 (7432), 402-405 DOI: 10.1038/nature11816
Mate de tonel
Sempre amei o mate vendido em tonéis metálicos nas praias do Rio de Janeiro tanto quanto sempre fui avisado de sua qualidade microbiológica duvidosa. Posso estar sendo injusto e ignorar os procedimentos sanitários aplicados por esses comerciantes, mas preciso considera-los nulos para esse post sobre imunologia que explica por que continuo consumindo esse mate em vez dos de copinho, selado e industrializado.
A alimentação é uma via de entrada de infecções em nosso organismo, pela boca ingressam vários microrganismos que podem ser prejudiciais a nós. Uma informação surpreendente para muitos é que o controle sanitário de vários itens alimentares trabalha com quantidades limites de bactérias fecais nos alimentos, por exemplo, e não com sua total ausência. Mesmo produtos certificados pela ANVISA vêm com algum grau de contaminação (até 102 bactérias por grama de carne), e isso não é um problema porque nosso corpo acaba dando um jeito.
Quando um patógeno desses invade nosso corpo ele eventualmente esbarrará em linfócitos B e T, células de defesa do sangue que circulam pelo corpo como que fazendo rondas. Essas células identificam patógenos e convocam reforços, através de comunicação celular química, para ataca-los. A identificação de um patógeno é possível quando o corpo já teve contato com ele, a chamada memória imunológica, mais ou menos da mesma forma que uma ficha policial com fotografia e digitais faria pela polícia. Desde que já tenha contatado um patógeno específico presente no mate de tonel, nosso corpo saberá responder a ele mantendo seu equilíbrio interno.
Não sei se é fantasia minha, mas sinto até que esse mate de tonel tem um gosto diferente. Dizem que é gosto de água podre. Pode ser. Não sei, mas confio no meu sistema imune para dar conta dos germes e quem sabe até aprender umas coisas novas com os patógenos dessa dose. Mate de tonel faz bem para seu sistema imune.
Tendo dito tudo isso, refuto-me a mim mesmo. Imunidade que nada, tomo esse mate porque é muito mais gostoso!






Eduardo Bessa é zoólogo na Universidade do Estado de Mato Grosso e especialista em comportamento animal.