Etologia de Alcova – Bate que eu gosto

Corte ou agressão? Machos do pássaro caramanchão batem nas fêmeas, mas só nas que pedem (Imagem: flickr/ Krysia B.)

Mês passado falei da violência como parte do conflito sexual no comportamento reprodutivo. Esse mês quero continuar no tema, mas falando da violência na seleção sexual. De fato, nem sempre comportamentos aparentemente agressivos para um observador humano são de fato indesejáveis para o parceiro que está experimentando, a violência pode ser inclusive o que um parceiro procura no outro.

Frequentemente a corte serve como uma amostra do que um macho é capaz. Ele exibe seus dotes à fêmea. Entre espéceis territoriais, portanto, é muito comum que o macho mostre como ele é agressivo durante a corte. É isso que observamos no pássaro caramanchão australiano. O macho encurrala a parceira dentro de um corredor de palha que ele constroi e lhe dá umas porradinhas de leve. Tudo parece muito violento, mas quando pesquisadores construíram robôs de fêmeas que não reagiam às investidas violentas dos machos (A que ponto chega a pesquisa em comportamento animal!?!), descobriram que havia todo um código entre os parceiros sobre quão mais forte o macho poderia bater.

No peixe beta, machos lutam para ter acesso às fêmeas. Isso já foi descrito por Darwin em seu livro sobre seleção sexual como seleção intrassexual, então nada de novo. O surpreendente é que quando fêmeas assitiam a lutas elas escolhiam acasalar com o ganhador, mesmo que esse ganhador não pudesse mais evitar que ela ficasse com o perdedor. Aparentemente também não é que a fêmea estava escolhendo uma característica do macho que o fazia ganhar, em lutas manipuladas ela continuava preferindo o vencedor, mesmo que ele fosse maior e mais forte. Isso faz estremecer a fronteira entre seleção intra e interssexual proposta pelo Darwin de forma categórica. Pelo jeito, alguns machos exibem caudas coloridas, outros exibem adversários de olhos roxos.

Nos humanos mesmo a seleção sexual está frequentemente relacionada com indicadores de força física e até de agressividade. Um peitoral desenvolvido e um braço forte são valorizados pela mulherada. Mais do que isso, um estudo clássico publicado na Science propôs que mulheres no auge da fecundidade preferem homens com indicadores faciais (barba, forma do queixo, tamanho do nariz e densidade da sobrancelha) que remetem à testosterona, um hormônio fortemente relacionado à agressividade.

Portanto, a máxima “em briga de marido e mulher não se mete colher” se estende também ao reino animal. Nunca se sabe o quanto aquela aparente violência não está agradando.

Etologia de Alcova – Monogamia

Monogamia, talvez a mais bizarra das perversões, também ocorre entre os animais. (Imagem: virginmedia.com)

 

Recém passamos o dia dos namorados e me ocorreu discutir aqui uma das mais bizarras perversões que os animais podem praticar, a monogamia. Muitos chauvinistas por aí sugerem que a monogamia é uma aberração que interessa apenas à mulher e que contraria completamente a natureza masculina, logo veremos que não é bem assim. Mas também veremos que existem motivos para a monogamia evoluir.

Um mito relacionado à monogamia é a quem ela interessa. A natureza biológica de ser macho (um ser que produz muitos gametas pequenos e energeticamente baratos) faz com que seu sucesso reprodutivo aumente à medida que ele consegue mais parceiras. Por outro lado, fêmeas (seres que produzem poucos gametas grandes e energeticamente caros) aumentam seu sucesso reprodutivo à medida que conseguem parceiros melhores. À primeira vista isso corrobora a opinião machista de que é da natureza masculina trair, mas pense que não existem tantos bons maridos por aí. Então, se ele não vai ajudar em nada com os filhos, o melhor para as fêmeas seria acasalarem-se todas com os poucos bons parceiros que existem, deixando dezenas de machos a ver navios. A monogamia só interessa aos machos feios, isso porque ter uma parceira é infinitamente mais do que ter zero, enquanto ter duas parceiras é só duas vezes mais do que ter uma. Garantindo fêmeas monogâmicas os maus parceiros pelo menos terão alguma chance de reproduzir.

Existem diversas espécies realmente monogâmicas entre os animais. Qual seria a razão evolutiva para isso? Existem algumas. Primeiro, se o cuidado aos filhotes for muito trabalhoso a ponto de só um dos pais não dar conta, largar a mãe sozinha para cuidar significa que você jamais deixará descendentes. É essa a explicação para alguns roedores monogâmicos. Outra opção é quando a dificuldade de encontrar outra parceira é menor do que a chance de acasalar de novo com a mesma, o que explica a monogamia num cavalo-marinho. Uma terceira possibilidade é que o casal dependa de um recurso para reproduzir que só os dois parceiros juntos conseguem proteger. alguns peixes limpadores em recifes de coral fazem isso. Também pode ser que uma fêmea que se desloca muito e cuja entrada no cio não possa ser prevista force um macho a estar sempre perto dela e defendê-la de outros pretendentes, como observamos em aves migratórias. Em algumas espécies, como os besouros coveiros, o zelo da fêmea em impedir o macho de arrumar outra á tão grande que o custo de trair é mais alto do que o benefício obtido, inibindo o comportamento. Por fim, é possível que, se você desertar sua parceira, seus filhotes sejam mortos por um macho rival que chegue depois da sua partida. Esse é o caso de vários mamíferos monogâmicos.

Portanto, a monogamia não é um comportamento comum, mas também não é impossível. Diversas histórias de vida favorecem a ligação de longo prazo entre machos e fêmeas, como vimos acima. Também fica claro que, para a fêmea, a monogamia pode ser menos interessante do que imaginávamos, desde que ela não precise dos possíveis cuidados que o macho daria aos filhotes. Quanto aos humanos, temos culturas monogâmicas, pelo menos socialmente, promíscuas, poligínicas (um homem com muitas esposas), e até poliândricas (uma esposa com muitos maridos). Qual das explicações acima você acha que mais se enquadra para explicar a prevalência da monogamia na nossa sociedade?

Etologia de Alcova – brinquedos sexuais

O que causa esse sorriso? Imagem: livejournal.com

 

Quem olha o catálogo de um sex-shop pode ficar surpreso com a diversidade de brinquedinhos para adultos disponíveis, mas saiba que o uso de ferramentas para obter prazer não é exclusividade nossa. Já há algumas décadas que descobrimos que outros primatas são eficientes produtores de ferramentas, mas seu uso para o sexo é mais raramente documentado, mas vamos a alguns exemplos.

Orangotangos selvagens ganharam de um pesquisador um pedaço de pau e logo começaram a usá-lo para friccionar seus genitais. Um orangotango passou a ferramenta para outro pedindo ajuda para usá-la. Até o pesquisador recebeu o bastão de um dos primatas que lhe mostrava onde deveria colocá-lo.

Bonobos eram tidos como péssimos fazedores de ferramentas, mas trabalhos mais recentes com animais de cativeiro mostraram que as ferramentas são mais comumente usadas pelas fêmeas e frequentemente servem a funções sexuais. Um grupo de pesquisadores descreveu a maneira criativa como vagens foram usadas pelos animais para se aliviar. Outros casos incluem chimpanzés machos adolescentes fazendo sexo com uma goiaba bem madura.

Mas não são apenas os primatas. Um vídeo no youtube tornou-se viral ao mostrar um boto num aquário público penetrando  um peixe decaptado. O peixe, que estava ali como alimento, ganhou funções muito mais interessantes. Queria ver como os pais presentes no momento explicaram a cena aos seus filhos.

É difícil julgar, mas o fato é que o uso de ferramentas é bem mais comum do que se pensava, incluindo o uso de ferramentas sexuais.

Etologia de alcova – Sexo em troca de favores

Será que animais se prostituem? Uma das primeiras coisas que aprendemos quando vamos trabalhar com comportamento animal é a nunca antropomorfizar os comportamentos, nunca interpretar sua intenção de um ponto de vista humano. É provavelmente a parte mais impossível difícil da etologia, mas a gente tenta. Nesse ponto o Ciência à Bessa é uma boa válvula de escape. Aqui posso ser um pouco mais flexível com meu antropomorfismo e até colocar animais no divã de uma psicanalista, por exemplo. Esse mês vou falar sobre mais um comportamento sexual que muitos juram ser exclusividade humana, a troca de sexo por favores. Poderia denominar isso prostituição, mas seria cometer mais antropomorfismos do que estou disposto. Nesse caso, irei relatar o que acontece e deixarei o leitor definir como achar melhor.

Você me ama? Eu te trouxe uma mosca. Sexo em troca de favores (Fonte: arkive.org)

Fêmeas de diversas espécies de animais frequentemente fazem sexo em troca de favores dos machos. Estes machos usam seu status e poder para obter recursos que ele doará à fêmea se ela estiver disposta a doar-lhe alguns de seus óvulos em retribuição. Grilos da espécie XXX produzem uma substância gelatinosa junto com o espermatóforo que as fêmeas irão ingerir. Aranhas macho da família Pholcidae desenvolvem uma protuberância em partes de seu corpo que será comida pela fêmea durante a cópula.

Outras espécies oferecem presentes que, diferente das protuberâncias ou secreções mencionadas acima, não são produzidos por elas mesmas. É o caso das aranhas Trechaleidae, que capturam presas em suas teias, embrulham em teia, e entregam às fêmeas em troca de sexo. Quanto maior e mais nutritivo o presente, tanto maior serão as chances do macho obter sucesso. Algo parecido ocorre com o ciclídeo africano Lamprologus callipterus, cujos machos defendem conchas onde as fêmeas desovam. Se uma fêmea quiser desovar numa dada concha, terá que aceitar que o pai de seus filhos será o macho que a defende. Um último exemplo, nas moscas da família Empididae, machos caçam presas e procuram enxames de fêmeas para trocar sua presa por sexo. Se a presa é grande e nutritiva, as fêmeas disputam ferozmente entre si pelo macho.

Nos mecópteros, insetos voadores às vezes chamados erroneamente de mosca-escorpião numa tradução literal do nome em inglês mas que nada têm a ver com as moscas verdadeiras (dípteros), machos grandes guardam grandes quantidades de alimento que oferecem às fêmeas, isso se elas aceitarem fazer sexo com eles. Machos um pouco menores não conseguem proteger esses alimentos, então influenciam a fêmea oferecendo-lhes uma deliciosa guloseima feita com sua própria saliva. Guardar alimento como os mecópteros grandes é a forma mais certeira de conseguir sexo, os presentes de saliva garantem aos machos menores algumas cópulas, mas certamente a tática menos eficiente é não oferecer nada em troca às fêmeas, o que ocorre com machos pequenos. Nesse caso eles só conseguirá sexo se forçarem suas pretendentes.

Até construções naturais magníficas, mas que não servem para mais nada na biologia desses animais, podem ser consideradas um escambo por sexo. Na Austrália pássaros caramanchão constroem cabanas ornadas com itens metálicos, azuis e amarelos para atrair fêmeas, mas na hora da desova a fêmea usa outro local como ninho. A cabana é só uma homenagem que a fêmea exige do macho para dar-lhe o que ele quer. O mesmo vale para os assombrosos morrotes de mais de um metro construídos no Lago Malawi por pequenos ciclídeos. A fêmea usa esses morrotes para escolher o parceiro, mas não usa o morrote para depositar seus ovos.

Caramanchões, um presente? (Imagem: nus.edu.sg)

Talvez você tenha reparado que em todos esses casos é a fêmea que cede o sexo em troca do favor. Não existem casos do contrário na natureza? Não consigo me lembrar de nenhum agora, mas mesmo que exista, ele será uma exceção. Isso porque a diferença biológica básica entre machos e fêmeas é que os óvulos das fêmeas são muito mais valiosos que os espermatozoides dos machos. É por isso que as fêmeas em geral tendem a ser mais exigentes, inclusive exigindo favores dos machos em troca de sexo.

Etologia de Alcova – Orgias

Quantos sapos você vê nessa foto? Estão todos acasalando com uma fêmea em algum lugar aí no meio. (Foto: Neil Phillips/scienceblogs.com/tetrapodzoology)

É carnaval e você ainda arrumou uma hora para vir conferir o Ciência à Bessa. Enquanto relaxa no sofá tenta contabilizar quantas bocas beijou na noite anterior. Como é maravilhoso o comportamento humano e essas festas de libertação, com seu representante máximo no carnaval brasileiro. Talvez você se surpreenda, mas orgias assim não são exclusividade da nossa espécie.

Peixes que formam cardumes frequentemente têm seu período de sexo irrestrito. Dependendo da espécie, basta a quantidade de alimento, o volume de chuvas ou a duração dos dias atingir um valor crítico que os peixes entram em frenesi sexual. Centenas de casais se formam e fazem sexo insanamente, todos juntos. Entregam-se com tamanha paixão e lascívia que parece que é a última coisa que eles farão na vida, e para muitas espécies é mesmo. É o caso das enguias e salmões no hemisfério norte. Acasalam-se torridamente, põem ovos e depois do prazer têm o bom senso de morrer.

De forma similar, alguns anfíbios praticam o que se chama tecnicamente de reprodução explosiva. A frieza dos jargões à parte, na prática o que ocorre é que fêmeas dadivosas vão para locais onde muitos machos se concentram para entregar-se ao sexo liberal apenas cerca de três ou quatro dias no ano, voltando a sua vida pacata depois disso. Ali elas são montadas por vários machos, em alguns casos dezenas deles ao mesmo tempo. Também é comum que os machos cubram a fêmea de esperma durante esse ato. Vale ressaltar que, por competir com outros machos pela fecundação dos óvulos da fêmea, nesses animais a seleção natural levou à evolução de machos que possuem testículos descomunais e produzem quantidades astronômicas de esperma.

Você poderia argumentar que esses exemplos não tem nada de carnavalesco, que eles visam especificamente à reprodução. De certa forma você tem razão, então vejamos alguns exemplos de sexo liberal e desvinculado da reprodução, e que ocorre em nossos primos mais próximos. Entre os grandes primatas é comum que conquistas valiosas sejam celebradas com muito sexo. Bonobos são primatas tão proximamente aparentados a nós humanos quanto os chimpanzés que antigamente eram conhecidos como chimpanzés pigmeus. Eles, no entanto, vivem numa sociedade matriarcal onde o sexo tem papel social fundamental. Ao receber uma lauda refeição no zoológico, bonobos celebram fazendo sexo freneticamente antes mesmo de tocar no alimento. Quanto mais participativo na suruba for um indivíduo, tanto maior será sua parte do alimento.

A reporter não comenta, mas veja os chimpanzés se montando e friccionando os genitais.

Já entre os chimpanzés orgias foram documentadas em zoológicos europeus. Em locais frios esses animais passam o inverno recolhidos em recintos pequenos e fechados. Alguns meses sem sair ao ar livre ou ver o azul do céu e, quando são liberados de volta ao chegar a primavera, esses chimpanzés espalhavam-se pelos gramados se beijando, acariciando e acasalando sob a luz cálida do sol. Antes que alguém pense que este é um comportamento artificial, gerado pelo contato com os humanos nos zoológicos, aviso logo que a mesma coisa acontece quando abatem uma caça grande que irão dividir com o grupo na natureza. Sexo como uma forma de comemorar, sem papel reprodutivo algum.

Nenhum etólogo sério daria o nome desses fenômenos de orgias ou o compararia ao carnaval no ambiente acadêmico. Mas não seria mais ou menos isso que estaria acontecendo? Liberação, comemoração, sexo e alegria, tudo isso misturado num período curto do ano antes que todos voltem à vida normal. Aproveitem o carnaval. Comportem-se como os animais que somos.

Etologia de alcova – Homossexualidade

Leões gays, não deixem os pastores verem isso.

A nova série de posts do Ciência à Bessa vai falar sobre comportamentos que muita gente poderia julgar exclusivamente humanos, mas que ocorrem entre animais. O sexo é um grande tabu em nossa sociedade, recluímos muito do que fazemos às quatro paredes do quarto, a alcova. Mas a despeito da afirmação que Desmond Morris fez na década de 70 sobre a exacerbada sexualidade humana em seu livro clássico, O macaco nu, muito do que se pensava fazer parte da nossa criatividade sexual nada mais é do que herança de nossos ancestrais. Etologia é a ciência que estuda o comportamento dos animais, no Brasil os etólogos estão organizados na Sociedade Brasileira de Etologia, à qual eu sugiro fortemente que você se filie se tiver interesse n esse assunto. A Etologia de alcova discutirá vários comportamentos sexuais que certamente te surpreenderão.

Minha aluna Raiane Costadelle estava estudando quais as pistas que as fêmeas de jabutis usam para escolher seus parceiros. Tínhamos diferentes informações a respeito dos machos: seu peso, tamanho, posição hierárquica e carga de parasitas. A ideia era descobrir qual característica era mais importante para garantir que um macho conseguisse acasalar, então sempre que a Raiane encontrava um casal em cópula ela anotava o número do macho que estava por cima e, só para saber, o da fêmea que estava por baixo também. Qual não foi a surpresa dela quando percebeu com certa frequência que o jabuti que estava por baixo não era uma fêmea, mas outro macho!

A homossexualidade não é exclusividade dos humanos e dos jabutis. Num artigo de 2009, Nathan Bailey e Marlene Zuk (que entrevistei logo que esse artigo saiu) listaram uma série de espécies e contextos em que o comportamento homossexual ocorre. São golfinhos que se tornam mais unidos e colaborativos se entre eles emerge um pouco de sexo, mosquinhas da fruta que praticam com outros machos antes de se acasalar pela primeira vez com uma fêmea, pica-paus fêmeas que evitam a guerra fazendo amor, libélulas que, na falta da fêmea, acasalam com outros machos, machões dominantes que para demonstrar seu poder montam em seus inferiores, como ocorre entre bisões e aparentemente nos nossos jabutis, entre diversos outros casos.

A essa altura você pode estar se perguntando: mas como a homossexualidade poderia evoluir se ela levaria o gay a jamais deixar descendentes? Essa pergunta reflete duas visões duvidosas: a determinação genética da homossexualidade e nossa visão dicotômica da sexualidade, na qual ou se é homossexual ou heterossexual, o que provavelmente está muito longe da realidade. O biólogo que se tornou um dos maiores especialistas do mundo em comportamento sexual humano, Alfred Kinsey, distribuía os humanos num continuo de homossexualidade desde homossexuais estritos até heterossexuais estritos, incluindo todos os seus graus intermediários. Sendo assim, mesmo que haja um gene gay, é possível a homossexualidade evoluir, não só entre os humanos, mas por toda a natureza.

 

Estupro, ninguém merece

O resultado da pesquisa do IPEA intitulada “Tolerância social à violência contra a mulher” fez barulho nos últimos dias. Ele aponta que 65,126,0%* dos 3810 entrevistados, dos quais 66% eram mulheres e 4434% (Obrigado asd) homens, concordam que mulheres com roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Em outra parte da pesquisa, 58,5% dos entrevistados atribuíram a causa do estupro à mulher não saber se comportar. A pesquisa desencadeou uma campanha nas redes sociais durante o fim de semana.

O tema é espinhoso e passional, mas vou me arriscar a comentá-lo do ponto de vista do comportamento sexual na esperança de não ser mal interpretado. Antes de começar, ressalto que avaliar as bases biológicas de um comportamento não tem nada a ver com justificá-lo, muito menos concordar com ele. Sou radicalmente contra o estupro, apenas acredito que minha linha teórica pode ajudar a compreender e até evitar esse problema social.

Em diversas espécies nas quais a seleção sexual é forte, apenas uma pequena parte dos machos consegue satisfazer os critérios de seleção das fêmeas. Assim, machos incapazes de adquirir uma parceira da forma tradicional desenvolvem comportamentos reprodutivos alternativos. Alguns se passam por fêmeas para entrar num harém, outros roubam cópulas furtivamente. Uma forma comum de burlar a escolha da fêmea por parceiros é o sexo coercivo, especialmente, em espécies agressivas com machos maiores que as fêmeas.

Mecópteros como este são forçados a copular por machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Mecópteras como esta são forçadas a copular com machos mal sucedidos em conseguir parceiras por outras vias. Modificado de wikipedia.org

Insetos mecópteros do gênero Panorpa constituem um exemplo disso. Nestes insetos só machos que presenteiam a fêmea com alimento são aceitos para acasalar, mas machos que não conseguem esse alimento podem forçar a fêmea a copular segurando-as com uma pinça que têm no abdômen enquanto fazem a penetração. Algo semelhante acontece com andorinhas do penhasco. Machos em geral começam a construir seus ninhos e cortejam fêmeas que os ajudarão a terminar o trabalho. Conseguir um bom local para nidificar é difícil, então, machos que não conseguem encurralam a fêmea no fundo do ninho de outro casal quando seu parceiro está ausente e forçam a cópula.

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

Fêmeas dessa andorinha são encurraladas por machos nos ninhos e forçadas a copular. Alterado de wikipedia.org

O que podemos tirar daí? É possível projetar algo disso nos casos de violência sexual em humanos? Suspeito que sim. No caso do sexo coercivo ser um comportamento reprodutivo alternativo, podemos prever que ele será praticado por homens incompetentes em conseguir uma parceira, mas que se valem de força. Ele também deverá ocorrer, preferencialmente, com mulheres mais indefesas e sexualmente férteis, entre 13 e 40 anos, com pico por volta dos 20 a 30 anos.

Há outra hipótese, entretanto, que sugere que o sexo coercivo, assim como diversos outros comportamentos masculinos como a masturbação, não é uma adaptação, mas um efeito colateral da superestimulação sexual. Neste caso, poderíamos prever que estupradores são homens com vida sexual muito ativa e baixa seletividade de parceiras e que a idade das vítimas não importaria muito.

Infelizmente, um assunto cercado de tanto tabu torna difícil acumular dados isentos o suficiente para avaliar essas hipóteses. Sabe-se que estupradores condenados costumam ter um histórico de frustração em atrair parceiras espontaneamente, o que concorda com a primeira hipótese. Por outro lado, outro relatório do IPEA aponta que 50,7% dos estupros registrados no SUS ocorrem com menores de 13 anos, o que concordaria com a segunda hipótese caso a mesma pesquisa não sugerisse que apenas cerca de 10% dos casos de estupro são relatados, às vezes por ser um parente ou “amigo”.

É claro que são necessários mais estudos e dados confiáveis para tomar decisões que levem à redução desse crime e garantam às mulheres a liberdade e segurança que merecem sem culpá-las por um desvio do comportamento masculino. Menos preconceito contra análises adaptativas do comportamento humano também não cairia mal, já que negar as bases biológicas do comportamento humano é tapar o sol com a peneira. Conhecer nosso lado instintivo, em vez de negá-lo, me parece a melhor forma de usar essa razão da qual tanto nos orgulhamos para evitar irracionalidades como o estupro. Frise-se que dizer que um comportamento ocorre na natureza não significa aceita-lo. Mas, no final, a conclusão que mais importa é que #ninguém merece ser estuprado. É direito da mulher se portar ou se vestir como bem entende e é dever do homem, ele sim, saber se comportar.

*Atualização: É claro que o percentual ainda assusta, mas uma errata divulgada uma semana depois pelo IPEA mostrou que dois gráficos foram trocados. Interessantemente, agora o que choca é a opinião de que mulher que continua com um marido agressivo é porque gosta de apanhar, ignorando completamente a relação de medo que surge num relacionamento violento.

O cervo veado?

Naquela manhã, no consultório psicanalítico…

A doutora havia instalado na antessala um equipamento de som ambiente. caixinhas de som bem fracas apenas para quebrar o silêncio e o clima tenso da sala de espera. Fez também uma seleção de bossas, jazzes e até uma levada eletrônica mais lounge que ela gostava. Acontece que a secretária nova insistia em trocar as músicas e colocar algo de seu gosto (duvidoso). Aquele dia a doutora encontrou na antessala seu cliente novo incomodado com o repertório da atendente, que ia de Village People a Barbara Streisand, numa playlist que poderia receber o nome de gay parade.

-Credo, doutora. Essas suas músicas dão sono. Nem aumentar o volume dá com esses alto-falantes fracos que você comprou. – Reclamou a secretária. – O veado do seu próximo cliente já chegou.

-Não sou veado, sou um cervo! – bramiu o cliente, bufando pelas narinas.

-Ele não é veado e isso aqui não é uma danceteria. Por favor, desligue isso! – Respondeu a analista e, transformando a cara sisuda num sorriso sutil virou-se para o cliente. – Bom dia, Sr. Cervus, queira entrar e acomodar-se no divã.

Veados preferem ficar juntos com outros do seu próprio sexo, mas disso a gente já sabia. Foto: Mehmet Karatay

Veados preferem ficar com outros do seu próprio sexo, mas disso a gente já sabia. Foto: Mehmet Karatay

O enorme cervo, um macho garboso, com andar elegante e galhada imponente, entrou e deitou-se. Atrás dele a terapeuta posicionou-se num ponto onde o cervo não enxergava, sob a luz fraca de um abajur alto.

-Doutora, minha fama não está das melhores. Andam dizendo coisas de mim…

-É mesmo? Não estou interessada no que os outros dizem. Quero saber o que você tem a me dizer sobre você. – cortou a terapeuta astuta.

-Doutora, eu sou muito macho! Macho mesmo! Sou o cervo mais macho que existe.

-Interessante. Por que toda essa sua formação reativa? Ser muito macho é a informação mais importante que tem sobre você?

-É sim, no momento é! Ah! Só porque eu só ando com machos, os outros animais ficam me chamando de veado. Ridículo! Eu gosto mesmo de andar com meus amigos, só ligo mesmo para estar com as meninas da minha espécie quando elas estão no cio. Mas isso não quer dizer que sou gay, oras. Eu ando com outros machos se eu quiser. Pronto!

-Tudo bem. Mas qual é o seu desejo? Para que você quer andar com seus colegas?

-Ah, eu e meus amigos sempre vamos para onde tem comida melhor, nos separamos das crianças e dos mais velhos. Ficamos só nós, que mais temos a ver um com o outro. É uma coisa de afinidade e do que é melhor para nós. – Desabafou o cervo abanando as vastas galhadas.

-Sr. Cervus, não se preocupe tanto com o que os outros falam. A sociedade nos impõe mais pressões do que somos capazes de suportar, então seja você mesmo, seja feliz.

E o cervo saiu do consultório caminhando mais confiante sem perceber as Weather Girls fazendo aquela tradicional previsão do tempo. Para trás ficou a psicóloga pensando em como somos manipulados por desejos e pressões que nem nossos são e no tempo que perdemos tentando agradar os outros.

 

Alves, J., Alves da Silva, A., Soares, A., & Fonseca, C. (2013). Sexual segregation in red deer: is social behaviour more important than habitat preferences? Animal Behaviour, 85 (2), 501-509 DOI: 10.1016/j.anbehav.2012.12.018

O nudibrânquio emasculado

Naquela manhã, no consultório psicanalítico…

Não devia ter chamado o cliente de lesma. A secretária olhava o rastejando para dentro do consultório com o lábio inferior evertido e as narinas contraídas numa clara expressão de nojo. A doutora não conseguia entender como a secretária podia ver com asco aquilo que ela mesma considerava lind@. Uma lesma marinha com duas protuberâncias alaranjadas na parte da frente e um tufinho de brânquias atrás, tod@ vermelho vinho com pintas brancas. É isso, não devia ter chamado de lesma.

-Entre, senhor@ Chromodoris. – Convidou a analista tentando evitar uma declinação de gênero a esse animal hermafrodita. – O que @ traz aqui hoje?

O amor nos faz perder coisas que nem imaginamos. O nudibrânquio emasculado. (Fonte: eol.org)

O amor nos faz perder coisas que nem imaginamos. O nudibrânquio emasculado. (Fonte: eol.org)

Por um tempo @ nudibrânqui@ tergiversou sobre seu trabalho de arquivista numa repartição burocrática, sobre o conforto que a rotina dava e sobre sua falta de criatividade, que el@ não via como problema, porque era melhor não ousar que ver as coisas dando errado. A psicóloga, que já tinha alguns anos de experiência, sabia quando tentavam evitar problemas reais.

-Como era sua relação com sua pãe e seu mai? – Pãe, como se sabe, é o indivíduo hermafrodita que recebeu os espermatozoides do mai na hora do sexo. Um mesmo animal pode ser pãe de um filho e mai de outro se o sexo for recíproco.

-Nossa, doutora, que mudança radical de assunto. Bom, meu mai foi pouco presente em nossa família, nunca nos deu muito apoio. Em compensação minha pãe tinha um pulso firme. Pulso é maneira de dizer, né. Nós nudibrânquios não temos pulso. Papãe era muito sever@, fazia questão de que tudo andasse nos eixos. Papãe era mai e pãe ao mesmo tempo, e não era só porque era hermafrodita. Acho que é normal ser oprimido, né?

-Não é não. @ senhor@ precisa se impor também. Isso é complexo de castração! – Pronunciada a última frase, ficou instantaneamente lívid@ , os rinóforos murchos completavam o quadro de desolação.

-Co-como a senhora sabe? – Gaguejou baixinho em pânico.  – Como sabe que eu fui castrado? Todos podem perceber?

– Eu quis dizer em sentido figurado. Mas por que você diz isso? Quer me contar algo mais?

Chromodoris passou os minutos seguintes contando sobre seu primeiro e último relacionamento apenas algumas horas antes, mas que pareciam uma eternidade. Como @ namorad@ era charmos@, mas ao mesmo tempo dominador@. Como haviam se amado mutuamente, mas também como a culpa havia surgido avassaladora. Num momento de confusão entre ser macho, fêmea ou hermafrodita, arrancara violentamente o próprio membro. Agora era toda mulher, mas a culpa e a confusão não passavam. Já perdera a concha quando ainda era uma larvinha, agora a perda auto-infringida do pênis era demais para suportar. Por isso marcara a sessão urgente com a analista.

Enquanto narrava @ cliente percebeu aquela sensação intoxicante no osfrádio e lágrimas começaram a escorrer aos borbotões. A psicanalista esperou alguns instantes e preparou um lenço de papel e sua voz mais acolhedora.

-Acalme-se. Você é o que você é. Sua castração é meramente temporária, de fato, se você olhar agora mesmo perceberá que um novo pênis está se formando. Quando encontrar outr@ parceir@ já estará pront@ para copular outra vez.

Despediram-se na porta do consultório. @ nudibrânqui@ rastejando para o elevador do prédio enxugando as lágrimas. Mais conformad@ e menos assustad@, el@ até ensaiou um sorriso amarelo que mal descobria a rádula enquanto a porta do elevador se fechava. A doutora ficou para trás, pensando em como somos todos hermafroditas e temos dificuldade de lidar com isso.

ResearchBlogging.org
Sekizawa, A., Seki, S., Tokuzato, M., Shiga, S., & Nakashima, Y. (2013). Disposable penis and its replenishment in a simultaneous hermaphrodite Biology Letters, 9 (2), 20121150-20121150 DOI: 10.1098/rsbl.2012.1150

 

A pecerveja encalhada

ResearchBlogging.org
Naquela manhã, no consultório psicanalítico…

Era uma sexta-feira e a doutora só pensava em descansar. Tem cliente que acha que psicanalista é que nem aspirador de pó, enquanto você não precisa dele ele fica guardado naquele quartinho meio escuro até que você volte lá outra vez. Pois a doutora ansiava por um chope bem gelado ao fim do expediente. Ela merecia, não se recordava de ter tirado férias desde o fim do doutorado em etologia clínica (ou você achou que o “Dra.” dela era um desses títulos auto denominados?). Para complicar, essa semana sua secretária estava em licença de saúde. A suspeita era dengue e isso apavorava a analista porque uma de suas clientes mais frequentes ultimamente era uma Aedes anoréxica, só de sentir o cheiro de sangue já ficava enjoada. A suspeita era que estivesse infectada por Wolbachia.

-Bom dia, tenho uma consulta marcada com a doutora. – Disse a percevejinha que chegara dez minutos adiantada.

-Sou eu mesma. Vamos entrando, pode pousar ali no divã.

A Sra. Lygus, encalhada, mas cheia de amor para dar. Fonte: wci.colostate.edu

Já instaladas em seus respectivos estofados cliente e terapeuta iniciam a sessão.

-Doutora, é que desde que terminou meu último relacionamento não consigo mais namorar ninguém. Estou carente, precisando de um namorado.

-Dona Pe-cerveja. Digo, Perceveja, você está precisando de um namorado ou de novo do seu primeiro namorado? Você sofre de uma fixação pelo ex? – Perguntou a psicóloga.

-Não, eu tento me relacionar, mas parece que espanto os rapazes. Eles me evitam. Parecem fugir de mim.

-Hum, espanta os rapazes… – Espelhou a psicóloga.

-É, eles até se aproximam, apalpam meu abdômen com as antenas, mas na hora de partirmos para o que interessa eles se afastam. Às vezes eu até facilito a corte, sabe como são esses rapazes, muitos deles inseguros, tímidos, mas não tem jeito, eles acabam voando embora.

-Entendo. Você percebeu alguma mudança desde sua cópula com o seu ex? Alguma coisa no seu cheiro? – A analista aspirava o ar discretamente tentando ela identificar sua suspeita.

-Não. Por que?

-Dona Perceveja, alguns insetos parecem tornar-se menos atraentes para os machos. Isso foi atribuído a substâncias deixadas pelos ex-parceiros, mas não foi confirmado em todos os casos. Tem sido difícil identificar a molécula de odor. Moscas da fruta e algumas borboletas já demonstraram problemas parecidos com o que você relata.

-Mas… mas… e agora? Aquele desgraçado me conquistou, fez o que bem quis comigo e agora me deixa assim. Covarde! O que eu faço agora, doutora?

-Calma, esse odor perde efeito em pouco tempo. Com o tempo o seu poder de sedução retornará. Só não fique muito ansiosa que isso também espanta pretendentes. O que acha de retornar semana que vem para vermos como você está?

-Obrigada, doutora. Vou esperar. Nos revemos semana que vem, sim.

Enquanto a cliente se afastava a doutora suspirou. Pe-cerveja! Humpf! Ela é que estava em fixação. E voltou para conferir sua agenda. Só mais uma sessão no meio da tarde, facilmente adiável. O fim de semana começaria mais cedo.
Brent, C., & Byers, J. (2011). Female attractiveness modulated by a male-derived antiaphrodisiac pheromone in a plant bug Animal Behaviour, 82 (5), 937-943 DOI: 10.1016/j.anbehav.2011.08.010
Turley, A., Moreira, L., O’Neill, S., & McGraw, E. (2009). Wolbachia Infection Reduces Blood-Feeding Success in the Dengue Fever Mosquito, Aedes aegypti PLoS Neglected Tropical Diseases, 3 (9) DOI: 10.1371/journal.pntd.0000516

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