Sacculina-A ciptozoologia que existe

Ciclo de vida de um parasita que transforma seus hospedeiros em zumbis. (Imagem: Edward Connolly, CC-BY 2.0)

Ciclo de vida de um parasita que transforma seus hospedeiros em zumbis. (Imagem: Edward Connolly, CC-BY 2.0)

Um apocalipse zumbi é uma das mais comuns fantasias de fim do mundo da contemporaneidade. Mal sabemos que isso não é lá tão ficcional assim. Recentemente a ciência têm demonstrado uma importante atuação dos parasitas na modulação do comportamento de seus hospedeiros. Já durante a graduação um exemplo disso me impressionou muito numa aula de Zoologia do saudoso Prof. Carlos Rocha, as cracas parasitas do gênero Sacculina.

Essas cracas em nada se parecem com aquelas que vemos no costão rochoso, em cascos de navio ou sobre baleias (aliás, as que se assentam sobre baleias são mais uns caroneiros chatos do que parasitas mesmo). Só é possível saber que a Sacculina é uma craca por causa da fase larval. A anatomia do adulto é única entre os crustáceos e se divide num saco reprodutivo externo e um rizoma interno que permeia todo o corpo do hospedeiro, em geral caranguejos ou lagostas.

Ao encontrar um hospedeiro, a larva da Sacculina irá invadir seu corpo através de uma junta do exoesqueleto do hospedeiro. Ali a parasita fêmea se desenvolverá até irradiar por todo o corpo do hospedeiro e produzir um saco reprodutivo externo na região caudal da vítima, o mesmo local onde os ovos deste se desenvolveriam. Paralelamente, a Sacculina irá afetar a fisiologia e a anatomia do hospedeiro, primeiro castrando e depois estimulando a feminilização anatômica e comportamental se o hospedeiro for macho. Ao acasalar, o parasita começa a produzir larvas ao mesmo tempo que estimula no hospedeiro os comportamentos de cuidado aos ovos e dispersão de filhotes que este teria com seus próprios descendentes.

Privado de crescer e se reproduzir pela presença do parasita, o caranguejo devota todo o excedente da energia que consome para nutrir a Sacculina até o fim dos seus dias, tornando-se um zumbi a serviço das cracas. Por mais assombroso que seja, caranguejos zumbis existem e chegam a ser 50% dos indivíduos em algumas regiões mais infestadas. Isso pode ser um problema para a produção de frutos do mar em locais como o Alasca.

Picnogônida – A criptozoologia que existe

Uma aranha marinha de até 90 centímetros, juro que existe! (Foto: Steve Childs; CC BY 2.0)

Um tipo de aranha marinha de até 90 centímetros, juro que existe! (Foto: Steve Childs; CC BY 2.0)

Já fui mergulhar em vários lugares nos quais ficava aliviado de ir para a água para me livrar de animais terrestres indesejáveis, especialmente mosquitos. Isso não valeria para “aranhas”, já que existem “aranhas” marinhas bem assustadores. É o caso dos picnogônidas, ou pantópodas. A maioria das 1300 espécies desse animal é bastante pequena, mas existem espécies antárticas que podem alcançar 90 cm. Isso mesmo! Uma “aranha” de 90 cm.

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Vestimentífera – A criptozoologia que existe

Esses bizarros vermes marinhos recebem o nome popular de batom do mar, pelo menos numa tradução do Inglês. São vermes tubulares vermelhos que entram e saem de um tubo protetor branco mais ou menos como a ponta de um batom aparece e some quando rodamos a base. Ao contrário de outros animais obscuros dessa série, os vestimentíferos não são minúsculos, eles podem passar dos 70 cm.

Outra esquisitice do grupo está em habitar regiões muito profundas, até cerca de 10 mil metros de profundidade. Ali a luz solar nunca chega devido à filtragem feita pela água, portanto, não temos plantas para produzir energia e servir de alimento aos vestimentíferos. Isso também não é um grande problema, já que nossos personagens de hoje nem boca ou tubo digestório têm. Como eles se nutrem então? Sua energia é derivada de bactérias quimiotróficas que processam sulfeto ou metano derivado de atividade vulcânica, por isso os vestimentíferos sempre ficam próximos a chaminés submarinas chamadas de fontes hidrotermais.

Na época da minha graduação, esses animais me foram apresentados como um filo aparte chamado pogonófora. Hoje, graças a dados moleculares e ao trabalho inestimável dos taxonomistas, os classificamos entre os poliquetos, um grupo de vermes marinhos aparentados às minhocas e sangue-sugas. É bem verdade que os poliquetos ainda precisam de um extenso estudo para confirmarmos se eles têm uma história evolutiva em comum, tendo todos um único ancestral (é bem provável que não). Apesar disso, hoje acredita-se que classificar os vestimentífera como anelídios poliquetos é mais próximo à verdade evolutiva do que agrupá-los num filo aparte.

Quetognatos – A criptozoologia que existe

Pavor descreveria sua sensação ao se deparar no mar com um quetognato se você tivesse menos de 2 cm. Na verdade estes monstros marinhos só não são mais assustadores por casa de seu pequeno tamanho. Com o corpo em forma de dardo, os quetognatos possuem uma série de punhais ao redor da boca prontos para injetar um veneno asfixiante em suas presas. Para completar, são praticamente invisíveis porque têm o corpo transparente. Em geral eles se movem muito lentamente, mas as nadadeiras que flanqueiam seus corpos permitem arrancadas muito velozes para dilacerar a presa incauta.

Quem dera os designers de alienígenas holywoodianos fossem criativos como a natureza (Imagem: Zatelmar)

Sua anatomia quase invisível e muito pequena faz com que até hoje seja difícil posicioná-los na árvore genealógica dos animais. Ele já foi considerado um deuterostômio aparentado de nós vertebrados, um grupo de verme cilíndrico ou até algo semelhante ao ancestral de todos os animais bilaterais. O fato é que ninguém sabe exatamente onde eles se encontram na história evolutiva. Já nos oceanos, esses assassinos são fáceis de encontrar. Apesar de serem poucas espécies reconhecidas, quetognatos são muito numerosos no plâncton marinho. Ainda bem que não somos seus alvos na hora da caça.

Priapúlida – A criptozoologia que existe

Esta bizarra criatura habita o fundo dos mares, passa sua vida chafurdando na lama ou entre os grãos de areia. Acreditava-se que eles só viviam nos mares frios e profundos, mas, para desespero de todos, mais e mais pessoas têm relatado encontros com priapúlidos em águas rasas por todo o mundo.

Priapúlida, o bicho-piroca dos mares profundos (imagem: Shunkina Ksenia)

Seu estranho nome tem uma origem ainda mais assustadora. Priapus era o deus grego do pênis, uma referência direta a sua anatomia peculiar. De fato, vários humanos que já encontraram priapúlidos relatam que sua visão causou gritos e reações que oscilaram da euforia ao pavor em decorrência do corpo alongado, roliço e dotado de uma probóscide entumescente com uma abertura única (a boca) que explica a analogia entre os animais deste falo, digo, Filo e um órgão masculino. Para completar, diversas espécies (como a da foto) ainda têm filamentos semelhantes a pelinhos na extremidade posterior. Outra bizarrice é que esses animais vagam entre nós quase despercebidos desde o Cambriano médio, muito antes dos dinossauros, e permanecem até hoje quase idênticos ao que foram 400 milhões de anos atrás.

Os priapúlidos possuem uma simatria corporal bilateral como a nossa, o que demonstra um parentesco muito antigo com os humanos. O ancestral comum entre nós e eles provavelmente era um verme de corpo achatado semelhante a um platelminto. Apesar do baixo metabolismo, os priapúlidos são grandes o suficiente para precisar de um sistema circulatório e até de um pigmento de transporte de oxigênio, a hemeritrina. Os órgãos estão arranjados numa cavidade corporal que se assemelha à nossa cavidade abdominal, mas tem uma origem embrionária muito diferente, sendo um resquício da fase embrionária de blástula. Esses animais alimentam-se de matéria orgânica em meio ao sedimento ou predam outros invertebrados lentos. Por sua vez, servem de alimento para peixes. A despeito de todas as comparações entre priapúlidos e pênis, a maioria dos animais desse grupo não ultrapassa os 3 cm, embora alguns poucos afortunados possam chegar a quase 40 cm.

A criptozoologia que existe

Criptozoologia é, supostamente, a “ciência” que estuda animais fantásticos. É ela a responsável pelas “pesquisas” sobre o pé-grande, a mula sem cabeça, o monstro do lago Ness e outras criaturas fantásticas derivadas de mentes criativas, desocupadas e carentes de atenção.
No entanto, existe toda uma série de animais que existem, mas que são muito pouco estudados, quase desconhecidos e ignorados pela maioria da humanidade. Nos próximos meses conheceremos a criptozoologia que existe, animais quase inacreditáveis, mas reais, e saberemos mais sobre o que eles têm a ver com você e comigo. Não percam, aqui, no Ciência à Bessa!

A imaginação gera obras maravilhosas, mas que fique claro que são imaginativas! (Imagem: Walmor Corrêa)

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