Vestimentífera – A criptozoologia que existe

Esses bizarros vermes marinhos recebem o nome popular de batom do mar, pelo menos numa tradução do Inglês. São vermes tubulares vermelhos que entram e saem de um tubo protetor branco mais ou menos como a ponta de um batom aparece e some quando rodamos a base. Ao contrário de outros animais obscuros dessa série, os vestimentíferos não são minúsculos, eles podem passar dos 70 cm.

Outra esquisitice do grupo está em habitar regiões muito profundas, até cerca de 10 mil metros de profundidade. Ali a luz solar nunca chega devido à filtragem feita pela água, portanto, não temos plantas para produzir energia e servir de alimento aos vestimentíferos. Isso também não é um grande problema, já que nossos personagens de hoje nem boca ou tubo digestório têm. Como eles se nutrem então? Sua energia é derivada de bactérias quimiotróficas que processam sulfeto ou metano derivado de atividade vulcânica, por isso os vestimentíferos sempre ficam próximos a chaminés submarinas chamadas de fontes hidrotermais.

Na época da minha graduação, esses animais me foram apresentados como um filo aparte chamado pogonófora. Hoje, graças a dados moleculares e ao trabalho inestimável dos taxonomistas, os classificamos entre os poliquetos, um grupo de vermes marinhos aparentados às minhocas e sangue-sugas. É bem verdade que os poliquetos ainda precisam de um extenso estudo para confirmarmos se eles têm uma história evolutiva em comum, tendo todos um único ancestral (é bem provável que não). Apesar disso, hoje acredita-se que classificar os vestimentífera como anelídios poliquetos é mais próximo à verdade evolutiva do que agrupá-los num filo aparte.

Placozoa – A criptozoologia que existe

Placozoa, o animal mais solitário do mundo (Foto: Hunadam; CC BY-SA 3.0)

Placozoa, o animal mais solitário do mundo (Foto: Hunadam; CC BY-SA 3.0)

Os placozoa são provavelmente os mais solitários animais do universo. Eles são um filo inteiro que só contém uma única espécie: Trichoplax adhaerens. Foram descobertos em 1883 em um aquário marinho na Áustria e desde então foram raramente coletados. Apenas na década de 1970 foram aceitos como um novo filo de animais, mas sua relação de parentesco é obscura. Nenhum dos outros grupos de animais se parece com os placozoa, que podem ter se simplificado de um animal mais complexo ou nunca terem desenvolvido tais novidades evolutivas. Em termos biológicos, isso significa que nenhum dos outros animais assume ser parente próximo dos placozoa, aumentando sua solidão.

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Quetognatos – A criptozoologia que existe

Pavor descreveria sua sensação ao se deparar no mar com um quetognato se você tivesse menos de 2 cm. Na verdade estes monstros marinhos só não são mais assustadores por casa de seu pequeno tamanho. Com o corpo em forma de dardo, os quetognatos possuem uma série de punhais ao redor da boca prontos para injetar um veneno asfixiante em suas presas. Para completar, são praticamente invisíveis porque têm o corpo transparente. Em geral eles se movem muito lentamente, mas as nadadeiras que flanqueiam seus corpos permitem arrancadas muito velozes para dilacerar a presa incauta.

Quem dera os designers de alienígenas holywoodianos fossem criativos como a natureza (Imagem: Zatelmar)

Sua anatomia quase invisível e muito pequena faz com que até hoje seja difícil posicioná-los na árvore genealógica dos animais. Ele já foi considerado um deuterostômio aparentado de nós vertebrados, um grupo de verme cilíndrico ou até algo semelhante ao ancestral de todos os animais bilaterais. O fato é que ninguém sabe exatamente onde eles se encontram na história evolutiva. Já nos oceanos, esses assassinos são fáceis de encontrar. Apesar de serem poucas espécies reconhecidas, quetognatos são muito numerosos no plâncton marinho. Ainda bem que não somos seus alvos na hora da caça.

Priapúlida – A criptozoologia que existe

Esta bizarra criatura habita o fundo dos mares, passa sua vida chafurdando na lama ou entre os grãos de areia. Acreditava-se que eles só viviam nos mares frios e profundos, mas, para desespero de todos, mais e mais pessoas têm relatado encontros com priapúlidos em águas rasas por todo o mundo.

Priapúlida, o bicho-piroca dos mares profundos (imagem: Shunkina Ksenia)

Seu estranho nome tem uma origem ainda mais assustadora. Priapus era o deus grego do pênis, uma referência direta a sua anatomia peculiar. De fato, vários humanos que já encontraram priapúlidos relatam que sua visão causou gritos e reações que oscilaram da euforia ao pavor em decorrência do corpo alongado, roliço e dotado de uma probóscide entumescente com uma abertura única (a boca) que explica a analogia entre os animais deste falo, digo, Filo e um órgão masculino. Para completar, diversas espécies (como a da foto) ainda têm filamentos semelhantes a pelinhos na extremidade posterior. Outra bizarrice é que esses animais vagam entre nós quase despercebidos desde o Cambriano médio, muito antes dos dinossauros, e permanecem até hoje quase idênticos ao que foram 400 milhões de anos atrás.

Os priapúlidos possuem uma simatria corporal bilateral como a nossa, o que demonstra um parentesco muito antigo com os humanos. O ancestral comum entre nós e eles provavelmente era um verme de corpo achatado semelhante a um platelminto. Apesar do baixo metabolismo, os priapúlidos são grandes o suficiente para precisar de um sistema circulatório e até de um pigmento de transporte de oxigênio, a hemeritrina. Os órgãos estão arranjados numa cavidade corporal que se assemelha à nossa cavidade abdominal, mas tem uma origem embrionária muito diferente, sendo um resquício da fase embrionária de blástula. Esses animais alimentam-se de matéria orgânica em meio ao sedimento ou predam outros invertebrados lentos. Por sua vez, servem de alimento para peixes. A despeito de todas as comparações entre priapúlidos e pênis, a maioria dos animais desse grupo não ultrapassa os 3 cm, embora alguns poucos afortunados possam chegar a quase 40 cm.

A criptozoologia que existe

Criptozoologia é, supostamente, a “ciência” que estuda animais fantásticos. É ela a responsável pelas “pesquisas” sobre o pé-grande, a mula sem cabeça, o monstro do lago Ness e outras criaturas fantásticas derivadas de mentes criativas, desocupadas e carentes de atenção.
No entanto, existe toda uma série de animais que existem, mas que são muito pouco estudados, quase desconhecidos e ignorados pela maioria da humanidade. Nos próximos meses conheceremos a criptozoologia que existe, animais quase inacreditáveis, mas reais, e saberemos mais sobre o que eles têm a ver com você e comigo. Não percam, aqui, no Ciência à Bessa!

A imaginação gera obras maravilhosas, mas que fique claro que são imaginativas! (Imagem: Walmor Corrêa)

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