Pensamento de segunda

Fatos inexatos são altamente prejudiciais ao progresso da ciência, dado que em geral eles resistem por longo tempo. Mas as visões incorretas, desde que sustentadas por alguma evidência, produzem pouco prejuízo, já que todos se ocupam do salutar prazer de provar sua falsidade.

Charles Darwin

Bicho Bizarro: Sapo de Darwin

O pequenino sapo de Darwin numa "floresta" de musgos. Fonte: www.savedarwinsfrogs.org

 Aquela versão de que os anfíbios se reproduzem fazendo um amplexo (abraço) e colocando ovinhos numa lagoa que não serão cuidados, para mim, é a versão zoológica da lenda da cegonha. De verdade a vida sexual dos sapos é muito mais divertida do que nos contam na escola. Um exemplo disso é o bicho bizarro da semana. Sabe aquela bolsa que o sapo enche de ar na hora de cantar, os sacos vocais? Pois os sapos de Darwin, depois de seduzir uma parceira, a usam para proteger os filhotes. Os ovos que a fêmea coloca e o macho fecunda se desenvolvem nas folhas no chão da mata, mas girinos não vivem no seco. Exatamente por isso os machos não saem de perto desses ovos que, assim que eclodem, são “engolidos” por ele (lembrando que eles não vão para o estômago) e se desenvolvem nos sacos vocais. Ao se metamorfosearam o pai abre a boca e lá de dentro saem saltitando sapinhos de Darwin miniaturas. O sapo de Darwin, que tem esse nome por ter sido descoberto pelo naturalista na Argentina em sua viagem no Beagle, está vulnerável à extinção graças ao desmatamento e às mudanças climáticas.

ARKive video - Darwin's frog carrying tadpole in mouthGirino entrendo na boca do pai. A saída é bem mais dramática.

Fonte: www.arkive.org

Pensamento de Segunda

Fatos inexatos são muito prejudiciais à ciência, já que, em geral, resistem por muito tempo; mas visões incorretas, desde que sustentadas por alguma evidência, geram pouco prejuízo, pois todos se ocupam do saudável prazer de refutá-las.

 

Charles Darwin

Diário de Viagem – 4 de março, terremoto no Chile

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Chegamos no aeroporto e enquanto esperava a bagagem na esteira me chegavam apressadamente as notícias do grande terremoto através de um funcionário. Em Concepción não se via uma casa em pé, setenta aldeias haviam sido destruídas e uma onda gigante havia varrido as ruínas da cidade. Logo o boato tornou-se real com provas em abundância, toda a costa estava coberta de móveis, destroços flutuantes, eletrodomésticos, como se as Casas Bahia houvessem sido abduzidas por alienígenas e depois disppersas na praia. O comércio também perecia, sendo saqueado e arrombado, nas ruas jaziam sacos de mantimentos rasgados, mercadorias valiosas no chão. Passeando próximo à orla percebi fragmentos de rochedos onde estavam aderidos seres de mais de 1,80 m que certamente haviam emergido das profundezas.

A própria ilha que eu olhava agora havia sido consideravelmente encolhida pela terrível força do terremoto, a praia devorada pela imensa onda resultante. Formavam-se fendas no sentido Norte-Sul que atingiam 1 m de largura. Enormes massas de terra já haviam desmoronado sobre a praia e os habitantes estavam certos de que assim que chovesse massas ainda maiores desmoronariam. Mais impressionante ainda era a quantidade de fraturas em rochas extremamente duras, elas deveriam ser restritas à camada mais superficial ou neste momento em todo o Chile não restaria uma rocha inteira. Tenho certeza que este tremor de alguns instantes foi mais responsável pela diminuição da ilha de Quiriquina do que séculos de erosão pela água e pelo tempo.

No dia seguinte tomei uma van para Telcahuano e Concepción. As duas cidades apresentavam o espetáculo mais horrível e, ainda assim, o mais interessante que meu espírito naturalista poderia conceber. Os escombros estavam na mais completa confusão e era difícil acreditar que outrora aquele fosse um local habitável. Caso o terremoto tivesse ocorrido à noite, e não às 16 h, em lugar de menos de mil, haveria morrido a maior parte da população, salvou muitos o gesto instintivo de sair à rua ao primeiro sinal de tremor. Em Concepción enxergava-se fileiras do que antes foram casas, mas em Telcahuano, devido à onda, nada mais se enxerga do que um tapete de telhas e tijolos. O primeiro abalo foi logo o mais drástico, o funcionário do aeroporto que veio conversar comigo reportava que a primeira coisa que lhe ocorreu após o início do terremoto foi ver a si e sua moto derrubados imediatamente no asfalto. Levantava-se apenas para ser novamente atirado ao chão. Foi o pior terremoto que o Chile jamais registrou, e inúmeros tremores menores se seguiram ao principal, somaram-se 300 de diferentes magnitudes e em diferentes locais nos dias subsequentes.chile2

O tsunami me foi descrito como uma linha de até 6 km de comprimento e até 7 m de altura que varreram as praias arrancando tudo à sua frente. Um carro forte de 4 toneladas foi arrastado por 5 m e diversos barcos do atracadouro foram parar no seco. No entanto, a onda deve ter avançado lentamente, já que muitos habitantes fugiram dela a pé para as áreas mais altas da cidade. Era possível identificar a direçào de onde haviam vindo as vibrações pelas paredes que haviam ruído ou ficado de pé e pelas estantes que haviam perdido seu conteúdo ou não.

A Ilha de Santa Maria, que se localiza mais ou menos sobre o centro dos abalos, está agora situada cerca de três vezes acima do resto do litoral que a cercava. O efeito mais surpreendente do terremoto foi este, a elevação do terreno entre 60 e 90 cm. Quem sabe esse não seja um efeito, mas a causa do terremoto. Na Ilha de Santa Maria, por exemplo, a marca da maré foi parcialmente apagada pelo tsunami, mas habitantes locais podiam me jurar que a rocha costeira estava elevada. Mais relevante do que isso foi que conchas que só existem na linha d’água, conchas de fato muito semelhantes a outras encontradas fossilizadas em picos a 3900 m nos Andes, foram encontradas após os tremores a 3 m da linha d’água pelo Capitão Fitzroy, Aparentemente pequenas alterações acumuladas por intervalos longos de tempo podem resultar em mudanças dramáticas na paisagem.

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Tradução poetica e livremente alterada dos diários de Charles Darwin a bordo do Beagle, a 4 de março de 1835, mas bem que poderia ter sido escrito dia 4 de março de 2010 por alguém visitando exatamente a mesma região.

Crédito das imagens: www.lanacion.cl e www.cepresperu.org

Bessa na SNCT

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Fui convidado pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia de Mato Grosso a dar uma série de palestras sobre a vida de Charles Darwin durante a Semana Nacional de C&T em Cuiabá. Este evento que se repete todo ano e do qual sou fã e participante desde sua criação pretende em 2009 falar sobre a Ciência no Brasil, mas a SECITEC ganhou do consulado britânico esta exposição sobre Darwin em comemorção aos 150 anos da publicação da “Origem das espécies” e de seus 200 anos de nascimento para incrementar suas atividades. Eu terei a honra de acompanhar a exposição introduzindo-a nas escolas que a visitarão com a palestra: “Quem foi Charles Darwin?”
Para quem quiser assistir alguma das apresentações é só ir à cerimônia de abertura da SNCT no Centro de Eventos Pantanal ou visitar a exposição que estará ali durante toda esta semana. Adorarei conhecer algum leitor do Blog. Meu agradecimento especial à Lectícia Figueiredo pela oportunidade e atenção.

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