Etologia de alcova – Homossexualidade

Leões gays, não deixem os pastores verem isso.

A nova série de posts do Ciência à Bessa vai falar sobre comportamentos que muita gente poderia julgar exclusivamente humanos, mas que ocorrem entre animais. O sexo é um grande tabu em nossa sociedade, recluímos muito do que fazemos às quatro paredes do quarto, a alcova. Mas a despeito da afirmação que Desmond Morris fez na década de 70 sobre a exacerbada sexualidade humana em seu livro clássico, O macaco nu, muito do que se pensava fazer parte da nossa criatividade sexual nada mais é do que herança de nossos ancestrais. Etologia é a ciência que estuda o comportamento dos animais, no Brasil os etólogos estão organizados na Sociedade Brasileira de Etologia, à qual eu sugiro fortemente que você se filie se tiver interesse n esse assunto. A Etologia de alcova discutirá vários comportamentos sexuais que certamente te surpreenderão.

Minha aluna Raiane Costadelle estava estudando quais as pistas que as fêmeas de jabutis usam para escolher seus parceiros. Tínhamos diferentes informações a respeito dos machos: seu peso, tamanho, posição hierárquica e carga de parasitas. A ideia era descobrir qual característica era mais importante para garantir que um macho conseguisse acasalar, então sempre que a Raiane encontrava um casal em cópula ela anotava o número do macho que estava por cima e, só para saber, o da fêmea que estava por baixo também. Qual não foi a surpresa dela quando percebeu com certa frequência que o jabuti que estava por baixo não era uma fêmea, mas outro macho!

A homossexualidade não é exclusividade dos humanos e dos jabutis. Num artigo de 2009, Nathan Bailey e Marlene Zuk (que entrevistei logo que esse artigo saiu) listaram uma série de espécies e contextos em que o comportamento homossexual ocorre. São golfinhos que se tornam mais unidos e colaborativos se entre eles emerge um pouco de sexo, mosquinhas da fruta que praticam com outros machos antes de se acasalar pela primeira vez com uma fêmea, pica-paus fêmeas que evitam a guerra fazendo amor, libélulas que, na falta da fêmea, acasalam com outros machos, machões dominantes que para demonstrar seu poder montam em seus inferiores, como ocorre entre bisões e aparentemente nos nossos jabutis, entre diversos outros casos.

A essa altura você pode estar se perguntando: mas como a homossexualidade poderia evoluir se ela levaria o gay a jamais deixar descendentes? Essa pergunta reflete duas visões duvidosas: a determinação genética da homossexualidade e nossa visão dicotômica da sexualidade, na qual ou se é homossexual ou heterossexual, o que provavelmente está muito longe da realidade. O biólogo que se tornou um dos maiores especialistas do mundo em comportamento sexual humano, Alfred Kinsey, distribuía os humanos num continuo de homossexualidade desde homossexuais estritos até heterossexuais estritos, incluindo todos os seus graus intermediários. Sendo assim, mesmo que haja um gene gay, é possível a homossexualidade evoluir, não só entre os humanos, mas por toda a natureza.

 

Linha do tempo da etologia

Post curto só para compartilhar a linha do tempo que criei contando resumidamente a história da etologia. O site que usei, o time rime, é um recurso interessante para quem quiser apresentar históricos. É só criar uma conta e produzir sua linha do tempo interativa, que pode incluir imagens, vídeos e sons.

 linha do tempo

Um animal é um autômato que só responde a seus instintos?

Algumas pessoas têm a impressão de que animais são máquinas cujas linhas de comando são chamados instintos. Ao nascer um pacote de programas já viria instalado no organismo do animal e seria, pouco a pouco, ativado assim que um determinado evento acionasse aquele comportamento. Tenho um cachorro que é só tocar sua barriga e ele imediatamente se põe a sacolejar as pernas trazeiras, ele foi assim desde sempre, não aprendeu a sentir cócegas num dado momento da vida. Pessoas que entendem animais como autômatos agarram-se a exemplos como esses para justificar sua posição.

É claro que existem comportamentos tão simples que mal são modulados e pouco variam, mas esses são exceção dentro da diversidade de possibilidades comportamentais. Em geral os animais precisam (e são capazes de) adequar seus comportamentos a diferentes situações. Nesse cálculo entram o estado interno do animal, os custos do comportamento em questão e os benefícios que ele irá trazer. Falando assim dá a impressão de que a cada atitude o animal executa um instante de reflexão introspectiva para tomar sua decisão. Nem preciso dizer que não é bem assim, na verdade os animais que erraram nessas contas simplesmente foram extirpados pela seleção natural.

Polvo, Octopus vulgaris

Polvos podem ser tímidos ou curiosos em diferentes lugares. Fonte: eol.org

Desde pequeno sempre fui acostumado a mergulhar em costões rochosos, um de meus prêmios nesses mergulhos era encontrar um tímido polvo no fundo de sua toca em Guarapari. Mais velho fiz uma viagem a Fernando de Noronha e qual não foi minha surpresa ao descobrir que ali os polvos eram  bem mais curiosos com a presença de mergulhadores. Ambos os polvos eram certamente capazes de me perceber ali, mas o custo de matar a curiosidade para o que eu encontrava em Guarapari poderia ser a vida (Esses costões rochosos eram frequentados por pescadores que enxergavam no meu trunfo biológico um delicioso fruto do mar), o de Fernando de Noronha estava a salvo por rígidas leis e fiscalizações, por isso para ele o custo era mais baixo.

Mas então quer dizer que instintos não existem? A resposta desse virá no próximo texto da série.

Raphael Dias – O Futuro do Doutorado

Raphael Dias - O futuro do PhD

Raphael Dias entre pica-paus e esperanças

Raphael Igor Dias é recém-doutor em ecologia pela Universidade de Brasília. Durante o doutorado  trabalhou com uma espécie de pica-pau (Colaptes campestres) para tentar responder algumas perguntas associadas à evolução da socialidade e seleção sexual. O trabalho de campo foi inteiramente desenvolvido na Fazenda Água Limpa. Raphael foi financiado por instituições como CAPES, CNPq,  DPP-UnB e Francois Vuilleumier Fund da Neotropical Ornithology.

1)      O que levou você a procurar a carreira científica? Como isto resultou no ingresso num programa de doutorado?

Ainda durante a graduação em biologia acabei me envolvendo em alguns projetos de pesquisa que despertaram meu interesse em seguir uma carreira acadêmica. No começo do último semestre da graduação, entrei em contato com a Profa. Regina Macedo (UnB) para conhecer a sua linha de pesquisa e discutir possibilidades de mestrado. Essa conversa inicial deu frutos e acabou resultando em seis anos de uma excelente orientação e uma ótima relação pessoal que se mantêm até hoje.

2)      Quais os seus planos para sua carreira depois da titulação? Até o momento essa expectativa tem se cumprido?

Meus planos futuros envolvem o ingresso em uma instituição pública para que eu possa manter minhas linhas de pesquisa, continuar publicando e orientar alunos. No momento venho trabalhando com docência em uma instituição particular de nível superior. Nesse sentido, considero que tive muita sorte, pois apesar do mercado estar saturado em algumas regiões do país, consegui ingressar em uma boa instituição logo após o término do meu doutorado.

  3)      Em linhas gerais, como foi sua rotina de trabalho no doutorado?

A rotina de trabalho durante o doutorado foi bem variável, mas foi composta basicamente de atividades diárias de campo envolvendo busca, captura e marcação de indivíduos, monitoramento de grupos, identificação de ninhos, entre outras. Adicionalmente, eu realizava levantamento de referências bibliográficas, analisava parte dos dados já coletados, participava das aulas da pós-graduação e eventualmente trabalhava em algum projeto paralelo. Durante o período em que eu realizei o doutorado-sanduíche na Universidade de Cornell, a rotina de trabalho foi completamente diferente. Durante seis meses eu trabalhei com análises moleculares com o objetivo de determinar o grau de parentesco entre os indivíduos dos grupos de pica-pau-do-campo, assim como, entender o sistema social e de acasalamento.

 4)      Quais os problemas que a pós-graduação no Brasil tem encarado?

Acredito que o principal problema que a pós-graduação no Brasil tem enfrentado diz respeito à falta de investimento nas próprias instituições responsáveis pelos programas de pós-graduação. Observamos varias instituições que estão sucateadas e muitas vezes apesar de apresentarem um bom programa de pós-graduação com um renomado corpo docente, não conseguem manter determinadas linhas de pesquisa por falta de recurso. É notável uma melhora nos últimos anos em relação à área de ciência e tecnologia, com aumento de bolsas, novas universidades, mas apesar desse cenário, penso que o Brasil ainda necessita passar por uma mudança de mentalidade em relação à pós-graduação. Essa mudança deveria começar na política do governo, primeiramente valorizando os profissionais que investiram anos em sua qualificação. Essa mudança deveria incluir a abertura de novos postos de trabalho para que um número maior de pós-graduados seja bem utilizado. Por outro lado, uma mudança ainda mais radical deve ser estimulada no pensamento da população brasileira, para que a mesma entenda que a educação é o melhor mecanismo para mudanças efetivas, tanto sociais quanto políticas.

 5)      Que conselhos você daria a alguém considerando agora ingressar na carreira acadêmica?

Eu acho que é uma área encantadora, que favorece a formação de um senso crítico e proporciona uma visão ampla do mundo, mas que não é fácil! São necessários muito esforço e dedicação.

 

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