A escolha de tornar-se biólogo VI

6. Pela sua experiência, quais características de sua personalidade, contribuíram no sucesso de sua escolha profissional?

 

Na minha opinião o biólogo precisa ser criativo, dedicado, curioso, conseguir se relacionar e ser, o que você coloca como um defeito seu, sonhador. Criativo porque em geral a solução dos nossos principais problemas não é evidente. Dedicado porque o caminho é árduo e vai exigir muito de você sem necessariamente oferecer algo em troca. O reconhecimento financeiro é pequeno, o reconhecimento social é difícil e entre os colegas às vezes a guerra de egos impede que reconheçamos uns aos outros. A curiosidade está na base de tudo o que um biólogo faz, já que nosso principal papel é compreender porque o mundo vivo é como é. A imagem que se tem de um cientista biológico é o cara sozinho no laboratório, mas hoje as empreitadas em grupos de pesquisa levam a avanços muito mais significativos do que os esforços individuais. Para isto é necessário saber se relacionar. Por fim, sonhar em um mundo no qual parece que nossas idéias são opostas às de todos os outros que querem o progresso a qualquer custo é importante, desde que possamos retornar, como você faz, e pensar em como tornar aquele sonho uma realidade.

 

Thais, boa sorte na prova e obrigado pela colaboração no Ciência à Bessa. Espero acompanhar todo o seu progresso como Bióloga.

 

Bessa

A escolha de tornar-se biólogo V

5. Quanto em média você está ganhando nos primeiros anos após a sua graduação?

 

Aí você chegou a um ponto nevrálgico e suspeito que eu vá ter que concordar em parte com os seus amigos. Biologia não é a mais bem paga das profissões. Novamente, é uma formação extremamente ampla e claro que vai haver exceções, mas estamos falando do padrão aqui. Uma bolsa de mestrado do CNPq ou CAPES é de 1200,00, meu primeiro emprego me pagava 1600,00 por já ter mestrado. O mais triste é olhar os editais para contratação de biólogos das grandes universidades que pagam 4000,00 para um doutor com quatro anos de graduação, dois de mestrado e mais quatro de doutorado. Para você ter idéia a bolsa federal para um residente de medicina recém-formado é de quase R$ 2000,00 e há vagas no Catho para advogados recém-formados com OAB oferecendo salários entre R$ 2000,00 e 3000,00 mais benefícios como ticket alimentação, plano de saúde, curso de inglês e ticket combustível. O Conselho Federal de Biologia teve um delírio de piso salarial para biólogo de 4000,00, mas obviamente nunca lutou por isso e este valor é completamente ignorado. É, a vida nem sempre é justa ou divertida. Nos resta nos agarrarmos ao lado divertido, já que ela foi injusta. Pelo menos biólogo não fica atrás de uma pilha de processos empoeirados decorando leis. Afinal, vejo que o dinheiro nos serve em grande parte para financiar nossos prazeres. Comprar uma bela viagem de férias para passear no Pantanal, podermos financiar um hobby. Mas e se este prazer for o nosso trabalho? Se viajarmos a trabalho para o Pantanal ou tivermos por hobby colecionar besouros, o que de fato nos pagam para fazer se formos entomólogos de um museu?

A escolha de tornar-se biólogo IV

4. Como é o dia-a-dia de um Biólogo? Lazer, trabalho, família, amigos?

 

Olha, é uma profissão como muitas outras. Tem dia em que você vai estar em um centro de reabilitação para animais apreendidos de traficantes cercado de três filhotes de onça parda que mais parecem gatinhos meio brutos. Tem dia em que você vai estar sentada em uma sala de reuniões com políticos faladores prometendo dinheiro que eles não têm para a pesquisa ou conservação ambiental. Seu tempo para família, amigos e lazer é você quem irá fazer, dá tempo de viver fora do trabalho também. Há quem seja mais workaholic, suspeito que talvez eu me enquadre, mas só o faço por puro prazer na minha profissão. Pode apostar que se eu vivesse em reuniões com políticos faladores não seria tão dedicado.

A escolha de tornar-se biólogo III

3. Após a sua graduação, você sentiu de imediato a necessidade de fazer outros cursos?

 

O crescimento profissional se dá de duas formas: com teoria (fazendo novos cursos) e com experiência (trabalhando na área escolhida). É necessário balancear as duas coisas. Durante a graduação todo aluno convive o tempo todo com seus professores e colegas já da pós-graduação. Isto é muito bom, mas tem um perigo inerente. Estas pessoas saberão falar com mais propriedade sobre a atuação de biólogos dentro da academia, que é uma área muito gratificante e promissora, mas não é a única. Como é a área escolhida pelos professores e pós-graduandos, o graduando que está sempre em contato com estes personagens tende a pensar que o único futuro para um biólogo depois de fazer a graduação é continuar estudando na pós. Não é! Pós-graduação é muito importante para quem quer se tornar cientista. Experimentar um pouco da vida profissional antes de seguir estudando é muito importante para o biólogo. Tenho amigos inteligentíssimos que fizeram o curso de graduação, depois o de mestrado, aí o curso de doutorado, um pós-doutorado ou dois e aos 35 anos foram procurar seu primeiro emprego (de carteira assinada, pelo menos). Nunca tinham saído da cúpula protetora da universidade. Eu optei por fazer diferente, fui trabalhar no meu 2º semestre, depois procurei emprego de novo depois do mestrado. Tem quem defenda essa cadeia de cursos, mas eu proponho que experimentar o mercado de trabalho antes é mais legal.

A escolha de tornar-se biólogo II

2. Em que ano começou a ter oportunidades de trabalho renumerado? Quais eram estas oportunidades? Estágio? Pesquisas?

 

Já no segundo ano de faculdade tive minha primeira oportunidade de trabalho remunerado, mas nem todos os meus colegas foram assim, muitos só começaram a receber depois de formados ou faltando um ano para isso. Pessoalmente eu tive meu primeiro “salário” (na verdade era uma ajuda de custo) pelo Projeto TAMAR IBAMA, onde estagiei. Eram R$ 220,00, mas como recebíamos um teto e alimentação do próprio TAMAR o dinheirinho virava uma fortuna gasta apenas com algumas guloseimas e com os forrós de final de semana no vilarejo próximo, Regência. A seguir meu próximo trabalho remunerado, este bem mais comum comparado com meus colegas, foi a bolsa de pesquisa PIBIC do CNPq: R$ 350,00 mais ou menos para eu desenvolver um projeto de pesquisa com a Prof. Eleonora Trajano em comportamento de peixes de caverna. Mais adiante ainda fui monitor remunerado de Zoologia de Vertebrados e Ecologia Animal, recebendo os mesmos 350,00 por cada uma das monitorias. No mais via colegas tirando uma grana dando aulas como professor substituto em escolas, como monitores de museus de ciência, de educação ambiental em viagens de estudo do meio e em levantamentos faunísticos e florísticos para empresas de EIA-RIMA.

A escolha de tornar-se biólogo I

Muito tempo atrás, quando ainda escrevia o blog Maravilhosa Obra do Acaso vinculado ao Centro Acadêmico da Biologia da USP, eu disse que quem é biólogo de verdade já o é desde o nascimento, nosso tempo na universidade é apenas para ganharmos competência técnica na profissão, além de um papel para provar para os outros o que já sabemos há tempos: que somos biólogos. De qualquer forma a escolha de trilhar este caminho é complicada, é uma maldade necessária colocar pessoas de 16 ou 17 anos para decidir o que será da sua vida, todo o seu futuro profissional. Foi assim que esta série de posts surgiu, pensando em como ajudar nesta escolha para aqueles que estão propensos a optar pela biologia. Mas ele ganhou corpo mesmo foi graças ao comentário que a Thais Marinho fez outro dia num post antigo. Pedi a ela, candidata à Biologia Marinha na UNESP esse ano, que me mandasse quais as dúvidas que mais lhe afligiam para eu responder aqui. Portanto este texto foi escrito a quatro mãos: A Thais pergunta e eu respondo uma das perguntas dela pelos próximos seis dias.

 

1. Como foi o trajeto na sua formação como Biólogo? Quais foram as dificuldades? Suas matérias prediletas e as mais chatas na sua graduação?

 

Olha, para começar as dificuldades que você está enfrentando para entrar na universidade são apenas o começo. O que vem pela frente ainda vai dar muito trabalho e crescer como biólogo também não é para qualquer um. Não encare isso como um empecilho, mas como o processo de seleção natural, onde apenas os mais aptos sobreviverão academicamente. A biologia é uma área muito ampla, então você, que ao que me parece é mais empolgada com a subárea ambiental terá que estudar genética e bioquímica também. Às vezes estas disciplinas serão um desafio, outras serão uma chatice mesmo, mas considero que minha formação mais ampla em Biologia, mesmo com toda a genética e bioquímica, me fizeram hoje um zoólogo mais competente. Aliás, acho que isto de matéria preferida e preterida é muito pessoal (isso foi só uma desculpa porque imagino que vez por outra um ex-professor meu pode passar aqui no Ciência à Bessa e não ficaria bem me flagrar falando mal da matéria dele, sem falar nos meus alunos que leem o que eu escrevo), cada um tem o seu gosto.

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