Etologia de Alcova – Idolatria à castidade

Não largo, não largo, não largo! Alguns machos garantem a castidade de suas parceiras se agarrando bem a elas (Imagem: Rickard Ignell)

Engana-se quem pensa que a idolatria à castidade feminina é uma construção cultural humana, ou pelo menos apenas uma construção cultural nossa. Existem sim algumas influências biológicas nisso. Uma forma do macho de qualquer espécie garantir seu sucesso evolutivo é convencer uma fêmea a dar a ele alguns preciosos óvulos, já discutimos isso ao longo dessa série. Se, no entanto, aquele macho não tiver certeza se serão os seus espermatozoides a fecundarem os óvulos da fêmea, se eles competirem com o esperma de outros machos, então isso diminuirá o sucesso adaptativo daquele macho. Por isso, machos que consigam garantir a castidade de suas fêmeas tendem a deixar mais descendentes, uma medida de sucesso evolutivo.

Um exemplo de comportamento que ajuda a garantir a castidade da fêmea é a sua guarda. Machos de animais como a aranha papa-mosca ou o siri azul buscam fêmeas antes delas chegarem à idade adulta e ficam na cola delas até elas começarem a produzir óvulos. Assim que elas se tornam sexualmente maduras os machos copulam com essas fêmeas virgens. Ao serem os primeiros a copular, esses machos encherão a espermateca das fêmeas, uma espécie de reservatório de sêmen, e seus gametas poderão ser usados por muito tempo para fecundar os óvulos daquela parceira.

Em outras espécies, é mais importante para o macho evitar que sua parceira volte a acasalar. Nesses casos o tipo de guarda mais comum é a pós-cópula. Animais que vão de grilos a cervos não saem de perto de suas parceiras depois da cópula. Permanecem ali por um tempo equivalente àquele necessário para seu esperma fecundar os óvulos, evitando que qualquer concorrente se aproxime e reduza suas chances de ser pai. O problema dessa técnica é que ela toma tempo do macho, um tempo que poderia ser investido em localizar, cortejar e copular com outra parceira (em espécies nas quais o macho irá colaborar muito pouco no cuidado aos filhotes as fêmeas tendem a cobrar menos a fidelidade de seus parceiros).

Foi para evitar essa perda de tempo e de novas oportunidades reprodutivas que muitas espécies inventaram o cinto de castidade. É isso mesmo, a evolução favoreceu bizarrices que conhecemos como plugues sexuais. Parte do sêmen do macho se solidifica e obstrui a abertura genital da fêmea, impedindo-a de acasalar com outro macho. A tática é amplamente explorada, ocorrendo em moscas da fruta, primatas, borboletas, serpentes e aranhas, entre muitos outros. Um resultado interessante dessa guarda indireta de parceiras é que o macho não precisa ser grande e forte para defender a parceira se usar um plugue, então espécies que usam plugues não apresentam tanta diferença de tamanho entre machos e fêmeas.

A castidade feminina permeia nossa cultura fortemente, mas não são só os machos humanos que se preocupam com a castidade de suas parceiras.

O percevejo inseguro

 

ResearchBlogging.org

Naquela manhã, no consultório psicanalítico.

 

– Sr. Zeus, já te expliquei que não atendo casais – Dizia a terapeuta.

– Dra. mas sou só eu que vou me consultar. Ela só precisa entrar comigo. – A Dra. sabia que era verdade, ainda que contrariada deixou-os entrar.

– Bom dia, como vão vocês hoje? – O casal de percevejos se sentou no divã, Sr. Zeus grudado à namorada.

– Estamos ótimos, não é mesmo meu bem? – A percevejinha apenas concordava com a cabeça, mas seus olhos compostos estavam fundos e ela estava magra, com um ar exausto.

– Sr. Zeus, sua namorada não é um muito jovem para o senhor? Que idade ela tem? Me parece ainda uma ninfeta de quinto ínstar! – A analista havia deixado de lado sua poltrona e ocupava uma cadeira de frente ao casal sentado no divã.

O Sr. Zeus pareceu intrigado com a pergunta. Olhou para a fêmea a seu lado como se a visse pela primeira vez.

– Claro que não! Essa daqui já está para se tornar uma mulher feita, estava na hora de arrumar um namorado e ela tem sorte de ter um homem como eu grudado ao seu pronoto. Jamais faria nada para prejudicá-la – O Sr. Zeus era todo sorriso enquanto retirava alguma secreção das costas da namorada e a levava à boca com ansiedade.

A dra. não respondeu. Limitou-se a olhar fundo dentro dos olhos do Sr. Zeus. Aquela profunda encarada parecia não acabar mais. O sorriso do percevejo foi se esvaindo, murchando, até virar uma careta e ele prosseguiu.

– Mas Dra. Isto é o melhor que podemos fazer. Todos os rapazes têm suas namoradas, não é fácil conseguir uma parceira interessante disponível. Se eu a deixo logo virá outro tomar o meu lugar, então é melhor grudar logo cedo. Além do que, somos tão apaixonados. Essa mulher me ama, não é, bem? – O aceno de cabeça da fêmea esquálida mal era perceptível.

– O senhor não vê  que está prejudicando a pobrezinha? Não larga das costas dela, fica se alimentando das secreções dela. Ela nem mocinha é ainda! – Enquanto a Dra. falava o percevejinho ia abaixando a cabeça, agora sua arrogância diminuíra proporcionalmente ao seu tamanho.

– Dra. sei que prejudico meu benzinho, mas não posso fazer nada. Há tantos machos e tão poucas fêmeas. Eles são mais fortes do que eu, ainda corro o risco de ficar sem meu bem mesmo grudando nela desse jeito. Não é minha intenção prejudicá-la. Mas tem homens muito piores do que eu, tomam a comida que suas namoradas capturam, já ouvi falar até em canibalizar as pobrezinhas! – Agora a máscara de arrogância do percevejo, que não atingia nem 70% do tamanho da parceira juvenil, havia caído e ele era só insegurança.

– E a maldade dos outros te dá o direito de ser mau também? As costas dela estão cobertas de cicatrizes e tem uma marca onde o senhor fica agarrado à coitada da moça! – A perceveja, com um sorriso nos lábios, olhava de esgueira para o namorado.

– Não, mas… Olha tenho certeza de que não a prejudico tanto quanto a Dra. está falando. Você precisava ver o estrago que meus colegas que namoram ninfas de quarto ínstar causam, essas marcas não são nada! – O percevejinho respondia, mas àquela altura desejava ter um élitro completo para se esconder atrás.

– Sr. Zeus. Já que o senhor continua negando terminamos por hoje. Tenham um bom dia e eu te vejo na próxima semana. APENAS o senhor, compreendeu? – A analista já havia aberto a porta e acompanhava o casal empurrando ligeiramente as costas do percevejo relutante.

– Mas… doutora! – Ele tentou protestar, mas a porta já estava fechada. Zeus ia embora cabisbaixo, ainda comendo da secreção da namorada.

 

Jones, T., Elgar, M., & Arnqvist, G. (2010). Extreme cost of male riding behaviour for juvenile females of the Zeus bug Animal Behaviour, 79 (1), 11-16 DOI: 10.1016/j.anbehav.2009.10.016

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