Como escrever uma tese? 02 – Estrutura

Acho que vou coemçar pelos Agradecimentos

Sua tese deve mostrar aos seus avaliadores que suas conclusões são justificadas pelos seus resultados e são uma consequência direta de seus objetivos. Você deve fazer isto da forma mais clara e concisa possível. Uma tese não precisa ter milhares de páginas e centenas de resultados para ser boa. Mas ela precisa ter começo, meio e fim. E precisa conduzir seus leitores até suas conclusões finais. Uma tese bem estruturada facilita este trabalho.

O bojo da sua tese deve consistir em Introdução, Objetivos, Material e Métodos, Resultados, Discussão e Conclusões. Muitas vezes a Introdução e Objetivos formam apenas um item, assim como os Resultados e Discussão. Sou contra estas fusões, pois podem tornar a sua tese confusa.

A estrutura geral da minha tese de doutorado foi a seguinte: Introdução Geral, Objetivos, Materiais e Métodos Gerais, Capítulo 1, Capítulo 2, Capítulo 3 e Conclusões. Cada capítulo continha uma Introdução curta (uma página), Materiais e Métodos específicos de cada capítulo, Resultados e Discussões. No final fiz uma Conclusão amarrando os três capítulos. Decidi separar minha tese em três capítulos porque eram três aspectos distintos de minha tese que traçavam rotas lógicas distintas. Felizmente estas rotas convergiram ao fim da minha tese, graças à fixação de meu orientador com os Objetivos da minha tese e como alcançá-los durante seu período.

Introdução

A Introdução deve conter toda informação necessária para um leitor especializado entender os objetivos da sua tese. Portanto será necessário definir conceitos que possam ser controversos e que sejam importantes para a sua tese, dar o contexto no qual o sua tese está inserida e mostrar a relevância dos Objetivos que você escolheu para sua tese. Note que qualifiquei o seu leitor de especializado. Você provavelmente será avaliado por pessoas da mesma área ou de área semelhante à sua. Não é necessário, portanto, dar informações básicas sobre o assunto que você está estudando. Uma introdução grande com conceitos básicos é basicamente inútil na hora de se avaliar o candidato.

Aproveito para dar uma dica extra: quando possível, pense nos nomes que deverão compor a sua banca avaliadora. Melhor: pense no perfil que sua banca terá. Sua tese deverá ser escrita pensando neste perfil. Se todos forem especialistas em fisiologia de plantas, talvez não seja necessário explicar coisas básicas de fisiologia de plantas. No entanto, se forem especialistas em biologia molecular, talvez estas coisas sejam importantes.

Objetivos

Sua tese deve ter um Objetivo único que possa ser definido em poucas linhas. Este objetivo pode ser quebrado em objetivos secundários, que sejam mais específicos e que derivem diretamente do objetivo principal. Recomendo que os Objetivos sejam distintos da Introdução porque eles são importantíssimos para a sua tese e merecem ser destacados. Muitas teses misturam tanto os Objetivos na Introdução que o leitor não consegue identificá-los (às vezes nem o autor). Uma tese sem Objetivos claros não tem direção. Uma tese sem direção fica gigantesca e impossível de se entender, além de dar um mega-trabalho de se escrever. Quando os Objetivos estão claros na cabeça do autor, outro motivo para escrevê-los à parte, também fica claro qual o caminho que a tese deve percorrer até o as Conclusões.

Materiais e Métodos/ Metodologia

Tudo que é necessário para se reproduzir os experimentos e análises da sua tese devem estar nesta seção. Dedique um bom tempo nesta seção. Isto vai facilitar escrever esta seção em artigos para publicação, além de facilitar você se lembrar do que fez durante seu curso.

Resultados

Os Resultados de sua tese devem ser apresentados da forma mais direta e clara possível. O texto deve complementar as Figuras e Tabelas sem ser repetitivo. O texto deve conter informações extras, como números absolutos, desvios-padrão, tamanho amostral, estatísticas, etc. Verifique se o texto bate com as Figuras e Tabelas. Antes de encher sua tese de gráficos, pergunte-se se uma Tabela não seria mais útil e vice-versa. Os Resultados devem ser apresentados de forma a auxiliar sua Discussão e Conclusões, sem forçar a barra. Resultados bem apresentados são a fundação na qual a sua tese será construída. Um resultado mal-feito ou duvidoso faz com  que sua tese comece a ruir sob seu peso. É terrível ler sobre uma conclusão ou uma interpretação que não está nos Resultados. Quando necessário, fazer referência ao Material e Métodos. A seção de Resultados pode terminar chata, com um texto técnico e monótono. Não se preocupe, pois ela serve mais como referência para as partes suculentas da sua tese.

Discussão

Nesta seção você deve interpretar cada um dos seus resultados, mostrando para o leitor como você chegou a esta conclusão. Às vezes mais de uma interpretação é possível, todas devem ser apresentadas. Os resultados devem ser comparados com a literatura. Também é necessário mostrar os possíveis problemas de seus resultados ou de suas interpretações. Se você não fizer isso, seus avaliadores o farão. Esconder os problemas de seus resultados só vão enfraquecer suas conclusões finais. Eu defendo que a Discussão seja distinta dos Resultados porque facilita saber o que foi medido e o que foi interpretado. Muitas vezes isto não é claro nem para o autor, que acaba achando que seus Resultados são mais sólidos do que realmente são.

Conclusões

Junto com os Objetivos, esta é a parte mais importante da sua tese. É onde você vai mostrar como seus resultados e suas interpretações se encaixam entre si e com a literatura. Se na Discussão você apresentou interpretações de cada resultado, agora você deve apresentar um panorama geral. As Conclusões não devem ser um repeteco dos pontos mais importantes da sua Discussão. Além disso, a Discussão deve mostrar claramente até onde você chegou na busca de seus Objetivos. Por fim é nas Discussões que você irá apresentar todos os novos caminhos abertos pela sua tese: quais hipóteses poderão ser geradas? Quais projetos poderiam derivar do seu?

EXTRAS

Assim como um DVD, o conteúdo principal de sua tese vem acompanhado de extras. Alguns dos extras permitem que você use um pouco de liberdade artística:

Capa/ contra-capa – veja se há um padrão na Universidade. Precisa ter: a Instituição, o Curso, seu nome, ano da defesa, nome de seu orientador e co-orientadores.

Dedicatória/ Agradecimentos – o conteúdo e a forma destas seções é questão pessoal. É educado agradecer o orientador e todos que te ajudaram na sua tese e explicar a razão.

"Tenho certeza que meus pais vão entender.."

Frase bacana – é uma forma de expressar um pouco de sua personalidade, aproveite.

Sumário/Índice – essencial em documentos grandes, cheque um milhão de vezes se a enumeração das páginas está correta.

Resumo – em português e em inglês. O resumo deve conter todas as partes da tese, principalmente objetivos e conclusões.

Listas de Abreviações – parece inútil, mas pode ser essencial para o leitor navegar em meio do mar de siglas que inevitavelmente são usadas. Não é necessário explicar abreviaturas usadas frequentemente na área em que trabalha (ATP, por exemplo).

Lista de Figuras e Tabelas – pode ser útil ou não, depende de quanto tempo você tem.

Referências Bibliográficas/ Bibliografias – siga o padrão da universidade. Se não houver um, siga o padrão da ABNT ou o padrão de um periódico conceituado na sua área de atuação.

Anexos – muitas vezes anexa-se tabelas extensas, materiais suplementares e artigos submetidos, publicados ou em preparação.

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Estas são as minhas considerações sobre a estrutura da tese. Certamente existem mais detalhes que esqueci. Lembre-se que falo da minha experiência escrevendo teses para a área de Ciências Biológicas. Certas coisas mudam de área para área e instituição para instituição. Na dúvida, pergunte ao seu orientador.

Como escrever uma tese? – Planejamento

"Papai Noel não te deixou uma tese escrita?" "Não"

Escrever uma tese, dissertação ou trabalho de conclusão de curso muitas vezes parece ser uma tarefa gigantesca, impossível e inalcançável. Estar diante de um arquivo entitulado “tese.doc” torna entrar no Facebook, organizar as fotos da última viagem e até lavar a louça uma tarefa irresistível. Existem, no entanto, algumas técnicas que aprendi para tornar experiência de se escrever o tal documento mais fácil e com menos dor-de-cabeça.

Como quase tudo na vida, planejamento é essencial. Quanto melhor for seu planejamento, mais tranquila deve ser sua experiência. O principal é conseguir parar de se preocupar com a largura das margens e se concentrar no conteúdo. Repito: O PRINCIPAL É O CONTEÚDO!

1- O primeiro passo é saber as regras de sua Instituição. Qual o limite de palavras? Como deve ser a capa? Existe uma fonte obrigatória, um tamanho de letra ou formatação de página? Qual o formato das referências bibliográficas?

2- Organize seus dados, anotações e tudo mais que você irá colocar na sua tese. Reanalise tudo com cuidado para checar se não houve nenhum erro de interpretação. Comece a tentar unir os dados, comece a unir as pontas soltas, teça histórias, esboce conclusões.

3- Decida se é necessário dividir sua tese em capítulos. Se a divisão acontecer, decida quais resultados irão em cada capítulo (mais sobre isso em outro post).

4- Decida qual editor de texto você irá usar, qual programa para gerar gráficos, qual programa para gerenciar a bibliografia (mais sobre isso em outro post).

5- Organize seus arquivos de forma fácil de serem encontrados. Crie um diretório para cada parte da tese. Aproveite e crie um sistema para você salvar várias versões da sua tese. Às vezes apagamos parágrafos inteiros que são necessários alguns dias depois. Eu salvava uma versão de cada arquivo por dia (no formato ano/mês/dia_descrição – 111220_introducao.doc, desta forma os arquivos ficam em ordem alfabética).

6- Planeje em sistema de backup. NUNCA escreva sua tese sem backup. Tenha cópias de seus arquivos em pelo menos três locais diferentes (pelo menos um deles a 2km de distância dos demais). Na época eu mantinha uma cópia em meu laptop, uma em pendrive (em casa) e uma em um desktop do laboratório. Hoje em dia existem serviços maravilhosos como o Dropbox (2 Gb de graça!), portanto ausência de backup é imperdoável.

7- Faça um cronograma para escrever sua tese – um que o seu orientador concorde. O cronograma é lei. Siga-o até o final como se você fosse jubilado caso ele não fosse obedecido. Se algo inesperado acontecer, faça o cronograma novamente e siga-o como se fosse lei.

Lembre-se: planejamento é essencial. Só que também é essencial saber planejar sem engessar como também é essencial saber quando parar de procrastinar planejar e começar a escrever a maldita tese.

Procrastinação é o seu maior inimigo, quanto antes você entender isso, melhor.

Velhos Watson e Crick

Encontrei a foto acima enquanto procurava fotos da Rosalind. É uma recriação da famosa foto dos jovens Watson e Crick diante de seus modelos. Watson escreveu um dos primeiros livros a revelar como a Ciência é realmente feita, com muito trabalho e contato com outros cientistas. O modo no qual eles chegaram à estrutura do DNA, com Pauling em seus calcanhares, é uma história fascinante que todo cientista deveria ler.

Uma história interesante: Crick era associado ao Churchill College da Cambridge University mas decidiu abandonar a posição quando eles decidiram construir uma capela. O curioso é que, após a sua morte, o College estava discutindo uma maneira de homenagear Crick e uma missa foi sugerida…

Watson e Crick jovens mostrando seu modelo

 

Extinto…

Um rinoceronte negro genérico, ainda há alguns por aí.

Estes dias uma subespécie de rinoceronte negro, o rinoceronte negro da África ocidental (Diceros bicornis longipes) foi declarada oficialmente extinta, após anos sem evidências diretas ou indiretas de sua existência. Mais uma linhagem evolutiva, e toda sua história e diversidade genética, somem o planeta pela ação humana. E este é só um dos casos mais famosos pois há uma legião de espécies extintas que não saem nos jornais (905) e mais um gazilhão de espécies que nem conhecemos.

O problema é que não vai parar nesta, existem um bocado de espécies que só existem em zoológios e jardins botânicos. Estas nunca deverão se recuperar. Uma espécie pode ser considerada extinta depois que sua população atingiu um número pequeno o bastante para definhar em poucas gerações. E muitas vezes não há diversidade genética o suficiente para evitar que a população se altere de forma imprevisível no fututo (há evidências que isso quase aconteceu com nossos ancestrais alguns milhares de anos atrás). Mais uma extinção técnica.

Isso tudo me enche de melancolia, não porque o planeta sofre com estas extinções, não sofre, e nem sofreria com a nossa. Mas acho que é um grande atestado de que demos errado. E o mais trágico: temos um cérebro grande o suficiente para perceber a m@rd# que estamos fazendo no planeta mas pequeno o suficiente para fazer algo para consertá-la. Que ainda exista algum grande mamífero vivo no planeta para mijar na nossa cova.

Rosalind

Rosalind Franklin fez imagens da estrutura de DNA que permitiram Watson e Crick chegarem à sua estrutura de DNA. Wilkins mostrou seus resultados para os dois, que rapidamente entenderam a importância do resultado. Há muitos relatos dizendo que Rosalind era uma pessoa difícil. Será verdade? Não deveria ser fácil ser cientista mulher na época. O fato é que seus atritos com Wilkins atravancaram seu avanço e acabou fomentando o avanço de Watson e Crick. Em mundos paralelos talvez tenhamos o modelo de Wilkins-Frankin sendo ensinado nas escolas. Rosalind sempre aparece séria, meio sizuda nas fotos, coloco aqui estas duas que contam uma história diferente.

A VEJA e os perigos do Victoza

Revistinha irresponsável!

A matéria de capa da VEJA desta semana me trouxe um certo desconforto. A chamada, “Parece milagre! Novo remédio faz emagrecer 7 a 12 quilos e, cinco meses. E sem grandes efeitos colaterais.”, acendeu todas as luzes de PERIGO! PERIGO! na minha cabeça. O motivo é simples: não confie em matérias que parecem propaganda de produtos. E a matéria da VEJA parece muito uma grande propaganda do remédio para perder peso Victoza (liraglutida).

A liraglutida é uma droga desenvolvida para ser usada contra a diabetes do tipo 2. Ele é parecido com um hormônio nosso, o GLP-1, que regula – entre outras coisas – a secreção de insulina e glucagon, inibe a secreção de suco gástrico e aumenta a sensação de saciedade. Por causa destes dois últimos efeitos, os pacientes que tomam Victoza demonstaram perder peso, o que levantou a possibilidade de ser usada no combate à obesidade.

A VEJA, é claro, não focou no fato da droga ser mais uma arma no combate da diabetes do tipo 2 muito menos nos casos de obesidade patológica. A pesonagem escolhida é uma moça de 1,70 m de altura que luta pra ficar abaixo dos 70 80 kg*!!!!! SE-TEN-TA QUILOS!!!! A pobrezinha luta para perder seus quilos em excesso e TEVE que apelar para a droga experimental. A revista ainda menciona que o uso da droga para perder peso não é regulamentado (mas tudo bem, né?), que estudos mostram perda de 7 kg em seis semanas sob o custo de injeçõezinhas diárias e poucos efeitos colaterais…

Bom, vamos às críticas:

1- ter 70 80* kg e 1,70 m não é ser gordinha. Sinto muito, não é. Não é razão para querer perder peso muito menos razão para tomar uma droga que ainda não foi aprovada, tem efeitos colaterais preocupantes e ainda pode causar tumores da tireóide e pancreatite (não falei sobre isso? continue lendo).

2- efeitos colaterais brandos? 7–40% dos pacientes tiveram náusea, 2–17% tiveram vômitos e 4–18,7% tiveram diarréia. Eles passam, certamente, geralmente em seis semanas. Bom, diga-se que qualquer um que fique com náuseas, vômitos e diarréia por seis semanas está fadado a emagrecer não? Garantindo uma taxa de 20% de eficácia do medicamento só na base dos efeitos colaterais! Milagre!

3 -Há boas razões para se achar que a liraglutida pode causar câncer. Não preocupações do tipo “celulares podem causar câncer” mas preocupações reais do tipo: ratos e camundongos injetados com liraglutida tiveram um aumento em tumores de tireóide, muitos deles malignos. É claro que humanos não são ratos e ainda não há evidências de que a droga afete humanos desta forma mas fica o aviso. A empresa que fabrica o medicamento só conseguiu aprová-lo junto à Food and Drug Association (FDA) após se comprometer a monitorar por aumentos na frequência de câncer an tireóide em humanos nos próximos 15 anos. Além disso eles iniciaram um estudo de 5 anos para estudar a fundo os possíveis efeitos da droga na tireóide e no pâncreas. Por que no pâncreas? Porque há evidëncias de que a Victoza aumenta o risco de se ter pancreatite em 2.8 vezes, uma doença com sintomas bastante desagradáveis (que devem fazer vc emagrecer tb). Por fim há o potencial da incidência de reações alérgias à Victoza ser alto (é um peptídeo, e tals) mas isso ainda não foi adequadamente testado em humanos!

4- da caixa do Victoza (em uma faixa preta):”Por ser incerta a relevância para humanos das descobertas sobre tumores das cpéluals-C na tioreóide de roedores, prescreva Victoza somente para pacientes cujos benefícios potenciais sejam considerados maiores que o risco potencial“. Resumindo: não use para ficar abaixo dos 70 kg, PELAMOR!

5- O uso da liraglutida para perder peso ainda NÃO foi aprovado pela ANVISA!

Espero ter mostrado que a Victoza não é o remédio seguro e milagroso que tanto foi divulgado pela VEJA. Claro, a responsabilidade de saber o que é arriscado para vc é só sua. Mas lembre-se: perder peso é questão de mudar hábitos alimentares e fazer exercícios, é algo a longo prazo. Não há grampo de estômago, dieta da sopa, sibutramina ou liraglutida que vai mudar isso. Veja a ironia: o remédio é uma forma de enganar o seu corpo para se sentir saciado mas quem está se enganando mesmo é você, que pensa que pode perder peso sem penar.

PS: A Revista Fórum tem uma crítica semelhante à matéria da VEJA, caso eu não tenha sido convincente o suficiente…

PSTU: A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), divulgou uma nota alertando contra o liraglutide

* UPDATE: um leitor bem notou que a personagem da matéria tem 80 kg e não 70 kg. Minha visão pessoal não mudou, acho absurdo uma pessoa tomar um remédio em testes nestas condições. Se a pessoa estiver com glicemia, perfil lipídico e pressão arterial boas, não é certo dizer que ela não é saudável porque o seu índice de massa corporal (IMC) a põe na categoria “sobrepeso”.

Laboratório: trabalhar mais é melhor?

O laboratório perfeito

ResearchBlogging.org A Nature desta semana traz um provocante artigo sobre laboratórios que fazem seus integrantes trabalharem loooooongas horas. O artigo usa os integrantes do laboratório do Dr. Alfredo Quiñones-Hinojosa como personagens. O Dr. Q, como gosta de ser chamado, começa suas aividades às 6 da matina, marca reuniões de sexta-feira à noite e espera que seus subordinados trabalhem em finais de semana e feriados. Os resultados parecem impressionante: o laboratório publicou 113 artigos* nos últimos 6 anos e mantêm 13 projetos de financiamento, todos obtidos com muito suor e dedicação. Mas suor e dedicação não são os únicos custos desta jornada: seus alunos em geral se alimentam muito mal, além de sofrerem de fadiga e falta de vida social.

O exemplo do Dr. Q reflete o que muitos acreditam na academia: trabalhar mais é melhor. Mas será que é verdade? Será que esta é a regra ou exceções notáveios distorcem nossa percepção? Mais importante: será que vale a pena?

Será que vale a pena?

Em contraste ao Dr. Q, Dr. Dean Simonton aponta que a estratégia do “mais é melhor” favorece um tipo de personalidade, tão focada em trabalho e publicações e experimentos, que sacrifica a criatividade no processo. Além disso, criatividade dificilmente brota de mente esgotadas.

Um segundo artigo, escrito pela Dra. Julie Overbaugh, mostra que um outro mundo é possível mas que é mesmo difícil competir diretamente contra laboratórios “superprodutivos”. Não trabalhar tanto é ter que compensar as horas-tarbalho com criatividade e eficiência.

Minha experiência

Eu tenho um histórico com regimes de trabalho diferentes. No começo da minha carreira, eu trabalhava manhã, tarde e noite – quase todos os dias – para conciliar o laboratório e a graduação. Eu provavelmente continuaria assim o resto da minha vida mas, felizmente, acabei tendo um choque ao ver, em meu doutorado, que pesquisadores ingleses (ou melhor, os pesquisadores ingleses de meu Departamento) trabalhavam apenas de 6 a 8 horas por dia, 5 dias por semana. Mais chocante ainda: eu não conseguia produzir significativamente mais trabalhando de forma insana! As razões são simples: eu frequentemente ficava esgotado fisicamente e mentalmente (principalmente mentalmente) no meio da semana e minha produtividade caía radicalmente. Além disso, tinha meses no ano que nada funcionava por causa de erros e decisões erradas induzidas pelo cansaço! A minha conclusão era: o melhor é trabalhar bem e de forma constante sempre do que ficar acelerando ao máximo e depois ter que diminuir o ritmo.

Aos poucos também percebi que trabalhar menos permitia que eu pensasse mais, planejasse mais e chegasse aos meus objetivos mais facilmente. Às vezes estamos tão focados no nosso trabalho que é difícil ver caminhos novos e alternativos. As maiores descobertas conceituais feitas no laboratório em que eu trabalhava foram feitas na sala do chá, relaxando com meus colegas de laboratório e meu orientador. Obviamente que, às vezes, ainda tenho que dar aquela acelerada no trabalho para conseguir fazer tudo dentro dos deadlines mas esta é a exceção e não a regra.

Seja feliz!

Outro aspecto pouco discutido na questão da produtividade é a vida fora do laboratório. Família, amigos, hobbies, tudo isso é importante para a manutenção da sua saúde física, mental e emocional. Eu vi muitos estudantes que trabalhavam tanto para se descobrir solitários ou que não tinham para onde ir quando algo dava errado em seu trabalho. Depressão e até suicídios são uma sombra praticamente ignorada entre os que vivem em um ambiente competitivo como o da academia. Trabalhar muito pode até trazer resultados acadêmicos mas o custo é grande demais. Publicar um trabalho na Science não é mais gostoso quanto ver um filho crescer ou curtir um final de semana com os amigos, um jantar com os pais. Pode até parecer que seja mas não é.

Lembrem-se que a vida acadêmica parece ser feita de corridas de 100 m rasos onde quem acelera mais acaba ganhando mas, na verdade, ela é uma grande maratona onde quem vence é quem consegue manter o ritmo até o final.

* mas e a qualidade, você me pergunta. O artigo explica que o h-index do Dr. Q é 27 enquanto a média dos cientistas em sua área e posição na carreira é 10. Claro que o h-index não mede, necessariamente, criatividade e inovação…

Referências

Ledford, H. (2011). Work ethic: The 24/7 lab Nature, 477 (7362), 20-22 DOI: 10.1038/477020a

Overbaugh, J. (2011). 24/7 isn’t the only way: A healthy work–life balance can enhance research Nature, 477 (7362), 27-28 DOI: 10.1038/477027a

Adeus, obrigado por todos os peixes!

Este é um post de despedida.

Bem, mais ou menos.

Aqui eu anuncio para o público que não sou mais administrador do ScienceBlogs Brasil.

Na verdade isto já é realidade desde maio deste ano (cínicos diriam que isso aconteceu até antes).

Este é um evento que estava planejado para acontecer desde que Átila e eu fundamos o Lablogatórios, séculos atrás (2008).

Meu objetivo era criar um coletivo de blogs de Ciências para construir uma comunidade de divulgadores científicos e aumentar a visibilidade dos blogs de Ciência.

Acho que fui bem sucedido.

Minha missão terminou. Deixo o site nas mãos do Kentaro Mori, que continuará a contar com o Átila Iamarino. Ambos já mostram que têm muitos planos pela frente, o novo site é só o começo.

Esta mudança irá injetar energias novas na nossa comunidade.

E eu poderei partir para outros projetos.

O blog continua! Sem ter que administrar o site, é possível que eu tenha mais tempo para escrever.

Muito obrigado a todos, foi uma experiência incrível!

O que fazer quando se tem formigas-fantasma em casa

Formigas-fantasma (Tapinoma melanocephalum) são bastante comum rondando doces e afins. São bastante pequenas, milimétricas, mas o que mais chama atenção é o seu abdômen translúcido. Aparentemente é bem difícil se livrar das danadas, neste caso, o melhor mesmo é se divertir um pouco:
formigas_fantasmas_coloridas.jpg
Via Today I learned something new

O que uma página de laboratório deveria ter?

pagina.jpg
Um dos motivos de meu desparecimento por aqui foi o fato de eu ter sido contratado pelo Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP como professor doutor. A história de como isso aconteceu fica para um outro dia. O fato é que isso abriu uma miríade de novas atividades que agravaram minha crônica falta de tempo.
Não desistirei de blogar, por enquanto.
Uma das coisas em que venho trabalhando é em uma página para o meu laboratório em gestação. Já há um espaço, ainda que ocupado no momento. Já há financiamento, a ser liberado. Quiçá haja até alunos! Mas no momento, de concreto mesmo há uma página.
Duas perguntas, caros brontossauros: o que uma boa página de laboratório deveria ter? Como vocês acham que eu posso melhorar a minha página atual?

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