O menino da casa torta

O menino da casa torta é o personagem principal de uma nova série de textos que eu queria escrever. A idéia era misturar um texto meio maluco com informações sobre animais interessantes. O primeiro texto introduz o menino da casa torta, um pouco da sua família e seu bichinho de estimação: um opilião.
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Era uma vez um menino que morava em uma casa torta. A casa torta era feita de paredes brancas tortas, com janelas verdes tortas e um bonito telhado vermelho. Na porta da frente, também torta, podia-se ver o numero 42, com os algarismos dourados e, claro, tortos. O interior da casa era como o interior de qualquer casa, só que a mãe do menino da casa torta a decorou inteirinha com móveis tortos para combinar.

Um dos problemas de se morar em uma casa torta é que você sempre tem que prestar atenção nas suas coisas. Uma bola de futebol que está aqui em um momento, pode rolar até o outro lado da sala, para debaixo do sofa, em um instante. O pai do menino da casa torta, por exemplo, sempre se distrai durante o café da manhã e sua caneca de chocolate quente desliza da mesa torta e acaba caindo no chão. O pior eh que, se eles demoram pra limpar o chocolate do chão, ele acaba escorrendo para debaixo do sofa, melando a bola de futebol.

A irmã do menino da casa torta sempre fica brava com o pai, dizendo que ele deveria consertar a casa, ou pelo menos a mesa. O pai, paciente explica:

- Querida, eu já te expliquei que a mesa e a casa estão perfeitas, quem está torto é o resto do mundo!

De fato, um dia a irmã do menino da casa torta pegou alguns livros e tentou endireitar a mesa torta. No entanto, assim que a mesa foi endireitada, o resto do mundo comecou a deslizar para o outro lado da sala, debaixo do sofa. A irmã do menino da casa torta logo entortou a mesa de volta e nunca mais tocou no assunto.
O menino da casa torta tem um opilião de estimacao. Para quem pergunta, e sempre perguntam, ele responde, com ar de professor:

- Um opilião eh bicho que se parece com uma aranha mas é apenas um parente próximo delas assim como escorpiões, ácaros e carrapatos.

As aranhas e seus parentes mais próximos são chamados de aracnídeos. Assim como os insetos, os crustáceos e as centopéias, os aracnídeos têm esqueleto do lado de fora do corpo, como se fosse uma armadura. O problema de ser ter uma armadura, um exoesqueleto, é como crescer. Como a armadura é dura, é preciso abandonar o esqueleto antigo para crescer e depois fazer um esqueleto novo e maior.

Os aracnídeos, ao contrario dos insetos tem 8 patas. “Patas não! Quem tem patas são patos!”. Interrompe o menino da casa torta. “Os aracnídeos têm 8 pernas, os insetos têm seis e os crustáceos têm muito mais!

Existem dois grandes grupos de opiliao: um com corpo triangular e pernas grossas cheias de espinho e um com corpo de bolinha e pernas fininhas, quase invisíveis. O opilião de estimação do menino da casa torta é desse último tipo, e tem o corpo laranjinha. Quando esse tipo de opilião sente que algo agarrou a sua perna ele nao tem dúvida: deixa a perna com quem o agarrou e sai correndo, sem mancar nem nada.

Os opiliões não são muito seletivos com comida, eles geralmente caçam uma grande variedade de pequenos animais. O menino da casa torta, no entanto, alimenta o seu opilião com manteiga de amendoim. Como as pernas dos opiliões são longas, elas não servem para pegar o alimento, apesar do segundo par de pernas servir como uma antena para detectar possíveis presas. Para segurar a comida, os opiliões possuem pequenos bracinhos na frente da sua boca.

Uma coisa de deixa o menino da casa torta realmente bravo é quando as pessoas confundem os opiliões com aranhas. Ele fica vermelho como urucum e fala, bufando:

- Primeiro, o corpo das aranhas é dividido em dois pedaços: um que é a cabeca fundida com o peito e outro que é a bunda. O corpo dos opiliões é todo junto em um só. Além disso os opiliões não fazem teias como algumas aranhas nem produzem veneno!

Apesar de não terem veneno, os opiliões possuem glândulas de cheiro que soltam substâncias químicas fedidas para tentar espantar quem tenta come-los ou pegá-los. Sempre que o menino da casa torta solta um pum ele bota a culpa no seu opilião:

- Foi ele! – fala o menino, tampando o nariz e apontando para as glândulas de cheiro do opilião, que ficam entre suas pernas e seu corpo.

Os opiliões geralmente são encontrados em locais úmidos como cavernas, buracos e troncos de árvores mortas. Como a casa torta do menino fica perto da floresta, o seu opiliao não se importa em morar com o menino. A única coisa que ele não gosta é ter que brincar de dia afinal, os opiliões são famosos por preferirem a vida noturna e crianças, como o menino da casa torta, são famosas por dormir de noite.

Alguns opiliões tem o corpo tão pequeno quanto a cabeça de um alfinete, outros têm o corpo tão grande quanto uma moeda. Se a gente contar as pernas, no entanto, eles podem ficar do tamanho de uma raquete de pingue-pongue. O opilião do menino da casa torta é do tamanho da sua casa o que não significa que ele seja do tipo grande: como toda a família do menino da casa torta podem mudar de tamanho à vontade, ele preferem que sua casa seja pequena para não ocupar muito espaço.

Genética e Harry Potter IV – a palavra final

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Diante da imensa repercussão que as duas cartas tiveram (principalmente nos fóruns de Harry Potter e Genética), perguntaram para a autora a opinião dela sobre os Squibs (filhos de mágicos que não são mágicos) e a genética de Harry Potter. A resposta dela foi a seguinte:

Squibs are rare; magic is a dominant and resilient gene.

Que, traduzindo é:

Squibs são raros; a Magia é um gene dominante e resiliente.

Como a autora é dona do universo que ela cria, devemos assumir, portanto, que existe um gene da Magia e que ele é dominante. Resiliência (capacidade de se recuperar) não é um termo que se utiliza para genes mas podemos concluir que a autora quis dizer que este gene, se alterado, pode voltar ao seue stado inicial (por mágica!). Será que é possível explicar a herança da Magia?

A resposta é: nã, pois a Hermione é uma bruxa filha de trouxas que vêm de famílias que nunca tiveram bruxos. Admitindo que a mãe da Hermione é fiel ao seu marido, ambos pais da Hermione não teriam o alelo da Magia e Hermione não seria bruxa.

Na verdade existem muitas explicações complicadas de como fazer a genética do Harry Potter funcionar usando múltiplos genes, etc. A minha explicação é mais simples: o gene dominante e resiliente da Magia precisa ser ativado pelo leite de vacas mágicas. A herança da Magia dependeria da combinação dos genes com o ambiente, assim como a maior parte dos caracteres hereditários complexos (por exemplo, a inteligência).

Concluindo, toda esta confusão foi iniciada pela tentativa de alguns cientistas de se divulgar genética usando Harry Potter. Ainda acho que eles ecometeram erros na carta mas uma coisa é certa: eles foram bem sucedidos.

Genética e Harry Potter III – a vaca mágica

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Por quê ficamos tão bravos com a primeira carta?

1) Não se conclui que uma característica é genética ou não com uma dúzia de exemplos. Geneticistas acompanham várias famílias por várias gerações, compilam dados de milhares de pessoas e fazem muitos experimentos para concluir isso. Nós achamos que os cientistas, ao tentar divulgar a Genética, fizeram um desserviço ao trabalho de muitos pesquisadores.

2) As crianças podem achar que qualquer característica hereditária, ou seja, que passa de pais para filhos, tem base genética. Cultura é hereditária, hábitos são hereditários mas não devem ter base genética.

3) Outras teorias também podem explicar a origem da Magia. Imagine que os seres humanos adquirem habilidade mágicas se eles beberem o leite de vacas mágicas quando crianças. Magos e bruxas sempre compram leite do mesmo lugar pois a sua comunidade é muito fechada logo, podemos concluir que eles compram leite de vacas mágicas. Se uma vaca mágica fugir e for pega por trouxas, filhos de trouxas que beberem leite das vacas mágicas vão virar magos e bruxas. Algumas crianças têm intolerância à lactose e não podem beber leite das vacas mágicas. Se este fosse o caso do Filch, ele não seria mágico mesmo sendo filhos de mágicos. O Neville teria níveis menores de Magia porque ele bebeu menos leite de vacas mágicas.

4) Um detalhe técnico: para a teoria dos cientistas fazer sentido, o alelo da magia precisa ser recessivo no entanto, para explicar os casos do Neville como eles explicam, o gene tem que ser dominante. É possível explicar todos os casos mencionados geneticamente só que as explicações não são nada simples o que contradiz a proposta inicial.

Eu e meus colegas não esperávamos que a carta fosse publicada mas, para a nossa surpresa, ela foi. Mais surpreendente foi a repercussão das duas cartas em fóruns e blogs pela internet.

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Genética e Harry potter II – a resposta

Leia a primeira parte aqui.

A Nature sai na madrugada de quarta-feira para quinta-feira, logo na quinta de manhã eu, o Michael e o Antony ficamos comentando a carta. Principalmente porque achamos que foi errado assumir que a Magia era codificada por genes. Os autores escreveram:

Wizards or witches can be of any race, and may be the offspring of a wizard and a witch, the offspring of two muggles (‘muggle-born’), or of mixed ancestry (‘half-blood’). (…) This suggests that wizarding ability is inherited in a mendelian fashion, with the wizard allele (W) being recessive to the muggle allele (M).

Que pode ser traduzido como:

Magos e bruxas podem ser de qualquer raça e podem ser filhos de um mago e uma bruxa, filhos de dois trouxas ou de descendência mestiça. (…) Isto sugere que a habilidade mágica é herdada de forma mendeliana, com o alelo Magia (M) sendo recessivo ao alelo Trouxa (T).

Por que esta afirmação nos deixou tão bravos? Simples: muitas famílias comem sushi no Japão mas menos famílias comem sushi na Suécia. Pela lógica dos cientistas a gente poderia concluir que existe um gene do sushi! Outro exemplo? Meus avôs paternos tiveram 8 filhos, destes, 6 fizeram Engenharia. E dos netos de meu vô pelo menos três também são ou serão engenheiros. Podemos concluir que existe um gene para Engenharia?

O problema não foi somente este, mesmo considerando que existe um gene da Magia, isso não explica porque existem tantos filhos de magos que não têm poderes mágicos. O zelador Filch é um deles.

O fato é que a carta dos pesquisadores nos fez escrever uma resposta no dia seguinte. Curiosamente a resposta foi escrita entre 1 e 3 da manhã da sexta-feira e mandada às 9 da manhã da sexta pois eu e o Michael varamos a noite fazendo experimentos (e escrevendo a resposta nos intervalos). Foi daí que surgiu o “Harry Potter e o Prisioneiro da Presunção”.

Continua aqui.

Genética e Harry Potter I – o início

No final desta semana será publicado, em inglês, o último livro do Harry Potter. Vou aproveitar e falar sobre uma polêmica na qual me envolvi uns anos atrás: a da relação do Harry Potter com a genética.

Tudo começou quando a revista científica Nature, uma das mais importantes da área, publicou uma carta dos pesquisadores Jeffrey M. Craig, Renee Dow e MaryAnne Aitken intitulada “Harry Potter e o alelo recessivo”, sugerindo o uso de Harry Potter para ensinar genética. A carta era muito interessante, sempre fui a favor de tentar deixar a Ciência mais simples de se entender com o uso de exemplos que as crianças conseguem entender.

Os pesquisadores argumentavam que existia um gene da Magia e este gene tinha uma versão (alelo) dominante que os não mágicos possuíam e um alelo recessivo, que os mágicos possuíam. A partir disto, os pesquisadores desenharam árvores genealógicas inteiras usando exemplos do livro.

Eu e meus colegas ficamos muito irritados com a carta dos cientistas. A razão principal foi a de assumir que existia um gene da Magia. Só porque a Magia é passada de pais para filhos, isso não quer dizer que ele tem um componente genético e isso foi o assunto da nossa carta à Nature.

Continua aqui

Coiosidades IV: Nomes científicos

Algumas curiosidades sobre o texto dos nomes científicos.

- o melhor amigo do Dadá, Vítor, não é uma homenagem a ninguém que eu conheça. A mãe dele, tia Ruth, é o nome da mãe de uma amiga e da bibliotecária da minha escola antiga.

- um zilhão é muito mais que um bilhão de bilhões.

- Nomes completos da família: Antônio de Oliveira, Júlia Ramos de Oliveira, Gustavo Ramos de Oliveira e Danilo Ramos de Oliveira. Eu queria nomes bem brasileiros que tivessem alguma menção a algo biológico.

- Pablo é mais um amigo meu. Ele não tem cabelos compridos mas iria se divertir em saber que eu o comparo a macacos ao comer macarronada.

- O Guto é chamado de Gus por alguns de seus amigos. Rodrigo e Graziela (que é mãe!) também são grandes amigos meus.

- Este texto é um dos maiores que já escrevi. Não sei se seria apropriado para a Ciência Hoje das Crianças por ser muito grande. O assunto é bastante complexo e acho que ficou um tanto difícil.

Onças, Tigres, Jaguatiricas e companhia

O Guto e o Dadá discutiram muito no último texto sobre quem é mais parecido com a onça: o tigre ou a jaguatirica.

O Dadá achava que era a jaguatirica por causa da cor dos pêlos e das pintinhas. O seu Antônio concordou com o filho mais novo pois ambos podem ser encontrados nas Américas enquanto o tigre é asiático.

Guto, no entanto, explicou que a onça e o tigre são do gênero Panthera enquanto a jaguatirica era do gênero Leopardus o que indicava que a onça é mais próxima do tigre.

Não te convenceu? Olhe as fotos dos três felinos e compare o formato do rosto:

Note que a jaguatirica tem “cara de gato” enquanto o tigre e a onça tem “cara de leão”. Leões, a propósito, também são do gênero Panthera. Convencido?

Fotos do Science Photo Library, Willian Ervin, John Beatty e Tony Camacho.

Aipim, mandioca, macaxeira e companhia.

O Dadá almoçou na casa do amigo Vítor e descobriu que eles chamam mandioca de macaxeira! Sem entender nada, ele foi perguntar o porquê para o resto de sua família. Uma coisa tem vários nomes no mesmo país, como saber que a mandioca da gente é a mesma mandioca do resto do mundo?

Guto sabe a resposta e explica para a família sobre os nomes científicos.

Um texto inédito do Guto e do Dadá.

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Vítor convidou Dadá para ir brincar com ele depois da aula de natação. Vítor é seu amigo desde que eles aprenderam a nadar juntos. Os dois estavam famintos quando chegaram na casa do Vítor. Enquanto tomavam um lanche na cozinha, Vítor pergunta para sua mãe:

- O que vamos ter para almoçar hoje?

- Eu vou fazer arroz com jerimum e fritar um pouco de macaxeira. Ah! Eu comprei umas bergamotas na feira para a sobremesa! – respondeu a mãe, ocupada com as panelas.

Dadá ouviu esses nomes diferentes, estranhou mas não falou nada pois não queria parecer mal-educado. Ele ficou a manhã inteira imaginando o que é que a mãe do Vítor havia preparado no almoço. Estava tão preocupado que até perdeu no futebol, coisa que nunca acontecia. Dadá ficou mais tranqüilo quando percebeu que o almoço era, na verdade, arroz com abóbora, mandioca frita e mexericas.

Na hora do jantar, já em casa, Dona Júlia perguntou ao Dadá como tinha sido a manhã na casa do Vítor, se ele tinha se comportado, tinha comido tudo no almoço, essas coisas de mãe:

- Comi tudo sim! A tia Rute é uma ótima cozinheira, apesar de falar os nomes das comidas tudo errado! – respondeu Dadá.

- Como assim, tudo errado? – perguntou Seu Antônio, o pai.

Dadá explicou para a família, pacientemente, tudo o que tinha acontecido: como a família do Vítor chamava as abóboras de jerimum, mandioca de macaxeira e mexerica de bergamota.

- Dadá, não é que eles falem errado! Eles só têm nomes diferentes para as coisas. Você sabe que o Vítor vive mudando de casa e que ele já morou em Santa Catarina, na Bahia e em vários outros lugares. Como cada região tem um nome próprio para as coisas, às vezes ele fala um nome diferente. Pipa por exemplo, pode ser papagaio, quadrado ou até pandorga dependendo do estado. – explicou Seu Antônio que sempre viajou muito.

- É, além de macaxeira, tem lugares que chamam a mandioca de aipim ou biz. Já as mexericas têm zilhares de nomes populares como bergamota, mimosa e mandarina. – completou Guto, o irmão mais velho do Dadá.

- Mas como é que eles querem que a gente entenda tudo isso? – perguntou Dadá, bastante confuso.

- Com paciência. Quando a gente quer se comunicar, sempre se dá um jeito. Quando a gente não quer, nem adianta tentar. – falou a mãe, se lembrando dos conflitos que sempre aparecem na televisão.

Guto, que está no primeiro ano da faculdade de Biologia, explica:

- É verdade, na Biologia, por exemplo, para saber que uma espécie que tem um nome aqui é a mesma que tem um outro nome ali, inventamos os nomes científicos!

- Como assim? – pergunta o pai.

- Todos já ouviram falar de Homo sapiens, não ouviram?

- É a gente! – respondeu Dadá, se lembrando de um documentário que viu na televisão.

- Sim, este é o nosso nome científico. – explica Guto – Ele tem duas partes, como se fosse o nosso nome completo. O primeiro nome, Homo é o nosso gênero. Ele seria como o nosso sobrenome pois indica quem é mais parecido com a nossa espécie. O segundo nome, sapiens serve para diferenciar as espécies. Esse segundo nome só tem valor mesmo quando está com o primeiro, por isso nunca aparece sozinho.

- Não entendi nada! – diz Dadá, confuso.

- É fácil! O nosso sobrenome, Ramos de Oliveira, é comum a todos nós, o que indica que somos parentes. Já o nosso primeiro nome, Gustavo, Danilo, Antônio e Júlia, serve para diferenciar cada um de nós. Danilo, por exemplo, não ajuda a identificar quem você é dentro da sua escola porque tem várias pessoas com o mesmo nome, no entanto, Danilo Ramos de Oliveira serve para te identificar completamente.

- É, mas podem existir pessoas com nomes iguais, como um amigo que trabalhou comigo. Ele se chamava José Maria da Silva. Só ele já tinha encontrado umas quatro pessoas com o mesmo nome! – se lembra seu Antônio – Isso também acontece na Biologia?

- Acontece algo parecido. É freqüente uma mesma espécie ter mais de um nome, daí vale o mais antigo. Às vezes acontece de uma espécie ser, na verdade, mais de uma. Menos freqüente é ser mais de um gênero. Sem contar que muitas espécies trocam de gênero ao longo do tempo.
- E porque isso acontece? – pergunta o pai, achando as pessoas que dão nomes às espécies um tanto malucas.

- É porque algumas espécies se parecem com outras de início mas uma análise mais detalhada mostra que isso não é verdade. Quem que vocês acham que é mais parecido com a onça: o tigre ou a jaguatirica?

- É a jaguatirica! – respondeu rápido Dadá – as duas têm pêlos amarelos e um monte de pintinhas, enquanto o tigre é laranjas e tem listras.

- Sem contar que as duas primeiras são brasileiras e o último, asiático. – completou o seu Antônio, para surpresa de todos.

- Viu? É óbvio que as duas são mais parecidas! – concluiu Dadá.

- É, tão óbvio que não são. – corrigiu Guto – O nome científico da onça é Panthera onca, o do tigre é Panthera tigris e, o da jaguartirica, é Leopardus pardalis. Panthera e Leopardus são os sobrenomes desses bichos ou melhor, o seu gênero. Assim podemos concluir que a onça e o tigre são mais parecidos que a jaguatirica porque são do mesmo gênero.

- Mas só por isso? Eu ainda acho que estava certo. – falou Dadá, ainda inconformado com a correção do irmão.

- Não, teimosinho. Pessoas que estudam estes animais listaram diversas características dos três e concluíram isso. Esses especialistas são os taxonomistas. Eles fizeram uma lista de semelhanças entre a onça e o tigre e verificaram que os dois são tão parecidos que deveriam ter o mesmo sobrenome, ou melhor, o mesmo gênero. – explicou Guto.

- E o trabalho deles é só esse, de ficar comparando os animais e dando nomes para eles? – perguntou Dona Júlia, curiosa.

- Não é. Ficar comparando animais, e outros seres vivos, ajuda a gente a descobrir o parentesco entre eles. Acreditamos que todas as formas de vida neste planeta tiveram um parente comum. Comparando as diferentes espécies podemos ter idéia de quem é mais parecido com quem. Daí podemos juntar os seres vivos em grupos parecidos entre si.

Agora todos prestavam atenção na explicação do Guto. O Dadá achou estranha a idéia de ter algum parentesco com a samambaia de casa, ela é tão quietinha enquanto ele é sempre tão agitado!

- Vou dar o exemplo do ser humano. – continuou Guto – Somos do Reino Metazoa, isso quer dizer que somos mais parecidos com os todos os animais do que com todos os fungos, bactérias e plantas. Dentro desse Reino somos do Filo Chordata, o que nos torna mais parecidos com os sapos, aves, peixes do que das estrelas-do-mar, minhocas e insetos. Somos também da Classe Mammalia.

- Já sei! – interrompeu Dadá todo feliz – É o grupo dos mamíferos. São os animais que têm pêlos e mamam quando filhotes. Diferente das aves, dos peixes, répteis e anfíbios.

- Muito bem, Dadá! – elogiou o irmão – Dentro dos mamíferos somos da Ordem dos primatas, o grupo que inclui todos os macacos. De todos os macacos, so
mos mais parecidos com o chimpanzé, gorila e orangotango, nesta ordem. Por isso formamos a família dos hominídeos.

- Quer dizer que essa história da gente ser parente dos macacos não é brincadeira? – perguntou a mãe.

- Isso explica muita coisa. – respondeu o Dadá, se lembrando do primo Pablo comendo a macarronada da vó, com seus cabelos compridos quase dentro do prato.

- Enfim, dentro da Família Hominidae, pertencemos ao gênero Homo. – terminou de explicar Guto.

- E há mais alguém que tem o mesmo gênero que nós? – perguntou o pai.

- Sim, houve. Atualmente conhecemos fósseis de hominídeos que podem ter sido os nossos ancestrais ou parentes muito próximos como o Homo habilis e o Homo erectus, por exemplo.
Enquanto o Guto continuava a falar inúmeros nomes científicos, que mandioca (ou macaxeira, ou aipim) é Manihot esculenta, mexerica é Citrus reticulata e abóbora é Curcubita pepo; o telefone começa a tocar e o Dadá vai atender. Quando ele volta o irmão pergunta:

- Quem era Dadá?

- Era engano. Uma menina procurando um tal de Gus.

Assim que o Guto ouviu o irmão ele ficou branco e depois vermelho:

- Menina? Gus? Era a Graziela que eu conheci na festa do Rodrigo! Eu fiquei insistindo um tempão para a gente sair juntos e ela disse que ia me ligar! E eu nem tenho o telefone dela para responder!

- Mas então porque ela não pediu para falar com você, Guto? – perguntou Dadá, sem entender nada.

- Dadá, acorda! Meu nome é Gustavo, em casa vocês me chamam de Guto mas na turma do Rodrigo sou chamado de Gus! Agora ela vai pensar que eu passei o número errado para ela e nunca mais vai querer sair comigo! – choramingou Guto, exagerando um pouquinho – A culpa é toda sua Dadá!

- Culpa minha nada! Como que eu ia saber que te chamavam de outro jeito? Da próxima vez vê se usa o seu nome científico, senhor Gustavo Ramos de Oliveira!

Coiosidades III – Batatas

Coiosidades do texto “Aprendendo a pesquisar… Temas: batatas!”:

- Este foi o terceiro texto do Dadá a ser publicado na Ciência Hoje das Crianças, o primeiro com um colaborador: o biólogo Eduardo Bessa, um grande entusiasta da divulgação científica. No entanto, este não foi o nosso primeiro texto em conjunto. Existe um “Dadá e a Maria-da-Toca” para ser publicado em algum lugar…

- O título original da história é: “As batatas da tia Camila”. Assim como no texto das algas, o título publicado funciona melhor quando ela está sozinha e o original funciona melhor em uma coletânea.

- A Camila existe e tem batatas da pernas enormes.

- O texto foi escrito como um presente para a Camilinha, que estava se mudando para beeeeeem longe.

- Eu queria ter tido uma professora que me mandasse pesquisar sobre as batatas.

- O seu Antônio é um pai mais moderno e, às vezes, prepara o jantar enquanto a sua esposa descansa lendo um livro.

- O Guto não deu todas as respostas da lição de casa pro Dadá e o faz pesquisar em várias fontes diferentes. Às vezes os pais têm que perceber que a busca pelas respostas é mais importante que as próprias.

- O texto final do Dadá tem um ritmo inspirado no maravilhoso curta a “Ilha das Flores”. O curta é genial e consegue interligar muitas informações de uma forma rápida porém fácil de se entender.

Dadá: o Pesquisador II – Experimento!

Dadá descobriu que pode usar batatas para estudar osmose. E você? Sabe o que é osmose?

Imagine uma bacia que tem uma barreira dividindo-a no meio. Esta barreira é especial, pois deixa água passar mas não deixa outras coisas, como sal, passar. Se você colocar a mesma quantidade de água dos dois lados da bacia e um punhado de sal em um dos lados mas dois punhados de sal do outro lado você vai ver que a água vai começar a passar pela barreira e vai acumular no lado da bacia que tem mais sal. O caminho da água é sempre do local com menos partículas dissolvidas, para o local com mais partículas dissolvidas, numa tentativa de igualar a concentração de partículas dos dois lados da membrana. No final, você deve ter mais água de um lado da bacia do que do outro. A gente diz que o movimento da água de um lado para o outro é a osmose.

Osmose é um processo importante para as células vivas pois água pode se movimentar através de sua membrana. Vamos testar se acontece osmose em batatas?

Para isso você vai precisar de: 2 batatas (mais ou menos do mesmo tamanho), uma panela, um prato, uma faca sem ponta, um pouco de açúcar, um fogão e um adulto.

Observação: Não é pra fazer a experiência no adulto! A gente vai precisar dele pra acender o fogão!

1) Descasque as batatas. Coloque uma delas na panela com água (agora você precisa do adulto para acender o fogão) e cozinhe até que fique macia e firme, sem despedaçar.
2) Deixe a batata cozida esfriar. Use a faca sem ponta para fazer um buraco do mesmo tamanho em cada batata.
3) Encha os buracos com a mesma quantidade de açúcar e coloque as batatas, com o buraco para cima, dentro de um prato com água.
4) Deixe assim por 30 minutos. Pode dar espiadas para ver o que está acontecendo.

E aí? Alguma diferença?

Saiba mais em:
Vá cozinhar batatas!!! – REVISTA CHC 156 – ABRIL DE 2005

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