A Gralha Azul e a Araucária
Um dos tipos mais legais de dispersão de sementes por animais é o caso da araucária e da gralha-azul. As gralhas são aves muito conhecidas pela sua inteligência. A gralha-azul, ave símbolo do Paraná, coleta os pinhões liberados pela araucária e as enterra em diversos locais para comê-los depois. Como as gralhas não se lembram onde enterraram todos os pinhões que enterraram, algumas acabam germinando. Assim, as gralhas-azuis são essenciais para a dispersão de sementes dos pinhões.
A propósito, os pinhões não são os frutos da araucária. As araucárias são parentes dos pinheiros e ambos pertecem a um grupo de plantas que não fazem frutas. Os pinhões são as sementes da araucária, que também não têm flores (têm estróbilos). A parte comestível dos pinhões é o tecido de reserva que vai alimentar o embrião da araucária e a araucária-bebê até eles crescerem o bastante para fazer o próprio alimento.
Aproveitem e vejam a história em quadrinhos de Antonio Eder publicada no site do Gralha, super-herói paranaense.
Revisitando os IgNóbeis: necrofilia homossexual em patos.
Depois da pesquisa com os pinguins, a minha pesquisa predileta a ganhar um IgNobel foi a do Dr. Moeliker. Dr. Moeliker é um ornitologista curador do museu de história natural de Roterdã. O museu sofreu uma extensa reforma que adicionou à sua fachada uma extensa parede de vidro. Como vidro e aves não se misturam, de vez em quando ocorrem colisões. O Dr. Moeliker, como bom cientista, aproveita as colisões para adicionar espécimes à sua coleção de aves. Um dia, Dr. Moeliker foi investigar mais uma colisão quando ele presenciou uma das cenas mais bizarras de sua vida. Eis o resumo do trabalho que ele publicou sobre o evento:
No ida 5 de Junho de 1995, um pato macho adulto (Anas platyrhynchos) colidiu com a fachada de vidro do Natuurmuseum Rotterdam e morreu. Um segundo pato macho violou o cadáver por quase 75 minutos consecutivos quando o autor interrompeu a cena e recolheu o pato morto. Dissecção mostrou que a vítima de estupro era realmente do sexo masculino. Foi concluído que os patos estavam envolvidos em uma tentativa de estupro em vôo que resultou no primeiro caso descrito de necrofilia homossexual em patos.
O artigo continua descrevendo os 75 minutos no qual o pato estuprava o presunto de pato (praticamente interrupto, com fortes bicadas nas costas e na cabeça e apenas duas paradas breves) e falando que estupro em patos não é incomum nem o comportamento homossexual (2 a 19% de todos os casais). Necrofilia também já havia sido observada mas a combinação dos três eventos foi inédita.
O que agrada tanto esta história nem é o fato bizarro em si mas a atitude do Dr. Moeliker de não perder o profissionalismo e observar atentamente o fenômeno à sua frente e publicá-lo. Bons cientistas não perdem oportunidades de descobrir algo novo.
O curioso é que o Dr. Moeliker virou uma espécie de especialista em pássaros bizarros. Um dos pássaros que ele estuda atualmente é um pardal que vive colidindo com a mesma porta de vidro. Ele vai em direção à porta de vidro e colide com ela a cada dois minutos nos últimos dois anos!!!!
Exposição: Oceano – vida escondida
Oceano: Vida Escondida é uma exposição de fotos que está acontecendo em São Sebastião (SP). As fotos, belíssimas, são de organismos que podem ser encontrados no mar. Alguns dos organismos são microscópios, outros são desconhecidos da maior parte das pessoas. Para quem não pode ir a São Sebastião, visite a página da exposição – que tem fotos até para fazer papel de parede – ou o blog OrgaNelas – que tem um slideshow e fotos dos bastidores. Vale a pena e é tudo de grátis!
A exposição vai até 19 de outubro de 2007.
Segunda a sexta-feiras, das 09h às 17h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 22h
Endereço: Secretaria de Cultura e Turismo (Sectur),
Avenida Dr. Altino Arantes, 174 (Rua da Praia)
Centro, 11600-000
São Sebastião, SP, Brasil
O grande cientista
Minha esposa achou este texto enquanto limpava o computador antigo. Foi um texto que escrevi uns seis anos atrás para algum concurso. Notem que eu usava ainda mais vírgulas do que uso hoje.
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Sou cientista. Qualquer um pode ser. Acredito mais na Ciência do que na Religião por muitas razões, uma delas é porque ela não acredita em nada que foi “provado cientificamente”.
Acredito mais na Ciência porque a Ciência diz “eu errei” e do seu erro, intríseco, vem a sua beleza. Se da eterna busca por derrubar seus deuses é que se constrói a Ciência; é pela eterna busca de justificar os seus é que algumas religiões destróem.
Acredito mais na Ciência porque ela permite que inventemos livremente perguntas e respostas. Porque “não sei” é uma resposta aceitável e porque, se a Religião está atrás das respostas da Vida, Universo e Tudo mais, a Ciência está atrás das suas perguntas. A Ciência é, no mínimo, mais divertida.
Acredito mais na Ciência não por ela não ter Dogmas, ritos ou
superstição – ela os têm – mas porque podemos questioná-los se quisermos e podemos até, se ousados, ignorá-los.
Acredito mais na Ciência porque, afinal, Deus é um grande cientista.
O prêmio IgNobel
Tivemos na semana passada o anúncio dos ganhadores do prêmio Nobel. Tão esperado quanto o anúncio dos ganhadores do Nobel, são os ganhadores do IgNobel.
Os prêmios IgNobel são oferecidos pela revista de humor Anais das Pesquisas Improváveis (Annals of Improbable Research) a pesquisadores que publicaram estudos “que primeiro nos fazem rir e depois pensar”. A idéia dos organizadores não somente tirar sarro dos pesquisadores, como alguns pensam, mas mostrar que até o tópico de pesquisa mais ridícula pode trazer conhecimento novo (às vezes o prêmio é dado como protesto, como para o dado aos estados americanos que baniram o ensino de Evolução). O prêmio IgNobel tem um papel importante para a divulgação da Ciência de forma bem humorada, com destaque para a brilhante cerimônia de premiação, cujo convite é disputado a tapas e bate recordes de audiência na internet.
Alguns ganhadores do prêmio:
IgNobel da aviação (2007) – pela descoberta de que os hamsters se recuperam do jetlag mais rapidamente com Viagra.
IgNobel de Biologia (2007) – pela descrição da fauna e flora (algas, fungos, ácaros e pseudoescorpiões, etc.) que vive nas camas dos holandeses.
IgNobel de Acústica (2006) - pelo estudo do porquê as pessoas têm aflição ao som de unhas arranhando o quadro negro.
IgNobel de Ornitologia (2006) - pelo estudo do porquê os pica-paus não têm dor de cabeça.
IgNobel de Dinâmica de Fluidos (2005) - pela descrição das pressões produzidas quando os pinguins defecam. Acreditem ou não, eles conseguem expelir um material altamente viscoso (tipo azeite) a uma distância de cerca 40 cm!!!! Clique aqui para o trabalho.

IgNobel de Saúde Pública (2004) - pelo teste da regra dos 5 segundos. Para quem não sabe, quando um alimento cai, ele pode ficar até 5 segundos no chão antes dele se contaminar. Pelo que eu me lembre, esta regra vale para a maior parte dos pisos.
IgNobel de Biologia (2003) - pela descrição do primeiro caso cientificamente observado de necrofilia homossexual entre patos. O cara trabalha em um museu com muitos vidros e, sempre que ele ouve algo batendo em um deles, ele vai coletar o espécime abatido. No dia da ocorrência, quando o biólogo chegou no pato morto, ele viu que havia um segundo pato copulando com o presunto, digo, pato. Qual não foi a surpresa dele quando ele notou que ambos eram machos! O melhor foi a presença de espírito de documentar o causo e tentar publicá-lo! Valeu um IgNobel!
Os ganhadores deste ano aqui.
Por quê Brontossauros?
Quando eu era criança, eu era fissurado por dinossauros. De todos, o que eu mais gostava era o brontossauro. Existe um animal mais legal do que um dinossauro do tamanho de uma baleia azul e com o pescoço de uma girafa? Além do mais, eu tinha brontossauro daqueles esqueletos e madeira.
Apesar dessa paixão inicial, não me tornei um paleontólogo. Me tornei, no entanto, um biólogo, mais precisamente, um botânico. Os brontossauros, tadinhos, foram relegados à categoria de nomes obsoletos, junto com Plutão (meu eterno pequeno planeta perdido). Hoje em dia os brontossauros são chamados de apatossauros (teremos um post sobre isso depois), mesmo assim eles ainda populam minha imaginação.
Este blog surgiu porque quis escrever sobre coisas mais sérias do que as coisas do Guto e Dadá. Não me restringirei à Biologia, apesar desse ser o tema principal.
Bem-vindos ao meu jardim!
Os carrapichos e os velcros
Os carrapichos grudam na nossa roupa por causa de seus espinhos. Os carrapichos sempre irrita a gente por causa de seu poder de grude. Um tipo de carrapicho europeu também irritava o engenheiro suíço George de Mestral, que sempre que caminhava pelos Alpes, tinha que ficar um tempão tirando carrapichos de suas roupas e de seu cachorro. George, no entanto, ficou curioso sobre como os carrapichos se grudavam em suas roupas e, investigando, teve a idéia de usar ganchos parecidos com os dos espinhos do carrapicho para inventar o velcro!
O velcro é usado para grudar e desgrudar facilmente coisas pois ele tem um lado cheio de ganchinhos e um outro cheio de arcos emaranhados. Os ganchinhos se grudam facilmente nos arcos mas também é fácil desgrudá-los. O velcro geralmente é usado nas roupas mas existem velcro especiais que são usados até para prender peças de carros! O melhor é que, quanto mais a peça balançar, mais os ganchinhos irão se prender nos arcos. garantindo que alguns pára-choque de carros nunca caiam!
FOTOS: Science Photo Library, Robert J. Erwin, Dr. Jeremy Burgess e Scott Camazine.
Dispersando Dadá
Você já ficou com as calças cheias de carrapichos? Pois é, sempre que o Guto e o Dadá vão para o sítio do vô Ângelo, eles ficam cheios destes frutos espinhentos. Será que as carrapicheiras fazem seus frutos deste jeito somente para nos irritar? Guto acha que não…
Leia aqui o texto de capa publicado na Ciência Hoje das Crianças no. 174, de novembro de 2006.
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Era domingo à noite e o carro seguia pela estrada. Lá dentro, a família toda viajava quieta, cansada por causa do final de semana no sítio do vô Ângelo. Dadá era o único que ainda parecia ter alguma energia e não parava de tirar carrapichos da sua meia. Dizia ele que já havia tirado mais de cem mas Guto, seu irmão mais velho, achava que era exagero.
Olhando as estrelas, Guto pensava quantos mundos o olhavam de volta. De repente, seus pensamentos se foram por causa de uma forte alfinetada no pescoço. Mexendo na gola da sua camiseta ele descobre o motivo da espetada: carrapichos! Mas como eles foram parar ali? O mistério não durou muito, pois Guto logo viu que Dadá estava se segurando para não gargalhar.
- Dadá, você vai ver só! – disse Guto, jogando as bolinhas espinhentas na cabeça do irmão.
- Manhêêêê! O Guto está jogando carrapichos em mim! – reclamou Dadá, se fazendo de vítima.
- Podem parar os dois! – respondeu Dona Júlia – E recolham todos estes carrapichos que não quero ver nenhum nas suas roupas! – emendou, lembrando-se do dia em que uma meia cheia de carrapichos foi colocada na sua máquina de lavar.
- Mas nada de esconder os carrapichos debaixo do tapete do carro, hein! – completou seu Antônio, já experiente nas técnicas de limpeza dos seus filhos.
Contrariados, os dois irmãos passaram a recolher os carrapichos espalhados pelo carro e a colocá-los no cinzeiro.
- Por que estas malditas coisas espinhentas vivem grudando nas nossas meias? – perguntou Dadá.
- Elas só estão fazendo o trabalho delas. – respondeu Guto, que era bem mais velho que Dadá e fazia faculdade de biologia. – Como são cheios de espinhos, os carrapichos, que nada mais são que frutos, se grudam facilmente em animais. Então, as sementes são levadas para longe da sua planta-mãe.
- E porque os carrapichos iriam crescer longe da família? – perguntou a mãe, sensibilizada.
- Simples, para conquistar o mundo! – brincou Guto – Algumas plantas são tão boas em se espalhar por aí que podem ser encontradas no mundo inteiro, como certas gramas. Uma possível razão para isso é que a mãe carrapicheira pode estar vivendo em um lugar que não pega muito sol ou que não tenha muitos nutrientes no solo. Se seus frutos pegarem uma carona para longe, existe a chance de suas sementes crescerem em um lugar melhor. Dessa forma, a planta-mãe pode garantir um número maior de netos e bisnetos. Sucesso, na natureza, pode ser medido pela quantidade de descendentes espalhados pelo mundo.
- Mas… E se o lugar que a mãe viver já for bom? – perguntou seu Antônio.
- Bem, se as sementes crescerem ao redor da carrapicheira-mãe, elas podem acabar competindo com ela por luz, água e outras coisas. Pais e filhos saem prejudicados. – explicou Guto.
- É verdade! Antes de vocês crescerem eu e sua mãe podíamos assistir ao que queríamos na televisão. Agora, vocês sempre querem assistir outra coisa ou jogar videogame na hora da novela! – reclamou seu Antônio – Mas, mudando de assunto: se ter frutos espinhosos é bom para espalhar as sementes, porque as outras plantas não copiam esta idéia? Por que os morango não são cheio de espinhos?
- Mas aí que está! Quase todas as plantas tem algum jeito de dispersar, isto é, espalhar suas sementes pelo mundo afora. O morango, por exemplo, tem sementes tão pequenas que a gente acaba comendo. Em vez das sementes pegarem uma carona grudadas no nosso corpo, elas vão de primeira classe, no nosso estômago! – respondeu Guto.
- Como que as sementes saem depois? – perguntou Dadá.
- Como é que as coisas que a gente come saem do nosso corpo? – respondeu Guto, dando risada.
- Que nojento! – percebeu Dadá.
- Se você pensar bem os morangos ganham duas coisas de uma vez só: carona e adubo ao mesmo tempo! Em troca, os passarinhos, macacos e outros animais ganham o almoço. – continuou Guto – A mesma idéia serve para as outras frutas gostosas: mamão, jabuticaba, cereja, manga…
- Um momento, filhão! O máximo que uma semente manga vai conseguir fazer é entupir todo o encanamento! Afinal, a semente é o caroço dessa fruta, não é não? – perguntou o pai.
- No caso da manga, macacos podem carrega-lá para comer em outro lugar. Outros animais também fazem isso. Morcegos carregam castanhas para comer longe da castanheira e a gralha-azul enterra as sementes da araucária para comer depois, mas algumas acabam nascendo. – contou Guto.
- E as plantas que não têm frutos espinhudos ou gostosos, como que fazem? – pergunta dona Júlia.
- Existem muitos jeitos de dispersar sementes. Os frutos podem voar por aí como os do dente-de-leão, uma planta que a gente adora assoprar, justamente porque se desfaz a cada sopro. Há frutos ou sementes que flutuam na água. Outros frutos explodem, arremessando as sementes para longe, como os da maria-sem-vergonha. – respondeu Guto. De repente, Dadá começa a recolher todos os carrapichos do cinzeiro e diz:
- Pai, abre um pouquinho a janela para mim?
- Abro, mas por quê, filhão? – perguntou o pai.
- Eu vou jogar os carrapichos pela janela e ajudar a mãe-carrapicheira a espalhar suas sementes pelo mundo! – respondeu Dadá.
Guto gostou da attitude do irmão.
- Muito bem, Dadá. A carrapicheira faz um monte de carrapichos, pois nem todas as sementes germinam, mas a gente não deve atrapalhar ainda mais o seu trabalho, não é mesmo?
- É isso aí! – concordou Dadá, observando o vento jogar todos os carrapichos longe, no meio da vegetação que crescia à beira da estrada.
FOTO: Fleus d´Afrique tropicale
Carlos Takeshi Hotta
Universidade de Cambridge
Paula Signorini
Instituto de Biociências
Universidade São Paulo
Eduardo Bessa
Universidade Estadual do Mato Grosso









