Harry Potter contra o Nazismo

Um tempo atrás eu me envolvi em uma discussão sobre o Harry Potter e a existência de um gene da magia. A polêmica girou em torno de um grupo de cientistas que queria usar Harry Potter para ensinar genética. O problema foi que eles argumentavam que as evidências apontavam para a existência de um gene para a Magia, o que eu e meus colegas não acreditamos.

Enfim, uma das conseqüências da existência de um gene da Magia é o preconceito com os humanos que não o possuem. De fato, muitas famílias tradicionais de magos se consideram “puro-sangue” e são contra o casamento com trouxas, pois isso “contamina o sangue” dos magos e diminui o seu poder. Inclusive no último livro vemos algumas das conseqüências da tomada do poder por magos racistas. Algumas das medidas incluíam a perseguição e enclausuramento de magos mestiços. E isso não é exclusividade da ficção, já existiram muitos cientistas famosos que foram a favor da seleção por caracteres “desejáveis”, como a inteligência (James Watson?).

Esse é só um exemplo de como conceitos científicos mal-entendidos podem ter conseqüências sociais graves. Eu acredito piamente que os defensores da eugenia não entendem nada de Genética. Primeiro porque selecionar casais pela inteligência (ou pelos genes) leva à diminuição da variabilidade genética. Depois que esta seleção pode levar ao acúmulo de alelos defeituosos (aumento da carga genética). Quem tem cão de raça sabe os problemas genéticos resultantes da intensa seleção. Por último, a inteligência depende tanto da carga genética quanto do ambiente. Basicamente, quanto mais iguais as pessoas são geneticamente, mais o ambiente tem um papel para explicar as diferenças de inteligência e, quanto mais o ambiente for igual, mais os genes têm um papel para explicar as diferenças na inteligência. Dessa forma, os defensores da eugenia acabariam caindo do cavalo, pois não haveria mais o que selecionar.

Voltando ao Harry Potter, os magos que acreditam em raças puro-sangue iriam cair da vassoura se soubessem que, na verdade, o que determina os dons mágicos das pessoas é a quantidade de leite de vacas mágicas que suas crianças bebem. A magia, portanto é determinada pelo ambiente e nada tem a ver com os genes (as vacas mágicas, no entanto, são determidadas geneticamente e selecionadas por elfos-domésticos). Viagem? leia mais aqui.

Ossos do ofício

No blog The Loom, há a dica de um maravilhosos slideshow com fotos de esqueletos de animais. Assim como o autor do blog, acho que ossos são fascinantes. O estudo de ossadas humanas antigas nos permite descobrir se os indivíduos eram macho ou fêmea, se morreram de doença, se quebraram ossos ou se alimentavam bem. O estudo de crânio nos permite estimar as áreas das diferentes partes dos cérebros. Marcas de nervos músculos nos ossos nos sugerem as funções de estruturas, espessuras de partes dos dentes sugerem hábitos alimentares.

Isso sem contar as semelhanças. Note o número de membros dos animais (tirando a cobra), será que é coincidência que todos possuem quatro? E o número de dedos do morcego? Ou compare o crânio do macaco com o nosso…

E se você pudesse, ainda veria que todos os mamíferos possuem 7 vértebras do pescoço! A evolução justifica? Provavelmente não pelas vantagens reprodutivas dadas pelo mágico número 7 no pescoço mas sim pelo parentesco em comum.

Veja o slideshow aqui.

Se..

Se as pessoas usassem as baterias certas e não tentassem improvisar…
Se elas fizessem a manutenção das baterias improvisadas corretamente…
Se elas dessem um número adequado de baterias e não somente três…
Se a bateria não tivesse caído no chão…
Se eu não tivesse tentado consertar a bateria…
Se eu não tivesse notado que os fios da bateria estavam trocados…
Se a temperatura da estufa não estivesse a 40 oC…
Se a gente tivesse o bom senso de deixar a bateria que caiu de lado…
Se nós não tivéssemos testado a bateria remendada…

… talvez a fonte de energia do equipamento caro (e emprestado) não tivesse queimado.

Sonhos em meu jardim

Eu acredito que os sonhos são o efeito colateral da manutenção dos neurônios (reeforçando ligações, desligando outras, etc.) durante o nosso sono. É sintomático que os meus sonhos são muito bizarros, provavelmente resultado de minhas neuroses e excesso de informações coletadas durante o dia. Hoje eu tive um sonho engraçado, tão engraçado que eu acordei a minha esposa com as minhas gargalhadas (eram uma 4 da manhã). Obviamente o sonho nem é tão bom assim:

Eu entrei em um táxi desses de Nova Iorque. O motorista era gordo, mau humorado, com um cavanhaque e muitas marcas de ruga. Ele começou a dirigir e falou para mim, com um sotaque russo (detalhe que eu sonhei em inglês): “Eu não gosto de falar com meus clientes. Eles só falam besteira.”

“Então tá” – eu respondi – “Vou ficar aqui quieto.”

O motorista retrucou: “Mas eu odeio mais ainda quando eles ficam calados, eu detesto quando eles ficam só sentados aí atrás! Eles ficam lá se achando o máximo enquanto eu fico pensando: eu te odeio! Eu vou te matar e te deixar aí pelado vestindo as minhas cuecas sujas!”

“Mas o senhor não deveria pensar isso de seus clientes.” – disse.

“Eu odeio quem eu quiser!” – gritou o motorista.

E eu respondi: “É, mas se você me matar e eu aparecer pelado no seu táxi vestindo as suas cuecas suja, você vai ter problamas com a polícia.”

“Isso não tem nada a ver com o meu argumento!”

E daí eu acordei, gargalhando…

O fim do uso dos animais em laboratório?

Saiu no Globo que César Maia sancionou a Lei 4.685/2007, que estabelece multa para maus-tratos a animais. Vejamos o primeiro artigo:

Art 1º Fica estabelecida multa para maus-tratos e crueldade contra animais e sanções administrativas a serem aplicadas a quem as praticar, sejam essas pessoas físicas ou jurídicas, munícipes ou estabelecimentos comerciais, industriais, instituições de ensino, laboratórios ou instituições de pesquisa.

Veja que os laboratórios e instituições de pesquisa estão incluídos na lei, o que é razoável pois eles não estão acima de ninguém e maus-tratos a animais devem ser combatidos. O grande problema está na definição de maus-tartos e crueldade no segundo artigo da lei:

Art. 2º Define-se como maus-tratos, e crueldade contra animais ações diretas ou indiretas capazes de provocar privação das necessidades básicas, sofrimento físico, medo, stress, angústia, patologias ou morte.

Oras, isso inviabiliza quase toda pesquisa em laboratório pois qualquer manipulação de cobaias já provoca medo e stress no animal. Sem contar que também são incluídos na qualificação de maus-tratos cirurgias e injeções. Isso tem impacto direto, por exemplo, no teste de medicamentos e na produção de vacinas pelos laboratórios Fiocruz e a FarManguinhos. Sem contar as pesquisas sobre câncer e outras doenças.

Acho que ninguém é contra a regularização do uso de animais de laboratório. O uso excessivo de animais em experimentos e experimentos que causam sofrimento de animais devem ser diminuídos a um mínimo. Para isso já existem conselhos de ética nos centros de pesquisa! Ele verificam se há alternativas que evitem o uso de cobaias e verificam se o protocolo utilizado esteja correto e se o número de animais utilizados seja grande o suficiente para que o experimento não tenha que ser repetido e pequeno o suficiente para não se “maltratar” animais em demasia.

Chefe de gabinete do marido, na Câmara dos Vereadores, a ex-secretária municipal de Proteção e Defesa dos Animais, Maria Lúcia Frotta, confirmou ontem que uma das intenções da lei é banir o uso de animais nas pesquisas. Ela espera que isso fique claro na regulamentação do projeto e conta que ambos já contavam com a reação negativa dos cientistas: — A nossa plataforma política é a defesa dos direitos dos animais, que devem ser tratados como sujeitos de direito e não apenas como coisas.

A intenção da lei foi abranger qualquer tipo de maus-tratos e crueldade contra esses seres. Pesquisas com animais estão obsoletas e podem ser substituídas por outros recursos — diz Maria Lúcia.

Maria-Lúcia Frotta revela uma ignorância sem tamanho sobre a Ciência ao dizer que é possível substituir pesquisas de animais por alternativas. Se isso fosse verdade, já teria acontecido pois o uso de animais em laboratório é caro e de difícil manutenção. Eu até gostaria de saber da Sra. Frotta como como pode-se pesquisar sobre o câncer, doença de Chagas, malária, esquistossomose, testar toxicidade de drogas ou até drogas novas, fazer vacinas, descobrir como funciona o cérebro, etc. sem usar animais de laboratório? Espero que a gente consiga ouvir a resposta dela do alto de seu pedestal moral. Que tal também proibir o mau-trato de plantas e bactérias?

Fontes: Jornal da Ciência e Luis Nassif.

Português soa como russo?

Um dia reunimos os brasileiros de Cambridge para um jantar formal, conversávamos animadamente quando um casal virou para mim e perguntou, com toda polidez inglesa: “Por favor, em que língua vocês estão conversando?”. Respondi que era português brasileiro, para o espanto do casal. Eu achei que eles estavam espantados por ver “alemães”, “japoneses”, “espanhóis”, “italianos” e “portugueses” falando a mesma língua e logo falei da diversidade étnica brasileira. No entanto, eles estavam espantados porque eles achavam que a gente estava falando russo ou outra língua do leste europeu!

O mais engraçado é que, nos quatro anos em que vivi entre os ingleses, este comentário foi feito mais de meia dúzia de vezes: que o português (principalmente o europeu) soa como uma língua eslava para que não fala uma língua latina ou eslava. Aparentemente o português, mesmo sendo uma língua latina, tem fonemas parecidos com os das línguas eslavas, principalmente os sons nasais (os estrangeiros ficam fascinados com o som de “mãe”, “anã” e “não”). Além disso, dizem os gringos, tudo o que eles ouvem é um monte de shhhh e chhhhh cantados!

Entre o português de Portugal e o nosso, o dos patrícios soam mais russo pois nós temos influência africana e índia em nosso sotaque. Ah! E, ao contar aos amigos, não se esqueça de mencionar que os vocabulários do português e do russo é bem diferente…

Fontes aqui.

Lições do Charlie Brown

Tirado do desenho que passou hoje de manhã, no SBT:

Patty Pimentinha: O que você acha que é Amor, Charlie?
Charlie Brown: Bem, anos atrás meu pai tinha um sedan preto, 1934 .
Patty Pimentinha: E o que isso tem a ver com Amor?
Charlie Brown: então, isso é o que ele me disse: tinha essa menina, sabe? Meu pai e ela passeavam juntos de carro e sempre que ele ia pegá-la, ele segurava a porta para ele. Depois que ela entrava no carro, ele fechava a porta e dava a volta por trás do carro para entrar do outro lado. Só que, antes de ele chegar, ela se esticava até a porta do motorista e apertava o botão, trancando-o para fora. Então ela ficava lá dentro, fazendo caretas e sorrindo para ele. Para mim, Amor é isso.

Ecoregiões do Mundo

A National Geographic e a WWF lançaram uma página com o mapa de todas as ecoregiões do mundo. É muito legal viajar pelo mundo vendo os diversos ambientes. Notem que não existe mais aquela história da Amazônia homogênea, dá para contar pelo menos dez ecoregiões diferentes. O cerrado, no entanto, é uma mancha só.

Frase da semana II

Science is a lot like sex. Sometimes something useful comes of it, but that’s not the reason we’re doing it.
Richard Feynman (1918-1988)

Dois japocas em apuros: Zorostro assado

Em 2001 eu e meu primo Dudu mochilamos de São Paulo até Cuzco passando pela Bolívia. Foi uma viagem incrível, de muito aprendizado pessoal. A viagem foi até bem tranqüila fora alguns sustos. Acho que um dos casos mais engraçados é o do “zorostro assado”.

Nós fomos para Oruro, uma cidade mineira, meio que por acaso. Em Oruro é celebrada a “Diablada”, festa bastante popular, só que não estávamos na época certa. A população meio que cultua a figura mística de um demônio por sua origem mineira: enquanto eles satisfizessem o diabo, ele permitiria que eles extraíssem a prata das minas. Por causa das minas, a Bolívia já teve um dos homens mais ricos do mundo: Simon Patiño, o tio Patinhas bolivianos. E foi no museu dele que fizemos amizade com um artista local. O artista, bastante entusiasmado, nos convidou para visitar o atelier dele.

Acontecimentos depois, que incluiram o furto de minha mochila, eu e Dudu apontamos na casa do artista. O cara realmente tinha talento, tinha até conseguido uma comissão para erguer uma estátua de bronze de 3 metros. Depois de conhecer suas obras, o artista nos levou para conhecer o seu mentor, “um dos maiores artistas bolivianos”. O mentor, tão empolgado quanto seu pupilo, nos mostrou todas as suas pinturas, explicando cada uma. Foi nessas que a gente notou que todas as pinturas continham um crânio. Ele nos explicou: “Este crânio representa o prato típico de Oruro: o Zorostro assado!”. Nós ficamos curiosos e o mentor mandou o artista nos levar para comer a iguaria. Este foi o nosso erro.

Nós não andamos muito nas escuras ruas de Oruro até chegar na rua no qual podíamos comprar o prato. Estranhamos que a rua não tinha nenhum restaurante, só uma velha sentada no chão com as pernas cobertas com uma lona de caminhão. O jovem artista pediu um zorostro para a gente, que estava excitado com tanta curiosidade. A velha levanta a lona e a gente eprcebeu que tinha um panelão entre as pernas dela, ela abre o panelão e tira uma CABEÇA DE CABRITO toda ensopada.

“Vocês querem com pele ou sem pele?” ela perguntou. Com a nossa negativa ela começou a arrancar a pele do crânio do cabrito, que estava cheio de pêlos. Foi quando a ficha caiu: o zorostro assado era, na verdade, ROSTRO ASADO! Eu e meu primo, diante dos olhares ansiosos do nosso amigo artista e da velha, começamos beliscar pedaços de carne do crânio, daí o nossoa amigo diz: “Os olhos são a melhor parte!”, e toca os dois japocas comerem os olhos do cabrito…

Lembrando-me da história eu ainda não entendi como a gente conseguiu comer o rostro asado. Acho que foi uma mistura do momento, curiosidade e um pouco do chá de coca com vodca que a gente havia tomado. Não foi uma pegadinha dos dois artistas pois o rostro asado – o crânio de um cabrito cozido com pêlo e tudo – é realmente uma iguaria de Oruro. Acho que esta foi a minha pior experiência culinária da minha vida. Qual é a sua?

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